Sexta-feira, 22 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº958

JORNAL DE DEBATES > JORNALISTAS & ASSESSORES

O “caso Bordoni” e a régua do observador

Por Luiz Carlos Bordoni em 05/07/2012 na edição 701

 

“Há um grave conflito de interesses quando um profissional de imprensa deixa de ser remunerado por uma empresa ou entidade jornalística e passa a ser pago por candidato ou partido. Esses guichês deveriam localizar-se em outro departamento; seus códigos deontológicos, idem” (ver, neste Observatório, “Assessoria de imprensa é outro departamento”). Discordar de Alberto Dines quem há de.

Ele vai ao cerne quando pondera que, embora caminhem juntas (pelas mesmas faculdades e não raro cursando as mesmas disciplinas), são profissões distintas e – que se ressalte bem – conflitantes. O jornalismo nada tem a ver com quaisquer outros meios e métodos de se lidar com a informação.

Eu já o disse aqui [31/7/2002], jornalista não é James Bond (vide caso Tim Lopes). E o disse na Abraji: assessor de imprensa não é jornalista, tema que suscitou rica discussão entre os filiados. Eu o ponderei, também, em relação à Fenaj, onde há mais assessores de imprensa filiados que jornalistas jornalistas (figura de expressão decorrente da existência de jornalistas que, na prática, são assessores ou donos de empresas de assessoria).

Quando Dines fala em inalienável conduta de independência do jornalista em relação às fontes de informação dirigida, me permito observar que se perpetrou contra o jornalismo pátrio grave lesão quando, com a criação das centrais sindicais (e uma delas tendo como berço um partido político), os sindicatos de jornalistas nos estados, pelo engajamento de seus líderes, conseguiram a anuência de suas assembleias deliberativas para se filiarem à Central Única dos Trabalhadores.

De repente, os sindicatos tinham lado e, nas redações, muitos jornalistas passaram a tê-lo. Foi a época em que os engajados eram identificados como “barbudinhos” ou “xiitas”. Os independentes eram por aqueles tidos como omissos. Já o não adepto e o antípoda eram tidos como da direita, quando não chamados de “reacionários”.

Parcela de culpa

Eis que este é um aspecto a se considerar, quando se decidir discutir sobre de que sindicatos são os jornalistas, pois a independência, como valor universal da profissão, exige do órgão que a representa o descompromisso pleno com bandeiras ideológicas e/ou partidárias. Assim, a desfiliação dos sindicatos da classe junto à CUT é, no meu entender, questão imperativa.

Entremos no ponto nuclear do artigo do Dines sobre o “caso Bordoni”. A ele e aos leitores e leitoras peço licença para dizer uma só frase em meu benefício: jamais converti esta profissão bimilenar em mero exercício de agarrar oportunidades.

Eu não agarro oportunidades. Eu sempre construí o meu espaço com independência. Não sou dado a montar em cavalo que passa arreado. Aprendi bem cedo a laçá-lo, a domá-lo e a montá-lo. Abomino oportunismo e oportunistas. Ponto.

Volvamos ao affaire bordoniano. Em momento algum da relação entre mim e o candidato houve o jornalista em campanha, mas tão só um técnico especializado em propaganda eleitoral no rádio e na TV. Eis por que é impertinente, no meu caso, qualquer ilação neste rumo (jornalista-candidato, jornalista-campanha, jornalista-caixa 2). Eu não estava ali como tal.

Aliás, desde 1998, quando acreditei no amigo Marconi Perillo, eu mergulhei de corpo e alma, como o homem do rádio, naquela e em todas as demais campanhas dele. Vivíamos uma amizade amadurecida desde 1986, daí nunca ter havido desconfiança mútua ou da minha parte ou da dele em relação aos nossos contratos verbais para a execução das campanhas. E não só agora, mas em vezes anteriores, restaram saldos de campanha a pagar.

Dines está certo quando diz que os colegas erraram ao me identificar como o jornalista responsável pela propaganda eleitoral no rádio, ainda que eu seja jornalista. E radialista, que também o sou. Eu seria locutor, apresentador, responsável pelo programa, mas jornalista, não.

A mim há grande parcela de culpa, pois eu assim me identifiquei no breve currículo apresentado aos membros da CPMI, onde poderia ter dado ênfase tão só à minha condição de responsável pela propaganda eleitoral radiofônica. Peço desculpas aos senhores, até porque, ao atacarem a mim como jornalista, sobrou certo desapreço por conta do analfabetismo emocional de alguns deles.

Dinheiro ilícito

O “caso Bordoni” é exemplo vivo de como você, jornalista, não deve negligenciar na profissão por conta de preferências eleitorais. Não há como ser meio jornalista e meio marqueteiro, pois são metades que não se juntam. E é um hibridismo pernicioso. Só se pode ser jornalista por inteiro.

Há, no contexto do meu caso, um viés que merece ser observado, estudado, amplamente discutido e debatido: na cobertura da tal comissão parlamentar mista de inquérito há jornalistas fazendo antijornalismo por conveniência patronal ou pessoal.

Certos jornais sequer vale a pena discutir, principalmente no caso de Goiânia, onde, à exceção de O Popular, ao público se oferece noticiário oficial e páginas regiamente pagas pelo erário para, como no meu caso, promover a minha desconstrução moral e social. Já fui a Marte, Júpiter, Vênus, Urano Netuno e Plutão, sofro de transtorno bipolar, sou mentiroso e irresponsável. Ah, e mentecapto.

O diagnóstico até poderia estar correto se fosse eu capaz de proezas como as lucubradas pelos palacianos. Pela mulher do contraventor, Andressa Carvalho, e pelo braço político dele, Vladimir Garcez, os depósitos feitos em conta de minha filha eram decorrentes de extorsão a que submeti Cachoeira, em troca de não revelar ao público o pas de deux (ele e Demóstenes).

Não só os pasquins jingle bell, mas até revista consagrada se deu ao deleite de ouvir só o lado da matéria pronta, suprimindo o contraponto. À exceção da TV Anhanguera, os demais canais locais também ignoraram o meu lado, negaram a mim vez e voz.

Colunistas usam seus espaços, blogues, programas de rádio para dizerem o que lhes foi encomendado. Sendo contra mim, fiquem à vontade. Ficaram. Devem mandar a nota no final do mês.

Eu já previa tal conduta, conheço esses pedaços e seus donos. Eu não os temi, sei que tenho comigo a verdade e ela se revela a cada dia, se materializa como prova irrefutável de que houve dinheiro ilícito pagando saldos de campanha. O jornalismo feito por jornalistas não engajados, por profissionais moldados na independência aqui ressaltada por Dines, cuidou e está cuidando de mostrar que eu estava com a razão, quando disse que a Lúcio Gouthier cabia a responsabilidade de explicar de que modo o dinheiro da contravenção foi usado para pagar os meus serviços.

História inacabada

Não tem sido fácil a travessia dessa tempestade. Os humanos, como soem aos humanos, usam os meios de que dispõem para acusar, julgar e condenar. Muitos nem sabem um terço da história, outros nem a ouviram, outros tantos só aos pedaços, mas ainda assim prolatam as suas “decisões”.

Não vou ao mérito porque, polêmico, o assunto rende. Restrinjo-me à medida do tamanho dado ao assunto. A régua de Dines merece respeito – o meu, principalmente. Luiz Carlos Bordoni foi jornalista. Não mais é.

Eu deveria ter continuado a minha jornada. Ao mudar os rumos, mudei a minha história. A do ex-jornalista jaz inacabada. A do sucedâneo, ainda que com poucas páginas, resta como lição. Dura para mim, importante para os senhores.

***

[Luiz Carlos Bordoni foi jornalista]

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