Quarta-feira, 18 de Julho de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº996
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JORNAL DE DEBATES > CARTÕES CORPORATIVOS

O enfrentamento que não interessa

Por Alberto Dines em 01/04/2008 na edição 479

O governo está visivelmente atrapalhado. A sucessão de versões e explicações conflitantes que há mais de uma semana oferece à sociedade sobre o vazamento de dados sigilosos relativos a gastos do então presidente FHC revelam um ambiente de insegurança e amadorismo nos altos escalões como há muito não se via.


A imprensa inicialmente não parecia muito animada em explorar o caso, o próprio veículo vazador, o semanário Veja, entrou na história sem grande apetite. Não investigou coisa alguma – há anos que desistiu de cavar suas matérias –, sequer tinha certeza do potencial destrutivo dos documentos que lhe entregaram. Com uma capa quase inteiramente dedicada à devastação da Amazônia, reservou uma chamadinha burocrática para o ‘dossiê’ (edição 2053, de 26/3/2008). Na edição seguinte, fez o possível para baixar a bola.


Mas tantas foram as contradições e tão evidente é o ziguezague na estratégia palaciana que a imprensa, por inércia, vê-se levada a esquentar a cobertura. A mais recente sugestão de que houve um complô doméstico para comprometer a ministra-chefe da Casa Civil é tão pueril e canhestra que remete o caso inteiro para a esfera da inverossimilhança.


O último enfrentamento governo-mídia foi ruim para ambos, nenhuma das partes está agora interessada em reproduzir uma crise política de graves proporções como aquela que resultou do Dossiê Vedoin (de setembro de 2006).


Torcidas do contra


A mídia está interessadíssima no PAC, o crescimento do país só vai beneficiá-la, e a ministra Dilma Rousseff tem um bom relacionamento com os jornalistas mais técnicos e menos apelativos.


E por que razão a bola-de-neve ganhou esta dimensão? Simplesmente porque o sacrifício da ministra Matilde Ribeiro foi insuficiente para encerrar o caso dos cartões corporativos. Ao contrário, exacerbou-o. Em seguida, o empenho para colocar preventivamente o ex-presidente FHC na berlinda revelou a mesma incompetência.


A inusitada entrevista do discretíssimo Gilberto Carvalho, chefe de gabinete do presidente Lula, publicada em manchete na segunda feira (31/3) pelo Estado de S.Paulo jogou os eventuais ‘erros administrativos’ no uso dos cartões para o nível ministerial, tanto nesse como no governo anterior. ‘Nada depõe contra a honra de dona Ruth e do ex-presidente Fernando Henrique. São gastos típicos de um Palácio, de um brasileiro de classe média alta’, anunciou Carvalho. Nas primeiras páginas dos outros jornalões, o vazamento só apareceu na Folha por meio da declaração genérica do ministro Gilmar Mendes, próximo presidente do Supremo Tribunal Federal, considerando os dossiês como ‘covardia institucional’. Ninguém discorda.


Fica evidente que nem o governo nem a mídia estão dispostos a radicalizar, apesar das torcidas em contrário. Fica evidente também que na dinâmica do processo político as tréguas podem ser úteis. Desde que breves.

Todos os comentários

  1. Comentou em 02/04/2008 Luciano Prado

    …diante do fatos, não precisa desenhar, ou precisa?

  2. Comentou em 02/04/2008 José Paulo Guedes

    Dines, o governo, neste eisódio, nunca esteve atrapalhado. As inumeras versões nasceram no seio da dicotomica oposição PSDB-DEM e nas páginas da ‘grande’ imprensa.
    O q se vê hoje é q os fatos apontam cada vez mais para uma farsa montada pelos mesmos q esbravejam e clamam por cabeças e por sangue a correr pelas ruas e becos deste país.
    Sabe-se, não pela mídia mas pela comunidade internética q Virgílio solicitou e recebeu cópia de todas as despesas de FHC de 1995 a 2002. Sabe-se q Dias, não Osmar, o outro, recebeu cópia das despesas de FHC e delas dipôs, segundo suas próprias palavras, como bem lhe aprouve.
    Logo, o q se vê, é a oposição atolada em suas próprias contradições, fruto da falta de pensar o país e propor soluções para os tantos problemas q o assola.
    Quem sai envergonhada – se vergonha tivesse – dessa ‘crise’ – forjada nas redações da mídia ensandecida – é essa oposição pantomínica, que na busca do poder pelo poder – pq nada têm a propor ao país – lança mãos de tudo sem medir consequências ou sequer esconder suas digitais.
    É tragi-comico ver líderes oposicionistas com semblantes carregados falando de ética e decoro – só o sabem pq buscaram seu sentido nos dicionários, não pq a vivam ou lhe sintam a responsabilidade.

  3. Comentou em 01/04/2008 Alexandre Carlos Aguiar

    É verdade, vou usar o slogan desse site: não estou lendo mais jornal do mesmo jeito. Pelo menos do jeito que o jornalista Alberto Dines lê. Em que lugar, folha, página ou rodapé está isso que foi descrito no artículo acima?

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