Sexta-feira, 18 de Agosto de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº954

JORNAL DE DEBATES > 'CHARLIE HEBDO'

O direito de ser

Por Alberto Dines em 17/01/2015 na edição 833

Reproduzido do El País, 17/1/2015; intertítulo do OI

“Sou Charlie, sou judeu, sou tira, sou laico” – cartelas com estas afirmações apareceram de forma insistente na admirável jornada de solidariedade nas ruas da França no domingo (11/1). Ser Charlie significa acreditar na inalienável liberdade de pensar, expressar-se e irmanar-se aos doze chacinados na redação do Charlie Hebdo.

Ser judeu neste triste momento é uma desassombrada manifestação de solidariedade aos quatro reféns, cidadãos franceses de religião judaica, ortodoxos, massacrados na véspera do descanso sabático, num empório de alimentos kosher.

Identificar-se como flic – tira – é uma forma de homenagear os três policiais caídos no cumprimento do sagrado dever de proteger concidadãos desarmados do rancor terrorista – uma mulher e dois homens de origem árabe.

Declarar-se laico, leigo ou secularista significa dar um passo à frente para escapar da hidra do fanatismo religioso e libertar o Estado de Direito democrático de seu mais duradouro grilhão.

Em desfile

No grande debate armado no mundo livre, em seguida às duas chacinas parisienses, as quatro afirmações precisam ser devidamente destacadas e assimiladas. Ser Charlie transcende a heroica resistência do grupo Charlie Hebdo à chantagem do fanatismo religioso. Ser Charlie também significa identificar-se com o escritor hindu-britânico Salman Rushdie, autor do admirável Versos Satânicos, condenado à morte em 1989 como blasfemo pelo aiatolá iraniano Komeini. Passadas quase três décadas, Rushdie vive nos EUA, aprisionado numa humilhante semiliberdade e semiclandestinidade, ainda ameaçado pela insanidade de algum psicopata que se sinta eleito para divinas e diabólicas missões. Não se sabe se Rushdie considera-se Charlie, mas os milhões de Charlie também são Salman.

Nos cinco séculos decorridos desde que Michelangelo deu a última martelada no seu “Moisés” nenhum rabino, teólogo, fanático ou lunático condenou a belíssima escultura como herética, ofensiva ao judaísmo. O profeta representado por Michelangelo exibe na testa um pequeno par de chifres, resultado de um erro de tradução do hebraico para o latim. O versículo bíblico que inspirou o genial artista da Renascença refere-se a dois raios de luz e sabedoria que se irradiam da cabeça, nada a ver com cornos. Nem o Moisés de Freud foi anatematizado por considerar o profeta como príncipe egípcio.

O que nos leva aos quatro reféns judeus metralhados no empório – que ofensa fizeram à figura ou ideias de Maomé? Religiosos, preparavam-se para cumprir os mandamentos relacionados ao shabath (que os muçulmanos antecipam para a sexta-feira). A equivocada decisão de seus familiares de sepultá-los no Monte das Oliveiras, em Jerusalém, não legitima a barbaridade de tirar-lhes a vida. Se judeus devem ser eliminados por serem judeus, o que se legitima é a aberração nazista.

Homenagear os policiais fuzilados e identificar-se com o laicismo constitui uma opção política única e crucial, talvez a mais importante no atual estágio de aperfeiçoamento da democracia. O servidor do Estado, independente das suas convicções, é servidor de uma entidade plural, diversificada e isonômica. O laicismo incorpora as três palavras-chave da Revolução dos Direitos Humanos chamada de Revolução Francesa: Liberdade, Fraternidade, Igualdade.

O laicismo não é contra a fé, mas a favor de todas as crenças e inclusive da descrença. Ao libertar a religião das tarefas temporais que cabem ao Estado, oferece-se a ela a liberdade de envolver-se exclusivamente com a esfera da espiritualidade.

O direito de ser desfilou nas ruas da França como se fosse novidade. É uma das mais antigas reivindicações da humanidade.

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