Sábado, 25 de Maio de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1038
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JORNAL DE DEBATES >

O profissional da ‘economia da atenção’

Por Muniz Sodré em 28/09/2004 na edição 296

Os debates continuados sobre o Conselho Federal de Jornalismo terminaram gerando uma dúvida razoável sobre a identidade profissional do assessor de imprensa: trata-se do mesmo que o jornalista em sua formulação clássica?

A primeira coisa a se observar, numa tentativa de resposta, é que a mídia – campo de atuação mais óbvio do jornalista – integra hoje o que se pode chamar de ‘economia da atenção’, esta mesma que não escapa das condições (psíquicas, corporais) de reprodução da força de trabalho pelo capital. Tais condições, ausentes da regra capitalista durante a fase clássica de acumulação e que permitiam ao operariado constituir-se como ‘classe histórica’, estão hoje sob o controle absoluto do valor de troca.

O jornalismo coetâneo à fase clássica era obra de publicistas e intelectuais que ainda supunham deter algum poder como senhores de uma razão universal que, nas políticas da esquerda, deveria produzir o máximo de conscientização possível junto à agitação das paixões reformistas ou, mesmo, revolucionárias. Nas políticas conservadoras, essa mesma razão deveria produzir ao menos um nível mínimo de consenso para a sustentação do arcabouço das classes sociais tal como existiam.

Hoje, como se sabe, intelectual iluminista e militante político são progressivamente neutralizados pela organização total capitalista. No horizonte da globalização, entendida como forma totalizante (mercado e vida social) do capitalismo mundial, todo valor é controlado por um sistema de trocas, sem qualquer outro compromisso além de sua positividade técnica. Inclusive o valor do sujeito, que é o afeto presente na interatividade do indivíduo com as máquinas de informação e comunicação.

Isto se torna cada vez mais claro com a evolução das novíssimas tecnologias da informação: na rede cibernética, o sujeito tende progressivamente a definir-se como usuário de serviços, que polarizam para o comércio, preferencialmente a qualquer outro tipo de motivação, a sua sensibilidade individual. Seu valor de sujeito é aquilatado pela integração no ethos empresarial-midiático.

Altos e baixos

É claro que essa estrutura tende a neutralizar também a consciência crítica que contribuía para definir, pelo menos idealmente, a atividade jornalística. Uma das formas dessa neutralização é aquilo que o jornalista italiano Furio Colombo chamou de ‘síndrome de impotência do profissional da informação’, que o leva a deixar de lado o trabalho árduo, e geralmente ingrato da apuração jornalística, para buscar efeitos de espetáculo em gravações e depoimentos de pessoas importantes ou ligadas ao poder de Estado, sem maiores cuidados quanto ao perigo de uma pré-fabricação interessada dos alegados fatos.

O acúmulo de ‘revelações’ e ‘denúncias’, sem qualquer contextualização crítica, sem a condicional dos bons critérios profissionais, é uma conseqüência desse novo estado de coisas.

Nessa conjuntura, em que jornais e televisão acabam transformando-se em parques temáticos, portanto, numa espécie de disneilândia do mundo noticioso, não há diferença essencial entre assessor de imprensa – um ‘logotécnico’ ou um jornalista a serviço de uma organização empresarial, de uma instituição pública ou de uma personalidade qualquer – e uma outra qualificação que se defina como ‘essencialmente jornalística’. São como cara e coroa, faces externa e interna, de uma mesma moeda.

Esta última palavra, aliás, não aparece aqui por mero acaso: a mídia em questão costuma ser a boca do mundo com a voz da moeda, isto é, do mercado. O puro e simples posicionamento de um profissional do texto, sindicalizado, com carteira assinada, numa redação de jornal/revista ou numa emissora de rádio/TV não nos parece suficiente para cavar entre ele e o assessor de imprensa um abismo diferencial.

Usamos a palavra ‘abismo’, porque existe, apesar de tudo uma diferença. Só que esta não pode ser um mero ponto de partida, mas de chegada. Ou seja, a diferença não pode restringir-se a aspectos puramente técnicos, é algo a ser construído ou conquistado dentro do empenho de uma prática jornalística realmente atenta à sua especificidade como discurso social voltado para o fortalecimento da esfera pública, para a consolidação de uma cidadania que tem conhecido altos e baixos da Revolução Francesa para cá.

A distância entre jornalismo público (publicismo) e assessoria de imprensa se medirá pela qualidade dos necessários debates sobre o que ainda significa hoje imprensa livre.

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Jornalista, escritor, professor titular da Universidade Federal do Rio de Janeiro

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