Terça-feira, 21 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

JORNAL DE DEBATES > MARSHALL MCLUHAN (1911-1980)

O filho é a mensagem

Por Rachel Bertol em 29/03/2011 na edição 635

Eric McLuhan, filho de Marshall McLuhan, foi seu colaborador por cerca de 15 anos. O pai deixou-lhe uma série de projetos a finalizar, que ainda vão consumir muitos dos seus anos, como contou nesta entrevista, pouco antes de arrumar as malas para participar na Itália de um seminário para celebrar o centenário. Neste ano ainda, Eric lança dois livros que nasceram de antigos projetos com o pai: Mídia e Causa Formal e Teorias da Comunicação.

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Por que os textos de McLuhan continuam a ser incompreendidos?

Eric McLuhan – Os escritos do meu pai são de apreensão difícil. O problema se complica mais pelo fato de as pessoas se tornarem cada vez mais incapazes de ler. O alfabeto não é mais a principal referência nas culturas ocidentais. Enquanto as crianças têm ligação mais fraca com a leitura e a escrita, por causa da influência maciça da nova mídia em suas sensibilidades, as gerações mais antigas, sob a mesma influência, também estão menos ligadas à atividade da leitura. Além disso, qualquer pessoa que se aproxime dos escritos de meu pai possui herança de incompreensão a superar. Mas acho que, se alguém for ler os livros dele sem consultar interpretações de terceiros, poderá se sair bem. A compreensão de um simples paradoxo como ‘o meio é a mensagem’ depende do fato de a pessoa ter entendido que ‘meio’ significa ‘ambiente’. McLuhan esforça-se para tornar clara a questão em Os Meios de Comunicação como Extensões do Homem. O novo meio social e cultural é a ‘mensagem’ de toda tecnologia.

O que seu pai diria sobre as manifestações no mundo árabe, como no Egito, onde o uso das tecnologias de informação se mostrou fundamental para a vitória das pessoas na rua?

E.M. – Por volta de 1969, escrevemos juntos um livro chamado War and Peace in the Global Village [Guerra e paz na aldeia global]. Um dos principais temas da obra é o fato de que a violência, assim como esta que vimos no Oriente Médio, é sempre uma resposta à perda da identidade. Quando uma identidade precisa ser reafirmada, forjada ou restaurada, a violência é um meio infalível para fazer isso rapidamente. As culturas do Oriente Médio estão sob pressão de mudanças significativas por causa da influência de uma gama de poderosas novas tecnologias. Suas culturas estão passando por mudanças que ocorrem rapidamente e necessitam de novas identidades, o que ocasiona violência. Apesar do se imagina, a aldeia global não é uma utopia pacífica. É bem o contrário.

Quais são os principais desafios para continuar a dialogar com a obra de McLuhan?

E.M. – Ele foi um pioneiro. Abriu um campo com o qual ninguém antes havia trabalhado. Desenvolveu vasta gama de ferramentas que considerava úteis. Seus livros foram de natureza a fazer progredir o debate em suas pesquisas, e escreveu a maior parte deles visando a tornar esse material acessível, não apenas para os acadêmicos. A maior parte dos acadêmicos, porém, deplorou e ignorou seu trabalho enquanto meu pai estava vivo. O que precisamos fazer agora é nos aproximar desses escritos com um frescor no olhar – sem a incompreensão da geração passada – e buscar desvendar como ele utilizou essas ferramentas para examinar nosso mundo atual. E, pelo que tenho ouvido, já se está trabalhando muito bem nesse sentido!

Num lado mais pessoal, qual teria sido o principal legado dos escritos do seu pai? Sua irmã (Stephanie) é produtora de televisão…

E.M. – Posso falar por mim, já que trabalhei ao lado do meu pai por cerca de 15 anos e escrevemos livros juntos. Ele deixou uma grande quantidade de projetos para eu terminar, os quais vão me ocupar por muitos anos. Uma irmã minha obteve doutorado em estudos sobre Idade Média e meu irmão mais novo é fotógrafo profissional.

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