Sábado, 23 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº958

JORNAL DE DEBATES > ELEIÇÕES 2010

O simulacro como esclarecimento

Por Eduardo Sabino em 05/10/2010 na edição 610

Na reta final das eleições, as recentes denúncias de corrupção resgatam a estratégia fracassada de 2006 de invocar os valores morais dos eleitores e, com base em acusações sem provas, tomar o duvidoso por certo, o acusado por bandido. Curiosamente, a revista que levanta a bandeira da ética acumula processos por calúnia, difamação e injúria.

Sob o escudo da liberdade de imprensa – a liberdade de repetir discursos preconceituosos e autoritários –, alguns jornalistas insistem em chamar de perseguição política as restrições da justiça ao seu trabalho. O jornalista Diogo Mainardi, da Veja, saiu do país, nos seus dizeres, ‘como os retirantes de Vidas Secas‘, estabelecendo-se na terra árida onde já havia morado por 14 anos: Veneza. Aliás, residindo em lar estrangeiro, o ‘perseguido político’ se esquiva das pendências judiciais que coleciona, como troféus, pela imparcialidade e credibilidade de seus artigos.

Que a revista Veja representa os interesses de uma elite preconceituosa, revoltada por ser governada por um operário, muita gente já sabe. No meio acadêmico, especialmente nos bons cursos de Comunicação Social, a publicação virou, nos últimos anos, objeto de aulas, debates e teses sobre o antijornalismo. Mas a dissimulação acontece em horário nobre, quando, ignorando as pesquisas científicas sobre o discurso da revista que ensina a não ver, o Jornal Nacional se baseia em reportagem de Veja para ‘esclarecer’ o eleitor e mudar os rumos das eleições.

Como ver em Serra a possibilidade de reforma agrária?

Decerto, o circo não conta apenas com as piadinhas do palhaço Tiririca no horário eleitoral. O show de horrores cômicos passa na TV, no rádio e circula por e-mail em velocidade jamais vista. Não há mais falsas ideias encobrindo a realidade, alerta Baudrillard: ‘é o real que é feito de simulações e subsiste aqui e ali’.

O deserto da realidade é vasto. Nestas eleições, cabe aos cidadãos escolher entre dois candidatos que vão continuar com um modelo de vida neoliberal. Fundado na superprodução, portanto, na degradação ambiental (com mais ou menos programas de redução de danos) e na exploração do trabalho.

Contudo, uma candidata representa um governo (e fez parte dele) que, apesar de se render aos principais anseios do mercado, investiu em programas sociais como nenhum outro. Os menos favorecidos tiveram mais acesso à educação, ao emprego, milhões saíram da pobreza para uma condição longe do ideal, mas um enorme avanço frente ao que foi feito (e, especialmente, ao que não foi feito) nos governos do PSDB – privatizações sem medida, foco na dilatação do mercado e pouca ou nenhuma intervenção pela penúria de milhões de eleitores. Como ver em Serra, um repetidor do discurso da grande mídia, que trata o MST – principal movimento social da América Latina – como um grupo de baderneiros, alguma possibilidade de reforma agrária?

Algo está acontecendo

O governo Lula, por sua vez, não mudou a estrutura do país. Não fez reformas profundas na educação, no sistema de tributos, na distribuição de latifúndios, nem tantas outras tão necessárias. Mas, pelas inúmeras concessões sociais, conquistou o apoio popular necessário para viabilizar mudanças que já estão assustando os grupos dominantes.

Talvez seja esse o temor manifestado na grande imprensa, a porta-voz da elite econômica do Brasil. Até o dia do pleito, os valores morais de uma população profundamente cristã serão acionados, em favor, não da punição dos corruptos, mas dos interesses privados. A possível eleição de Dilma mostrará, mais uma vez: as ficções da telinha, mesmo quando inspiradas na realidade, não são mais capazes de alterar a vontade do povo. É que algo está acontecendo, de fato, no mundo real.

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Jornalista, escritor e autor do livro Ideias Noturnas (ed. Novo Século, 2009). Editor da revista literária Caos e Letras

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