Sábado, 26 de Maio de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº988
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ENTRE ASPAS > INFORMAÇÃO E CONSISTÊNCIA

O jornalismo líquido

Por Gabriel Marquim em 31/08/2010 na edição 605

‘A vida líquida é uma vida precária, vivida em condições de incerteza constante. As preocupações mais intensas e obstinadas que assombram esse tipo de vida são os temores de ser pego tirando uma soneca, não conseguir acompanhar a rapidez dos eventos, ficar para trás, deixar passar as datas de vencimento, ficar sobrecarregado de bens agora indesejáveis, perder o momento que pede mudança e mudar de rumo antes de tomar um caminho sem volta.’

Esse é um trecho do livro Vida líquida, do sociólogo polonês Zygmund Bauman. Mas poderia ser perfeitamente um panorama do jornalismo atual: líquido, fluido. De acordo com Ramonet em artigo neste Observatório, a Times Internet divulgava em 2005, todos os meses, mais de 30 milhões de informações sob a forma de SMS para os celulares de seus assinantes.

A pergunta é simples: depois de um mês inteiro com tantas informações, quantas delas foram realmente apreendidas, decodificadas e interpretadas por seus receptores? O jornalismo, então, é um reprodutor de notícias, uma gaveta cheia de notinhas? Em tempos de factual valorizado ao extremo, falar de uma imprensa que explica, ensina, guia e dirige, como defendia Luiz Beltrão, parece uma tolice.

Ganham emissor e receptor

‘Não queremos simplesmente a verdade – queremos ir além, queremos verdades novas. Não nos contentamos com `dois mais dois é igual a quatro´, embora essa afirmativa seja verdadeira’, escreveu Popper. Pois bem, despejar milhares de informações em cima do público não é sinônimo de jornalismo, é como depositar um oceano entre as mãos de uma criança. Em poucos segundos, todo aquele volume vai escorrer entre os dedos e ela não terá absolutamente nada.

É urgente um jornalismo mais consistente. Menos preocupado com a quantidade e mais interessado em profundidade, debates e argumentação. Nessa empreitada, ganham os dois principais polos da comunicação: emissor e receptor. Ganha o invólucro onde os dois estão envolvidos: a própria sociedade.

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Jornalista, Recife, PE

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