Quarta-feira, 24 de Abril de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1034
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ENTRE ASPAS >

O ocaso de um imperador

Por Celso Lungaretti em 10/02/2009 na edição 524

Só em 2009, a revista CartaCapital já enfocou o caso Cesare Battisti em seis textos: dois do diretor de redação, Mino Carta; dois de Wálter Fanganiello Maierovitch; um creditado à redação mas obviamente escrito por ou sob a orientação de Mino Carta; e um de Cynara Menezes.


Dá mais de um texto por edição. E, sintomaticamente, os seis são absolutamente desfavoráveis a Battisti, sem qualquer nuance, sem que tenha sido apresentado o outro lado, sem a mais ínfima contrapartida.


O bravo companheiro Rui Martins ainda tentou exercer o direito de resposta, por meio de uma carta aberta:’Resposta a um jornalista e blogueiro‘.)


Mino a postou como comentário no seu blog, sem responder.


Assim como não respondeu ao comentário que lá postei, depois publicado no meu blog com o título de’O ocaso de um imperador‘.


O’diálogo impossível’


Ou seja, nos dois casos teve o contraditório nas mãos e nos dois casos preferiu ignorá-lo, mantendo sua revista como um veículo de uma mão só, que mantém uma encarniçada perseguição a um homem sobre quem não pesa qualquer suspeita ou acusação desde 1981, quando fugiu para a França.


De 1981 para cá, reconhecidamente, não passou de um indivíduo inofensivo, levando uma existência laboriosa e sofrida.


Por que Cesare Battisti é tão odiado por Mino Carta? Afinal, tal sanha rancorosa o levou a:


** adotar em sua revista uma postura tão parcial e tendenciosa quanto a da Veja, que ele costumava criticar (e, de tão transtornado que anda, chegou a citar como exemplo positivo, aprovando sua mudança de posição no caso Battisti, quando, depois de abordar o assunto com surpreendente comedimento, a Veja voltou à postura habitual de reacionarismo furibundo);


** dedicar nada menos que 18 posts do seu blog, só em 2009, à malhação de Battisti;


** ameaçar encerrar o blog em razão da existência de muitos apoios a Battisti nos comentários de leitores que recebia; e


** depois de refugar por alguns dias, cumprir a ameaça, anunciando que não escreverá mais nem no blog nem na própria CartaCapital, principalmente por causa do caso Cesare Battisti, o motivo mais destacado no post’A despedida‘.


Curiosamente, essa retaliação pueril contra o rebanho que ousou discordar do pastor o faz merecedor das palavras que endereçou a seus críticos, no post’Sobre o diálogo impossível’, um dos últimos que redigiu antes de abandonar unilateralmente o diálogo:




‘Chego à conclusão de que há pessoas com as quais é impossível dialogar. Irritadiças e até raivosas, escondem os recalques atrás de uma agressividade parva.’


O’patético Napolitano’


Quanto aos reais motivos de Mino, nada tenho a acrescentar ao que já escrevi no artigo’Ecos do caso Dreyfus na perseguição a Battisti‘.




‘Durante a onda contestatória do final da década de 1960, a esquerda ortodoxa tomou o partido da ordem, ajudando a abortar a nova forma de revolução que estava nas ruas. O episódio mais conspícuo foi o da Primavera de Paris, em que jovens proletários somaram forças com os estudantes rebelados e os quadros do Partido Comunista Francês tudo fizeram para a derrota de ambos, agindo como sustentáculos de De Gaulle.


Inconformados com o que consideraram uma traição à causa, cometida em maior ou menor escala pelos partidos comunistas, muitos esquerdistas concluíram que a revolução se tornara impossível nos quadros da democracia burguesa, resolvendo então recorrer à ação direta.


Só na Itália, ao longo da década de 1970, cerca de 500 grupúsculos encarnaram essa opção. E, por se colocarem frontalmente contra o compromisso histórico firmado pelo PCI, foram por este combatidos como o pior dos inimigos.


Valia tudo para erradicar o mau exemplo, pois o que estava em jogo, para os comunistas italianos, era sua própria identidade como força integrante do campo da esquerda, negada pelos ultras. Urgia tirá-los de cena, e foi o que o PCI fez, mancomunado com a direita italiana.


Essa aliança espúria repercute até hoje, na ênfase desmedida que os italianos estão dando a um episódio secundário.


Battisti era apenas o integrante de um desses 500 grupúsculos, sem nenhuma participação em episódios realmente marcantes. Só que, com seu êxito literário, deixou de ser um foragido anônimo e se tornou uma ameaça para quantos querem manter a sujeira do passado escondida sob os tapetes.


É como último símbolo do martírio desatinado dos ultras que o fanfarrão Berlusconi, sempre ávido por holofotes, persegue Battisti.


E é como testemunha viva da torpeza outrora consentida pela esquerda ortodoxa, pesando até hoje em sua (má) consciência, que o patético Napolitano persegue Battisti.’


Empreitadas e valores mais dignos


Substituindo-se’Napolitano’ por’Mino Carta’, simpatizante extremado do PCI, chegamos ao âmago da questão: a má consciência de ditos comunistas que ajudaram a martirizar os comunistas autênticos, primeiramente levando-os ao desespero ao firmarem uma aliança espúria com a burguesia para ganharem acesso à gestão do Estado burguês; depois, acumpliciando-se com as forças mais reacionárias da Itália (inclusive a Máfia) na repressão desmedida aos ultras, marcada por torturas policiais e aberrações jurídicas que justificam plenamente a expressão macartismo à italiana.


Não me lembro se em livro ou filme, encontrei certa vez um pensamento que me marcou muito e, dentro do possível, tenho procurado seguir: como você agiria se soubesse que vai praticar o último ato de sua vida, aquele pelo qual será lembrado?


Temo que, nessa eventualidade, Mino Carta seria lembrado como um caçador de bruxas, a clamar por sangue e vingança. Mas ainda tem tempo para associar seu nome a empreitadas e valores mais dignos.


Como não desejo o pior para ninguém, torço para que caia em si e perceba o mal que está fazendo a Cesare Battisti, aos ideais solidários, àqueles que neles acreditam e, inclusive, a si próprio.

Jornalista e escritor, mantém blogs aqui e aqui

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