Quinta-feira, 23 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

JORNAL DE DEBATES > OFÍCIO JORNALÍSTICO

O que é isso? No Japão não existe. E no Brasil?

Por Luis Peazê em 09/03/2010 na edição 580

O que dizem os trezentos e poucos pesquisadores em jornalismo da SBPJor – Associação Brasileira de Pesquisadores em Jornalismo (eu sei, a sigla não bate) sobre um registro do mestre Houaiss: ‘…o teor das declarações do cientista tende mais para o jornalismo do que para a ciência’; inferindo anteriormente ‘…jornalismo, abordagem superficial de um tema, menos interessada a esclarecê-lo do que em agradar o gosto e os interesses populares que estão na moda’?


Fica em aberto a questão, como aliás parece estar aberta ao redor do mundo, pelo que responderam os mais de 400 jornalistas que têm participado, ao longo dos últimos 25 anos, do Programa de Bolsa do Instituto Reuters para o Estudo de Jornalismo – IRSJ, um centro de pesquisa baseado na Universidade de Oxford (Inglaterra) e patrocinado pela Thomson Reuters, recentemente tornada a maior agência de notícias e informações empresariais do mundo.


Um jornalista japonês (o nome não é revelado pelo IRSJ) respondeu que ‘não existe na língua japonesa uma palavra equivalente para jornalismo; então, o Japão importou apenas a pronúncia, que ficou ja-narizumu, sendo mal interpretada como algo sofisticado e, de alguma forma, com o significado afastado da notícia’.


Respostas interessantes


Seguramente, além de não compreenderem o que é jornalismo, os japoneses complicam ainda mais a explicação para o que importaram – mas exportam fotojornalismo, o melhor do mundo, pelo menos em equipamento.


O IRSJ pergunta para cada jornalista que passa pelo seu Programa de Bolsa se há uma definição rápida de ‘jornalismo’ aceita no seu país e qual, na sua opinião, o maior desafio que ‘isto’ (seja lá o que for) está enfrentando.


De um brasileiro não identificado ficou registrada a seguinte pérola: ‘No Brasil, o jornalismo tem se tornado menos analítico e investigativo nos últimos dez anos e passou a significar essencialmente o relato da realidade. Nas redações atualmente no Brasil, normalmente não há discussões, planejamento e avaliações de artigos. A pesquisa para novas abordagens é rara. A velha idéia de jornalismo como mera redação de textos continua reinando. O maior desafio é a motivação do jornalista para pesquisar, analisar, avaliar seu próprio trabalho, para crescer intelectual e culturalmente e adquirir uma visão global.’


É interessante a resposta de um neozelandês em contraste com a de um egípcio, que deixa evidente como a condição de uma região do planeta, em permanente ebulição e conflitos ou não, influi no que seja, e o que desafia o jornalismo; interessantes também são as respostas diferentes de dois americanos sobre o que ‘eles’ praticam e influenciam (anote aí!) não só os calouros aqui no Brasil e pelo mundo afora, mas os jornalistas a pleno vapor na profissão também.


Pausa para outro assunto


Repetindo o que acontece na vida real do jornalismo, o abandono da notícia, que parecia ser o fato mais importante do momento, para, tempestivamente, dar a manchete de uma catástrofe ou de um novo escândalo, cai no mesmo pecado aqui neste artigo ao chamar a atenção sobre o clamor vigente entre os profissionais das pretinhas, das latinhas e das telinhas: o que será de todos nós, para onde vai esta coisa, quem deve mandar em quem, alguém deve controlar, e o dinheiro, há ou não dinheiro no negócio de notícia e informação impressa e eletrônica, afinal a internet é bandido ou mocinho?


Nunca o jornalista perguntou tanto sobre si mesmo.


No relatório A Reconstrução do Jornalismo Americano (2009), o professor Michael Schudson, da Universidade Columbia, clama por uma série de medidas para preservar a integridade da imprensa americana. Esse relatório, que também leva a assinatura de Leonard Downie Junior, vice-presidente do Washington Post, faz uma longa análise histórica da imprensa nos Estados Unidos (das últimas décadas), destacando a proliferação de pequenos veículos locais (e suas fragilidades financeiras e artifícios para sobreviverem) e da crescente penetração da internet, e aponta para seis saídas necessárias.


Sempre foi no mínimo controversa a idéia de que tudo o que é bom para o americano também é bom para o brasileiro, embora invariavelmente acabemos aderindo ao mesmo remédio, mais cedo ou mais tarde.


Confusão etimológica e semiótica


Deste modo, no momento em que os cânones do jornalismo brasileiro se debatem sobre um novo modelo de imprensa, envolvendo desde as estruturas mais elementares das empresas do ramo até as questões patronais e de cunho constitucional, como a liberdade de expressão, é pelo menos pertinente observar de perto esse tal relatório de reconstrução. Vamos lá:


1) Mudança no sistema tributário para tornar mais fácil às empresas de notícia e informação converterem-se em organizações sem fins lucrativos, ou tornarem-se empresas com lucro e responsabilidade fiscal limitadas; 2) investimentos significantes para reportagens da NPR (Radio Pública Nacional) e suas afiliadas; 3) incremento de suporte filantrópico para organizações que noticiam prestações de contas locais; 4) novas iniciativas pelas universidades para produzirem mudanças e fornecerem reportagens diretamente aos canais tradicionais de comunicação; 5) o desenvolvimento de bancos de informações mais acessíveis e mais completos para o público; e 6) a instituição pelo governo federal de um fundo de suporte direto para inovações para informação e notícias locais.


É óbvio que estão vaiando sem parar o item seis, exaustivamente explicado e defendido pelos autores do relatório, e é óbvio que no Brasil todas as recomendações teriam que ser substancialmente adaptadas, mas, por incrível que pareça, todos os pontos acima estão em franca discussão na América.


Não é por acaso que o assunto mídia alternativa progressista está em voga por lá. Outra coqueluche. Há inclusive, na blogosfera, uma enxurrada de debates sobre o significado de progressista, diálogos (seriam chats?) equivocados que confundem a noção de progressivo com a de progresso (talvez não conheçam o simpático professor Edgar Morin), deixando aquele japonês do ja-narizumu a milhas de distância em termos de confusão etimológica e semiótica.


Donos do dinheiro devem escolher seu lado


Sugiro que isso (a profusão de informação e opinião na internet) seja considerado um jornalismo underground renascido, apenas ele não está mais nos subterrâneos, não é mais marrom, surfa e navega à vista, irresponsavelmente, à velocidade de uma foto de telefone móvel e vídeos caseiros online. Tracy Van Slyke, uma das fundadoras do Consórcio de Mídia Alternativa (USA) não me deixa informar sozinho; lembra que após a internet mais vídeos amadores informativos foram produzidos e publicados na grande rede do que toda a televisão propagou em sua septuagenária existência.


Vou mais longe: aqueles que insistem em discutir a relevância do jornalismo tradicional sobre as novidades da internet falam com um cadáver entre os dentes. Ora, um está influenciando (e macaqueia) o outro e vice-versa. O importante é detectar quem desenvolve mais inteligência e poder (informação + capital = tecnologia) para fazer-se ecoar acima do enorme ruído da sociedade bestializada, movida pela escalada desenfreada de consumo de novidades desnecessárias – alimentada pela própria mídia.


Enquanto isso, as poucas grandes agências de notícias e empresas do ramo faturam bilhões de dólares, a ponto de – li no contrato de trabalho do CEO do braço ‘jornal’ do grupo News Corp (Fox e outros gigantes da mídia) – David F. DeVoe receber um salário-base anual de US$2.503.750,00 mais benefícios (imagine todos os benefícios que um alto executivo pode ter e acrescente bem mais). Sem falar que o maior faturamento dessas empresas não vem da notícia para o grande público, mas do fornecimento de informações vitais de mercado para os mais variados segmentos, não ingenuamente subdivididos dentre apenas duas categorias, financeira e ciência & saúde. Isso é um percentual razoável da definição de jornalismo, atualmente.


Concluindo as respostas daqueles americanos sobre o que é jornalismo, um resumiu a coisa, após criticar a existência de falsos jornalistas na Internet e aceitação festiva do público, informando que não há uma definição única e rápida nos Estados Unidos. O outro foi mais prolixo: há duas definições de jornalismo, na América. A dos jornalistas, envolvendo integridade, objetividade, rigor etc.; e a definição dos críticos da mídia, aquelas pessoas que pensam que a mídia hegemônica (MSM = mainstream media) falhou nos Estados Unidos. Esses são de esquerda e de direita. Os de esquerda dizem que a MSM falhou ao deixar de capturar a vida do americano comum (dos lavadores de prato a outros trabalhadores); os de direita dizem que a MSM é cínica, e provavelmente é. A maioria dos jornalistas da MSM tem educação superior acima da média e são liberais. O desafio está em resolver como os jornalistas podem continuar trabalhando para publicações (incluindo websites) orientadas para o lucro, enfrentando a competição desses críticos da mídia que criam os seus próprios veículos numa versão bowdlerizada do jornalismo (um professor inglês maluco do século 19 chamado T. Bowdler criou uma versão infantil de Shakespeare castrando tudo o que achou que seria profano ou imoral da obra, de modo tão radical que uma peça inteira foi excluída de seu repertório por achá-la totalmente indecente, a crítica da época desceu-lhe o porrete e cunhou o termo ‘bowdlerization’). É mais uma questão de prática corporativa do que de prática de jornalismo – e finaliza o americano verboso: os donos do dinheiro devem escolher o seu lado, os jornalistas estão se adaptando, mas não podem comprometer seus valores por muito tempo.

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Escritor e jornalista

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