Segunda-feira, 11 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº969

JORNAL DE DEBATES > CASO RCTV

O nome do jogo em Caracas

Por Muniz Sodré em 29/05/2007 na edição 435

Hegemonia, como bem se sabe desde Lênin e Gramsci, é a imposição dos valores que enquadram os interesses da cidadania e concorrem para a direção moral e intelectual da sociedade. Em outros termos, é a dominação por consenso. É principalmente isto o que está em jogo no cancelamento da concessão de transmissões da Rádio Caracas Televisión (RCTV) por Hugo Chávez, na Venezuela.

Não há dúvida de que se fazem presentes as manifestações de força pura e simples – carros blindados e veículos militares nas rodovias de Caracas –, mas o ato governamental é respaldado pelo preceito constitucional que outorga ao Estado a administração do espectro radioelétrico. Claro que se trata de uma decisão política, mas a sua forma é jurídico-administrativa, dentro dos limites da legalidade, altamente prezada por publicistas ou privatistas.

A hegemonia buscada por Chávez passa pelo estabelecimento de uma mídia oficialista, cujo ponto de partida deu-se em dezembro passado. Até agora, desapareceram duas emissoras privadas na esfera do circuito aberto televisivo: a CMT e a RCTV. A primeira, sem grande importância, devido à sua cobertura limitada. A segunda, a mais antiga e a detentora da maior audiência nacional, dá lugar à fundação governamental Televisora Venezolana Social (TVes), que preconiza emissões de natureza educativa.

Efeito realista

Evidentemente, ninguém acredita nessa ‘educação’, que chega sob o marketing político da democratização das comunicações ou do ‘resgate da condição de cidadania que foi seqüestrada do indivíduo latino-americano’. Trata-se mesmo de mais um episódio no processo de construção de hegemonia governamental por meio de um redirecionamento do sistema informativo. Outros canais privados já estão afinando as suas linhas editoriais com os ditames do governo venezuelano.

Mas também não há como levar a sério, sem mais nem menos, os argumentos contra-hegemônicos correntes, no sentido de que estaria sendo violado ‘o direito de livre expressão e informação de todos os venezuelanos, especialmente dos mais pobres’.

Primeiramente, é preciso fixar nas mentes críticas, de uma vez por todas, que esse velho e belo argumento das liberdades civis (vide a francesa Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão) adapta-se à fase histórica dita da ‘alienação’, em que a cidadania era violentamente oprimida e em que os sujeitos tentavam reverter a situação por meio de uma ação revolucionária de massa. A imprensa livre era fundamental, e sempre será, aliás, diante de toda ameaça de retrocesso constitucional. Mas aí também ressoava a frase famosa do publicista Émile de Girardin: ‘Aux pauvres, le silence!’. Ou seja, quem não tem dinheiro não fala.

Outra coisa, entretanto, é a situação das massas no quadro do ‘ultraconsumo’ conspícuo e da indiferença política, acelerados pela mídia eletrônica, em cujo circuito aberto impera a televisão. Com a TV, trata-se mais de ‘ver’ do que de ‘falar’, isto é, de se expressar livremente. E essa visão ‘tele’ não opera necessariamente no sentido de uma melhor compreensão do mundo, como salienta uma determinada linhagem de analistas, de Marshall McLuhan a seu discípulo canadense, Derrick de Kerckove. Para este, toda a explicação é orientada pela especificidade técnica do dispositivo televisivo, portanto, pela eletrônica em si mesma, e mais especificamente pelo efeito realista de impregnação do corpo do espectador pelos signos da televisão.

Mal das pernas

O processamento da imagem televisiva, na análise de Kerckove, constitui-se de impulsos eletromagnéticos e por isso se aproximaria da música. Trabalhando em ritmo muito rápido com as reações neurofisiológicas do espectador, a televisão processaria quase-musicalmente (no sentido da aglutinação de elementos por contigüidade harmônica, mais do que por significação) os afetos de uma comunidade de recepção, modulando-lhe magneticamente a sensibilidade. Por isto, diz ele, ‘a televisão fala, em primeiro lugar, ao corpo e não à mente’. Ou seja, o essencial dos estímulos televisivos estaria na varredura dos elétrons que percorrem velozmente as linhas na superfície do vídeo.

Retorna-se sempre ao aforismo mcluhaniano: o conteúdo (a mensagem) é secundário diante do feixe de elétrons que define tecnicamente o meio. A ausência de intervalo entre o estímulo eletrônico e a reação psicológica do espectador provocaria um tipo de interpretação das imagens no vídeo por uma ‘mímica sensomotora’, portanto uma reação de natureza neuromuscular, extensiva a todo o corpo.

Concorde-se ou não com a teoria, o fato é que a predominância da eletrônica na estrutura da corporação midiática põe em cena um outro tipo de expressão, que pouco tem a ver com a bandeira liberal-clássica das liberdades civis. Isto tem sido sublinhado aqui neste Observatório da Imprensa por mim próprio e por um número razoável de comentaristas. Vale, entretanto, repetir a observação, porque o fenômeno evidencia-se com muita clareza em todo o imbroglio venezuelano: no espaço público (nacional e internacional) argüi-se a temática da liberdade de expressão, mas nas ruas ou praças públicas de Caracas, a chamada ‘opinião pública’ está mesmo preocupada é com a grade de entretenimento da RCTV, cujo carro-chefe são as novelas, mais precisamente Mi Prima Ciela, que tem uma audiência de 3 milhões de espectadores no horário nobre local.

Não à toa, na campanha feita pela emissora contra o fim da concessão do canal, uma dona-de-casa pedia a Chávez para ‘deixar a minha novela em paz’. Nos termos de Kerckove, a emoção sensomotora, e não a consciência liberal dos direitos civis, estaria agora dando a impulsão neuromuscular para que os corpos do protesto ganhem as ruas.

São certamente possíveis outros ângulos de análise. Não resta dúvida, porém, de que o apelo puro e simples ao velho ideário da liberdade de expressão – em que pese a movimentação nesse sentido por parte do Parlamento Europeu, da Comissão de Relações Exteriores do Senado norte-americano, da OEA e da Sociedade Interamericana de Imprensa – vai tão mal das pernas quanto a alegação de Chávez de que pretende democratizar a comunicação na Venezuela. Na realidade, para uns e para outros, pouco importa a razão última de seus discursos, pois o nome do jogo é mesmo ‘hegemonia’.

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Jornalista, escritor, professor titular da Universidade Federal do Rio de Janeiro

Todos os comentários

  1. Comentou em 05/06/2007 Kleber Carvalho

    Chávez, o Senado e a mídia escrota .De todas as formas, tenta jogar o governo e a sociedade brasileira contra o processo revolucionário bolivariano. Defensora descarada do tratado neocolonial da Alca, derrotada nas ruas e nas urnas, ela usa todos os ardis para implodir o rico processo em curso de integração latino-americana. A mídia privada, partidária de golpes fascistas no passado, como em 64, e no presente, como na abjeta manipulação nas eleições presidenciais de 2006, agora tenta pousar de “democrata” e “nacionalista”. Dá nojo e asco!

  2. Comentou em 31/05/2007 Ivan Moraes

    Señor Francisco, calate. El futuro de Latino America esta en a ser decidido.

  3. Comentou em 31/05/2007 Ivan Moraes

    Señor Francisco, calate. El futuro de Latino America esta en a ser decidido.

  4. Comentou em 30/05/2007 MARCIA SOMBREIRO

    SOBRE O MESMO TEMA, GOSTARIA DE SUGERIR UM BLOG BEM LEGAL, COM ASSUNTOS VARIADOS, DA REPÓRTER DO PROGRAMA DO JÔ, TATIANA REZENDE. ELA FALA DO ASSUNTO DE UMA MANEIRA BEM HUMORADA. O LINK É http://tatirez.blog.terra.com.br

  5. Comentou em 30/05/2007 Fábio de Oliveira Ribeiro

    Gostemos ou não Hugo Chávez foi democraticamente eleito pela população da Venezuela. Seu mandato é, portanto, legítimo. Gostemos ou não, a rede de TV que ele fechou teve uma participação importante na tentativa de golpe que quase o depôs pela força da presidência. Esquecendo-se que era concessionária de um serviço público e que deveria apoiar a preservação da legalidade na Venezuela, a RCTV deu total apoio os golpistas e tentou legitimar uma ilegalidade. Portanto, a companhia se excedeu e merecia realmente ser fechada.

    O fechamento da RCTV não pode ser considerada uma afronta à liberdade de imprensa. O Estado não é obrigado a renovar qualquer concessão de serviço público. Como fonte da legalidade, a principal tarefa do Estado é preservar a mesma e punir os abusos cometidos pelos concessionários do serviço público.

    A mídia televisada, de tão desacostumada a submeter-se ao Estado, de tão convencida do poder exagerado que exerce com a conivência dos políticos que elege, quer fazer parecer o contrário. Mas neste caso a ilusão não pode dominar a realidade. A decisão do “marechal dos mosquitos” é perfeitamente legítima.

  6. Comentou em 29/05/2007 Antônio Carlos Oliveira

    Se Muniz Sodré conceituasse o termo hegemonia no sentido estritamente lexical ele estaria correto, porque Chavez usa os mecanismos democráticos para acabar com a oposição a seu governo. Mas o caminho em direção à hegemonia – do ponto de vista gramnsciano – é um caminho suave, tendo a ver com a moldagem gradativa da psiqué das massas, preparando-as para uma tomada de poder sem grandes oposições. Todavia Chavez não é nada disso. A estratégia chavista é a mais grossa tentativa de absolutismo e perpetuação no poder, amparado por uma massa ignara, que para ela tanto faz, se Democracia ou absolutismo, mesmo porque estes conceitos pouco influem em seu cotidiano, mais afeto aos que detêm os mecanismos de poder de uma determinada sociedade. A Venezuela está indo na direção contrária da experiência histórica. Isto me ocorre a lembrança do livro que estou a ler – ‘HISTÓRIA DOS JUDEUS’, do historiador inglês Paul Johnson. Neste livro, Paul narra a capacidade inacreditável do povo judeu de acumular experiências marcantes, repetindo os acertos e procurando não repetir os erros. O salvador da pátria venezuelana vai repetir situações políticas que já foram postas na lata de lixo dos povos faz muito tempo: Populismo, mobilização popular contra um inimigo imaginário, uso da força, intromissão nos problemas pessoais etc. Será que os latinos não conseguem reter conhecimento histórico?

  7. Comentou em 29/05/2007 jorge cordeiro

    Suponhemos que descobrissem que a BBC conspirou contra o governo inglês juntamente com militares? Ou que o editores e executivos da Fox ajudaram generais do Pentágono a arquitetar um plano para tomar de assalto a Casa Branca, em reuniões na casa de um famoso jornalista, e levaram a cabo parte do plano em seguidas edições de telejornais e edição de matérias? Qual seria a reação das respectivas autoridades? Concessão pública não é eterna e deve seguir determinadas regras. No caso da RCTV, o prazo expirou e a empresa seguidamente deturpou, alterou, mentiu e insultou seus adversários. Ponto para Chavez! Já vai tarde, RCTV, bem-vinda TVes! Os (tu) barões brazucas que coloquem suas barbatanas de molho… (www.escriba.org)

  8. Comentou em 29/05/2007 italo dueck

    Porque é que a Globo está dizendo que a TV da Venezuela fazia oposição ao Chaves e não a verdade, que a tal tv participou de um golpe de Estado, para derrubar o Presidente e o processo que resultou na perda da concessão,se deu de acordo com a lei vigente no País. A democracia no Brasil está mais madura que a Venezuelana, não há risco para nenhuma TV, nem se ouve ninguem exigindo fim de nenhuma delas, e o fato do Chaves ter acabado com a TV envolvida em golpe de Estado, não quer dizer que todo governo latino vai cassar toda TV envolvida em golpe de Estado, mas é compreensível o receio de alguns, as surpresas da PF já estão melhores que novela das oito, desmantelar quadrilhas é cena cada vez mais comum no cenário Nacional. Apoio governo que investiga, parabéns a PF, não parem, não se intimidem, a gritaria vai ser grande, peixe grande dá trabalho e o trabalho tem que ser feito.

  9. Comentou em 29/05/2007 Moacir Moreira

    Com relação à continuidade da novela, a emissora já estava ciente de que iria sair do ar e bem poderia ter transmitido o último capítulo antes disso.

    Típica malandragem latino americana.

    A propósito do comentário da Dona Zenóbia, gostaria de saber se ela poderia nos sugerir alguma leitura que desobstrua a mente.

  10. Comentou em 29/05/2007 Carlos Kazuo Inoki

    Pelo que entendo as acoes do Chaves estao dentro da legalidade. O cancelamento da concessao nao ocorreu por um ato unilateral. Obviamente a rede de TV cometeu violacaoes as regras do jogo, o que deu municao para Chaves. Se algo esta errado com essas regras, cabe ao parlamento Venezuelano corrigi-las. De resto, ainda acho que ha uma certa dose de corporativismo na defesa da tal rede de TV.

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