Sábado, 22 de Setembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1005
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ENTRE ASPAS > FIM DE SEMANA, 27 E 28/5/06

O Estado de S. Paulo

30/05/2006 na edição 383

SKY / DIRECTV
O Estado de S. Paulo

A concentração da TV paga

‘O Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) aprovou, por unanimidade, a fusão da Sky com a DirecTV, ficando a nova empresa com o controle de 97% do mercado de televisão por assinatura via satélite e 32% do mercado nacional de televisão paga. Mas, para evitar que tal concentração prejudique a concorrência e os consumidores, o Cade impôs uma série de restrições que deverão ser seguidas pela Sky Brasil e seus controladores, a Rede Globo e a Fox.

A legislação permite que proprietários de TVs abertas possam operar também TVs fechadas. Com isso, o legislador criou um ambiente favorável à excessiva concentração de poder, no setor. Essa tendência foi agravada pelo fato de a Rede Globo ser hegemônica em praticamente todos os Estados, por intermédio de emissoras coligadas, e ser, também, a maior produtora de conteúdo do País.

Como se não bastasse, a legislação brasileira contém outro viés que leva à concentração. Nos países onde existe real preocupação com a concorrência e a pluralidade de opiniões, as TVs fechadas são expressamente obrigadas a divulgar qualquer programação produzida por terceiros, desde que cumpram as leis nacionais e possam arcar com o preço da divulgação – o ‘carregamento’, no jargão do setor. No Brasil existe uma forma atenuada de obrigação: a de ‘carregar’ apenas os conteúdos dos canais transmissores localizados na sede do município. Como a Rede Globo está presente em praticamente todo o País e é a maior produtora de conteúdo do Brasil, enquanto a Fox está entre as maiores do mundo, as produtoras independentes estariam fora da programação da Sky Brasil, controlada pelas duas empresas. Além disso, as emissoras concorrentes de TV paga ficariam seriamente prejudicadas com essa forma de controle da programação.

Para evitar que a Sky Brasil ficasse com o virtual monopólio da TV paga, o Cade condicionou a fusão ao cumprimento de várias restrições, destinadas a manter o ambiente concorrencial e a proteger os assinantes.

Assim, a Sky não poderá exercer, por cinco anos, direitos de exclusividade na transmissão de jogos de futebol do Campeonato Brasileiro, da Taça Libertadores da América, da Copa Brasil e dos campeonatos estaduais do Rio e de São Paulo. Pelos próximos três anos, a Sky será obrigada a manter os canais nacionais atualmente veiculados pela DirecTV e, nesse período, as programadoras de conteúdo nacional terão direito a receber a mesma receita prevista nos contratos em vigor com a DirecTV. A Globo não poderá ter direito de veto ou decisão unilateral na compra de conteúdo nacional pela Sky – direito que era garantido por dez anos, no contrato de fusão – e a nova empresa não poderá criar cláusulas contratuais que favoreçam algumas operadoras de TV paga em detrimento de outras. Todos os contratos de fornecimento de programação em vigor serão examinados pelo Cade, que verificará se existem cláusulas que prejudicam a concorrência.

Além disso, a Globo não poderá proibir suas contratadas de realizar produções de conteúdo nacional. Cláusulas nesse sentido que já existam nos contratos em vigor terão de ser anuladas. O objetivo dessa decisão do Cade, esclarece o conselheiro Luiz Carlos Delorme Prado, que relatou o processo, foi incentivar a produção de conteúdo nacional na TV paga e, assim, ampliar a competição. Com esse mesmo objetivo, o Cade determinou à Sky que, em 180 dias, aumente em 20% o número de assinantes que recebem produção de conteúdo nacional – cota que deve ser mantida nos 30 meses subseqüentes.

O Cade também adotou medidas de proteção ao consumidor. A Sky Brasil deverá manter por cinco anos os preços atuais dos pacotes de programação. Esse compromisso deverá ser publicado em jornais de grande circulação, para que os Procons possam proteger os assinantes que moram em locais onde só há acesso a TV por assinatura, via satélite.

Nas próximas semanas, o Cade deverá julgar o processo em que a NEO TV, uma operadora que reúne 54 operadoras de TV por assinatura, acusa a Net – controlada pela Globo – de abuso do poder econômico na distribuição dos canais Sport TV1 e 2 e Première Esportes. Se, como tudo indica, a decisão seguir a mesma linha do julgamento da fusão Sky-DirecTV, o Cade estará aparando as falhas de uma legislação que permitiu o surgimento de um virtual monopólio na televisão brasileira.’



JORNALISTA NA NET
Editorial

‘Blog do Noblat’ ganha dois prêmios iBest

‘O blog do jornalista Ricardo Noblat ganhou na semana passada dois prêmios iBest 2006: um de melhor blog de política e outro de melhor blog em todas as categorias. Criado em março de 2004, o Blog do Noblat está hospedado desde novembro passado no portal do Estadão.

Desde 1995, o iBest aponta os melhores sites do País e já se tornou o mais prestigioso prêmio da internet brasileira. Há dois tipos de premiação: um popular, que depende do voto dos internautas que acessam o site iBest, e outro concedido pela Academia iBest, que reúne especialistas em internet. O Blog do Noblat foi premiado pelo júri da Academia iBest.

Não foi a primeira vez que Noblat conquistou um prêmio por seu trabalho na internet. Em dezembro de 2004, seu blog tinha sido premiado como o melhor jornalístico em língua portuguesa pelo conglomerado de comunicação alemã Deutsche Welle. Em setembro passado, Noblat foi considerado pelo site Comunique-se o Colunista de Notícia do ano. Em dezembro, foi escolhido pelos leitores do site da revista Imprensa como o melhor blog do Brasil.

O recorde de audiência do Blog do Noblat ocorreu em agosto, no auge da crise do mensalão: 1,9 milhão de visitantes. O jornalista divide os méritos do sucesso. Destaca o trabalho de Danielle Miranda Fonteles e de Moriael Paiva, da Digital Media Vox, responsável pelo design, Luiz Paulo e Fred, da Agence Consultoria e Desenvolvimento para Web Ltda, responsável pela área técnica.’



YOUTUBE
Renato Cruz

Internauta produz imagens e vira telespectador

‘Tem gente que dizia que pelo menos a internet incentivava a comunicação escrita, não é? Não mais. A rede está se tornando, cada vez mais, uma ferramenta de comunicação audiovisual. De acordo com o Ibope NetRatings, 1,2 milhão de brasileiros acessaram em abril o YouTube, site de vídeos que se tornou um grande sucesso mundial. O número representa 9% do total de internautas. Em dezembro de 2005, haviam sido somente 54 mil.

‘O vídeo na internet é a próxima ameaça ao modelo de negócios da mídia tradicional’, afirmou Marcelo Coutinho, diretor-executivo do Ibope Inteligência. ‘Não tenho dúvida.’ Ele destacou, no entanto, que o fenômeno também representa uma grande oportunidade. ‘Elas podem, na internet, experimentar idéias, testar atores e interagir com a audiência.’

O YouTube foi criado, em fevereiro de 2005, para as pessoas produzirem vídeos e os compartilharem pela internet. O que acontece na prática, no entanto, é que os usuários acabam colocando também na internet muita coisa que eles capturam da televisão e do DVD, apesar do desrespeito a direitos autorais.

Cerca de 6 milhões de pessoas visitam o YouTube todos os dias e assistem a 40 milhões de vídeos. O site recebe mais de 35 mil vídeos por dia. Segundo dados do site Alexa, o YouTube está em vigésimo primeiro lugar entre os sites com mais tráfego da internet.

EVOLUÇÃO

O crescimento do vídeo se deve, entre outras coisas, à expansão da banda larga e das câmeras digitais, inclusive no celular. ‘Não é um fenômeno isolado, mas uma evolução dos blogs e do podcasting’, afirmou Coutinho. Os blogs são sites pessoais que oferecem principalmente texto e podcasting são arquivos de áudio indexados. Assim como surgiram os fotologs, com fotos, a partir dos blogs, apareceram também os blogs de vídeos, ou vlogs.

Um dos mais famosos é o Rocketboom, noticiário diário de três minutos sobre tecnologia apresentado por Amanda Congdon. Ele recebe mais de 300 mil expectadores por dia. O YouTube criou seus próprios sucessos. Um vídeo em que duas garotas dublam e dançam Hey, música da banda norte-americana Pixies, foi visto 4,8 milhões de vezes em nove meses. Dois garotos chineses que dublam músicas como I Want It That Way, do Backstreet Boys, foram citados em reportagens da revista Wired e do site Slate, do jornal The Washington Post.

CELEBRIDADE

A onda de vídeo pela internet criou até famosos no Brasil, como Jeremias. Ele foi preso enquanto dirigia sua moto embriagado. Sua entrevistado na delegacia para o telejornal Sem Meias Palavras, de Caruaru (PE), começou a circular pela rede. No Orkut, uma comunidade chamada ‘Jeremias Presidente – 2006’ tem 56,4 mil integrantes. Os vídeos no YouTube em que Jeremias aparece foram vistos mais de 276,7 mil vezes.

Enquanto no Brasil as redes de televisão têm medo das operadoras de telecomunicações, nos Estados Unidos elas identificaram como ameaça empresas de internet, como Google e Yahoo. A indústria audiovisual encontra-se no mesmo ponto em que se encontrava a indústria fonográfica há cinco ou seis anos. Hoje, os efeitos da facilidade de reprodução e distribuição trazida pelas tecnologias digitais são sérios. A venda de discos caiu 20% no Brasil ano passado.’



***

Crescimento do vídeo dá origem a novos serviços

‘Edson Romão Gomes, um dos fundadores do HpG, agora está à frente do Ligados, um serviço de namoro via internet. ‘Resolvemos apostar no vídeo para nos diferenciarmos’, explicou Gomes. As pessoas inscritas no site podem participar de um bate-papo de vídeo antes de trocarem contatos. Para isso, basta um microfone e uma câmera no computador. Não é preciso instalar nenhum software.

Lançado há 45 dias, o serviço será gratuito pelos próximos dois meses. O diretor do Ligados não revela quantos já se inscreveram, mas disse que 30% disseram ter câmera no computador. ‘Quando houver a possibilidade de IPTV, as redes tradicionais de televisão vão ter bastante concorrência’, disse Gomes. A tecnologia de IPTV permite transmitir vídeo por uma conexão rápida de internet direto para o televisor.

A tendência do vídeo na internet deve influenciar o mercado publicitário. ‘Me parece que o comercial criado só para anunciar produto está fadado a desaparecer’, afirmou Celso Figueiredo, professor de Comunicação do Mackenzie. ‘Os anunciantes já começam a experimentar o formato de comercial misturado a entretenimento.’ Um exemplo foi a campanha, exclusiva para a internet, feita pelo comediante Jerry Seinfeld, com o Super-Homem, para a American Express.

Existem cerca de 4,2 milhões de conexões de banda larga no Brasil. É a internet rápida que permite a proliferação do vídeo. Durante o evento Telebrasil 2006, de 1.º a 4 de junho em Angra dos Reis (RJ), Rogério Santanna dos Santos, secretário de Logística e Tecnologia da Informação do Ministério do Planejamento, vai apresentar a proposta para um Plano Nacional de Banda Larga. ‘Trata-se de uma infra-estrutura é importante para a competitividade do País’, disse Santos.’



DOSSIÊ DE POESIA
Karla Dunder

Cult atesta vigor poético no Brasil e em Portugal

‘Um dossiê sobre poesia organizado pelo professor e poeta Eucanaã Ferraz é um dos destaques do número 102 da revista Cult. A edição deste mês está recheada: uma entrevista com o cineasta Nelson Pereira dos Santos, um artigo sobre a ética árabe assinado por Roberto Romano, além das leituras críticas de livros importantes como Rosa em 2 Tempos, de José Carlos Garbuglio, e Memórias de Elefante, de António Lobo Antunes, por Moacir Amâncio.

Para o professor Eucanaã Ferraz, a poesia contemporânea goza da pluralidade e vitalidade no Brasil e em Portugal. ‘Este dossiê tem por objetos poéticas e poetas já consolidados – surgidos em meados da década de 1940 do século 20, que se prolongaram até recentemente ou ainda operantes – mas também uma produção recentíssima, ainda inédita em livro. Para tanto, convidamos críticos de diferentes gerações, atuantes dentro e fora das universidades, dentro e fora da própria criação artística.’

Viviana Bosi, no texto Cinco Pontas de uma Estrela, destaca a questão do sujeito na obra de cinco poetas: Ferreira Gullar, Augusto de Campos, Sebastião Uchoa Leite, Francisco Alvim e Armando Freitas Filho. ‘Muito diferentes entre si, cada qual compôs uma obra consistente em que podemos apreender e delinear os embates das últimas décadas. Com eles, é possível puxar essas pontas dos fios da história para abarcar o contexto brasileiro em dimensões amplas, dada a necessidade de rastrear os centros nervosos vitais que deságuam na poesia contemporânea, e tendo em vista as reviravoltas que marcaram momentos de crise no Brasil desde os anos de 1950 e 1960.’ Viviana destaca o sujeito coletivo, muito mais do que o particular, presente nos versos desses poetas, como pode ser visto no poema Não-Coisa, de Ferreira Gullar: ‘O poema é uma coisa/que não tem nada dentro,/a não ser o ressoar/ de uma imprecisa voz/que não quer se apagar/ – essa voz somos nós.’

Os blogs são tema de Marcelo Diniz, que analisa a poesia contemporânea explorada nesse suporte virtual. Poesias que surgem à margem do mercado editorial e nos blogs ganham um caráter experimental de escrita. Já Francisco Bosco analisa em seu artigo os aspectos teórico, cultural e contemporâneo das canções. E, para fechar o dossiê, a poesia contemporânea vista por Gastão Cruz. O escritor português faz uma análise histórica e destaca os principais autores do século 20. E Armando Freitas Filho relembra a vida e obra do poeta mineiro Cacaso. A edição traz um desenho inédito do artista.

Nelson Pereira dos Santos fala, em entrevista concedida a Jairo Lava, sobre a relação entre cinema e literatura. Ao longo dos seus 50 anos de carreira, o cineasta comenta seu novo filme Brasília 18%, uma história de amor, que tem como pano de fundo a corrupção no País. O cineasta também fala da relação entre cinema e literatura, bem representada em sua obra nos filmes Vidas Secas e Memórias do Cárcere, entre outros. Pereira dos Santos é o primeiro cineasta a ingressar como imortal na Academia Brasileira de Letras. Ele ocupará a cadeira de número 7, que já do poeta baiano Castro Alves. Sobre sua indicação, ele diz: ‘Acho que vem em um momento bom, porque o cinema brasileiro está sendo considerado uma atividade cultural tão nobre quanto a tradicional literatura. Reconhecer o cinema, para mim, pessoalmente, é uma distinção.’

No mês de junho, no Centro de Estudos da Revista Cult, Márcia Tiburi abre as atividades do Grupo de Estudos Filosóficos com o curso O Início dos Tempos da Filosofia É um Dispositivo Revelador do Nosso Presente. Mais informações pelo telefone 3385-3385.’



A LÁGRIMA DO ROBÔ
Deonísio da Silva

E os robôs também choram

‘O novo livro de Carlos Eduardo Novaes, A Lágrima do Robô (Ática, 136 págs., R$ 20,90) é uma fábula moderna e começa com ‘será uma vez…’. Contista, autor de teatro e um de nossos melhores cronistas, conhecido pela verve de seus textos, dedica sua história ‘aos meninos e meninas de hoje, que, quando crescerem, vão ter que disputar seus empregos com os robôs’. E avisa que, sendo um livro sobre o futuro, ‘não poderia começar com a clássica expressão ‘era uma vez’.

A saga de Plínio, robô da terceira geração de modelos articulados, chamados andróides, começa em São Paulo, onde é construído por multinacional japonesa instalada no interior, e continua no Rio, onde ele consegue emprego e é saudado como exemplar desses ‘operários fantásticos que não tiram férias, não fazem greve e – o melhor – não reivindicam salários’.

Ao ver uma gota deslizando no rosto do operário demitido, que não sabia que fazer da vida, com mulher, dois filhos e sogro entrevado para sustentar, Plínio, que ‘veio para trabalhar, não para filosofar’ na fábrica, ‘achou que talvez tivessem colocado óleo demais nas suas juntas’.

Ao final do primeiro ano na empresa, Plínio recebe o título de operário padrão. Mas a vida é rápida para os robôs e ao final de dois anos Plínio, à semelhança de seus irmãos, não de carne e osso, mas de componentes como ferro, alumínio, fios e outros condutores, torna-se obsoleto e é demitido, em processo idêntico ao que desempregara os homens quando ele chegara. Comparado aos robôs da nova geração, Plínio parece mais uma chave de fenda.

A narrativa, que já fascinara o leitor nos primeiros seis capítulos, torna-se encantadora quando o menino Tavinho, apaixonado por robôs, encontra Plínio ‘soltando faíscas no asfalto’. O robô caíra do caminhão que o transportava para uma metalúrgica do subúrbio, onde, em vez de fabricar carrões do ano, ia produzir carrinhos de supermercado. Ferido, recebe a atenção de um passante que acha melhor chamar uma ‘robolância’. Tavinho pergunta se ele estava sendo levado para o desemprego, que para os robôs tem outro nome: ferro-velho. Por ironia, Plínio vai parar na casa de Tavinho, filho de Barata, metalúrgico que o robô desempregara.

Nesta e em todas as narrativas de Carlos Eduardo Novaes, há conflitos bem urdidos e tramas quase sempre divertidas. A FLHU, sigla pela qual é conhecida a Frente de Libertação dos Humanos, surgida nos EUA para defender os direitos surrupiados dos homens pelos robôs, realiza um encontro no interior de São Paulo, com o fim de discutir ‘uma solução para conter a invasão dos robôs, que provoca demissões em massa dos seres humanos no mercado de trabalho’. ‘Hoje eles nos tomam os empregos’, diz um inflamado dirigente, ‘amanhã estarão tomando nossas mulheres, nossos filhos, nossas famílias…’. E quando grita ‘morte aos robôs’, o moderador não consegue evitar o apoio maciço da platéia.

Naturalmente, sendo o escritor que é, Carlos Eduardo Novaes não escreveu um livro de robótica, manual de primeiros socorros para robôs avariados ou auto-ajuda para tédio causado por infindáveis e entediantes repetições da automação. Ficcionista talentoso, aproveita o tema para tecer criativas tramas, que resultam em situações muito engraçadas, principalmente quando faz analogias entre a vida dos robôs e a nossa. Contemplando um menino que precisa de remédios, diz Plínio: ‘Poxa! Vocês são um bocado imperfeitos.’ Assim como para os robôs existe a oficina, para os enfermos há o hospital. Não se descuida da verossimilhança, nem quando o robô é obrigado a disfarçar-se de anão e ser depois desmascarado, num dos lances mais hilários do livro.

A lágrima do robô semelha um conto de fadas, reescrito e adaptado para os tempos que vivemos, pois os valores essenciais da existência, naquelas histórias como nesta, são os seus grandes temas. Tavinho já é conhecido dos leitores de Novaes, por ter atuado no livro O Menino sem Imaginação. Nesse, ele parece o mesmo ator que, entretanto, faz outro papel.

* Deonísio da Silva é doutor em Letras pela USP e diretor do Curso de Comunicação Social da Universidade Estácio de Sá’



WASHINGTON OLIVETTO
Fred Melo Paiva

Business, show bizz e, vá lá, esporte

‘Neste momento em que se esquentam os tamborins, nesta hora em que já se pode ouvir ao longe a voz e os corações de Galvão Bueno, neste instante mágico em que os europeus são de fato apresentados aos traseiros sacolejantes das mulatas e aos peitões de nossos travestis – neste espaço de tempo em que se revela, além de aspectos anatômicos, a alma nacional, Washington Olivetto depõe contra si mesmo. A ver: 1. Se jogar Corinthians versus seleção brasileira, Washington Olivetto torcerá para o Corinthians. 2. Se jogar o Corinthians versus a mãe do Washington Olivetto, Washington Olivetto torcerá para o Corinthians. 3. Se não jogar a seleção brasileira, Washington Olivetto torcerá para a Argentina.

O leitor desavisado pode pensar que WO está apenas a provocar a gente. Isso lá pode ser verdade. Mas o negócio é que de futebol ele entende, tendo se convertido nos últimos tempos em autoridade no assunto. Não só porque gosta do jogo a ponto de decifrar as suas equações, os 3-5-2 e os 4-4-2. Também porque é publicitário e o mundo da bola se transformou de esporte em business e showbizz, com grandes marcas catapultando atacantes e meias à condição de ídolos mundiais capazes de deixar um Bono Vox no chinelo.

Washington Olivetto, 53 anos, é sócio, presidente e diretor de criação da W/Brasil. É formado na Faap e na DPZ, onde ganhou o primeiro Leão de Ouro da publicidade brasileira, em 1974. É, ao lado de Francesc Petit, o criador do garoto-propaganda da Bombril, representado pelo ator Carlos Moreno, que figura no Guinness Book como o mais longevo entre os seus pares-anunciantes. É criador do cachorro da Cofap e do casal Unibanco. É autor do Primeiro Sutiã, o antológico comercial da Valisère. É autor de Os Piores Textos de Washington Olivetto (Planeta) e Corinthians: Preto no Branco (Ediouro, em parceria com o jornalista Nirlando Beirão). É casado e pai de três filhos, dois gêmeos ainda bebês. Foi vítima de um seqüestro no final de 2001. É o maior publicitário do Brasil. É sobretudo – e sobre todas, incluindo a sua mãe, palmeirense – corintiano.

Esta Copa do Mundo te parece desde já um espetáculo ainda mais espetaculoso, mais badalado do que antes? O que as grandes marcas globalizadas têm a ver com isso?

Nos últimos anos, aconteceu uma coisa muito interessante com o futebol: ele começou a ganhar a conotação de primo-irmão da cultura pop. Na verdade, isso se acentuou fortemente com o surgimento e a expansão de empresas como Nike, Reebok. E com o fenômeno da NBA (a liga de basquete dos Estados Unidos). Os números do investimento começaram a ficar muito grandes nos Michael Jordans, nos Magic Johnsons. De repente, e através dos europeus, começa-se a implantar, para os astros do futebol, para os seus popstars, números parecidos com os da NBA. A cultura das grandes marcas – muitas delas curiosamente capitaneadas por americanos – pega um espectro mercadológico que estava muito presente no basquete ou em figuras ímpares como Tiger Woods e o coloca no futebol. A partir de então, gera-se o elemento que se poderia chamar de futpopbolista. É o que se tem hoje. Um Ronaldinho ou um Beckham é semanalmente visto no mundo por mais pessoas do que o Bono em uma turnê inteira do U2. O grupo viaja pelos países e eventualmente seus shows podem ser transmitidos pelas tevês locais. No entanto, todos os domingos o Campeonato Espanhol está nas tevês de boa parte do planeta.

Já se disse que David Beckham é qualquer coisa mas não exatamente jogador de futebol. Como você explicaria essas megaestrelas do futebol mundial?

Boa parte dessas estrelas adquiriu a noção de administração de suas carreiras como grandes marcas. Isso envolve até o estilo pessoal. A partir do momento em que o sujeito é uma marca, essa marca precisa de um layout – o layout David Beckham, por exemplo, que ele próprio precisa respeitar. Há um canal de distribuição David Beckham, por isso ele freqüenta determinados lugares e tem um certo comportamento. Claro que o cara, para conviver com isso, tem de ter índices de responsabilidade muito altos. Pelo nível de exposição que têm, é admirável que a maioria deles não enlouqueça.

As grandes estrelas do futebol brasileiro tiveram origens humildes e, de repente, foram catapultadas a posições de famosos e milionários. Como imagina que eles segurem a onda?

No futebol há uma disciplina física necessária – o desgaste aumentou demais nos últimos anos. Hoje, um juiz corre cerca de 4 quilômetros por jogo além do que corria nos anos 80. Um outro ponto é que o aspecto romântico – amadorístico e quase boêmio – cultivado por algumas gerações do futebol levou a exemplos de pós-carreira não muito bem-sucedida e até trágica. Fora isso, quando o jogador de futebol virou primo-irmão do ídolo pop, ele saiu de seu núcleo social para outros núcleos. Ganhou com isso outro tipo de informação, de ambição. Há muito poucos anos, era raro encontrar jogadores, mesmo os mais badalados, nos restaurantes da moda. Hoje não saem deles. Era muito difícil encontrá-los em revistas de badalação social. Agora são seus personagens. Era até muito complicado uma mãe gostar da idéia de sua filha se casar com jogador de futebol. Hoje há milhares de mães sonhando com isso.

Esse processo de aceitação invadiu inclusive a literatura…

Nelson Rodrigues dizia que os escritores brasileiros não entendiam nada de futebol. Durante muitos anos, duas das nossas manifestações artísticas mais talentosas – a literatura e a música – reportaram-se muito pouco ao futebol. Com a exceção dos hinos de Lamartine Babo, das musiquinhas de Copa ou até do ‘Prezado amigo Afonsinho’ (Meio-de-campo), do Gil, muito pouco se fez. Hoje tem-se produzido bastante com o tema.

As grandes estrelas do futebol podem ser comparadas às estrelas de Hollywood?

Nas histórias das estrelas de Hollywood há grandes agentes e ghost writers. A famosa frase de Marilyn Monroe quando perguntada sobre o que usava para dormir – ‘três gotas de Channel número 5’ -, todo o mundo garante que alguém escreveu para ela e comercializou. Hoje você tem muitos jogadores de futebol que têm um assessor de imagem, um assessor de imprensa. É comum que esse ídolo internacional tenha a estrutura, por exemplo, de uma grande banda de rock. Ou de uma empresa, de um produto.

Das megaestrelas do futebol não se exige beleza, haja vista o sucesso de Ronaldinho Gaúcho. Das estrelas de Hollywood exige-se um certo padrão estético, da mesma forma que esta é uma premissa no universo da música pop e, claro, das top models. Por que é diferente com o futebol?

Quando eu dou palestras no exterior e preciso situar o Brasil, digo que moro no último país do mundo em que há mulher bonita no ponto de ônibus. Isso acontece por causa da miscigenação. Na maioria dos lugares, os bonitos estão onde estão os ricos. No Brasil, essa miscigenação fez uma coisa tão bacana, que democratizou a beleza. Essa mesma ótica podemos usar para o futebol, que é, indubitavelmente, o esporte mais miscigenado do mundo. Não necessariamente por causa de cada um de seus atletas, mas também pela mistura da disputa, do contato físico, da falta daquela redinha no meio, separando uns dos outros. Essa mistura democratiza e recria a beleza. Muda padrões. Então, aquele que convencionalmente não era considerado bonito, com a aura que o futebol cria para ele, de repente o cabelo arrepiado, o aparelho no dente, o dentão – tudo isso transforma-se em novo signo de beleza.

Em que outra área o Ronaldinho Gaúcho teria chance de se tornar bonito, não?…

É a mágica do futebol… Você pega o dream team do basquete americano, por exemplo. É diferente. Existe uma regra naquilo – em primeiro lugar, não dá para jogar nele se você não for grande. Além do quê, há uma estética que é praticamente de todos eles. Ao contrário, o futebol permite que você seja tão bonito quanto o Beckham ou o Carlito Tevez.

Qual a diferença entre esses ídolos do futebol e Ayrton Senna ou mesmo Guga? Quais as peculiaridades do futebol na construção dos nossos heróis?

A pergunta conduz a um pensamento muito louco: o futebol é o único esporte coletivo que consegue produzir ídolos mundiais com prestígio, visibilidade e remuneração de esporte individual. Uma coisa é ser um Guga, um Senna. Mas no mesmo time temos Ronaldo, Beckham, Figo!

Aqui no Brasil, a ovação à seleção brasileira e à Copa tem aparecido nos anúncios e nas vitrines das lojas. Mas não se vê as ruas pintadas e decoradas por torcedores, como se via antigamente. Por que essa apatia, se é que você concorda que ela existe?

Nosso futebol é profissional apenas na hora do jogo, sem que isso se reflita em sua administração. Isso favorece a exportação maciça dos nossos craques, o que tirou de nós uma característica que gerava toda aquela manifestação popular que costumávamos ver antes e durante os jogos da Copa. Na psicologia do torcedor de futebol – eu sei porque sou um paranóico torcedor corintiano -, no fundo, no fundo, se jogar Corinthians versus seleção brasileira, ele torce para o Corinthians. Eu brinco que, se jogar Corinthians versus minha mãe, torço para o Corinthians. Ela fica brava, até porque é palmeirense… Durante muitos e muitos anos, as pessoas se movimentavam nas ruas porque ia jogar o Brasil do Gilmar, que era o Brasil dos corintianos. Para os botafoguenses, ia jogar o Brasil do Garrincha. Para os santistas, o Brasil do Pelé. Quando a seleção jogava, jogava Corinthians, Botafogo, Santos. Isso acabou porque ninguém mais joga aqui. Por outro lado, o futebol ganhou um prestígio fantástico. Saiu das ruas e canalizou-se para a mídia. Só a Globo calcula que terá uma receita de R$ 1,3 bilhão com o futebol este ano, entre Copa do Mundo, Libertadores, Campeonato Brasileiro. A Nike fatura, anualmente, US$ 12,2 bilhões no mundo. Boa parte disso vem do futebol. Em propaganda, eles desembolsam, todo ano, US$ 1,3 bilhão, 11% de seu faturamento – boa parte disso vai para o futebol.

Essa canalização do futebol para a mídia ampliou muito o seu universo, a despeito da torcida mais tradicional dar sinais de um certo arrefecimento?

Sem dúvida. Sobre isso, há números impressionantes. Esses clubes mercadologicamente muito bem resolvidos, como Manchester United ou Real Madrid, cada um deles tem cerca de 600 itens licenciados com a própria marca. São produtos que vão das camisas até fraldas e chupetas. Mesmo aqui no Brasil, há mais gente comprando mais futebol. Gente que tem a camisa do seu time e mais outras, que coleciona. Antes, o futebol era esporte com um pouquinho de business. Virou business, show bizz e esporte.

O sucesso da seleção brasileira enfraquece os nossos clubes, à medida que eles não conseguem segurar seus melhores jogadores no País. Como torcedor de time que você é: será que, para o nosso bem, não está na hora de perdermos?

Vou ser sincero: nunca é boa hora para se perder nada. Eu sou muito competitivo e incluo nessa resposta o ‘par ou ímpar’. Tem uma observação engraçada sobre essa exportação de jogadores. Primeiro, o Brasil não vendia ninguém. Depois passou a vender alguns, que eram atacantes. Mais tarde, vendeu os de meio-campo e, depois, os zagueiros. Agora vende goleiro e exporta técnico. Veja a progressão que foi isso… Agora, não há dúvida de que determinadas derrotas reacendem certas magias no futebol… Aliás, outro dia um amigo perguntou para quem eu torceria se o Brasil não estivesse na Copa. ‘Para a Argentina’, eu disse. E não é por causa do Tevez ou do Mascherano (argentinos que jogam no Corinthians). Eu sempre torci para eles quando o Brasil não estava, porque torcia para o Maradona, para o Redondo… Não estando o Brasil, pela ordem: Argentina, depois Holanda.

O enfraquecimento dos clubes brasileiros acontece no mesmo momento em que se criam essas equipes multinacionais, caso do Real Madrid, Barcelona, Milan. Esses clubes praticam um outro tipo de negócio, que pouco tem a ver com o que se pratica aqui?

Esses clubes internacionais conseguiram historicamente uma auto-suficiência financeira a ponto de o Barcelona poder prescindir de patrocínio em sua camisa. Aliás, quem está de olho na camisa do Barça não é a Nike nem a Adidas. É a China, que quer comprar o Barcelona para divulgar a Olimpíada. Veja o tamanho que ficou o futebol! As Olimpíadas tinham um desprezo verdadeiramente olímpico por esse esporte. De repente, o organizador dos próximos jogos quer comprar espaço na camisa de um time! Agora, a principal diferença entre um Barcelona e os times daqui, correndo o risco de ser reducionista, é a diferença entre o dirigente profissional e o não-profissional; entre o dirigente que pode ser responsabilizado por aquilo que faz e o que nunca paga por seus desacertos.

Durante um mês, não haverá mensalão. O PCC vai poder assistir os jogos pela tevê, então também não haverá PCC. Não terá Lula nem Alckmin. Essa ‘pausa’ provocada pelo futebol é algo que você condena?

Há um samba novo do Gilberto Gil que vou agora usar em uma campanha – uma música que ele compôs especialmente para esta Copa, ainda inédita, e que se chama Balé de Berlim. Nela tem um verso que explica isso: ‘O carnaval não mata a fome, nem mata a sede o São João. Mas nem só de pão vive o homem, por isso salve a seleção’. É verdade.

Em entrevista ao site NoMínimo, Roberto da Matta fala do futebol como espaço de regras claras e precisas, o que promoveria, segundo ele, uma ‘explosão de igualdade quase total’. Ele menciona o esporte como um antídoto a ‘um mundo marcado pela vulgaridade de um consumo estúpido e irresistível’. Concorda com essa visão?

Tendo a concordar porque defendo o seguinte: a idéia do Andy Warhol de que todos seriam famosos por alguns minutos está sendo substituída por outra – nos anos 2000, todos serão vulgares por algumas horas…

Mas a invasão do marketing, as superestrelas, os times multinacionais – isso tudo não atenta contra esse espírito de contrapor o futebol ao mundo do consumo e da vulgaridade?

As pessoas trabalham com universos realizados e ambicionados – o futebol se presta muito às duas coisas. Exagero mercadológico é prejudicial a qualquer área. É preciso bom senso. O carnaval, por exemplo, é um evento quase que totalmente mercadológico. Não há camarote que não tenha patrocínio, o próprio samba também tem. O futebol consegue manter alguma disciplina em relação a isso.

No exterior, o Brasil está na moda. O mundo está usando Havaianas e, no bom sentido, consumindo as nossas modelos. Tem a ver com a seleção?

Durante muito tempo, o fato da ditadura política fez com que as pessoas, subconscientemente ou não, adquirissem um certo preconceito com o uso dos símbolos pátrios, o que poderia parecer sinal de adesão. Quando eu montei a W/Brasil, em 1986, achei que botar Brasil no nome era legal. Fico agora particularmente gratificado porque o País está na moda no mundo inteiro – não apenas com o futebol e a música, tradicionalmente reconhecidos, mas com o nome, as cores, a estética…

Isso se deve a quê?

Determinados valores que são inerentes à nossa sociedade, filhos exatamente da nossa gloriosa miscigenação – a nossa cor, a sensualidade, o senso de humor -, esses valores estão muito ambicionados pelo quadro social em geral. O mundo está cruel e muito chato. Está violento e com a chatice do politicamente correto, que não é mal-educado mas normalmente é chato. Tem também o oposto, que é o politicamente incorreto, muitas vezes bem-humorado porém mal-educado. No meio disso, há o politicamente saudável, que é a presença do senso de humor com educação. Eu acho que os componentes da sociedade brasileira – não de seus políticos, nada disso, mas do brasileiro – refletem muito essa ansiedade das pessoas pelo mundo afora. Elas querem estar com cores mais vivas, querem estar mais ensolaradas, mais sensualizadas, mais musicais. Isso tem feito a marca Brasil invadir o mundo.’



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O Estado de S. Paulo

Sábado, 27 de maio de 2006

TV NOS EUA
O Estado de S. Paulo

Lei pode mudar TV a cabo nos EUA

‘Os consumidores americanos têm poucas escolhas quando se trata de televisão a cabo. Se você deseja ter a ESPN, precisa pagar por mais de 60 canais que talvez nunca assista. Se seu filho adora o Nickelodeon, sua família tem de pagar pelos mesmos mais de 60 canais, alguns deles não adequados para crianças pequenas. Agora, imagine poder decidir por você mesmo quais canais quer assinar e abrir mão dos que não quer. Na verdade, neste momento, milhões de telespectadores fora dos EUA têm essas escolhas. Eles assinam os canais individualmente ou em pequenos pacotes – e, como resultado, fazem um melhor negócio.

Por que os americanos não podem fazer isso agora? Porque há muito pouca concorrência, excesso de regulamentação e um número insuficiente de escolhas no negócio de TV a cabo. O resultado é que apenas nos últimos dois anos os preços tiveram um aumento que é dobro da taxa de inflação – e de mais de 90% desde 1995. As empresas de TV a cabo explicaram seus preços dizendo que estão oferecendo mais e mais canais. Mas você tem que pagar por eles, quer queira ou não.

A solução para as altas contas de TV a cabo não é o controle de preços nem mais regulamentação governamental. É mais competição e mais escolhas. Por esse motivo, o Congresso deve aprovar as propostas da Consumers Having Options in Cable Entertainment Act (algo como lei que dá aos consumidores opções no entretenimento a cabo), ou Choice Act. Essa lei permitirá que as empresas de TV a cabo rivalizem em âmbito nacional (em vez de apenas em âmbito local) em troca de concordarem em oferecer canais à la carte.

O Escritório de Contabilidade do Governo descobriu que as taxas de TV a cabo são 15% mais baixas quando uma comunidade tem ao menos duas empresas competindo. A Federal Communications Commission (Comissão Federal de Comunicações) concluiu que os consumidores poderão ter sua conta mensal reduzida em 13% se tiveram opções à la carte.

Exemplos do mundo real ilustram as vantagens de ter um leque maior de escolhas. Em Hong Kong, os telespectadores podem escolher e assinar somente os canais que querem. Uma família que queira assistir esportes, filmes, noticiários e programação infantil pode receber gratuitamente 15 canais mais uma seleção de 11 canais digitais adicionais (incluindo ESPN, HBO, CNN Headline News, National Geographic, Animal Planet e Discovery Channel) por apenas US$ 27,50 por mês. Em Washington, para ter um pacote que inclua esses canais, paga-se US$ 82 por mês – quase US$ 1 mil ao ano. É uma grande diferença.

É interessante observar que as mesmas empresas que, nos Estados Unidos, se opõem à assinatura individual de canais ou em pacotes pequenos, oferecem programação à la carte em outros países. Suas ameaças de ruína financeira ou perda de diversidade na programação têm mostrado serem inconsistentes. Os consumidores americanos querem que essas empresas ofereçam tais escolhas. Segundo uma pesquisa recente da AP-Ipsos, 78% dos entrevistados disseram preferir escolher e pagar pelos sua própria seleção de canais.

Atualmente, a possibilidade de escolha e a concorrência têm tido sucesso no mundo inteiro. Consumidores de Hong Kong, Grã-Bretanha, Índia e Canadá estão colhendo os benefícios da maior oferta de canais, podendo escolher seus canais na base à la carte. Assim, por que não aumentar a concorrência nos Estados Unidos e ao mesmo tempo assegurar que as empresas ofereçam uma escolha de verdade na programação da televisão a cabo? John McCain, representante do Arizona, é quem está lançando a Lei da Escolha.’

UMAS PALAVRAS
Aluízio Falcão

O jornalismo literário na televisão

‘Não me lembro exatamente quando vi Bia Corrêa do Lago pela primeira vez. Sei que foi num momento de grande alívio e bonança interior. Eu acabava de me livrar de um leilão de zebus na TV Rural, ofertas de DVDs com karaokê no Shoptime e da fúria de um pastor, no canal Gospel, que ameaçava os pecadores com o fogo do inferno. Em fuga, quase desligando a tevê, apertei sem querer uma tecla e dei com os olhos no canal Futura. Apareceu-me o rosto sereno e pacificador de Bia, que dialogava com um escritor. Era o programa Umas Palavras, do qual me tornei telespectador cativo. Horários rotativos aos sábados, domingos, terças e sextas-feiras. Não percam.

Bia Corrêa do Lago é uma entrevistadora diferenciada, sob medida para escritores e poetas. Íntima de livros, mas não exibicionista dessa qualidade, procura elegantemente disfarçá-la, transformando convicções em perguntas e submetendo ao crivo de cada entrevistado suas deduções de leitura. Não se estende em apartes, deixa que haja pausas de silêncio entre perguntas e respostas. Isso humaniza bastante o programa e lhe confere uma cadência tranqüila, sem aquela contínua tensão entre os dois protagonistas dos chamados talking shows. Bia mantém os olhos calmos e fixos no entrevistado, sem consultar fichas. As indagações baseiam-se quase sempre nos comentários obtidos – o que acentua o clima de amenidade. O programa, de grande conteúdo, tem apenas meia hora. Há, portanto, uma cuidadosa edição. Ela também responde por essa tarefa, segundo os créditos que vi no final.

A televisão começou nos anos 50 e somente há pouco tempo decidiu oferecer espaço aos artistas da palavra escrita. Inexiste material em vídeo com entrevistas de grandes escritores já falecidos (Érico, Graciliano, Rosa, etc.). A antiga mídia impressa também apresentou lacunas. Em arquivos encontramos dois tipos de depoimentos: formais, com respostas visivelmente escritas pelos entrevistados, que sabiam das perguntas com antecedência; ou superficiais, pobres de substância, com respostas entre aspas a respeito de futilidades.

Tudo mudou, principalmente na mídia televisiva, mas é necessário a preservação do material já acumulado nos acervos das emissoras, que bem poderiam ceder cópias aos museus de imagem e som bem administrados. As idéias de um escritor, mesmo verbalizadas precariamente por ser ele de pouco falar ou de falar sem brilho, serão de grande valia para fixar a sua identidade psicológica.

A complementaridade agora existente entre a tevê e a literatura não se limita ao canal Futura. Acontece em outros espaços da grade geral, mas é no programa de Bia que os escritores encontram seu timing e ouvem as perguntas mais pertinentes. Disseram-me que ela é filha do romancista Rubem Fonseca e casada com o bibliófilo Pedro Corrêa do Lago. Claro, isso deve ter facilitado, mas o principal motivo do seu desempenho é uma densidade intelectual própria e o equilíbrio talvez decorrente de sua formação em psicanálise. A moça tem a placidez necessária para tratar com estes seres inquietos e aflitos, condenados ao trabalho incessante de escrever poesia e prosa. Afinal um deles, André Gide, indagado por Valery por que escrevia, respondeu: ‘Escrevo para não me matar.’

Escritores em geral são pessoas complexas. Contrariam quase sempre o que chamamos de padrão de normalidade. Quando em transe criativo se deslocam ainda mais da dimensão comum. Deixam de ser eles próprios, vivem alternadamente outras individualidades que habitam sua ficção. Na vida real portam-se como recém-saídos destas incursões. Alguns deles não se libertam inteiramente dos personagens que imaginaram. Para conversar com gente assim há que ter competências e saberes especiais. Uma formação em psicanálise, como é o caso de Bia Corrêa do Lago, pode ajudar, sim, principalmente quando somada ao dom de perguntar delicadamente, despertar o ânimo para as respostas, opinar com clareza e simplicidade.

Nós, leitores, sempre tivemos curiosidade pela figura humana do escritor e vê-lo falando na televisão de sua vida e de sua obra é um presente que a tecnologia nos oferta. Fico a pensar no que aconteceria se já houvesse esse tipo de exposição em começos do século 20, quando ainda vivia o nosso ídolo máximo, Joaquim Maria Machado de Assis. Sofreríamos, no caso, um terrível constrangimento: Machado era gago e, portanto, incabível numa entrevista, mesmo conduzida por Bia Corrêa do Lago.

Outro grande escritor que me vem à cabeça é Rubem Braga. O seu talento para escrever crônicas equivalia ao tamanho de sua dificuldade de expressão verbal. Era capaz de ficar mudo, horas a fio, enquanto rolava a conversa na mesa do bar. Quando se interessava pelo assunto, aqui ou acolá intervia com uma frase cortante, inspirada, que poderia ser considerada o melhor instante da conversa. Mas não contassem com ele para digressões. Por isso mesmo, que eu saiba, jamais foi tentada uma entrevista com o velho Braga na tevê. Os editores sabiam desta sua impossibilidade.

Tenho de incluir nesta pauta de entrevistas impossíveis dois grandes escritores vivos que não admitem sequer fotografias. Um deles é Dalton Trevisan, que dizem recorrer a bigodes postiços para circular nas ruas de Curitiba. O outro, embora não chegue a tanto, jamais foi visto na telinha, e Bia Corrêa do Lago é a única entrevistadora, em todo o mundo, que tem chances de levá-lo a um estúdio e fazê-lo falar diante das câmeras. Estou me referindo ao pai dela, escritor Rubem Fonseca, um notório e radical inimigo de holofotes.

Quem sabe a moça escolheu esta ocupação na tevê exatamente para quebrar a rigidez do pai em relação ao veículo? Uma aparição de Rubem Fonseca entrevistado pela filha seria o mais impactante momento do jornalismo literário na televisão brasileira em todos os tempos. Não conheço Bia nem conheço ninguém da produção de Umas Palavras e valho-me deste espaço para sugerir a pauta. Haverá resistências, claro, tanto da apresentadora quanto do escritor, mas é preciso tentar o grande furo.

Há outros programas literários de boa qualidade como Espaço Aberto na Globo News (Sandra Moreyra) e Entrelinhas na TV Cultura (Paula Picarelli). As apresentadoras portam-se muito bem, mas não alcançam o tom de Bia, que tem com os entrevistados uma identidade maior, intuindo ou quase adivinhando seus pensamentos.

Ela sabe adotar uma postura modesta, sem quebrar a curiosidade própria do ofício. A sua conduta no programa é uma lição para todos os entrevistadores, homens ou mulheres, que atuam no vídeo. Inverte-se, no programa Umas Palavras, a hierarquia estabelecida pelo veículo, que atribui a quem pergunta uma importância maior do que a de quem responde.

Observem o comportamento da maioria dos entrevistadores e entrevistados. Estes últimos, em parte, são até culpados pela situação de inferioridade em que aparecem na tevê. A um seco ‘boa noite’ do jornalista, derretem-se com um ‘boa noite, fulano, é um prazer responder a suas perguntas’, enquanto abrem um sorriso simpático, imaginando que esta subserviência os livrará de perguntas incômodas. A cena é mais freqüente nos programas políticos, quando jornalistas lembram às vezes certos membros do Congresso nas oitivas das CPIs. Há deputados e senadores que esquecem a liturgia democrática e atuam como inquisidores de triste memória nos porões do arbítrio. Querem votos, querem audiência. Acham que todo telespectador está sedento de sangue ou de lama.’



NOTÍCIA APROFUNDADA
Flávia Guerra

Coleção Repórter Especial tem nova fornada

‘Comportamento, longevidade, política, ecologia, ciência, tecnologia. A nova fornada da Coleção Repórter Especial traz mais uma vez novos temas e versa sobre assuntos que interessam aos mais variados leitores. Parceria entre as editoras Terceiro Nome e Editora Mostarda, a coleção, que nasceu no fim do ano passado, conta novamente com uma equipe de jornalistas que produzem grandes reportagens e aprofundam assuntos que nem sempre têm oportunidade de tratar nas coberturas diárias de jornais e revistas.

Na quarta-feira, na Livraria Cultura (Av. Paulista, 2.073), a partir das 18h30, serão lançados Cérebro – A Maravilhosa Máquina de Viver – Novas Descobertas o Tornam ainda mais Fascinante, de Alessandro Greco; Robô, o Filho Pródigo, de Heitor Shimizu; e Amazônia, a Floresta Assassinada – Falta muito pouco para Matá-la de Vez, de Sérgio Adeodato.

Na quinta, é a vez de Efeito Estufa – Por Que a Terra Morre de Calor, de Fátima Cardoso, Padres Comunistas! – O Que Pensa e por onde Anda a Igreja de Esquerda no Brasil, de Juracy Andrade; Racismo – A Verdade Dói. Encare, de Conceição Lourenço, e Você Pode Viver 100 Anos, de Ivonete Lucírio. Os autores autografam seus livros na Fnac Pinheiros (Pça. dos Omagás, 34), a partir das 18h30.

Outros títulos também chegaram há pouco às livrarias, como Meninos Bandidos Atacam – E nem Sabemos o Que Fazer com Eles, de Percival de Souza; e Tatuagem – Dor, Prazer, Moda e muita Vaidade, de Apoenan Rodrigues; e Células-Tronco – Esses ‘Milagres’ Merecem Fé, de Martha San Juan França. ‘Estamos contentes com a empreitada. Os primeiros livros têm obtido boa aceitação do público, soubemos que várias escolas estão adotando os títulos, fechamos parcerias com empresas’, conta a editora Mary Lou Paris. ‘Optamos por lançar esta grande leva antes da Copa. Para os próximos lançamentos, vamos espaçar mais as datas’, completa ela, que já adianta alguns novos temas. ‘Já estamos trabalhando em livros sobre a corrida espacial, nanotecnologia, bailes funks e até mesmo sobre ‘meninos grávidos’ e evolução.’

Enquanto a nova leva é produzida, os autores estão satisfeitos com os projetos que chegam às bancas. ‘A coleção é didática, com texto claro, limpo, como todo jornalista deveria escrever. Além disso, eu tive a oportunidade de aprofundar um tema que ainda é tabu para muitos’, declara Percival de Souza, que, em Meninos Bandidos Atacam, fez questão de derrubar estereótipos ao revelar o universo dos menores infratores e contar suas histórias. ‘Eu pude discutir as políticas voltadas para a delinqüência juvenil, se elas são eficazes e traduzir para o público um mundo tão enigmático, pois pouquíssimas vezes estes jovens são ouvidos’, explica o jornalista.

Derrubar estereótipos também é um dos intuitos de Tatuagem, de Apoenan Rodrigues. ‘Escolhi um tema que tivesse a ver com meu universo. Sou crítico de música, meu universo é o rock. Ao mesmo tempo, queria investigar quem eram as pessoas que se tatuam e porque elas o fazem. Descobri figuras maravilhosas, como uma senhora que, aos 72 anos, estava concluindo uma grande tatuagem nas costas’, conta ele, que não tem nenhuma tatuagem.

Em outra vertente, mas também disposta a investigar um tema que ainda reserva muitas descobertas, Martha França escreve sobre as tão comentadas células-tronco. ‘Escrevo sobre ciência e percebi que este assunto interessa a muita gente. Entrevistei 30 pessoas, entre elas, vários especialistas, para explicar o que são essas células-tronco, quais as descobertas mais recentes da medicina sobre elas, quais as possíveis aplicações futuras’, conta a jornalista, que também trata no livro de questões éticas e legais que envolvem o tema. ‘Para a ciência, uma célula-tronco embrionária é um amontoado de células, mas para a Igreja já é uma forma de vida. Tento explicar de forma clara quais são essas diferenças e questões.’

Controverso também é o tema que Sérgio Adeodato escolheu. ‘A destruição da Amazônia é mais que comentada, mas poucas vezes se discute realmente quais seriam as saídas possíveis para controlar isso. Tento não falar só dos problemas, mas também explicar como diferentes idéias poderiam ser aplicadas, e mostrar, com auxílio de dados e números, porque se o ritmo for mantido, a floresta pode ser destruída dentro de algumas décadas’, explica o autor de Amazônia, a Floresta Assassinada. ‘O assunto é complexo, uma solução envolve maior participação do poder público, mobilização da sociedade, e, importante, que a floresta tenha maior valorização econômica enquanto ela ainda existe.’

A longevidade e a qualidade de vida são os temas que Ivonete Lucírio escolheu para seu segundo livro da coleção, Você Pode Viver 100 Anos. ‘No primeiro, eu tratei da aids, mas percebo que este é um tema que interessa literalmente a todos’, conta a autora, que deixa claro que não se trata de auto-ajuda. ‘Aponto desde medidas que podem ser facilmente tomadas, como a redução de calorias na alimentação, até dados de pesquisas que comprovam que quem tem uma vida conjugal saudável é feliz e possui uma religião vive mais e melhor. É um livro informativo, mas não traz receitas prontas’, explica.’



COPA
Keila Jimenez

MTV vai para a Copa

‘A Copa do Mundo será pequena para tanta cobertura. Até a MTV, que nunca se meteu com futebol – pelo menos o de verdade, não a mistura de humor com bola do RockGol – vai para a Alemanha acompanhar o mundial. Não, a rede não terá os direitos de transmissão, mas vai dar o seu jeitinho de tirar uma lasquinha do evento.

Na próxima quinta-feira uma equipe de seis pessoas da emissora embarca para a Alemanha. Paulo Bonfá será o ‘Galvão Bueno’ do canal musical. Ele fará dois RockGols especiais e terá boletins durante a programação do canal, mostrando os gols da rodada. Isso porque a Globo – detentora dos direitos de transmissão na TV aberta – só libera imagens dos gols por 24 horas para as outras redes. Para não perder, a MTV fará ‘edições extraordinárias’ na programação com as melhores jogadas. Como?

Bem, cenas reais ganharão vinhetas que reproduzem os gols do Brasil com peças de futebol de botão. Imperdível. Além de Bonfá, embarcam para Copa da MTV o diretor Cacá Marcondes, o diretor Maurício Terra e o ganhador do reality de futebol Os Convocados, exibido pelo canal, Renan Ciqueira.’



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