Sexta-feira, 24 de Maio de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1038
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ENTRE ASPAS >

O verdadeiro Monteiro Lobato

Por Francisco Antero Mendes Andrade em 17/05/2011 na edição 642

A imagem criada em torno de Monteiro Lobato construída no século 20 sofreu nos últimos dois anos um golpe de efeito arrasador, quando o Ministério da Educação, provocado a se manifestar sobre o racismo incluso na obra Caçada de Pedrinho, propôs a inclusão de notas explicativas, bem como uma qualificação apropriada de educadores ao apresentarem o livro em sala de aula. Dentre as várias passagens racistas na obra, eis a seguinte: ‘Tia Nastácia, esquecida dos seus numerosos reumatismos, trepou na árvore que nem uma macaca de carvão.’

Não se tratava de censura. Porém, operou-se uma verdadeira gritaria no meio acadêmico na medida em que defensores de Lobato atacaram o governo e demais contestadores da obra. A democracia racial se apresentava como de costume. A obra deveria ficar intacta, insistiam, e insistem. Para os democratas raciais, a obra estava perfeita em sua mensagem, o que os fazia acreditar – diziam e dizem! – na capacidade das crianças não levarem adiante aquilo que chamamos de bullying. A criança divide seu tempo entre o meio familiar e o meio escolar. Quando ambos não estão preparados para repassar valores que a criança levará consigo para o resto da vida, corre-se o perigo de se estar destruindo futuras gerações. E foi esta a situação provocada pelas mensagens subliminares negativas contidas em obras do escritor.

Um sentimento de liberdade

Neste ínterim, seus defensores em uníssono evocam tanto ser o contexto de uma época quanto ser apenas produto de ficção. Como se isso fosse uma generalidade entre os pensadores da primeira metade do século passado. Mas se tentam salvar a imagem do Lobato ficcionista, não têm o mesmo sucesso em relação ao Lobato que se relacionava com seus amigos por meio de cartas. E é nesta relação que tomamos conhecimento de um escritor até então desconhecido. Alguém que agregava à sua personalidade um ódio mortal aos negros. A sequência de cartas publicadas na revista Bravo! deste mês (maio de 2011) nos revela um criminoso conforme se observa a seguir: ‘País de mestiços, onde branco não tem força para organizar uma Kux-Klan (sic), é país perdido para altos destinos. […] Um dia se fará justiça ao Ku-Klux-Klan; tivéssemos aí uma defesa desta ordem, que mantém o negro em seu lugar, e estaríamos hoje livres da peste da imprensa carioca – mulatinho fazendo jogo do galego, e sempre demolidor porque a mestiçagem do negro destrói a capacidade construtiva’ (carta enviada a Arthur Neiva em 10 de abril de 1928, pg. 26). Seus defensores alegam a distância temporal como causa de absolvição. Como se fosse possível absolver Hitler em meados do ano de 2036.

O Estado racista brasileiro foi eficaz em sua missão de silenciar o grito de protesto de todos e todas. Este silêncio propiciou a Monteiro Lobato desfilar em carro aberto pelas ruas e avenidas do século 20. O discurso da democracia racial serviu como uma película protetora para proteger o pensamento vivo de Lobato. Foi preciso avançar no século seguinte para sentir o baque: Monteiro Lobato racista.

Convém informar que Lobato escolheu seus leitores definitivos na década de 20, ou seja, os pequenos. Sua literatura de ficção para adultos não encontrava acolhida esperada e foi nos pequenos o terreno fértil. Felizmente, a história não é estática. Tanto não é estática que estamos aqui divulgando este Monteiro, este Lobato, o verdadeiro. Muitos dos leitores e leitoras, de todas as cores, após os últimos acontecimentos, transitarão de um sentimento a outro em relação a Lobato – eu diria um sentimento de liberdade – e poderão contribuir com a divulgação da verdade a partir deste mês de maio de 2011.

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Servidor público federal, São Paulo

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