Sexta-feira, 15 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

ENTRE ASPAS > TRAGÉDIA & GEOPOLÍTICA

O Haiti e a recolonização ambiental

Por Tulio Muniz em 26/01/2010 na edição 574

Ao conclamar o fim da ‘maldição’ sobre o Haiti, o presidente francês Nicolas Sarkozy cumpre o papel de porta-voz do que venho chamando de ‘dispositivo pós-colonial’, ou DPC, um tipo de construção retórica que visa à coerção das populações em torno de ações de dominação sobre um território estrangeiro, sobretudo quando se trata de uma ex-colônia. Sarkozy não traz novidades em suas opiniões acerca do Haiti.

Há dois anos, proferiu um polêmico discurso no Senegal, em visita à Universidade de Dacar, onde disse, por exemplo, que ‘a colonização não é responsável por todas as dificuldades atuais de África. Não é responsável pelas guerras sangrentas que travam os africanos entre eles. Não é responsável pelos genocídios. Não é responsável pelos ditadores. Não é responsável pelo fanatismo. Não é responsável pela corrupção, pela prevaricação. Não é responsável pelos desperdícios e pela poluição. […] A colonização foi um grande erro que destruiu junto do colonizado a estima por si próprio e fez nascer no seu coração este ódio por si que desemboca sempre no ódio para com os outros’ (ver aqui uma análise de Frabrice Schurmans acerca desse acontecimento).

A fala de Sarkozy, em pleno século 21, é permeada de preconceitos e argumentos típicos do colonialismo na classificação e subalternização do ‘outro’ enquanto sujeito sem História. E, à exceção de vários intelectuais, não se ouviu uma voz sequer, seja de outros chefes de Estado ou dos editoriais da mídia, a criticar o presidente francês, talvez porque o DPC vem sendo compartilhado por outros países. Ao desastre no Haiti, sucede uma disputa de controle, protagonizada sobretudo pelo Brasil (que desde 2002 mantém efetivo militar naquele país) e pelos EUA. Mais do que salvar e manter vidas, o que está em jogo é o controle territorial estratégico – para os EUA, dada a proximidade com Cuba, e para o Brasil, pela vaga no Conselho de Segurança da ONU.

Ausência de perspectiva crítica

A continuidade dos grandes cruzeiros na região da tragédia, sob pretexto de gerar divisas e lucros a serem revertido em prol do Haiti, demonstra que o discurso do DPC sustenta uma recolonização ambiental que tem no turismo internacional um de seus esteios. Daí, Alfredo Dacharay, sociólogo argentino radicado no México (Universidade de Guadalajara), não medir palavras ao afirmar que o turismo se converteu no ‘caballo de Troya de la globalización, ya que llega hasta los lugares más olvidados, primero como esperanza, ya luego como modelo de imposición. Es la nueva utopía de los países pobres, la nueva colonización de los países ricos, una verdadera síntesis de la propia globalización’.

À conquista de território ‘justificada’ pelo DPC, segue-se a ocupação por vias nefastas como o ‘turismo de tragédia’ e, posteriormente, pelo despejo de lixo, cujo translado internacional hoje também está no âmbito da recolonização ambiental. Se o colonialismo foi a conquista de território pela força e para exploração de recursos naturais, a recolonização ambiental passa pela aquisição de espaço e território para extração de recursos naturais (minerais, biodiversidade etc.) e também para defecção de dejetos sólidos dos países mais ricos.

Se isso acontece, muito tem a ver com a ausência de perspectiva crítica da mídia, que serve de canal difusor do DPC entre populações nacionais cujos países estão a se estabelecer em outros. A omissão da mídia evidencia como o DPC é amplificado, naturalizado, do emissor (geralmente o Estado e seus representantes) aos receptores, visando à coerção pacífica para legitimar a ocupação territorial opressão de ‘infratores’, mesmo que ela se dê a milhares de quilômetros do território geográfico e do espaço nacional do interventor.

Refletir sobre seus conflitos e problemas

O que preocupa é a imposição de uma retórica que ‘naturaliza’ a intervenção no espaço estrangeiro na mesma medida em que leva a sociedade brasileira a assimilar como ‘natural’ a convivência com seus próprios problemas. Assim, a mídia banaliza a violência urbana, o racismo contra ‘tipos inferiores’ (nordestinos, sem-terra e sem-teto, índios etc.), o lixo e a imundície dos centros urbanos. Será por isso que são raros movimentos nacionais contra os acordos espúrios na política? Que se propagam pelo país fenômenos bizarros como o de crianças ‘caindo’ de janelas ou o consumo de drogas pesadas, onde o crack é lixo social nas grandes cidades ou recônditas comunidades do interior?

Ambiente, para Félix Guattari (em As Três Ecologias), é uma ‘ecosofia’, a junção de campos diferenciados que considere a diversidade e singularidade cultural de cada lugar, a interação sociocultural, mental e ético-estética com o meio-ambiente e o potencial de desterritorizalização e reterritorialização de cada indivíduo. Porque as pessoas, bem como os lugares, são diferentes e sobre elas não se podem aplicar dispositivos igualitários e indistintos que dissimulem e neutralizem a riqueza da diferença. Portanto, é preciso que todo país e toda a mídia reflita acerca de seus próprios conflitos e problemas antes de intervir ou abordar um outro contexto que não o seu, para não incorrer em recolonizações, sejam internas ou internacionais.

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Jornalista, historiador e doutorando no Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra, Portugal

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