Quarta-feira, 24 de Abril de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1034
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JORNAL DE DEBATES >

O papa mais uma vez na mídia

Por Paulo Bento Bandarra em 10/02/2009 na edição 524

O papa mais uma vez está na mídia fazendo das suas. Engraçado como pessoas não aceitam evidências científicas e as negam insistentemente, mas acreditam em livros escritos há cinco mil anos por pessoas muito mais limitadas em informações, cultura e formação. Pois não é que o papa católico, diz a Santa Sé agora, não sabia nem da militância como da manifestação pública dias antes do pontífice levantar a excomunhão de quatro bispos lefebvrianos, dentre eles Richard Williamson, que nega a existência do Holocausto e de câmaras de gás nos campos de concentração nazistas?

O papa Ratzinger exige agora a retratação do bispo que nega o Holocausto. Mas, ao que parece, a suspensão da excomunhão não foi pedida, pois não faria sentido alguém que saiu voluntariamente se arrepender da divergência e não acatar a determinação antes de solicitar perdão. Foi um ato unilateral do Santo Padre.

Angela Merkel, chefe de governo da Alemanha, não se conteve e, em audiência pública, afirmou não ter o papa Ratzinger, até o momento, dado, no seu pontificado, esclarecimentos claros sobre a posição da Igreja em relação ao Holocausto, depois do levantamento da excomunhão de Williamson. A chanceler Merkel ressaltou que o papa Ratzinger deveria claramente afirmar a existência do Holocausto e destacar não ser possível negá-lo. Até o momento, segundo Merkel, o papa Ratzinger não prestou esclarecimentos suficientes e o fator Williamson pode parecer ambigüidade papal.

Crimes de idéias e de manifestação

A fala de Merkel recebeu o reforço do arcebispo que presidiu a Conferência Episcopal da Alemanha e de vários clérigos igualmente indignados. Para o arcebispo, o levantamento da excomunhão de Williamson foi’catastrófico’.

Na tarde de 5 de fevereiro de 2009, o papa Bento 16 resolveu ser mais incisivo e acertou uma nova nota com a Secretaria de Estado do Vaticano. A nova nota diz que o bispo Richard Williamson deverá se retratar das declarações de negação do Holocausto, e isto’para ser admitido em funções episcopais da Igreja’. Frisa a nota, ainda, que deve o bispo retratar-se’de modo completamente inequívoco e público’ das afirmações.

Na sexta-feira (6/02), depois da divulgação da nota, Williamson compareceu à Justiça da Baviera, onde está sendo processado criminalmente por’incitação ao ódio’. Incitação ao ódio é um eufemismo por negar um dogma de fé moderno.

A Secretaria de Estado aguarda um ofício formal de retratação, que, diante do ocorrido perante a Justiça da Baviera, sediada em Munique, poderá não chegar. Espera-se (o Vaticano) a retratação nas próximas 48 horas. Enquanto isso, a diplomacia vaticana esclareceu que’o levantamento da excomunhão liberou os quatro bispos de uma pena canônica gravíssima’.

O que tem o assunto a ver com a imprensa? Para mim, muita coisa. Entre elas, fundamentalmente, a liberdade de pensamento e expressão. Entre outros aspectos práticos sobre a infalibilidade papal e a sua diplomacia de trator. Mas mais importante são os graves ataques a liberdade de expressão a que o bispo está sendo submetido num mundo moderno que assina a carta da ONU e sendo perseguido por crimes de idéias e de manifestação.

Os direitos humanos

Esperaríamos que uma manifestação falsa fosse combatida por manifestações verdadeiras, como mostrar de evidências documentais, com provas materiais, inequívocas, e não com a cadeia para quem não acredita.

A história dos judeus está justamente marcada por este abuso de dois mil anos. De não poderem se manifestar, contraditar mentiras, de crerem na sua verdade e se reunirem para realizar as mais simples tarefas comunitárias de uma sociedade sem pátria. Sem pátria porque eram rejeitados pelos nacionais como legítimos cidadãos por terem a sua fé própria e não acatarem a fé’oficial’ declarada a verdadeira dentro do Estado. Causa espanto, portanto, que agora aceitem a perseguições aos outros pelos motivos pelo qual padeceram por milênios. Quantos foram queimados por isto na história do catolicismo ao duvidarem, serem contra, questionarem os dogmas católicos? (Por isto chamados dogmas). Como agora se pode aceitar a limitar a liberdade de questionamento histórico? Como pode se garantir a ampla defesa se a palavra pode ser limitada pelo poder? Se a liberdade é limitada arbitrariamente? Se a história é limitadamente decretada?

A Declaração Universal dos Direitos Humanos é um dos documentos básicos das Nações Unidas e foi assinada em 1948. Nela, são enumerados os direitos que todos os seres humanos possuem.

Considerando que os Estados-Membros se comprometeram a promover, em cooperação com as Nações Unidas, o respeito universal aos direitos e liberdades humanas fundamentais e a observância desses direitos e liberdades.

Objetivos e princípios da ONU

Artigo II

1. Todo ser humano tem capacidade para gozar os direitos e as liberdades estabelecidos nesta Declaração, sem distinção de qualquer espécie, seja de raça, cor, sexo, idioma, religião, opinião política ou de outra natureza, origem nacional ou social, riqueza, nascimento, ou qualquer outra condição.

Artigo VII

Todos são iguais perante a lei e têm direito, sem qualquer distinção, a igual proteção da lei. Todos têm direito a igual proteção contra qualquer discriminação que viole a presente Declaração e contra qualquer incitamento a tal discriminação.

Artigo XVIII

Todo ser humano tem direito à liberdade de pensamento, consciência e religião; este direito inclui a liberdade de mudar de religião ou crença e a liberdade de manifestar essa religião ou crença, pelo ensino, pela prática, pelo culto e pela observância, em público ou em particular.

Artigo XXVII

1. Todo ser humano tem o direito de participar livremente da vida cultural da comunidade, de fruir das artes e de participar do progresso científico e de seus benefícios.

2. No exercício de seus direitos e liberdades, todo ser humano estará sujeito apenas às limitações determinadas pela lei, exclusivamente com o fim de assegurar o devido reconhecimento e respeito dos direitos e liberdades de outrem e de satisfazer as justas exigências da moral, da ordem pública e do bem-estar de uma sociedade democrática.

3. Esses direitos e liberdades não podem, em hipótese alguma, ser exercidos contrariamente aos objetivos e princípios das Nações Unidas.

Artigo XXX

Nenhuma disposição da presente Declaração pode ser interpretada como o reconhecimento a qualquer Estado, grupo ou pessoa, do direito de exercer qualquer atividade ou praticar qualquer ato destinado à destruição de quaisquer dos direitos e liberdades aqui estabelecidos.

Prisão e censura

Parece evidente que se está rasgando completamente a carta de 1948 pelos membros signatários em vários lugares no mundo, inclusive o Brasil, em defesa de novos dogmas modernos, que agora podem ficar de fora da mesma e ser imposta a força da espada. E para isto conta com a falta de protesto, manifestação ou luta dos jornalistas. Que deveriam ser os principais guardiões destas liberdades da qual é a essência da sua profissão, assim como dos operadores do direito.

Para o Islã, o escritor Salmon Rushdie, autor de Versos Satânicos, foi emitido uma fatwa, foi assassinado Theo Van Gogh em Amsterdã e o do tradutor de Versos Satânicos em Tokyo, A Jóia de Medina (The Jewel of Medina), da autora americana Sherry Jones, foi suspensa seu lançamento por medo de represália. Para os judeus, os revisionistas precisam ser calados, em vez de contraditados. Como podemos desavergonhadamente ter duas posições, castrando uns, e protegendo outros? Como aceitar a proteção de novos dogmas de fé? Não aprendemos com a história do cristianismo e do islã a maldade intrínseca destes atos? O quanto se lutou pelas idéias do Iluminismo, da Revolução Americana e Francesa, para jogar apressadamente fora na primeira comichão da mão do moderno inquisidor de voltar. Será que é nesta imprensa e nesta justiça vacilante que estamos depositando as nossas garantias de liberdade contra os poderosos de hoje? Jornalistas lutando pelo direito do assassinato político ser visto como forma de humanismo, e se cala frente à prisão e censura de opinião.

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Médico, Porto Alegre, RS

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