Segunda-feira, 24 de Setembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1005
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JORNAL DE DEBATES > LEITURAS DE ISTOÉ

O pensamento mágico no jornalismo

Por Paulo Bento Bandarra em 26/08/2008 na edição 500

Jornalista melhora o entendimento do mundo pelas pessoas? Infelizmente, isto é totalmente falso. A resposta é não, pois grande parte dos mesmos possui uma formação extremamente deficiente e se mete a analisar assuntos para a qual não estão preparados, mas estão comercialmente e legalmente destinados a um mundo de reserva de mercado. Assim, falsidades e ilusões se perpetuam por séculos pela mesma ausência de responsabilidade e falta de cobrança para a qual deveriam responder.

Falsas alegações de uma proteção pelas religiões então prosperam na imprensa leiga que vive do engodo do leitor dando ao mesmo o que ele deseja ler e paga para se iludir. É o caso da IstoÉ, com o artigo ‘Medicina & Bem-estar‘. Tratamentos para a alma ‘Médicos e hospitais começam a adotar a espiritualidade e a esperança como recursos para o combate de doenças’, das jornalistas Adriana Prado e Greice Rodrigues, e colaboração de Cilene Pereira.

Por não saberem analisar trabalhos e desejarem apenas crer num mundo que não existe, mas lhes apraz que exista, divulgam coisas mal lidas e trabalhos que garantem o que não possuem condições de afirmar pelo seu desenho. É o caso do trabalho que inspirou as autoras a escrever a matéria publicado na BMC Câncer Ronit Peled, M.P.H., Ph.D., professor na Ben-Gurion University de Negev, em Israel, autor da pesquisa. Ele entrevistou 255 mulheres com câncer de mama, contra 367 mulheres sadias. ‘Verificamos que mulheres expostas a eventos negativos têm mais risco de contrair a doença do que aquelas que apresentam maiores sentimentos de felicidade e positivismo.’

Informações não utilizáveis

Já nesta frase existe um erro de raciocínio, pois mulheres que foram ‘expostas’ a eventos negativos não correspondem ao contrário do que aquelas que ‘apresentam’ maiores sentimentos de felicidade e positivismo. Eventos negativos são coisas extremamente subjetivas que aconteceram, assim como sentimentos de felicidade e positivismo são coisas diversas disto. Pessoas que nunca tiveram eventos negativos nas suas vidas são mais propensas a não duvidarem das coisas, até que estas coisas traumáticas ocorram. Isto não mostra proteção alguma, mas sim, que eventos podem mudar o nosso humor e otimismo ao longo da vida. Não mostra que dominamos a ocorrência destes ‘eventos negativos’ (que seriam supostamente pelo autor fator de desenvolvimento de câncer) e nem que ser otimista evita que eles ocorram. É fácil para pessoas que tiveram uma vida normal e sem ‘eventos’ sejam otimistas e felizes. É compreensível que pessoas, que além de ‘eventos’ desagradáveis nas suas vidas, estejam vivendo com uma doença potencialmente mortal e de compreensão e prognósticos difíceis de estabelecer sejam de humor diferente.

Grandes grupos avaliados de milhares de pacientes afirmavam a proteção da terapia de reposição hormonal como uma panacéia. Maiores grupos ainda mostraram não só a não proteção, como a piora para eventos cardiológicos. Isto com grupos de dezenas de milhares. O que esperar de algumas centenas apenas?

Um grupo tão pequeno de pessoas avaliadas, e um método tão precário e falho de pesquisa que até jornalistas sabem que são muito manipuláveis, consciente e inconscientemente pelo pesquisador, não fazem boa ciência ou promovem informações utilizáveis. Ninguém tem depressão ou estresse por que ‘não quer’ ser feliz e otimista como os outros. Uma pessoa que tenha familiares, mãe ou irmãs com câncer de mama, tem maior chance por causas genéticas ou por falta de ‘positivismo’?

Atividades de diversão

No passado, por este método, atribuiu-se à amamentação a propriedade de diminuir o risco de a mulher ter câncer de mama. Hoje se sabe que, se existe (até hoje apenas há especulação), essa proteção é muito pequena e o que realmente pesa como fator protetor é o grande número de gestações, uma vez que, durante a gravidez, a mama deixa de sentir os efeitos do ciclo menstrual. As freiras, por exemplo, dedicadas à vida espiritual de forma radical, têm de duas a três vezes mais chances de desenvolver as células cancerígenas na mama do que as mulheres que têm filhos. Ao mesmo tempo, por não manterem relações sexuais, não padecem de câncer cervical.

A verdade é que conselhos e práticas lúdicas não previnem doenças, mas práticas racionais de higiene, alimentação, de qualidade de vida, evitando não destruir o organismo com álcool, cigarro, entorpecentes e alimentação inadequada e que mesmo apenas em demasia podem fazê-lo. Ser otimista ou pessimista está ligado mais à personalidade, e não são coisas que podem ser mudadas por conselhos. Ninguém morre de câncer porque ‘não quer se curar’ e ninguém fica imune à morte por esta mal ‘por que possui prazer em viver’! Seria bom, pois não precisaríamos gastar tanto dinheiro, pesquisas, tempo e hospitais e profissionais, se alguma vez na história da humanidade o otimismo tivesse feito diferença e selecionado pessoas otimistas apenas para viver por serem mais sadias e imunes. Infelizmente, pensamento mágico apenas nos ilude, mas não nos protege em esportes radicais, em destruir nossa saúde de vários modos ou apenas sermos alienados não resolve.

A prática do ‘remo, a dança e os jogos’ não são atividades espirituais. Assim como a participação de brinquedos e palhaços em hospitais infantis de tratamento de câncer ou outras doenças crônicas. São na verdade atividades materialistas de diversão. Coisas que na visão das religiões são muitas vezes vistas como pecados, como a própria alegria, o prazer e a vida alegre.

Exemplo de mau jornalismo

Na prática não muda nada na vida este tipo de trabalho, pois não traz informações consistentes para que se mude alguma coisa em termos de prevenção, tratamentos ou recuperação dos doentes. Apenas cria nas pessoas uma falsa afirmação sem consistência de que elas mesmas são culpadas espiritualmente pela sua doença. O que eu duvido muito. Quando se desenha um protocolo para tratamento de câncer de mama (ou qualquer outro) esta suposição simplesmente não se leva minimamente em conta. O resultado deve atingir a maioria dos pacientes, e não apenas com crenças de tal tipo, felizes, ou com pele de determinada cor.

Saliente-se que no artigo não existe nenhum dado de que a espiritualidade esteja relacionada obrigatoriamente ao otimismo ou ao pensamento positivo. É um encaixe maroto produzido pelas jornalistas tentando vender as suas idéias sem base. Não existe relação entre felicidade e otimismo com religião. Não existe nenhuma base para dizer que ateus ou descrentes são mais infelizes, menos otimistas ou mais doentes. No entanto, os hospitais psiquiátricos e sanatórios sempre estiveram cheios de religiosos doentes mentais. Não restam dúvidas de que as religiões são grandes fontes de sentimento de culpa, preocupação e frustração para as pessoas.

Outro exemplo deste mau jornalismo foi publicado pelo Terra, de uma tradução do New York Times: Curiosidades, quarta-feira, 13 de agosto de 2008, ‘Religião faz bem à saúde?’, baseado em um estudo publicado recentemente na Proceedings of the Royal Society B de que a religião representa uma forma de nos proteger contra doenças.

Os descaminhos dos sacerdotes

A idéia geral que embasa a teoria é de dois dos pais fundadores da sociologia, Emile Durkheim e Max Weber, que, no começo do século 20, ofereceram explicações sobre como as religiões do mundo deram forma às sociedades que as praticavam e tomaram a forma dessas sociedades às quais estavam incorporadas. Ou seja, nada de ciência mesmo.

Um grupo que mantenha elos estreitos tende a excluir os desconhecidos e isso não é menos verdade sobre as religiões do que quanto a qualquer outro clube. Corey Fincher e Randy Thornhill, da Universidade do Novo México, propõem razão específica para que algumas sociedades se beneficiem da insularidade religiosa: ela é uma forma de evitar doenças, afirmam. ‘Há amplas provas’, escreveram os autores do estudo, ‘de que a psicologia do etnocentrismo tem correlação importante com evitar e administrar doenças infecciosas’.

Não existe mentira maior do que esta. Será que a recomendação do governo indiano para as pessoas comerem ratos em vez de cereais (ou a abundância do rebanho bovino), escassos, se deve à falta de religiosidade daquele povo? As epidemias e doenças infecciosas de que padecem as populações devotas daquele país se devem por acaso à sua falta de religiosidade, espiritualidade ou fé? As epidemias que dizimaram as pessoas na Idade Média ocorreram por falta de religiosidade? Será que o conflito milenar entre árabes e israelenses ocorre por falta de religião? O terror da inquisição foi uma demonstração da saúde mental que a religião produz nas pessoas? O atraso social no islã se deve a falta de religião nas suas vidas? Sem falar nos casos de pedofilia, que a religião não preveniu os descaminhos dos sacerdotes, nem protegeu as suas vítimas abusadas.

Uma busca obscurantista

Nos hospitais públicos e leigos os antibióticos funcionam pior? Ou pessoas religiosas se internam menos por doenças e infecções? Peregrinos estão livres de acidentes, de doenças e da morte nas suas peregrinações de fé? A recusa de tomar vacinas, não aceitar transfusões de sangue em caso extremo, evitar fazer tratamentos médicos são mais salutares? Por outro lado, o isolamento de grupos religiosos como os Amish, por exemplo, levam a uma maior prevalência de doenças genéticas pelos casamentos mais fechados em pequenos grupos ‘insulares’ de crentes. Outro exemplo seria a ‘doença dos judeus’, a síndrome Tay-Sachs ou das células de Sachs, provocada por uma mutação genética que ataca o sistema nervoso dos recém-nascidos e até causar-lhes a morte antes dos quatro anos. Um ritual canibalístico, e limitado a certos vales adjacentes no interior montanhoso da Nova Guiné, na linguagem Fore, kuru, que significa alguma coisa como tremedeira, produzia uma doença neurológica grave.

Agregue-se à religião a resistência às mudanças e a rejeição ferrenha ao conhecimento científico e ao progresso. Sua intolerância aos outros descrentes e até mesmo aos mínimos divergentes da própria crença. Caso da Índia, dividida por motivos religiosos (que resultou até no assassinato de Mahtama Ghandi [1869-1948]) em duas, o Paquistão, para a criação da pátria muçulmana, e que até hoje vive de atentados e terrorismo religiosos sem fim. Milhares morrem por ano vítimas de atentados e ataques religiosos. Caso igualmente dentro do cristianismo na Irlanda do Norte.

As mulheres do século 19 sofriam enormemente com a repressão sexual religiosa e padeciam de histeria sendo internadas aos milhares na Europa. Parece que a história não é usada por jornalistas ao analisar os temas a que se propõem.

Até a Revolução Francesa, inspirada pelo iluminismo e por Napoleão, predominou no ocidente a mesma insânia das guerras religiosas. Não foi por outro motivo que os puritanos emigraram para os EUA fugindo da intolerância desmedida criada por elas. Sem falar no extermínio dos ‘selvagens’ não evangelizados pelas mãos dos crentes.

Será que a revolução irá durar, como almejam as autoras da IstoÉ? Pode ser. A Idade Média durou 1.000 anos de busca obscurantista neste caminho. Não existe remédio contra isto quando se abandona o uso da razão.

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Médico, Porto Alegre, RS

Todos os comentários

  1. Comentou em 28/08/2008 Marcelo Ramos

    Como fica claro no trecho colado em meu post anterior, a revista está evidenciando práticas que são atualmente cotidianas de hospitais de renome. Esses hospitais seguem uma tendência mundial inequívoca: fé e bem-estar eventualmente podem ser sinônimos, e ambas são estimuladas pelos médicos, com resultados mensuráveis. Não se fala aqui de substituir a medicina por qualquer outro tratamento mas sim de que uma postura positva ajuda muito na cura de doenças. Vamos ver o próximo trecho. ‘Uma pesquisa divulgada na revista revelou que homens otimistas em relação à própria saúde de alguma forma ficaram mais protegidos de doenças cardiovasculares. Os cientistas acompanharam 2,8 mil voluntários durante 15 anos. Eles constataram que a incidência de morte por infarto ou acidente vascular cerebral foi três vezes menor entre aqueles que no início estavam mais confiantes em manter uma boa condição física. Provas dos efeitos da adoção da espiritualidade na melhora da saúde também começaram a surgir. Nos estudos sobre o tema, a prática aparece associada à redução da ansiedade, da depressão e à diminuição da dor, entre outras repercussões.’ Como já está tarde, por enquanto é só pessoal.

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