Domingo, 17 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

JORNAL DE DEBATES > SOBRE A FOFOCA

O mexerico que atrai

Por Ligia Martins de Almeida em 22/03/2005 na edição 321

Pena que os homens não vão ler a matéria sobre fofoca no ‘Suplemento Feminino’ do jornal O Estado de S.Paulo (19/3). Ao encomendar um artigo para Geraldo Galvão Ferraz, o suplemento saiu da sua tradicional mesmice e discutiu, com a maior seriedade, a grande mania dos nossos dias: a vida alheia. A fofoca como necessidade do ser humano é o tema de uma grande matéria. O jornalista prestou um serviço à imagem das mulheres.

Primeiro porque, em vez de reforçar o preconceito que tenta tornar a fofoca exclusividade feminina, mostra que a arte de falar mal dos outros é inerente ao ser humano. Em segundo lugar, por mostrar que os suplementos femininos podem, e devem, falar seriamente de qualquer assunto. Até mesmo de fofoca.

Como não havia espaço para um tratado, o jornalista não falou do lucro que as empresas jornalísticas têm com a fofoca.

Aldo de errado

A revista Caras se firmou nos consultórios e cabeleireiros desbancando a Contigo!, até então a número 1 das salas de espera do país. Em vez da vida de artistas, os leitores passaram a comentar a vida dos ricos e famosos. E, na esteira, surgiram muitas outras que, no lançamento, oferecem CDs, livros e outros brindes até conquistar sua fatia no mercado de fofocas. Mercado que é também disputado por revistas semanais, femininas ou masculinas. Pauta nenhuma (inclusive na TV) fica completa se não houver uma celebridade falando de coisas íntimas ou dando opiniões.

A fome por celebridades – verdadeiras ou forjadas – é tanta que por qualquer coisa as pessoas ficam famosas. É só ver o caso de programas como Big Brother.

Quando confinar um monte de gente numa casa e ficar filmando a vida deles vira notícia, a ponto de o canal de TV conseguir vender o programa para assinantes que querem acompanhar aquilo por 24 horas, é porque tem algo muito errado com os espectadores.

E o pior é que se você não vê o Big Brother e não acompanha a novela da Globo, acaba sem assunto nas reuniões sociais. Fica por fora.

Marido ultrajado

Na mesma semana em que o Congresso Nacional debatia o aumento dos deputados, presos se amotinavam nas prisões e greves de transportadores congestionavam Rio e São Paulo, o beijo entre um homem divorciado e uma mulher continuava sendo discutido. E provocando debate entre O Globo e a Veja, a maior revista semanal do país.

Duas publicações, diga-se, dirigidas por homens que, segundo artigo do Geraldo Galvão Ferraz, não se interessam por esse tipo de fofoca. Diz o jornalista: ‘Os homens estão muito mais interessados no tititi de quem está em alta e quem está em baixa. As mulheres já fofocam mais sobre quem transgride os limites morais e quem está por dentro ou por fora (da moda, do grupo social, etc)’.

Se é verdade que as publicações queriam agradar às mulheres, deveriam, pelo menos, ter mostrado melhor a mulher beijada por Chico Buarque, que fica parecendo uma indefesa mocinha, seduzida pelo charmoso astro. Dela se soube que é casada e tem dois filhos. E que tem um marido ‘protetor’, disposto a exigir explicações do artista.

É como se a mulher servisse apenas para posar na foto. Como se o problema fosse apenas entre os homens, o galanteador e o marido ofendido. Como se a vontade do homem fosse a única coisa decisiva em casos como este.

Uma postura, aliás, que era muito freqüente nos casos de morte de mulheres por maridos e namorados, e que depois alegavam legítima defesa da honra. O adultério não é mais crime, segundo o Código Penal, mas a imprensa ainda não se deu conta disso. Celina, a personagem da fofoca do momento, passou-se por adúltera que tem um marido ultrajado disposto a defendê-la do assédio. Até um novo famoso fazer alguma coisa que mereça ser noticiada.

Catálogo de futilidades

Respeitados os polpudos lucros trazidos pela fofoca, a imprensa tem também o dever de educar. Sejam sobre a importância de quem está em alta ou em baixa ou quem está por fora ou por dentro, matérias que tratam desses assuntos deveriam discutir também a condição feminina no mercado de trabalho, em casa, na sociedade e no mundo. E mostrar que outros assuntos – como greve ou congestionamento – podem interferir muito mais diretamente no cotidiano das mulheres que o Big Brother.

Se os grandes sucessos do momento são os reality shows e bobagens como Oprah Winfrey (canal GNT, todo santo dia), que mostra as brasileiras de 30 anos como pessoas que têm como única preocupação manter a forma física, a imagem da mulher continuará a mesma. E, pior, não são alertadas pela imprensa do quanto o noticiário de política ou economia é importante para o dia-a-dia de cada um delas.

À medida que os jornais catalogam as futilidades como assuntos exclusivamente femininos, a grande maioria das mulheres vai continuar achando que seu papel é receber flores, gastar dinheiro e se manter bonita.

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Jornalista

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