Quarta-feira, 12 de Dezembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1017
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JORNAL DE DEBATES >

O ritmo da história e o tempo do jornalismo

Por Ivo Lucchesi em 11/11/2008 na edição 511

O percurso histórico lida com três processos: ‘mentação’, ‘germinação’ e ‘mutação’. A rigor, são três temporalidades cuja configuração remete às relações profundas entre ser/ linguagem/ conhecimento/ consciência. A ‘mentação’ é aquele tempo necessário no qual o conhecimento é gestado. A ‘germinação’ corresponde ao resultado de um conhecimento adquirido e doa ao processo histórico as descobertas com as quais novos passos podem ser dados, nos mais distintos campos (ciência, tecnologia, arte, filosofia, economia, política). Por fim, a ‘mutação’ implica as transformações que afetam (positiva e/ou negativamente) a vida, como conseqüência do que foi pensado e germinado.

Obviamente, as três instâncias aqui mencionadas atuam no regime da concomitância. Ao longo do curso da história, elas se fazem presentes sob o pacto de uma ‘tríplice aliança’ que não exclui conflitos entre as três, em função de colisão de interesses. A propósito, parte da beleza da história deriva dessa dinamicidade envolta pela tensão dialética.

A conceituação proposta no parágrafo anterior pretende pontuar a seguinte questão: com base no jornalismo vigente, que efetiva contribuição tal modelo – cujas características principais se pautam na informação célere, na clareza absoluta e na supremacia do fato, em detrimento da análise – empresta a seus leitores?

Entre o factual e o conceitual

A presente crise financeira, de proporções mundiais, sob o patrocínio de um capitalismo focado na obtenção de lucros a qualquer preço e cujos passos iniciais reportam aos primeiros anos da década de 1990, período no qual se propalaram as teses neoliberais, impõe uma cobrança aos setores responsáveis pela tarefa de noticiar. Que faziam os jornalistas (principalmente aqueles especializados em coberturas econômicas e políticas) ao longo de tanto tempo, tão bem informados quanto a ‘comportamento dos mercados e das instituições financeiras’? Será que em nenhum momento houve, em favor de uma percepção crítico-reflexiva, a leve suspeita quanto a uma possível e descontrolada espiral que, adiante, geraria, em escala mundial, tamanha catástrofe?

Sob o ponto de vista jornalístico, a atual crise deve ser capaz de, em cada empresa de comunicação, forçar um novo pensar no tocante ao papel social que cabe à mídia desempenhar. Nessa revisão, porém, será fundamental a proposta de uma diferente concepção de jornalismo, sob pena de a credibilidade do setor vir a ser mais afetada do que a economia mundial sofre agora. Não é difícil perceber-se que outro caminho deverá trilhar a atividade jornalística. A esta, apenas se afigura um: assumir, de modo efetivo, uma atitude centrada no distanciamento crítico a fim de, ante os fatos do cotidiano, poder lançar sobre eles um olhar reflexivo, analítico, contextual.

Para tanto, o ‘tempo do jornalismo’ terá de se ajustar ao ‘ritmo da história’. É sabido que o caminhar da história é complexo; logo, o jornalismo não pode ser simples e direto. É indispensável a mudança de foco: a substituição de um ‘jornalismo factual’, regido pelo primado da informação, por um ‘jornalismo conceitual’, orientado pela supremacia da idéia.

É lógico que o modelo conceitual não descarta o factual. Ao contrário, ele o agrega. O factual é que, no entanto, não inclui o outro. Por outro lado, seria desmesurado cobrar-se da atividade jornalística uma presença analítica nas três temporalidades. É claro que nenhuma área da comunicação poderia ter acesso à ‘temporalidade da mentação’. Porém, é fundamental que ela participe intensamente das outras duas. Quanto à ‘germinação’, a imprensa tem de estar antenada para dar conta do que é o novo, bem como apta a começar a analisar que mutações estão ocorrendo a partir do que foi germinado.

‘Holofotes’ tardios

Entre fins da década de 1980 e limiar dos anos 1990, o ‘discurso da globalização’, após haver sido pensado em tempo anterior, foi disseminado por todos os continentes. A imprensa apenas cumpriu o papel de informar de modo acrítico. Diferente não procedeu quando da germinação de um novo dogma: a capacidade de regulação do mercado, sem a ingerência do Estado. Como terceiro aspecto, disseminou-se a nova e inquestionável máxima acerca da construção do ‘Estado mínimo’.

Políticos, em diferentes partes do mundo, foram eleitos sob o amparo dessa ‘retórica dominante’. Afora debates que eram travados no circuito fechado do pensamento acadêmico, nada de maior expressão, no âmbito jornalístico, foi alvo de abordagem crítica. O processo evoluiu até o ‘estouro da bolha’. Agora, após as mutações, com os desastres que ainda prosseguirão, surge uma mídia ‘assustada’ para alarmar quanto a maiores perigos no horizonte próximo. Agora? É tarde.

Lá, há década e meia, a omissão da ‘vigilância jornalística’ colaborou, por meio do silêncio, com interesses que viabilizaram privatizações em larga escala. As páginas de economia refletiam o sucesso de instituições financeiras com a obtenção de lucros astronômicos. Agora, o resultado, nos mais diferentes países, consiste em o ‘Estado mínimo’ injetar bilhões de dólares para evitar um colapso incontornável. O único problema é que, no atual cenário, quem paga a conta são os cidadãos contribuintes. O montante que os governos estão repassando para o ‘mercado’ é a ‘moeda’ subtraída das populações assalariadas.

A depender da presença jornalística, quantos leitores conheciam o nome de Paul Krugman, recentemente condecorado com o prêmio Nobel de Economia? No entanto, há uma década, no meio acadêmico, suas teses eram objeto de intensos debates. Krugman, há muito, profetizara o ‘estouro da bolha’. Quem o ouviu? Quem disseminou suas idéias? A mídia apenas lhe deu ‘holofotes’ após a conquista do prêmio. Que tal?

A cobertura Obama

A mídia fartou-se em euforia com a eleição de Obama. Nada contra. Particularmente, tenho intenso prazer em ver Barack Obama na Casa Branca. O que efetivamente me preocupa é o atual exaltado foco jornalístico pela vitória de um presidente mestiço nos EUA. Não ignoro o fato de haver preocupantes sinais à espera de Obama. A mídia, porém, tem preferido destacar o fato de, pela primeira vez na história dos EUA, um mestiço chegar à Casa Branca.

O que a mídia, contudo, não está abordando é a trama histórica na qual o fato está inserido. Justamente num dos mais graves quadros da vida norte-americana, com inegáveis ressonâncias em âmbito mundial, um candidato acima de preconceitos enraizados vence as eleições presidenciais. Sem dúvida, é algo a ser comemorado. Todavia, há uma armadilha histórica à espera de como o futuro presidente conduzirá sua administração interna e externa.

Na edição do caderno ‘Mais!’ (Folha de S.Paulo, 9/11), a manchete foi: ‘O mulato: mito e realidade em Barack Obama’. Inspirado (ou não) num dos romances de Aluísio Azevedo (O Mulato, publicação de 1881), o título não me pareceu de ‘bom gosto’, considerando-se a etimologia da palavra ‘mulato’. Ainda mais lamentáveis, os títulos constantes nas páginas 4 e 5 (‘Mestiço beleza’/ ‘Nação furta-cor’). Os editores podiam ter abdicado de alusão a composições de Raul Seixas e Caetano Veloso. Os dois artistas não mereciam o plágio. Maluco beleza e O quereres representam dois belos recortes lítero-musicais do cancioneiro nacional. Algo de desrespeitoso atingiu duplamente compositores e o presidente eleito. Percebe-se, nos títulos, uma indisfarçada tensão entre ‘tratamento descontraído’ e ‘pitadas de velada ironia’.

Como subtítulo à matéria ‘Mestiço beleza’, figurou a seguinte legenda: ‘Eleição de Barack Obama deve representar mudança drástica no imaginário cultural sobre os EUA dentro e fora do país’. Ao tratar, no tópico anterior, da dualidade de modelos jornalísticos (factual x conceitual), o exemplo da Folha bem ilustra. Num tipo de cobertura de caráter contextual e crítico-reflexivo, essa percepção já teria sido bem antes consignada. Por muito menos, em artigo publicado 1/4/2008 neste Observatório (‘Eleições nos EUA: Obama, uma vanguarda estética‘), pontuava essa questão.

As três temporalidades

Recordo que, àquela altura, ainda pairava razoável atmosfera de indefinição. Contudo, numa perspectiva jornalística de base conceitual, o simples fato de um candidato, com as características raciais e religiosas de Obama, haver suplantado as concorrências em seu próprio partido e, por fim, haver chegado a uma disputa final em igualdade de condições, já era suficiente para empreender-se um recorte interpretativo que, somente agora, com a consolidação do acontecimento, chega aos leitores. Doravante, a eleição de Barack Obama exigirá dos analistas a isenção devida, liberta de preconceitos, a fim de propiciar aos leitores uma análise conjuntural, à altura de saber distinguir a exata fronteira entre as possibilidades de o ‘mestiço’ presidente poder empreender transformações e as limitações dessas mesmas possibilidades.

Fechando o que, na introdução do artigo, foi proposto, um novo jornalismo disposto a compreender o caminhar da história, com base nos três tempos (‘mentação’/ ‘germinação’/ ‘mutação’), haverá de perceber que, aos fatos, o jornalista terá de somar o pensamento em associação com a ‘germinação’ das informações e, por fim, estar atento aos efeitos produzidos com o desenrolar dos atos. Será cobrar muito?

A pergunta não cabe. Afinal, o ritmo da história é cada vez mais acelerado. Este é o fato. O jornalismo, portanto, terá de melhor se qualificar para fazer frente às exigências. Em todas as áreas, tem-se verificado inevitável processo de aperfeiçoamento de profissionais. Tal injunção também recai no campo da comunicação. Antevisão crítica, mesmo com margem de erro, é um atributo inadiável, determinado pela atual configuração do mundo. O jornalismo que, em direção ao futuro, despreze essa inevitável adaptação correrá o sério risco de pouco (ou nada) ter a contribuir. Esperar o desenlace dos fatos é tão-somente um modo inútil de registrar.

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Ensaísta, articulista, doutor em Teoria Literária pela UFRJ, professor titular de Linguagem Impressa e Audiovisual da Facha (Rio de Janeiro)

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