Segunda-feira, 20 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

JORNAL DE DEBATES > JORNALISMO DE GUERRA

O que é terrorismo e
o que é guerrilha

Por Cristiana Mesquita, de Bagdá em 03/02/2004 na edição 262

Estou chegando ao fim do meu terceiro turno de trabalho no Iraque. De março de 2003 até hoje foram três visitas num total de quase sete meses. Nesse período viajei por várias cidades e falei com centenas de pessoas. No entanto, quando procuro explicar o que acontece por aqui acabo sempre com mais perguntas do que respostas.

Talvez não tenha a inteligência necessária para analisar um conflito dessa magnitude, ou talvez seja um defeito da profissão. Trabalho para uma agência de notícias que, como todo mundo sabe, é trabalho escravo. Às vezes falta tempo para pensar. Mas sempre acho um tempinho para dar uma olhada no Observatório da Imprensa e não pude deixar de ficar intrigada com dois artigos que li no OI.

O primeiro foi o artigo de Nahum Sirotsky, ‘A mídia não ajuda a conhecer o mundo’, e o segundo foi a entrevista de Sérgio Kalili a Paulo Lima, ‘Um veterano no front’ [OI nº 260, com remissões abaixo].

Do meu limitado mundinho aqui em Bagdá vou cometer a heresia de argumentar alguns pontos levantados pelo venerando Sirotsky e do veterano Kalili. Mas, antes, peço encarecidamente que não me chamem de anti-semita ou pró-americana. Posso garantir que não sou nem uma coisa nem outra. Sou apenas uma repórter carioca, torcedora do Fluminense, que calhou de trabalhar para a Associated Press cobrindo guerras ao redor do mundo.

Êta narigão de cera!

Rubem e Joel

Sirotsky diz que só há dois tipos de informação. Uma ‘factual’ e outra que ‘se pode qualificar como propagandístico’. Eis um trecho do que escreveu:

‘Só nesses últimos anos vim perceber o quanto nós, da mídia, temos falhado na observação de conflitos que parecem se eternizar. Verifiquei que funcionam dois tipos de informação. Um deles, o mais comum, é o factual, os acontecimentos. Outro, que se pode qualificar de propagandístico.’

Ora, dependendo das crenças pessoais ou posição política do jornalista e do leitor, todo artigo de análise vai ser considerado propagandistico. Senão, vejamos: o que Sirotsky chama de terrorismo Kalili chama de guerrilha. Para Sirotsky, um suicida que se explode no centro de Jerusalém é um terrorista. Para Kalili, um suicida que se explode em frente a um restaurante em Bagdá é um guerrilheiro. Interessante, não? Qual a diferença?

Os palestinos estão lutando contra a ocupação e os insurgentes iraquianos estão lutando contra a ocupação. Sirotsky vai chiar dizendo que o exército de Israel não é uma força de ocupação e Kalili vai chiar dizendo que os iraquianos estão lutando contra os ianques imperialistas (esses são, com certeza, uma força de ocupação) – mas talvez não tenham feito as contas. Para cada soldado americano morto, os insurgentes matam pelo menos três civis que não tinham nada a ver com a história.

Foi o caso da bomba que explodiu em frente ao restaurante e, mais recentemente, a bomba que estourou na entrada do prédio que abriga os escritórios da coalizão. Nesta última, 23 iraquianos que faziam fila para conseguir um emprego foram mortos e apenas três soldados americanos saíram ligeiramente feridos.

Será que a diferença entre terrorista e guerrilheiro está na competência de um e na incompetência de outro? Espero que não, mas deixo essa resposta para os pensadores. Como disse antes, sou apenas uma operária.

Acredito que são essas sutis porém importantes nuances que fazem com que a imprensa seja factual e deixe que cada leitor tire suas próprias conclusões.

Sirotsky fala ainda da falta de sensibilidade da imprensa ao reportar um incidente como a bomba na sede da coalizão em Bagdá. Eu estava lá, e se as imagens que mandamos mostrando corpos (ou o que sobrou deles) pelo chão, o desespero dos sobreviventes e o choro dos parentes das vitimas não foram suficientes para revelar a tragédia ou sensibilizar o público sobre o que está acontecendo por aqui, então acho que quem está com problemas é o público e não a imprensa.

Concordo que falta um Rubem Braga ou um Joel Silveira, que com o incomparável poder da palavra escrita poderiam transformar o acontecimento em uma ode pacifista, mas não vejo muitos dos nossos talentosos jornalistas por aqui. Na verdade não vejo nenhum jornalista brasileiro por aqui.

Pena!

Golpe de Estado?

Kalili conta que falava com jornalistas sobre as torturas sofridas por iraquianos nas mãos dos soldados americanos e eles ‘não acreditavam’. Perdão, mas com quem Kalili estava falando? Todo mundo sabe. Todo mundo viu as imagens de Guantánamo. Todo mundo acompanha o julgamento dos soldados americanos que espancaram um prisioneiro até a morte, em Tikrit. Nós falamos diariamente com os mesmos iraquianos com quem Kalili falou e até mesmo os jornalistas sofremos com a truculência americana – como no caso dos dois jornalistas da agência Reuters que foram presos e torturados. Não há uma entrevista coletiva em que esse assunto não seja levantado.

Concordo que simplesmente exigir uma explicação dos generais numa coletiva não é o suficiente, mas temos que tomar muito cuidado e levantar provas irrefutáveis antes de fazer acusações.

É muito difícil investigar qualquer história no Iraque. A CPA (Coalition Provisional Authority) não exige credenciamento. Até um correspondente da Rádio Galinho da Manhã, de Cabrobó dos Matos, pode trabalhar sem problemas no Iraque. Mas eles, da coalizão, são militares e os tempos de inocência da guerra do Vietnam acabaram há muito.

Há meses não conseguimos mostrar um soldado americano morto ou ferido. Quando chegamos ao local, ou somos repelidos a tiros ou eles removem qualquer vestígio do ataque em questão de minutos. É a famosa competência americana.

Quando eles matam civis (insurgentes ou inocentes), nós estamos lá mostrando a destruição das casas e o testemunho das pessoas. Mas aí sabem o que acontece? Ninguém publica e ninguém põe isso no ar. Sabem por quê? Ninguém se importa. É só mais um iraquiano pobre falando numa língua estranha… se ao menos eles falassem inglês, não é?

Sirotsky também acusa a imprensa de não fazer uma avaliação correta das intenções ocultas do líder xiita, aiatolá Sistani, de 73 anos, o guia espiritual da Hawza, rede de escolas religiosas de Najaf. Sistani pede eleições diretas porque 65% da população do Iraque é xiita. Então, Sirotsky diz que se a maioria xiita ganhar eleições diretas, isso é um ‘golpe de Estado’. Confesso que não entendi. Desde quando ganhar uma eleição direta é golpe de Estado? Vai aí mais uma vez a percepção do jornalista baseado nas suas próprias crenças com relação aos xiitas.

A paz possível 

Kalili se abre em elogios ao povo iraquiano. Tenho certeza que se ele tivesse passado mais tempo por aqui estaria dividido como eu. Às vezes os adoro e às vezes os detesto. Isso porque o povo iraquiano é como outro qualquer, ou seja, uma decepção para todo jornalista que, com o tempo, descobre que os iraquianos querem o que todo mundo quer: casa, comida, filho na escola e um pouco de paz. Tanto faz se quem vai dar isso são os americanos ou Saddam Hussein.

Ainda citando Kalili, ‘podiam [os iraquianos] até não gostar dele [Saddam], mas ele representava alguma forma de independência de um país que está agora sob a ocupação de uma superpotência estrangeira, do imperialista, do colonizador’.

Saddam era um monstro assassino, e com essa afirmação Kalili me lembra aqueles que gostam de comentar que na época da ditadura não havia crimes no Rio de Janeiro, que as escolas eram melhores etc., etc. Na época de Saddam também não havia crimes e hoje são roubos, saques, seqüestros e morte para todo o lado.

Mais uma vez explico que, pessoalmente, não sou a favor dessa ocupação. Mas, ao contrário do que se costuma pensar, além de arriscar a vida para cobrir essa história eu também fiz meu dever de casa.

O problema dessa guerra é que ela aconteceu na hora errada e pelos motivos errados. Se os americanos tivessem impedido a guerra com o Irã, quando Saddam fez amplo uso de armas químicas, eu teria aplaudido. Mas Saddam Hussein tinha o apoio de todo o mundo, inclusive o da imprensa e, principalmente, o de Israel. Se Saddam Hussein fosse impedido quando massacrou os curdos ou os xiitas, eu também seria a favor. Até mesmo a Guerra do Golfo teve lá os seus méritos.

Saddam Hussein preferiu ver seu povo morrer de fome sob um embargo econômico e levar o país à guerra do que abandonar o poder. Como gente se livra de um homem desses?

Os fins não justificam os meios e uma criança morta num bombardeio já deveria ser motivo suficiente para se evitar uma guerra – mas agora é tarde. Só nos resta torcer para que os americanos consigam fazer a transferência de poder da maneira mais correta e pacífica possível e saiam logo daqui.

Aí, então, será rezar para que o Iraque tome a melhor decisão quanto a seu destino – seja ele secular, radical sunita ou uma teocracia xiita. A paz só será possível quando formos capazes de aceitar as diferenças e admitir que às vezes não sabemos o que é melhor.

******

(*) Jornalista

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