Quarta-feira, 19 de Dezembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1018
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O que ficou dessa história

Por Washington Araujo em 11/02/2010 na edição 576

Sempre que sintonizo a Band e surge a imagem do apresentador Boris Casoy meu reflexo imediato é mudar de canal. E isso acontece graças ao vazamento de seu comentário – preconceituoso e desrespeitoso – sobre os garis no último dia do ano passado. As palavras, o escárnio e a desfaçatez com que o jornalista se referiu aos garis contribuem para que o controle remoto seja acionado, sem dó nem piedade. Talvez eu seja o único a agir assim. Não sei. É que existem imagens e fatos que, assim do nada, alcançam alto relevo em meus juízos de valor, em minha memória.


No primeiro dia deste ano, Boris Casoy se desculpou do alto do seu microfone de âncora do Jornal da Band. Mas era tarde demais, o estrago estava feito e seu pedido de desculpas, talvez por não conter a força do achincalhe proferido em rede nacional de televisão, ficou ali perdido no rodapé de minha memória. Era como se a retratação não combinasse, seja em número, gênero ou grau, com a figura grandiloqüente do experimentado jornalista. O assunto mobilizou tanto minhas energias que publiquei no neste Observatório o texto ‘Que vazem os áudios‘ .


Algo que custo a entender é porque cargas d´água um indivíduo com milhares de horas ao vivo, apresentando em tribuna privilegiada que é a bancada de um dos principais telejornais do país, vociferando a torto e a direito contra tudo o que julgava ser errado no Brasil, crispando o rosto sempre que noticiava uma maracutaia, carregando na ironia sempre que surgia a fala de uma autoridade – seja do governo ou não – e usando à exaustão o hoje vazio e oco bordão ‘Isto é uma vergonha!’, de repente, e sem mais nem menos, mostrasse outra faceta, bem menos humana e cordata, arranhando em baixo relevo sua trajetória profissional de tantos decênios.


O episódio mostra à larga que ainda não conseguimos encurtar a distância entre a intenção e o gesto. A distância entre o coração e a mente é imensamente superior à existente entre a Terra e Marte. E no meio disso tudo nos encontramos às voltas com a farsa montada sobre a falsa moral.


Juízo de valor


Acabo de me inteirar que o jornalista responderá a quatro processos. Todos motivados por seu tropeço na própria língua. Destaco dois dos impetrantes. A Federação Nacional dos Trabalhadores em Serviços, Asseio e Conservação, Limpeza Urbana, Ambiental e Áreas Verdes (Fenascon) é autora de ação civil pública contra a Band e o jornalista Boris Casoy. A ação deu entrada no Fórum João Mendes, localizado na região central da capital paulista. Nesta ação, a Fenascon, por intermédio de seu advogado, entregou dados sobre o número de trabalhadores da categoria em atividade no país – cerca de 360 mil pessoas. Com base nas informações, o ressarcimento, caso seja decidido judicialmente, será revertido para o fundo de assistência dos trabalhadores de limpeza.


Outro processo foi movido pelo gari Demilson Emidio dos Santos, da cidade da Campina Grande (PB). No processo de indenização por danos morais, Santos argumenta que o fato causou ‘danos profundos’ a ele a sua família. Portanto, temos uma entidade de classe e um dos 360 mil garis do Brasil buscando reparação à altura do preconceito vazado em rede nacional de televisão.


Em suas frases podíamos tão-somente avaliar a mesquinhez e a arrogância, a soberba e o preconceito demonstrado de forma irreversível pelo vetusto jornalista. Por que escolher os garis para apresentar sua métrica para o caráter humano? Os garis que compõem a categoria que desempenha trabalho essencial para a sociedade, que fazem a limpeza, tornam o planeta habitável, que ajuda a evitar enchentes e impede a proliferação de tantas enfermidades, certamente não mereciam serem alvos de tão odiosos comentários.


É impressionante as lições que esse vazamento propiciou:


** O respeito e a solidariedade aos garis transpareceram de forma quase unânime;


** O repúdio à fala de Boris Casoy também pareceram ser unânimes;


** Ficou evidente o poder nefasto que um juízo de valor tem de destruir reputação, mesmo que esta esteja aninhada no alto dos microfones de um telejornal noturno.


Patrimônio maior


Não é sempre que o espírito de corpo domina a chamada ‘grande imprensa’: existem situações em que é de bom tom noticiar o mau comportamento de um de seus mais vistosos profissionais.


Neste momento em que as quatro ações seguirão seu curso normal, o que poderá levar de meses a anos até uma sentença judicial, o certo é que estes vídeos com o Boris Casoy continuarão sendo, cada vez mais, vistos na internet.


E para um jornalista que invariavelmente arroga para si o papel de justiceiro da sociedade, de corregedor-mor dos costumes sociais, nada deve ser mais penoso que observar a rápida deterioração desse patrimônio infungível que atende pelo nome de credibilidade.


Existirá punição maior?

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Jornalista e escritor, mestre em Comunicação pela UnB e escritor; criou o blog Cidadão do Mundo; seu twitter

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