Terça-feira, 21 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

JORNAL DE DEBATES > FATOS & NOTÍCIAS

O retrato das contradições

Por Luciano Martins Costa em 26/02/2010 na edição 578

O lucro extraordinário do Banco do Brasil, de mais de R$ 10 bilhões, em 2009, e o constrangimento do presidente Lula da Silva em Cuba dividem as atenções dos leitores nas edições de sexta-feira (26/2) com a novela do ‘mensalão’ no Distrito Federal.


Esse mosaico representa bem o país que aparece nos jornais todos os dias, mas oferece mais perguntas do que respostas para aqueles que ainda se questionam: que país é este?


O resultado do balanço do Banco do Brasil, segundo a imprensa, mostra que o governo acertou ao combater a crise financeira com a força do Estado. No final de 2008, diante dos primeiros sinais de que os bancos privados estavam assustados com a quebradeira em Wall Street e iriam restringir o crédito, o governo decidiu reforçar o banco estatal, ampliando o crédito, adquirindo outras instituições e visando a nova classe média ascendente.


Os relatos da imprensa indicam que o Banco do Brasil conseguiu retomar o primeiro lugar, voltando a ser a maior instituição brasileira do setor, e ao mesmo tempo funcionou como amortecedor da crise, o que fez com que a banca privada também entrasse no jogo, ampliando o crédito.


A má sorte do presidente Lula da Silva de estar em Havana exatamente no dia em que morreu o dissidente Orlando Zapata Tamayo compete pela manchete com o balanço do Banco do Brasil.


Além de ter que se manifestar sobre assunto interno cubano, estando na condição de visitante, Lula se viu obrigado a explicar algumas contradições da diplomacia brasileira, que demonstrou enorme protagonismo no episódio do golpe de Estado em Honduras e se omite diante da repressão política em Cuba.


Até onde?


O noticiário da sexta-feira se completa com a tentativa do governador licenciado do Distrito Federal de ser libertado da cadeia com a promessa de não voltar ao cargo. Nas palavras de seu advogado, José Roberto Arruda está tão ‘ressentido’ que poderia até abandonar a carreira política.


Entre a patética ‘ameaça’ do governador apanhado com a mão na boca da botija, o constrangimento internacional do presidente que até ontem era ‘o cara’, e a exuberância da economia nacional, os jornais pintam o retrato dessa grande complexidade chamada Brasil: o país que ainda tem que conviver com quadrilhas rastaqueras na política, que se deixam filmar com dinheiro nas meias, é o mesmo que emerge da crise como destaque na economia mundial mas não consegue usar sua liderança para exercer alguma influência em favor dos direitos humanos no continente.


A pergunta que fica nas entrelinhas: até onde o Brasil pode ir, arrastando essas contradições insustentáveis?

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