Segunda-feira, 20 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

JORNAL DE DEBATES > TSUNAMI, UM ANO DEPOIS

O paradoxo da comunicação improvável

Por Muniz Sodré em 23/01/2006 na edição 365

Foram bem diferentes da imprensa escrita e eletrônica européia os modos de rememorar o tsunami asiático, um ano depois da catástrofe. Não que aqui se tenha deixado de lembrar do acontecimento, mas a televisão européia exibiu longa e repetidamente imagens que, para além de sua dramaticidade humana e midiática, fazem muito pensar sobre a comunicação como problema, em vez de puro e simples fenômeno.

O primeiro exemplo que acorre é o da entrevista de um chefe de centro de observação sísmica, que agora revela ter sabido horas antes do que ia se passar com a ilha paradisíaca. Ao analisar as possíveis conseqüências da altíssima intensidade do sismo, ele tentou avisar um colega na ilha, mas não conseguiu encontrá-lo. Recorreu à rádio local, mas como ninguém se lembrava de seu nome, não lhe deram a menor atenção. O tsunami possível em termos de natureza tornava-se, assim, num primeiro momento, comunicacionalmente improvável.

A improbabilidade da comunicação é, aliás, o título, de um pequeno trabalho em que o alemão Niklas Luhmann, nome de destaque na história do pensamento social contemporâneo, levanta a suspeita de que a comunicação – ainda que não possamos viver sem ela – seja improvável, isto é, não se produza efetivamente. O paradoxo criado pela certeza da prática comunicativa e a suspeita de inexistência da comunicação se explicariam pelo caráter imperceptível do problema. Ou seja, não costumamos perceber as dificuldades que a comunicação tem de superar para poder chegar a produzir-se.

Muito mais

Luhmann arrola três ordens de improbabilidade. A primeira sugere ser ‘improvável que alguém compreenda o que o outro quer dizer, tendo em conta o isolamento e a individualização da sua consciência’. Explica-se: o sentido é dado pelo contexto, e este último, por sua vez, é apreendido pela faculdade de memória de cada um.

A segunda diz ser ‘improvável que uma comunicação chegue a mais pessoas do que as que se encontram presentes numa situação dada’. Trata-se aqui do problema da atenção, normalmente garantida pela interação entre os indivíduos numa situação determinada. Quando há diferentes interesses em situações distintas, desintegra-se a atenção.

A terceira refere-se à improbabilidade de se obter o resultado desejado, isto é, a aceitação da informação como premissa de comportamento por parte do receptor desejado. ‘Nem sequer o fato de que uma comunicação tenha sido entendida garante que tenha sido também aceita’, diz Luhmann.

O teórico não está evidentemente sustentando que a comunicação é impossível, e sim que é improvável, ou seja, que ela requer mecanismos capazes de tornar possível o improvável, superando as três ordens de obstáculos apontadas. No caso dos impressionantes registros dos instantes iniciais do tsunami (feitos caoticamente por amadores), por exemplo, isso se revela quando alguns habitantes da ilha, alarmados com o recuo insólito da maré, avisam aos turistas que se afastem da praia. São ouvidos, jamais escutados. Teria sido preciso muito mais para que alguma comunicação se estabelecesse efetivamente.

Reflexão cuidadosa

Para Luhmann, os modernos meios de comunicação não resolvem a questão dos novos obstáculos colocados pelas transformações socioculturais, na medida em que sua estrutura tecnológica permanece indiferente às novas pautas de plausibilidade. Não bastaria, portanto, multiplicar tecnologicamente (por escrita, som, imagem ou dígitos) os ‘meios de massa’ para que a comunicação aconteça. Impõem-se outros mecanismos de credibilidade, ainda não pensados ou simplesmente ainda não postos à prova do grande público.

Este é um problema que ganha vulto com o advento do jornalismo pela internet, mas que já se fazia sentir na proliferação das fontes informativas resultante do agigantamento tecnológico da comunicação. Há muito tempo, analistas de diversas linhagens teóricas vêm assinalando a existência de novas funções históricas para o campo informacional (gestão do espaço público, criação de uma moralidade mercadológica, priorização de mecanismos de busca de dados etc.), em que o conteúdo da comunicação (objeto do jornalismo clássico) parece relegado a um segundo plano.

Uma reflexão cuidadosa sobre essa ordem de coisas poderá ajudar-nos a melhor avaliar o jornalismo que hoje se pratica.

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Jornalista, escritor, professor titular da UFRJ

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