Sexta-feira, 24 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

JORNAL DE DEBATES > MÍDIA & TERRORISMO

O que o Islã tem a ver com isso

Por João Victor Moura em 16/02/2010 na edição 577

O terrorismo é constantemente ligado a certos fatos conhecidos: 11 de Setembro, atentados em Madri e Londres. Em comum, o fanatismo islâmico como motivação. Mas o que a visão apenas desse viés do terrorismo acaba produzindo?

Segundo o dicionário, o termo ‘terrorismo’ significa ‘sistema de governar pelo terror ou por meios de revoluções violentas ou práticas de atentados’. Dessa forma, o terrorismo pode ser considerado uma prática de violência utilizada contra regimes políticos, povos, manifestações religiosas e pessoas com fins políticos, religiosos e/ou ideológicos. Essas práticas são recorrentes desde que se fez o mundo e remontam os princípios da Humanidade, desde os primeiros escritos achados. Para Walter Laqueur, um dos primeiros teóricos do assunto, ‘nenhuma definição pode abarcar todas as variedades de terrorismo que existiram ao longo da história’.

No livro Odisséia, de Homero, os Mnesteres, pretendentes da mão de Penélope, viúva de Odisseu, se unem para convencer a moça de que o seu marido está morto, visto que este passa vinte anos longe de casa. Entre suas trapaças e arruaças, os Mnesteres, cheios de cobiça pelo poder que teriam caso um deles se casasse com Penélope, armam uma emboscada para Telêmaco, filho de Odisseu. Os estratagemas que milênios depois podem ser vistos nas capitais do Mundo ou em pontos devastados do Planeta tinham sido usados, por exemplo, pelos Mnesteres para tentarem, em vão, a obtenção de Poder.

A literatura é muito rica na descrição do terror. A própria Bíblia contém exemplos, como em uma passagem do capítulo 32 do livro Êxodo, em que Moisés passa a ‘fio de espada’ os adoradores do bezerro de ouro em nome de Javé.

A história, como base para arte, não fica atrás em exemplos. Relatos de atos terroristas podem ser vistos em diversos períodos. O uso do terror e da devastação como forma de se impor parece inerente à condição humana. Em Roma, aqueles que eram contra o governo de Tibério eram expulsos, perdiam suas terras ou eram executados. Robespierre em meio à Revolução Francesa defendeu o Terror, que acabou dando nome ao período entre meados de 1793 e 1794 e que matou milhares de ‘inimigos da Revolução’. A Inquisição Católica e o estopim da Primeira Guerra Mundial, depois da morte do arquiduque austro-húngaro Francisco Fernando pelo grupo terrorista Jovem Bósnia, também podem ser exemplos de ato hostis motivados por razões político/religioso-ideológico. A tríplice base de ações extremas, o uso do terror.

É interessante observar o caso da Revolução Francesa, pois nela o poder do Estado era Terrorista. Outros governos e regimes utilizaram deste método, o Terror. O Grupo Secreto, por exemplo, era um grupo de militares que atuaram pelo fim do governo de João Goulart e que depois foi ‘aliado’ do Regime Militar no Brasil. O grupo Patria y Libertad é outro exemplo, combatentes a favor do regime de Augusto Pinochet. Casos em que o Estado direta ou indiretamente causa Terror para manter o Poder.

Mais atualmente, depois dos ataques ao World Trade Center, o governo dos Estados Unidos criou um índice de segurança que nunca esteve no Verde, e que só transita entre Amarelo e Laranja (nível de ameaça nos EUA entre ‘elevado’ e ‘alto’). Algo que, visto de forma crítica, pode ser considerado terrorismo psicológico para com os próprios cidadãos estadunidenses.

Terrorismo de esquerda europeu e terrorismo pós-moderno

Depois do fim da Segunda Guerra Mundial a Europa Ocidental entrou em uma era mais pacífica. Foi um tempo de reconstrução em países como Espanha, Alemanha, França, Itália e Inglaterra. Nesse cenário diversos grupos terroristas se formaram e/ou ganharam visibilidade: ETA da Espanha, RFA (ou Grupo Baader-Meinhof) da Alemanha, Brigadas Vermelhas da Itália e IRA da Grã Bretanha. E o terrorismo passou a ser visto como grupos de jovens com influências, quase sempre, comunistas com financiamento Soviético e com atos contra os diversos governos europeus. Sejam esses grupos separatistas (caso do ETA e do IRA) ou não, foram responsáveis pela definição de terrorismo até a década de 1990. Porém, na última década do século 20, alguns desses grupos simplesmente desapareceram e outros deles acabaram perdendo força, principalmente pela repressão dos Estados-Nação europeus e o fim da União Soviética, maior patrocinadora dos terroristas da época.

O fato é que durante este processo outros grupos afloraram: os formados por Terroristas Islâmicos. Esses movimentos não nasceram nas últimas décadas, lutando contra o Ocidente bem antes dos anos 90, mas foi com o fim da URSS, que essas células terroristas vieram ao conhecimento público formando o tal ‘terrorismo pós-moderno’, como caracteriza Laqueur.

Esse novo tipo de terrorista age em nome da religião, o que o diferencia dos movimentos terroristas que vinham ocorrendo nos últimos séculos. Baseados na fé, esses grupos passaram a se organizar e ganhar visibilidade. O que só agravou os já existentes preconceitos do Ocidente para com o mundo Islâmico.

O preconceito com o islamismo

Baseados na ignorância e na intolerância religiosa, veículos de comunicação ocidentais acabaram não distinguindo quem era quem no islã, generalizando uma religião que tem, desde os primeiros séculos de sua existência, duas correntes com visões diferentes (sunitas e xiitas), sem contar as diversas formas de interpretação do corão feitas em cada país, região e que caracterizam diversas ‘sociedades’ muçulmanas.

O que se vê atualmente é que não há distinção entre cada parte, caracterizando sociedades diferentes como semelhantes. Ora, seria a mesma coisa que, por obra de uma pequena parte dos cristãos, todos fossem considerados intransigentes e criminosos.

E nesse ponto, até mesmo o termo ‘fundamentalista’ usado para descrever os grupos terroristas está mal enquadrado. Comparando, seria como descrever a Opus Dei (parte mais conservadora dos católicos) como fundamentalista. Caracterizá-los assim é considerá-los ‘melhores’ dentro da religião, pois o termo fundamentalismo faz alusão aos fundamentos. É como se estes grupos fossem os que mais respeitassem os preceitos de suas religiões. Sendo assim, tanto um quanto o outro pode ser melhor caracterizado pelo termo extremista, que leva a religião às últimas consequências.

Para a maioria dos muçulmanos a convivência com as demais religiões é pacífica. O Corão, como os demais livros sagrados, pode sofrer diversas interpretações. Bin Laden cita em um de seus vídeos uma das frases do livro ‘eliminar os inimigos onde quer que eles estejam’. Contudo, no verso seguinte, a mensagem é: ‘Se eles deixarem-no em paz e não fomentarem guerra, e oferecerem a paz, Alá não permite que sejam machucados’.

Segundo alguns autores, é possível caracterizar o fenômeno visto desde a década de 1990 como Islamofobia. Elizabeth Poole, estudiosa inglesa, demonstra em um Estudo de Caso feito entre os anos de 1994 e 2004 que boa parte da culpa é da mídia em criar preconceitos que se enraízam cada vez mais no Ocidente. Uma rápida busca pelo índice de reportagens da revista Veja entre os anos de 1993 e 2008 demonstra esse Islamofobismo: ‘Blasfêmia fatal’, ‘O país das cabeças cortadas’, ‘A espada do profeta’, ‘Uma vitória do terror’, ‘Livres para pregar o terror’. Esses são alguns dos títulos que se juntam a outros tão ofensivos quanto, no índice de reportagens ligadas ao islamismo (na própria classificação da revista).

É claro que não é simplesmente a mídia que faz o terrorismo se tornar algo islâmico, ou ela que aflora preconceitos. A mídia é importante em diversos processos desde sua criação, educando e levando informação às pessoas. Mas a forma instaurada da notícia no mundo atual acaba sendo sensacionalista, castradora e generalizante, o que por si só transforma história em estória. A mídia pega fatos e os monta ao seu bel prazer, carregada de opiniões. O terrorismo é só mais um destes fatos, em que o mundo passa a enxergar, pelo foco dos meios de comunicação o sinônimo terror = islamismo.

Terror midiático

Mesmo que se diga e se prove que o terrorismo não é uma questão atual (no sentido de já existir ‘desde sempre’, como diz Laqueur), o mundo parece cada vez mais fadado ao terrorismo midiático. O de todos os dias, cheio de preconceitos contra este ou aquele que não faz parte do modelo pronto do ‘ocidentalismo’. O que ocasiona os preconceitos contra o Islã, ligando quase sempre Islamismo com atraso cultural e motivações terroristas.

Assim como não é possível, hoje, fazer justiça ao favelado visto como traficante ou o negro visto como ladrão, vê-se que sem se fazer a distinção entre a maioria dos Muçulmanos e aqueles que utilizam o terrorismo não é possível fazer justiça a um povo com história tão importante e com ensinamentos de tão grande valor

A quebra de preconceitos e a construção menos terrorista e mais humana da notícia, esse é um dos maiores desafios da Comunicação.

Todos os comentários

  1. Comentou em 18/02/2010 Carlos N Mendes

    Caro Sergio Luiz, você tem razão em relação ao poder da igreja nos países ocidentais. O processo de separação igreja-estado já tem mais de 400 anos no ocidente, pelo qual todos deveríamos dar graças a Deus (sem trocadilho). Porém não se engane em relação à igreja católica : a última bruxa ardeu na fogueira em 1812, quando a revolução americana já era balzaquiana. E pelo número de mulheres que rezam missa hoje, pode-se medir o quanto a Igreja avançou desde a crucificação. Estamos bem não porque a Igreja evoluiu, mas porque perdeu (muita) força. Sua influência ideológica persiste, não se precisa ir para o interior das Filipinas para ser constatar isso. O Islã tem tremenda força em vários governos, mas a cisma, principalmente em países mais expostos a troca de ideias via internet, vem ficando evidente ano a ano. Um abraço.

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