Sábado, 20 de Outubro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1009
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JORNAL DE DEBATES >

O outro lado

Por Luís Victorelli em 10/08/2004 na edição 289

A democracia americana fica devendo essa a Michael Moore. Fahrenheit 9/11 presta um serviço aos Estados Unidos não pelo nobre sentimento de mostrar a ‘verdade’ ao seu povo ou ao mundo, mas justamente o contrário. Moore contribuiu porque foi parcial, tendencioso, mostrando apenas um lado – o ruim – do governo de seu país. O cineasta completou um serviço que a mídia americana e mundial, de forma geral, não fez como deveria.

Uma regra básica do que poderemos chamar de bom jornalismo é ouvir os lados envolvidos. Muitos jornalistas pelo mundo afora, inclusive no Brasil, esqueceram dessa regra e optaram pela passividade confortável oferecida pelo lado mais forte. Os releases da Casa Branca se mostraram bem mais persuasivos e seguros do que a ‘busca pela verdade dos fatos’. Aliás, essa quase que utópica busca é o que deveria pautar a missão de uma imprensa livre, forjada na própria América, berço da democracia moderna e das liberdades.

E foi justamente em nome das liberdades que ‘os olhos e ouvidos da sociedade’ – definição do jornalismo no código de ética da imprensa americana – praticamente se fecharam. Com boa dose de miopia e surdez severa o mundo editorial elegeu o ‘outro lado’: o terrorismo. Quando poderiam falar de ‘Os Bush’ x Saddam, CIA x bin Laden, dinheiro x petróleo, a imprensa mundial, com corajosas exceções, cometeu a maior barriga da história. A ‘guerra santa’ da liberdade contra o terror matou mais do que alguns poucos terroristas, soldados desorientados e muitos civis inocentes. Matou o direito à informação, espinha dorsal de uma sociedade democrática. E lidar com esse princípio não é tarefa das mais fáceis. O novo Iraque, livre da ditadura da Saddam, quer também se ver livre da al-Jazira, uma emissora livre demais para o gosto do novo governo.

Rohter para o Oscar

Em meio a tantas incoerências dá para entender por que Moore e a imprensa trocaram de papéis. Enquanto o jornalismo mostra espetacularmente os bombardeios cirúrgicos e trata a morte de seres humanos como ‘efeito colateral’, o cinema revela o nojo dos bastidores do espetáculo, ou pelo menos parte dele. Infelizmente, este não é o único exemplo de que a ficção está se dando bem no terreno jornalístico.

Há três anos, o jornalista Michael Finkel, da revista The Times Magazine, ganhou o Prêmio Pulitzer com uma reportagem ‘turbinada’ sobre a história de um jovem escravo africano. Outra farsa que enganou o Pulitzer veio do Washington Post. Em 1981 a repórter Janet Cooke inventou um personagem chamado Jimmy, de 8 anos, viciado em heroína. Teve que devolver a premiação. No ano passado houve o caso de Jayson Blair no NYT, e em maio último Larry Rohter dizia ao mundo, no mesmo jornal, que as biritas de Lula eram preocupação nacional. Mais ficção, impossível. Em tempos de desemprego e salário de R$ 260, uma das coisas agradáveis capazes de fazer o brasileiro ainda se identificar com o presidente é mesmo uma boa cervejinha.

Bem, do jeito que as coisas andam poderíamos indicar Moore, que já recebeu a Palma de Cannes, para o Pulitzer e, quem sabe, Rohter para o Oscar de roteiro original. Com a questão do Iraque, difícil mesmo seria escolher o melhor na categoria ‘efeitos especiais’.

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Jornalista, diretor do Sindicato dos Jornalistas Profissionais no Estado de São Paulo e coordenador do projeto Sciencenet de Ciência e Cidadania (www.sciencenet.com.br)

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O outro lado

Por lgarcia em 09/01/2002 na edição 154

FOLHA DE PERNAMBUCO

Eduardo de Queiroz Monteiro (*)

O Sindicato dos Jornalistas de Pernambuco publicou e distribuiu, recentemente, longa nota oficial, fazendo várias acusações a esta Folha de Pernambuco, recorrendo a leviandades que mascaram a verdade, semeando imposturas, utilizando como massa de manobra uma pendência trabalhista temporária que se resolverá, no curto prazo, com os honrados profissionais que trabalham neste jornal.

A referida nota, escrita em linguagem panfletária de quem busca a notoriedade superficial e passageira, rompeu entendimentos anteriormente encaminhados entre aquele sindicato e esta empresa de comunicação, os quais vinham sendo mediados sob a arbitragem da Delegacia Regional de Trabalho de Pernambuco.

A supracitada publicação não tem a assinatura do presidente ou representante daquele órgão de classe, fatos muito freqüentes em documentos apócrifos, que se notabilizam pelo conteúdo ofensivo, incapaz de contribuir para o diálogo e soluções harmônicas entre empregados e empregadores.

Causa repulsa que a mesma nota tenha sido enviada a dezenas de pessoas físicas e jurídicas, sem nenhuma relação com uma obrigação trabalhista ainda não quitada (o pagamento da segunda parcela do décimo terceiro salário), atribuindo-nos a condição de réus, o que nos faz lembrar tempos ominosos da ausência de liberdades públicas, em que éramos (inclusive jornalistas) submetidos a julgamentos sumários, sem direito de defesa, e condenados, no mais das vezes, como praticaram e o fazem todas as ditaduras.

O que houve, afinal, de tão grave, que esta Folha de Pernambuco cometeu?

Responderíamos, diretamente, sem subterfúgios, aos nossos leitores, à opinião pública e aos que receberam a esdrúxula correspondência, as acusações que nos são feitas.

Antes de abordarmos os fatos que nos são imputados, é oportuno fazermos um histórico sucinto de como surgimos e conseguimos alcançar uma parcela ponderável de leitores e anunciantes num Estado como Pernambuco, restrito a dois grandes jornais.

Assim, ao decidirmos criar a Folha de Pernambuco, o fizemos correndo o risco calculado de um investimento elevado, de retorno incerto, numa época de recessão econômica e desemprego em todo o país. Mas, era importante, como empresários de sólidas raízes com Pernambuco, comprometidos com os seus melhores interesses, enfrentarmos os riscos naturais de um empreendimento custoso, cujos objetivos principais eram e são a democratização da informação; o acesso de um público de menor renda à leitura diária de um jornal moderno; a contribuição para o aprofundamento do processo democrático e a retomada do crescimento econômico do Estado; e, por fim, ampliarmos a oferta de empregos não só à categoria jornalística como a outros setores num período adverso e recessivo que o Brasil enfrentava há quase quatro anos.

Fomos cumprindo etapas, avançando, conquistando leitores e anunciantes, consolidando o produto, com investimentos industriais, reforma gráfica e lançamento de novos serviços. No ano que terminou, por força da conjuntura desfavorável (aumento do preço do papel jornal, desvalorização cambial, crise energética, instabilidade mundial, problemas políticos na Argentina, atentado terrorista nos EUA), houve uma forte retração no mercado publicitário brasileiro de, aproximadamente, 20%.

Todos esses fatores repercutiram sobre a Folha de Pernambuco que se viu forçada a atrasar, por alguns dias, o pagamento dos salários dos meses de outubro e novembro, inclusive já regularizado. Faltou-nos, porém, no final de 2001, quitarmos a segunda parcela do décimo terceiro salário, assumindo, no entanto, perante a Delegacia Regional do Trabalho, o compromisso de saldá-la.

Nessa oportunidade iniciou-se um processo de negociação com o Sindicato dos Jornalistas, mediado pela DRT, no qual nos propusemos a regularizar a pendência até o dia 31 de janeiro de 2002, além de garantirmos a estabilidade dos empregos no mesmo período.

Essa proposta seria submetida à assembléia geral da categoria, no dia 28 de dezembro próximo passado, cujo resultado deveria ser comunicado à mesma DRT pelo sindicato no dia 2 de janeiro passado. Surpreendentemente, aquele órgão de classe publica e distribui, amplamente, o texto a que nos referimos acima, desprezando a negociação iniciada, em evidente desrespeito à mediação da Delegacia Regional do Trabalho.

Ressalta, ainda, o sindicato existirem autos de infração contra esta empresa, matéria de competência de julgamento pela DRT, cabendo a esta empresa ações de direito de defesa, como, aliás, vem sendo exercido, e negociações a exemplo de termo de compromisso pactuado entre o Sindicato dos Jornalistas e a Folha de Pernambuco.

Para concluirmos, faz-se necessário repelir o comportamento reprovável do Sindicato dos Jornalistas, ao distribuir um texto ofensivo a esta empresa, dirigido a inúmeras pessoas físicas e jurídicas, como se fôssemos a única empresa de comunicação que enfrenta e luta com problemas financeiros. Recorde-se, a bem da verdade, que os grandes jornais brasileiros e emissoras de televisão e radiodifusão vêm passando por graves dificuldades, face à conjuntura desfavorável, que os obriga a reduzir quadros funcionais e cortar despesas.

Não seria, portanto, esta Folha, empreendimento recente de elevado investimento, que estaria a salvo de uma crise geral que afeta os meios de comunicação brasileiros. Todavia, apesar da má-fé, do oportunismo político-sindical, do carreirismo que só contempla o individualismo, esta Folha de Pernambuco prosseguirá com a mesma determinação e as mesmas preocupações com os que aqui trabalham, tendo no horizonte a defesa dos interesses da população de Pernambuco e da melhoria do bem-estar de todos.

(*) Presidente da Empresa Folha de Pernambuco

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