Segunda-feira, 18 de Junho de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº991
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JORNAL DE DEBATES > A MÍDIA NÃO DEU

O sistema antimíssil do ‘AeroLula’

Por Felipe A. P. L. Costa em 18/01/2005 na edição 312

Duas das principais agências de notícias brasileiras divulgaram, na manhã deste sábado (15/1), que o novo avião presidencial – batizado de Santos Dumont – finalmente chegou à capital do país. Em matérias algo semelhantes (o que ocorre com freqüência mais do que acidental), lê-se o seguinte:

** Na Agência Folha, em matéria que foi ao ar às 11h03 (segundo o próprio sítio), encontramos a manchete: ‘Novo avião presidencial pousa em Brasília’ (www1.folha.uol.com.br/folha/
brasil/ult96u66697.shtml
). Em oito minguados parágrafos, ficamos sabendo que o ‘AeroLula’, como menciona o texto, custou US$ 56,7 milhões.

** Na Agência Estado, em matéria que foi ao ar às 11h19 (também segundo o próprio sítio), nos deparamos com a criativa manchete: ‘Novo avião do presidente Lula chega a Brasília’ (www.estadao.com.br/nacional/noticias/
2005/jan/15/15.htm
). Em três parágrafos, ficamos sabendo que o Airbus Corporate Jetliner A-391, como diz o texto, custou 154 milhões de reais.

A Folha informa que, segundo o governo, o custo da compra se justificaria porque o novo modelo vai servir aos presidentes brasileiros pelos próximos 30 anos. (Trocando em miúdos, isso seria equivalente a gastar cerca de um milhão e novecentos mil dólares por ano em passagens aéreas para o presidente e sua comitiva.) Em seguida, a matéria reproduz comentários aparentemente oficiais, segundo os quais o novo avião presidencial seria mais do que uma simples aeronave de transporte, a saber:

Segundo a Aeronáutica, ‘tanto em um ambiente de crise, como na possibilidade de um conflito, ele passa automaticamente a integrar o sistema de defesa do país e transforma-se em um posto de comando no ar, por meio do qual o presidente da República, Comandante Supremo das Forças Armadas, coordena as ações essenciais para a segurança do território nacional’.

A matéria da AE sequer menciona essa natureza, digamos, transformista da nova aeronave presidencial. Em compensação, uma informação que só encontramos na matéria da AE é que a imprensa, por motivos de segurança, não terá acesso ao interior da aeronave.

Metade do preço

Curiosamente, porém, o que até agora ninguém na mídia explorou em detalhes ou sequer mencionou é o seguinte: a aeronave presidencial veio equipada com um sistema antimíssil, o que encareceu um bocado o seu preço final. Nas palavras de uma engenheira que trabalha na indústria aeronáutica brasileira: (…) a plataforma do avião é a mesma do A319, o que me leva a crer que ele poderia perfeitamente ter comprado um 170, que é muito mais barato. Mas não, queria um avião com sistema antimísseis.

Realmente, com as coisas que ele anda fazendo no governo… ele vai precisar dessa proteção. Sistema antimísseis! De onde surgiu idéia tão brilhante e apropriada? É coisa de assessores? Civis ou militares? Ou seria apenas mais um dos pré-requisitos que o país precisa cumprir antes de conseguir um assento no Conselho de Segurança da ONU? (De minha parte, torço apenas para que essa geringonça enferruje, sem que jamais precise ser utilizada.)

Em tempo: minha fonte comentou também que, sem o tal sistema antimíssil, o novo avião presidencial talvez custasse a metade do preço…

******

Biólogo, autor do livro Ecologia, evolução & o valor das pequenas coisas (2003)

Todos os comentários

  1. Comentou em 20/01/2005 Lúcio Reis

    Dois Brasis

    O Brasil é um País, graças a Deus, onde ‘há emprego para todos’, ou melhor
    os ‘índices de desemprego são mínimos’. Não há famílias brasileiras
    habitando em palafitas, nem sob viadutos ou passarelas e nem alagados.
    Quando algum brasileiro menos favorecido adoece – o que é raro, pois todos
    tem muito boa saúde – o SUS está aí mesmo para prestar atendimento 5
    estrelas, independente da classe social. Segurança! Que maravilha, os
    índices de violência retratam que pouquíssimo há que ser feito pelos órgãos
    públicos, pois são raríssimas as rebeliões em penitenciárias, cadeias
    públicas e FEBENS e tudo, porquê as entidades são muito bem equipadas e seus
    agentes excelentemente remunerados. Em via pública, quer turno diurno ou
    noturno o cidadão tem o seu direito constitucional de ir e vir garantido e
    o exerce sem nenhum problema, portando seu relogio, seu celular, seu cordão
    de ouro ostensivamente e jamais e importunado e, até mesmo o seu bem maior,
    a vida, ele goza relaxadamente, de vez que não há bandidagem, o poder saneou
    tudo. Em fim, todas as atribuições que a Constituição atribui ao poder
    público estão plena e satisfatoriamenre cumpridas e sendo executadas.
    Tudo o acima, mostra que estamos e vivemos num País maravilhoso e que, temos
    plenas condições de entender que o Presidente da República e sua comitiva
    usem um avião, no caso o Santos Dumont, recém adquirido por algumas dezenas
    de dolares e em voo de inauguração para cá, enquanto o Vice-Presidente da
    República use uma outra aeronave, pois os dois não podem estar – segundo as
    normas legais – num mesmo veículo aéreo, mesmo que seja para cumprimento de
    compromissos das respectivas funções.
    Ora! Que me desculpem, administrar o dinheiro dos outros, ou seja de todos
    nós brasileiros, não é para qualquer um, pois parcimonia no gastar não se
    adquire em prateleira de super-mercado mas sim, com ações de
    responsabilidade e seriedade, pois esse tipo de desperdicio tem uma fonte de
    custeio, é o bolso do cidadão contribuinte, o que vem sempre e
    sistematicammente acontecendo, em função das reiteradas e sucessivas
    atitudes dos administradores públicos, que demonstram inequivocadamente que
    eles administram um outro Brasil o qual, é diferente do Brasil em que
    vivemos nós os cidadãos comuns, pois o deles tem as caracteristicas do
    primeiro paragrafo acima e o nosso é o Brasil que figura nas páginas
    policiais e nas manchetes dos misérias do dia a dia, onde a bandidagem manda
    e desmanda.
    Para o cumprimento dos dispositivos legais em prol do cidadão não há como
    executar pois verba não há, mas, para o cumprimento do que protege a pele
    deles, não há impecilho de nenhuma ordem. Mas um dia o eleitor vai entender
    tudo isso.

    Lúcio Reis

  2. Comentou em 19/01/2005 Alessandro Silva

    Caro Sr. Felipe,

    O raciocínio apresentado em seu artigo, com todo o respeito, apresenta algumas falhas.
    Primeiro, o avião em questão é um jato corporativo. Ou seja, a partir da plataforma de um jato comercial, a Airbus atendeu a uma série de requisitos pré-estabelecidos pela Aeronáutica para compor o avião presidencial.
    A decisão foi técnica, não política, pelo que se entende dos fatos divulgados.
    Houve um processo de seleção e outras empresas participaram (Boeing e Embraer, que declinou do convite por não ter um modelo do porte pretendido). Comprou-se, portanto, um pacote fechado e pelo melhor preço.
    Segundo, que a Aeronáutica, em entrevista coletiva, afirmou que o avião pode ter o sistema, mas não disse que a aeronave ACJ-319 pousou no Brasil com o dispositivo. Sem a confirmação desse dado, metade do artigo se perde.
    Terceiro, os estudos para a aquisição da nova aeronave começaram em 1992 e foram formalizados em 1998, dentro do Programa de Fortalecimento do Controle do Espaço Aéreo, da FAB. Não se trata, portanto, de uma decisão de agora, precipitada, mas resultado de uma longa avaliação técnica.
    No início dos estudos, detectou-se que seria necessário adquirir um avião capaz de operar em pistas curtas, no interior do país, mas com grande autonomia de vôo. Uma mesma aeronave, cumprindo essas duas missões, representa economia.
    As vantagens da aquisição foram divulgadas por alguns órgãos de imprensa e há textos no site da FAB (www.fab.mil.br) a respeito do assunto, capazes de engradecer a discussão.
    O que é melhor, pergunto: ter gastos elevados com um veículo usado, pagar aluguel pelo carro de outra pessoa ou ter um modelo novo e econômico? Basta analisar o que se faz em casa, no dia-a-dia.
    Em tempo, foram divulgados dados na coletiva que mostram a enorme diferença de preço entre a hora voada em avião fretado (US$ 12 mil, mais hora parada), o antigo Boeing (mais de US$ 7 mil) e o novo ACJ (US$ 2,1 mil).
    Boa parte do debate que poderia ter sido travado até agora, creio, perde-seu em em raciocínios precipitados e com poucos argumentos.
    Bem, ficam aí as minhas sugestões para análise. Obrigado.

  3. Comentou em 19/01/2005 Paulo Marcos Lustoza

    Opinião típica de um biólogo que não conhece bem outra coisa além de seu ofício.Não vá o sapateiro aléem do sapato.

  4. Comentou em 19/01/2005 Luís Cláudio Rocha

    é incrivel como a impreensa tem o poder de deturpar e transmitir informacões erradas, o avião que o brasil comprou para a presidencia da republica não é do lula nem nunca o será,isto é um problema de pertinência e cidadânia que se passa a todos, como se os orgãos e estabelecimentos do Brasil fossem dos politicos, não são.

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