Quinta-feira, 13 de Dezembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1017
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JORNAL DE DEBATES >

O que as mídias e os especialistas não discutem

Por Sandra Raquew dos Santos Azevedo em 21/10/2008 na edição 508

A menos de 24h do trágico desfecho do seqüestro de Eloá Cristina Pimentel por Lindemberg Alves, todos, atônitos, procuramos ‘compreender’ via mediação dos meios de comunicação social e de especialistas da segurança pública, psicólogos e outros, um fato presente cotidianamente no noticiário: a violência contra as mulheres.

Muitas são as explicações que tentam dar conta do comportamento do jovem, cujo perfil durante o processo de negociação fora retratado pela mídia como de um rapaz tranqüilo, trabalhador, que tinha planos para casar. ‘Dificuldade de lidar com as frustrações’, ‘comportamento passional’, ‘de tolerância muito baixa às frustrações’, entre outros argumentos, são discutidos publicamente em jornais, sites, rádio, enfim, em todo processo de agendamento desta lamentável crônica de mais uma tragédia midiatizada.

Inúmeros aspectos deste acontecimento são ressaltados na cobertura: o lugar, os protagonistas, o tempo, amigos, imagens, os momentos de negociação, os lugares de origem de Eloá e Lindemberg, as imagens… Todavia, há um aspecto a ser considerado nesta notícia, como em tantas outras que possuem semelhança com o seqüestro de Eloá e Nayara: o fato de que se trata de crimes que se relacionam com as desigualdades de gênero e que se não discutirmos também nos noticiários esta face da violência, torna-se muito difícil a superação de algo que pode ser considerado, lamentavelmente, um padrão cultural de se matar mulheres.

O falo que oprime e extermina

Um breve monitoramento de mídia permite perceber a brutalidade e reificação de crimes como estes: eles não são apenas crimes passionais; podem situados numa teia complexa de construção de valores sociais que forjam um feminino fraco, vulnerável, incapaz e sem condições de decidir a própria vida, em contraposição a um modelo de masculinidade rígido e legitimado socialmente a partir da força, da dominação e do controle. São estes, de certa maneira, alguns dos elementos que mantêm os mecanismos psíquicos do poder na constituição do sujeito e a na construção da sujeição.

Perceber os gêneros como processo de mediação do social é urgente para que a gente se dê conta da violência contra a mulher como um fenômeno social, cujo aparecimento cotidiano nas mídias também precisa ser interpretado, refletido com e a partir dos veículos de comunicação.

A motivação de Lindemberg em manter seqüestrada Eloá e tentar por fim à vida da jovem se inter-relaciona com outros fatos conhecidos da sociedade brasileira, como os casos Ângela Diniz, Sandra Gomide, Daniela Perez e ainda de inúmeros casos de violência e homicídios femininos que são noticiados, mas que carecem não de uma tentativa de tentar compreender o comportamento masculino, mas de questionar os valores sociais que se reproduzem nas trocas simbólicas e tecem ainda, tristemente, este predomínio do falo que oprime e extermina.

Mecanismos simbólicos

O tiro na virilha de Eloá não é só uma metáfora, mas uma expressão do ódio da tentativa frustrada de continuar mantendo o exercício do controle sobre o corpo das mulheres. Por isto, me sinto hoje também trespassada por essa bala.

Numa das notícias veiculadas na cobertura, dois personagens sobrenaturais surgiram: um anjinho e um diabinho que acompanhavam Lindemberg. Parece inacreditável, mas este recurso, muito comum entre homens que praticam violência contra as mulheres, aparece mais uma vez como uma máscara, uma performance que busca esconder o lado perverso de um imaginário social que em momentos como este é despertado pelos disparos protagonizados por um homem que representa neste instante os mecanismos simbólicos que negam cotidianamente às mulheres o seu direito a vida.

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Jornalista, João Pessoa, PB

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