Terça-feira, 18 de Dezembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1018
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JORNAL DE DEBATES >

O melhor é rir também

Por Muniz Sodré em 25/01/2005 na edição 313

Os estrategistas de comunicação do Palácio do Planalto manifestaram publicamente o seu descontentamento com o batismo chistoso, feito pela imprensa, do novo Airbus presidencial: ‘AeroLula’. Alguns parlamentares atacam a opção, outros a defendem com argumentos aparentemente razoáveis, a exemplo do artigo escrito pelo senador Sarney na Folha de S. Paulo (‘Chegou o A-319’, 14/1/05, pág. 2). Para o leitor comum, é no fundo indecidível a questão de se saber se o avião deveria ou não ter sido comprado, porque o assunto comporta, além dos aspectos de conveniência pública, detalhes técnicos para os quais não se dispõem de maiores dados, além dos oferecidos pelos porta-vozes da Aeronáutica.

Entende-se, em princípio, que haja alguma preocupação com o apelido do avião, especialmente quando se consideram declarações recentes do próprio primeiro mandatário da República (a propósito das indicações sintomáticas de uma grande greve do funcionalismo público) no sentido de que o governo estaria perdendo a ‘batalha da comunicação’. Sabe-se o quanto apelidos, trocadilhos e piadas podem ser danosos a qualquer imagem pública. Pertence, aliás, à história da propaganda o fato de que, em pleno Terceiro Reich, a Gestapo dispunha de seu próprio departamento de chistes, cuja missão era descobrir os responsáveis pela criação de piadas políticas, acreditando-se que haveria centros clandestinos de elaboração daquela ‘dinamite verbal’.

Soube-se depois que não havia centro nenhum. As piadas surgiam, como em toda parte, da sábia espontaneidade popular, no acaso de um encontro festivo ou nas rodas de chope. E surgem, às vezes, como um recurso de defesa irônica frente a algo que não se conhece bem racionalmente em termos individuais, mas que se pode sentir enquanto membro de um grupo determinado. Um exemplo brasileiro: a ditadura militar estava no auge quando um dia, na televisão, o todo-poderoso ministro Delfim Neto dispôs-se a demonstrar de giz e quadro-negro na mão como era possível a um trabalhador sustentar a família com o salário e, ainda por cima, poupar. Não precisava ser igual aos japoneses, observou, mas a poupança seria possível, sim. E diante dos olhares estarrecidos de muita gente, comprovou matematicamente a sua tese.

Evidentemente, não havia como contra-argumentar, porque se conheciam as conseqüências. Mas é também possível que, mesmo recebendo permissão, o cidadão comum não conseguisse debater racionalmente com um professor de Economia, versado em números e equações. No entanto, ainda assim, qualquer indivíduo era capaz de sentir que ali havia algo errado. Não era possível, nunca foi, sobreviver decentemente com salário mínimo: a vida prática fornecia as provas.

Reserva de opinião

O que então fazer? A piada, o apelido chistoso, o trocadilho eram e continuam sendo recursos de defesa da sanidade intelectual e psíquica de cada um posto em dissimetria no plano dos discursos sociais. Nas pequenas cidades, nos grotões de vida mal imaginada pelos habitantes dos grandes centros urbanos, um simples apelido pode sintetizar, como num slogan, todos os atributos ou predicações circulantes na comunidade sobre determinado indivíduo. Trata-se de um saber que parte diretamente da sensibilidade coletiva e que, na maioria das vezes, dispensa justificativas racionais.

Esses mesmos mecanismos da oralidade de que se reveste o vitalismo da cultura do povo funcionam também nas metrópoles. Só que, cada vez mais, assumidos pela mídia. Na publicidade, nos espetáculos de variedades, nas dramatizações, o chiste, mais do que as grandes razões, mobiliza as consciências para aspectos importantes do enrijecimento das relações sociais e políticas. O riso é uma grande paixão popular, uma paixão, aliás, como bem o viu Kant, ‘decorrente da transformação súbita de uma expectativa densa em nada’.

Brizola já havia batizado Lula de ‘sapo barbudo’, arrancando do próprio e de todos o riso que decorria da transformação em nada da expectativa de uma luta política maior. Quanto aos aviões presidenciais, eram antes o ‘Sucatão’ e seus dois ‘sucatinhas’. ‘AeroLula’ é, agora, um modo chistoso de a imprensa fazer as vezes desse povo a quem não se dá a chance de argumentar, criando uma reserva de opinião, um retardamento de adesão, uma cautela irônica sobre o novo Airbus. Entende-se, repetimos, que os especialistas em imagem do Planalto possam dar algum trato à bola sobre o assunto. O mais sensato, entretanto, seria começar a rir também.

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Jornalista, professor da UFRJ

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