Sexta-feira, 20 de Outubro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº962

JORNAL DE DEBATES > SEGUNDO MANDATO

O vale-programa e sua decifração

Por Rolf Kuntz em 09/01/2007 na edição 415

O vale-programa é a nova criação do talento político nacional. Antes de entrar em férias, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva entregou aos brasileiros um vale desse tipo: a sigla PAC, promessa de um Programa de Aceleração do Crescimento. Ficou de liquidar a conta em 22/1, três semanas depois do início do segundo mandato. Até lá, os ministros da área econômica deverão acertar com sua chefe – a chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff – alguma coisa para exibir ao distinto público.

O presidente reeleito deveria ter apresentado um plano de ação no discurso de posse, no dia 1º de janeiro, mas o produto estava em falta. Depois de quase dois meses de falatório sobre a pauta do segundo mandato, nada havia para mostrar. Isso complicou o trabalho de repórteres e editores. Foi duro arranjar um lead para as matérias e um título para a primeira página. Cada um dos grandes jornais paulistas e cariocas achou uma solução.

‘Lula promete acelerar crescimento’ foi a manchete da Folha de S.Paulo, uma saída simples. A Gazeta Mercantil tomou um caminho parecido: ‘Crescer e investir são desafios de Lula II’. O Estado de S.Paulo descobriu um título incontestável: ‘Lula assume e nega ser populista’. O Valor tentou uma interpretação: ‘Foco de Lula é distribuição de renda’. Mas essa escolha ficou um tanto diluída, nas páginas internas, onde três matérias destacaram diferentes prioridades, ou focos: crescimento e educação (página 2), crescimento em vez de mudança (página 4) e distribuição (página 6).

A saída mais prudente talvez tenha sido a do Globo. Em vez de levar a sério a idéia de uma presidência para o Brasil, o jornal carioca decidiu destacar o interesse local: ‘Lula diz que Rio vive terrorismo e Cabral pede ajuda de força federal’. A promessa do PAC ficou na metade inferior da primeira página.

‘Postura e ousadia’

Mas a melhor apresentação da fala de Lula, no Congresso, talvez estivesse fora do material noticioso. Num espaço muito menor, Dora Kramer conseguiu, em sua coluna (página 6 do Estadão), resumir as principais passagens e mostrar o dado mais importante. Por trás da elaboração literária, o discurso nada continha de soluções práticas. Em nenhum momento o presidente contou como tentaria resolver os problemas (‘desatar os nós’ da economia, por exemplo) ou alcançar seus objetivos.

Nem a opção pelos pobres foi discutida com um mínimo de clareza: ‘Não deu para perceber’, escreveu Dora Kramer, ‘como a Bolsa-Família será a ‘peça-chave’ do próprio desenvolvimento estratégico do país’. Dora poderia ter acrescentado: e que diabo significa ‘desenvolvimento estratégico’?

Mas a colunista não se limitou a apontar o contraste da forma elaborada com o conteúdo vago. Mencionou o silêncio sobre a reforma da Previdência e a revisão das leis trabalhistas. Indagou o sentido da expressão ‘mudança de postura e ousadia’, na passagem sobre política fiscal. Que significam essas palavras: gastança? Outras matérias – até no próprio Estadão – destacaram alguns desses pontos. Mas em nenhuma página, de nenhum jornal, todas as questões importantes foram reunidas de forma tão organizada, clara e enxuta.

Colunas à frente

As mesmas qualidades marcaram, três dias depois, a coluna de Cláudia Safatle, no Valor. Foi a apresentação mais clara, articulada e redondinha da provável orientação do segundo mandato, com base na informação disponível até aquele momento. A idéia original de uma política fiscal de longo prazo foi para o ralo. Ao rejeitar as propostas politicamente mais difíceis, o presidente escolheu um ‘plano inibido’, com ações limitadas tanto na desoneração de investimentos privados quanto na contenção do gasto corrente e na mobilização do investimento público.

O presidente Lula, tudo indica, preferiu ser o ‘pai dos pobres’ a ser um estadista ‘pai da nação’, segundo a colunista. Com isso, a economia provavelmente crescerá menos do que poderia crescer, se houvesse mais audácia no tratamento dos principais obstáculos. No final da coluna, sobrou um levíssimo toque de otimismo: ‘A esperança de alguns conselheiros do presidente é que ele pense melhor nesses dez dias em que estará de férias’.

As boas colunas vêm-se destacando, no jornalismo brasileiro, como excelentes canais de informação, freqüentemente mais satisfatórios que as tradicionais páginas informativas. Não se diferenciam meramente pelo comentário ou pela opinião, mas pela tentativa de juntar os pedaços da informação e de criar histórias com começo, meio e fim – ou de apontar, se for o caso, os pontos obscuros de cada história. De certa forma, a reportagem está-se abrigando nas colunas, mais do que nas outras páginas. Talvez isto valha alguma reflexão.

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Jornalista

Todos os comentários

  1. Comentou em 10/01/2007 Cid Elias

    Pode-se perfeitamente extender ao Rolf o mesmo conceito dito pelo ‘Paco’ ao fazer referência aquele troço que escreve na veja: Parajornalista, ou para-jornalista, sei lá…e também tanto faz, pois considerar como Jornalismo uma coisa horrenda como esta aí acima que tive o desprazer de ler, é dose pra mamute.

  2. Comentou em 09/01/2007 Rogério Ferraz Alencar

    Vamos refletir, então: se as colunas informam mais e melhor do que as tradicionais páginas informativas, chegando mesmo a serem ‘excelentes canais de informação’, as tradicionais páginas informativas deveriam se acabar, por absoluta irrelevância. Nesse caso, viriam mais e mais colunas, e nós ficaríamos mais e mais bem informados. O ápice da nossa informação viria, então, quando lêssemos a coluna de Rolf Kuntz sumariando e resumindo as colunas que melhor retratassem o País. Assim, Rolf Kuntz nos entregaria de bandeja a coluna com a ‘melhor apresentação da fala de Lula no Congresso’ (nesta semana foi a de Dora Kamer), e a coluna com ‘a apresentação mais clara, articulada e redondinha da provável orientação do segundo mandato’ (que, nesta semana, foi a de Cláudia Safatle). Num panorama assim, onde um resumo semanal nos diria quem foi melhor em ‘criar histórias com começo, meio e fim’, Rolf Kuntz talvez adquirisse influência excessiva, e um escorregão dele na avaliação poderia causar alguns transtornos. Ele poderia, evidentemente, ser assessorado por um observador da imprensa, que lhe diria a forma correta de escrever a coluna. Seria uma observação prévia. Teríamos, então, o supra-sumo da informação. Seguindo os ditames da coluna, Lula, finalmente, deixaria de ser um reles ‘pai dos pobres’ para ser um portentoso ‘estadista pai da nação’. Será que Lula pensará melhor, nas férias?

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