Sábado, 20 de Abril de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1033
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JORNAL DE DEBATES >

O papel sujo da Folha

Por Urariano Mota em 03/03/2009 na edição 527

Em 17 de fevereiro, quando publicou o editorial ‘Limites a Chávez’, a Folha de S.Paulo não imaginou o ciclone imenso que provocaria. É que lá no texto ela escreveu ‘…Mas, se as chamadas `ditabrandas´ – caso do Brasil entre 1964 e 1985 – partiam de uma ruptura institucional e depois preservavam ou instituíam formas controladas de disputa política e acesso à Justiça…’, de passagem, como se nada fosse, substituindo ditadura por ditabranda. E fez mais: ao receber, dias depois, mensagens dos professores Fábio Konder Comparato e Maria Victoria de Mesquita Benevides, que protestaram contra o insulto à memória histórica, a Folha de S.Paulo assim respondeu:

‘…Quanto aos professores Comparato e Benevides, figuras públicas que até hoje não expressaram repúdio a ditaduras de esquerda, como aquela ainda vigente em Cuba, sua `indignação´ é obviamente cínica e mentirosa.’

Para quê? Essa qualificação, de indignação cínica e mentirosa, aplicada às palavras de dois intelectuais honrados, provocou o gancho, acordou as forças de todo o mundo culto e democrata do Brasil. Com 2.381 assinaturas, lideradas pelo crítico literário Antonio Cândido [6.390 às 16h30 de 2/3/2009], corre um abaixo-assinado de protesto, que pode ser acessado aqui.

Os decretos secretos

Então começaram a voltar à tona histórias e História, do passado da Folha de S.Paulo, que contavam, relatavam o seu mais que apoio, a sua participação nos crimes da ditadura militar. Das histórias, todas com dolorosos depoimentos de humanidade e denúncia, a da jornalista Rose Nogueira mais chama atenção, pelo caráter particular da sua posição no tempo. Rose era funcionária do jornal, repórter da Folha, quando foi presa em 1969. No entanto, ela descobriu 27 anos depois que foi punida…

‘…Não apenas pela polícia toda-poderosa, pela justiça militar. Ao buscar nos arquivos da Folha de S.Paulo a minha ficha funcional, descubro que, em 9 de dezembro de 1969, quando estava presa no Deops, incomunicável, `abandonei´ meu emprego de repórter do jornal. Escrito à mão, no alto: abandono. E uma observação oficial: dispensada de acordo com o artigo 482 – letra `i´ da CLT, abandono de emprego. Por que essa data, 9 de dezembro? Ela coincide exatamente com esse período mais negro, já que eles me `esqueceram´ por um mês na cela. Todos sabiam que eu estava lá. Isso era – e continua sendo – ilegal em relação às leis trabalhistas e a qualquer outra lei, mesmo na ditadura dos decretos secretos. Além do mais, nesse período, se estivesse trabalhando, eu estaria em licença-maternidade’ (do seu artigo ‘Em corte seco’, no livro Tiradentes – um presídio da ditadura, coord. Alípio Freire, Izaías Almada e J.A. de Granville-Ponce, Scipione Cultural, 1997).

Jornalista, apesar do jornal-patrão

E lembrou mais a jornalista, no mesmo texto:

‘Cacá nasceu em 30 de setembro, no Hospital 9 de julho, em São Paulo. Fórceps. Uma cirurgia por rotura da parede da bexiga e uma sonda me obrigaram a ficar mais de vinte dias internada. Quando a polícia chegou, o bebê tinha 33 dias e estávamos em casa havia mais de uma semana…

O leite que eu tirava do seio ainda insistia em vazar e minha blusa cheirava a azedo. A febre aparecia todo dia. O leite me fazia pensar que, enquanto estivesse ali, brotando, eu estaria ligada ao meu filho. Dias depois veio o diminutivo do dia me buscar para depoimento. Empurrava-me pela escada, enquanto gritava: `Vai, miss Brasil! Sobe essa escada logo, sobe!´

Miss Brasil era o nome de uma vaca leiteira que havia sido premiada. E na sala para onde me levou, o `inho´ chamava os outros: `Olha a miss Brasil, pessoal! Tá cheia de leite! É a vaca terrorista!´’

Ela nunca mais pôde ter outro filho em conseqüência das torturas. A parte boa dessa história é que Rose Nogueira continua exercendo a profissão de jornalista. Ela conseguiu dar a volta por cima, trabalha hoje em televisão e continua a ser útil para o seu filho e para outros filhos do mundo. Apesar do jornal-patrão, apesar do título de Miss Brasil em 1969.

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Jornalista e escritor

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