Terça-feira, 25 de Setembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1005
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ENTRE ASPAS > FIM DE SEMANA, 25 E 26/11

O Estado de S. Paulo

29/11/2006 na edição 409

SEGUNDO MANDATO
Daniel Piza

Apagão de idéias

‘Se existe algo em comum, apesar das doses variadas, em quem ‘governa o Brasil há 500 anos’, como gosta de dizer o presidente, é o que o próprio governo Lula demonstra à perfeição: a aliança entre a incompetência e o interesse. Desde o final das eleições, os exemplos foram muitos. Por mais que os ditos analistas insistam em detectar uma maturidade democrática no País e no presidente, ou prefiram olhar o pouco que se avançou em vez de tratar do muito que falta avançar, os fatos e os dados seguem refutando as ilusões. O governo, mesmo popular, continua perdido nas decisões e voraz nos desvios.

O apagão aéreo é lamentável não só pelo tormento que causa aos cidadãos, mas também pela maneira como o governo reagiu a ele. Quando escrevi que achava estranha a afobação com que se jogava a culpa exclusivamente sobre os pilotos americanos, que teriam desligado o transponder do Legacy e ainda brincado de piruetas, fui mais uma vez acusado de, digamos, nacionalismo insuficiente. Agora não há pessoa bem informada que não saiba que o maior acidente de avião da história do Brasil – ‘nunca antes’, etc. – deve-se ao colapso do sistema de controle de vôos, causado pelo corte de verbas e loteamento de cargos. Gente séria não sai decretando culpa sem posse de informações transparentes.

Nessa odiosa praxe de transferir responsabilidades, Lula, aliás, é o exemplo número 1. Ele nunca assume nada; em toda crise se omite como um tatu-bolinha. Até agora não vi uma declaração ou discurso em que trate do problema dos aeroportos e traga para si a tarefa de tomar e cobrar medidas com prazos. Só sabe ser líder na hora de pegar o microfone ou posar para as fotos. Como não aproveitou o tempo em que não exerceu cargos públicos para se preparar, parece incapaz de administrar uma padaria. Como vai saber o que fazer num tema complexo como esse? Melhor deixar o ministro, Waldir Pires, passar vergonha diante das câmeras. Eis a diferença entre delegar e disfarçar.

Para quem fala tanto em Juscelino Kubitschek, foi constrangedor ver Lula culpando o câmbio fixo do primeiro mandato do governo anterior pela crise na agricultura, um dos fracassos mais ostensivos de sua gestão. (Isso para não falar na bravata de que queria a solução da crise do Incor ‘em 48 horas’ – e pelo jeito ela não virá nem em 48 dias.) Mais uma vez, o cerne do problema está no fato de que o governo não sabe o que fazer na área. Fala em agricultura familiar e dá dinheiro para o MST, mas não pode abrir mão dos dividendos dos grandes produtores, que fizeram do cerrado um dos principais fatores de melhora no IDH brasileiro. Entre José Rainha e Blairo Maggi, quem fica de fora é a exploração sustentável e democrática do potencial agrícola, bloqueado pela falta de infra-estrutura e pela desvalorização da Embrapa. Alguém imagina JK agindo da mesma forma?

Outro sintoma do despreparo desse governo é a quantidade de versões que surgem para cada questão importante do futuro breve. Há ministros contra e a favor da reforma política, da tributária, da previdenciária, etc. Ora se fala em cortar os gastos públicos, ora se diz que não é preciso cortá-los. Temas como Bolívia, meio ambiente, ‘democratização da informação’ e taxa de juros também levantam sinais dúbios. (Já outros temas, como cultura, esportes e turismo, nem sequer aparecem, reparou?) O resultado é que não existe uma agenda que permita planejar mudanças importantes para que o crescimento do PIB – que será igual ao do governo FHC, numa época em que o mundo cresce mais – se aproxime do ‘espetáculo’ prometido.

Ninguém sabe se é melhor tratar de pontos específicos em alguns setores para concentrar esforços na maior das prioridades. Por exemplo: em vez de reforma política, complicada até por ferir os planos de quem a decidiria (como a correção das representações estaduais), talvez fosse o caso de só instituir no momento a fidelidade partidária e investir na reforma tributária e trabalhista de verdade, que reorganizasse a federação, desonerasse o emprego, reduzisse a carga do contribuinte. Mas não; no Brasil sempre se opta por ajustes em vez de reformas, por conchavos em vez de consensos. (E mesmo os ajustes terminam não sendo respeitados: se a cláusula de barreira funcionasse, Aldo Rebelo, o Anacrônico, não poderia ser presidente da Câmara.)

A ligação com o PMDB é a melhor tradução disso. Lembro que escrevi que o PT seria um PMDB do século 21. Mas tantas foram as lambanças dos ‘companhero’ que Lula, fingindo não ter nada a ver com elas, botou o PT na parede, como retrato do passado, e fez do próprio PMDB – de Sarney, Barbalho e outros chefes de oligarquias que, como os mortos-vivos, sempre voltam – o suporte do lulismo, o único ‘ismo’ em vigor no Brasil. Enquanto isso, continuam debaixo do tapete as sujeiras cometidas no mensalão (ou ‘sacolão’, como rebatizou o vice-presidente José Alencar), no dossiê Vedoin, etc. Delúbio, Valério, Waldomiro e Gedimar, para citar apenas quatro cavaleiros do apocalipse petista, continuam passeando pelas ruas como se nada tivessem feito. Mas a PF, sim, faz uma operação a cada dois dias… A história é, de fato, uma humorista.

UMA LÁGRIMA (1)

Para Robert Altman, morto aos 81 anos. Os obituários descreveram sua carreira independente, mas poucos observaram os custos que essa independência traz. Depois do hilário M.A.S.H. (1970) e de Nashville (1975) – o filme que fez pelo cinema americano o que Jules e Jim, de Truffaut, fizera pelo cinema francês (e mundial), com tom improvisado e ágil, nem por isso menos pensado -, ele fracassou em alguns projetos tolos, como Popeye, e demorou a acertar a mão de novo. Só em O Jogador (1992) e Short Cuts (1993) chegou perto; Assassinato em Gosford Park (2001) também tem qualidades. O que eu mais admirava era seu gosto por mergulhar a cada filme num universo particular – a moda, a própria indústria do cinema, a guerra, a música country – e dele tentar extrair histórias que mostram a distância entre vaidade e verdade.

Outra lágrima para Philippe Noiret, o ator francês, 76 anos, famoso por filmes mais emotivos como Cinema Paradiso e O Carteiro e o Poeta, mas que também trabalhou com Bertrand Tavernier, Mario Monicelli e Ettore Scola. Começou no teatro sob direção de Jean Vilar e adotou uma interpretação que parece descontraída, livre de rebuscamentos, e no entanto é precisa e incontornável. Adieu.

UMA LÁGRIMA (2)

Para Milton Friedman, como não? Discordei sempre de suas idéias centrais, mas é preciso dizer com ênfase que ele, influenciado por Hayek, as defendeu com talento numa época em que estavam longe do consenso. Era a favor do ‘Estado mínimo’, restrito a algumas atividades sociais e a atuar como um ‘guarda de trânsito’, como se não fosse um agente indutor, regulador e compensador muito importante. Com isso, fez algum mal ao liberalismo, que há muito tempo havia abandonado a crença no ‘laissez faire’, no livre mercado absoluto – que não é, na realidade, praticado em país nenhum. Mas Friedman, pouco traduzido no Brasil (ao contrário de Gramsci e Althusser, digamos), argumentava contra o intervencionismo em nome da liberdade de escolha, não da forma moralista como alguns conservadores o fazem atualmente. E afirmar que a América Latina praticou seu ‘monetarismo’ é atribuir a ele mais defeitos do que já tinha…

VALORES VIRTUAIS

Escrever um blog não é só fazer links, como vejo por aí. Citar os textos dos outros, em vez de dar suas próprias opiniões, é o trabalho mais fácil do mundo. Blog também não é só para fazer enquetes – que, claro, turbinam o número de comentários – ou empilhar artigos que não couberam no jornal. Como diário, funciona quando é de alguém numa situação especial, daí os blogs de grávidas, prostitutas, etc., ou então de um desconhecido ou pseudônimo, caso contrário os insultos pessoais serão dominantes. Como jornalismo, pode dar ‘furos’, mas eles duram alguns minutos no máximo. Blog é conversa: é lançar um tema e depois participar da discussão quando ela trouxer argumentos.

POR QUE NÃO ME UFANO (1)

Foi divertido ler na semana passada as comparações de Lula com Zelig, Macunaíma e o homem cordial de Sérgio Buarque de Holanda. Precisou chegar o segundo mandato para perceberem?

POR QUE NÃO ME UFANO (2)

Bienal de São Paulo às moscas. Esperavam pelo menos 1 milhão de pessoas, não foram mais que 400 mil – número, diga-se, inchado por visitações escolares. O público não raro costuma ser mais sensato que a crítica.’



BRASIL NO EXTERIOR
Tonica Chagas

Nas páginas da Review, o Brasil à margem da imagem

‘A edição que está saindo este mês da Review: Literature and Arts of the Americas, revista semestral editada nos EUA pela Americas Society, é dedicada a escritores e artistas brasileiros contemporâneos. Não a medalhões das grandes editoras e galerias, mas a nomes à margem delas, como os poetas Sousândrade e Francisco Alvim, a fotógrafa Paula Trope, a performática Márcia X, e iconoclastas como Patrícia Galvão e Waly Salomão.

Nos 19 ensaios e entrevistas que compõem a edição é esboçado o retrato de um Brasil sintetizado na imagem escolhida para ilustrar a capa da revista: um pedaço de muro tosco de madeira, cimento e cacos de vidro, criado por Arthur Bispo do Rosário (1909 ou 1911-1989), o descendente de escravos que ficou internado por 50 anos como esquizofrênico-paranóico e é considerado um gênio por suas obras feitas de lixo e sucata.

‘Queria uma imagem que retratasse a aspereza, a brutalidade do Brasil, mas também a beleza que se encontra nessa dificuldade’, explica o editor criativo do número especial da revista, o escritor e tradutor brasileiro Antônio Sérgio Bessa, diretor de Educação do Bronx Museum. A coordenação acadêmica da edição ficou por conta de Nicolau Sevcenko, professor da USP e de Harvard.

O artigo de introdução foi escrito por Sevcenko, que discorre sobre a versatilidade da arte brasileira, aprendida justamente na adversidade. Várias manifestações culturais brasileiras são abordadas em artigos do poeta Ítalo Moriconi, do historiador Paulo Knauss, do crítico e ensaísta Ismail Xavier, e do compositor, escritor e professor José Miguel Wisnik.

O próprio Bessa escreve sobre marginália, expressão popular no Brasil dos anos 70, cunhada por um dos principais mentores do tropicalismo, o poeta e jornalista Torquato Neto, que abrangia os fora da ordem no barco da contracultura do País sob regime militar. Aquele período é lembrado por um deles, o compositor e ativista cultural Waly Salomão, na entrevista que deu, pouco antes de falecer, a Christopher Dunn, professor da Universidade Tulane, de New Orleans . Dunn é especialista em cultura e política brasileiras durante a ditadura e autor do livro Brutality Garden: Tropicália and the Emergence of a Brazilian Counterculture.

Os irmãos e escritores concretistas Augusto e Haroldo de Campos contribuem nesse número especial da Review com o ensaio Sousândrade: The Clandestine Earthquake sobre o poeta maranhense que terminou seus dias na penúria como professor de grego e sem ter sua obra reconhecida. Augusto de Campos, por sua vez, tem seu trabalho analisado por Charles Perrone, professor da Universidade da Flórida, no ensaio ABC of AdeC: Reading Augusto de Campos.

Ainda entre os ensaios, o educador, musicólogo e compositor Carlos Kater escreve sobre o conjunto dodecafônico Música Viva, criado em 1939 pelo compositor e musicólogo alemão Hans-Joachim Koellreutter, e Luiz Carlos Mello, diretor do Museu de Imagens do Inconsciente, revê o trabalho da médica Nise da Silveira com os artistas do centro psiquiátrico que ela criou em 1946 no bairro Engenho de Dentro, no Rio.

A edição especial da Review teve pré-lançamento na semana passada, na sede da Americas Society, em NY, com painel do qual participaram Bessa, Sevcenko, Dunn, Perrone e Kenneth David Jackson, diretor do Departamento de Estudos de Português da Universidade Yale, que discorreu sobre a obra da militante e artista brasileira Patrícia Galvão, a Pagu. Neste número da revista, Jackson escreveu o ensaio She Who Was Denounced Denounces, abordando principalmente o romance proletário Parque Industrial, escrito por Pagu em 1933.

No encerramento do painel, Sevcenko traçou um histórico da cidade de São Paulo no fim da década de 1930, quando o antropólogo belga Claude Lévi-Strauss chegou ao Brasil com a missão francesa para criar a USP, inaugurada em 1940. Para ilustrar o modernismo e as discrepâncias brasileiras, o historiador exibiu fotografias tiradas por Lévi-Strauss mostrando o lado pobre da região central da capital paulista, onde o gado era levado pelas ruas até os matadouros, e as comparou com fotos atuais da mesma área, com catadores de papel e seus depósitos debaixo dos viadutos.

A Review foi fundada em 1968 pela Americas Society, instituição com sede em Nova York criada há 41 anos por David Rockefeller para promover as relações entre os EUA e a América Latina, o Caribe e o Canadá. Mais informações no site www.americas-society.org.’



DREYFUS, 100 ANOS
Leda Tenório da Motta

Caso Dreyfus, ‘prelúdio ao nazismo’

‘Se é verdade, como nos mostram os autores das assim chamadas literaturas de testemunho, que depor sobre os campos de concentração é um dever para os judeus que viveram a 2ª Guerra Mundial, tão imperativo quanto é lembrar que 2006 marca os 100 anos da reabilitação do militar judeu-francês Alfred Dreyfus, fato que, por sua vez, marca o fim do Caso Dreyfus, o escândalo político que abalou a França, na virada do século passado, lançou o país numa onda de anti-semitismo sem precedentes e se constituiu, como nota Hanna Arendt, em As Origens do Totalitarismo, no ‘prelúdio ao nazismo’.

Foi em 12 de julho de 1906 que Dreyfus, acusado de espionagem em favor da Alemanha, e ainda considerado traidor, mesmo depois de indultado em 1899, recebeu de volta suas insígnias, retiradas, em cena degradante, no seio das Forças Armadas, quando sobre ele começou a pesar a falsa acusação. E se a data passou praticamente despercebida entre nós, ao longo do ano em curso, o Centenário do Affaire – que Arendt compara ainda a uma trama de Balzac: ‘Um caso de oficiais do Estado-Maior disfarçados com barbas postiças e óculos escuros, espalhando suas estúpidas falsificações à noite, nas ruas de Paris’ – vem sendo objeto da maior atenção dos franceses, desde janeiro. De lá para cá, por toda parte, na França, houve debates, colóquios, exposições, publicações, revisões do tema. Saíram biografias, bibliografias, dicionários, histórias e até psicologias do Caso. Entre as muitas iniciativas, citem-se, além destas, o multievento Alfred Dreyfus: A Luta por Justiça, inaugurado em outubro no Museu de Arte e História do Judaísmo, e a participação do neto de Dreyfus, Charles Dreyfus, nas célebres peregrinações anuais à casa de Émile Zola, em Médan, comuna localizada a noroeste da capital.

A data redonda e a agitação dos franceses convida a rememorar os fatos. Tudo começa nos escritórios da legação alemã em Paris. É ali que, em setembro de 1894, a contra-espionagem do governo francês encontra uma folha de papel – mais tarde conhecida como ‘borderô’ – em que alguém endereçava informações sobre os movimentos da artilharia francesa ao adido militar do país com que a França estivera recentemente em guerra, e para o qual perdera a Alsácia e a Lorena, de modo humilhante. Imediatamente, as suspeitas recaem sobre um oficial do Estado-Maior, o capitão Dreyfus, filho de uma família de judeus da Alsácia, pertencente à alta sociedade parisiense. Com a comprovação grafológica fraudulenta de sua responsabilidade, Dreyfus é condenado à prisão perpétua por um tribunal militar, em 1894. Quatro anos da pena seriam cumpridos na Ilha do Diabo, na Guiana Francesa.

Mas o escândalo propriamente dito só começa em 1896, quando um novo Chefe dos Serviços de Informação – o coronel Picquart, que acabaria pondo sua carreira em risco na busca da verdade e tem hoje lugar garantido em todos os dicionários do Affaire – passa a dirigir as suspeitas na direção de um outro oficial, um comandante de origem húngara, Charles Ferdinand Esterházy. Suas pesquisas terminam por apontar Esterházy como o verdadeiro culpado. Então, cópias fac-similadas do borderô são publicadas na imprensa e espalhadas pelas ruas de Paris pelos primeiros revisionistas. A partir daí, difundem-se, cada vez mais, pela cidade, rumores de que as provas levantadas contra Dreyfus tinham sido fabricadas. Isso ganha as páginas dos jornais e divide a França em dois: de um lado, os artistas, os intelectuais, os republicanos, os anticlericais, as forças progressistas; de outro, os monarquistas, os católicos, os conservadores, a Action Française, versão local da nossa Tradição, Família e Propriedade. A imprensa da época ilustra essa cisão: o Figaro é militarista, os republicanos e os radicais de esquerda têm o Aurore. Nos primeiros anos, a balança pende entre as duas partes. Acusado de conspirar a favor dos dreyfusistas, Picquart cai em desgraça e é transferido para a Tunísia. Mas Esterhazy não escapa a um processo. Julgado em janeiro de 1898 por um conselho de guerra, ele é absolvido. O jogo de forças só começa a se desequilibrar quando, em fevereiro desse mesmo ano, Émile Zola, então no auge da fama como escritor, publica, no jornal L’Aurore, o famoso Eu Acuso…!, carta aberta ao presidente da república de que já se disse que é um dos atos mais revolucionários do século 20. Seu belo gesto é seguido pelo de um grupo de progressistas que lançam o ‘Manifesto dos cento e quatro’, também conhecido como ‘petição dos intelectuais’, numa iniciativa que conta com o particular empenho de ninguém menos que Marcel Proust. Como registram seus biógrafos, foi o meio-judeu Proust quem convenceu Anatole France a entrar na briga. Mais tarde, ambos satirizariam a França de Dreyfus em suas obras. No romance proustiano, o Affaire torna-se símbolo do movimento caleidoscópico dos salões, que os esnobes desertam ou assediam ao sabor da alta ou da baixa do prestígio mundano dos dreyfusistas e dos antidreyfusistas.

Os acontecimentos só fazem se precipitar na seqüência do Eu Acuso…!. Um mês depois de publicá-lo, Zola é detido, sob a acusação de difamar os militares que defenderam Esterhazy. Condenado a um ano de prisão, ele foge para Londres. Volta à pátria, em junho de 1899, como um verdadeiro diretor de consciência. Mas não veria o fim do processo. Zola morre, três anos mais tarde, ao que parece, sufocado pela fumaça da chaminé de seu quarto, em circunstâncias que nunca foram completamente esclarecidas.

Porém o golpe de cena mais espetacular ainda estava por vir. Como os militares afirmassem, desde sempre, manter em seu poder provas grafológicas suplementares da culpabilidade de Dreyfus, no ano de 1899, o Exército decide torná-las públicas. É o começo do fim. Os papéis com a letra de Dreyfus são considerados falsos, o comandante-em-chefe Henri é preso e se suicida na prisão. Isso desencadeia uma última reação dos dois campos. Há motins por toda parte no país – em Nantes, Nancy, Rennes, Bordeaux -, e manifestações em Paris.

ESPÍRITO

As pressões dos ‘intelectuais’ – palavra que só adquire nesse momento o sentido de engajamento que passou a ter – terminam por vencer a parada, como sabemos hoje. Esterhazy, que agira a mando de seus superiores, deixa a França, em 1899. Nesse mesmo ano, a sentença contra Dreyfus é comutada em pena de 10 anos de prisão. Ele é indultado, logo a seguir, pelo novo presidente da República. Depois disso, acionaria seguidamente os tribunais militares com pedidos de revisão do processo, até receber de volta seus galões, em 1906, quando fica clara a conspiração do Exército.

Dreyfus morreu em 1935, completamente esquecido. O mesmo não se poderia dizer do espírito que deflagrou a perseguição. Em 1908, quando os restos mortais de Zola foram trasladados para o Panteão, os antidreyfusistas voltaram às ruas, para se fazer ouvir. Por outro lado, a França de Vichy trouxe a recaída anti-semita que todos conhecemos. E as coisas não estavam muito melhores em 1985, quando François Mitterrand e seu ministro da cultura Jacques Lang quiseram implantar uma escultura em homenagem ao capitão, no pátio da École Militaire, sendo impedidos pelos militares. Depositada no Jardim das Tulherias, em 1988, a peça está hoje no sixième arrondissement, numa praça bem ao lado da prisão da rua do Cherche Midi em que Dreyfus havia sido degradado, 90 anos antes. Esse tem sido outro lugar importante no ano do centenário da reabilitação.

Leda Tenório da Motta é professora no Programa de Estudos Pós-Graduados em Comunicação e Semiótica da PUC/SP e crítica literária. Tem no prelo da editora Perspectiva o livro A Violência Sutil do Riso, que trata das relações do escritor Marcel Proust com o Caso Dreyfus’

Gilles Lapouge

A nostalgia histórica que, um século depois, não se apagou

‘Entre 1894 e 1906, a França alucinou. Ela se dilacerou por causa de um judeu, Alfred Dreyfus. As refeições em família viraram campos de batalhas, noivados foram rompidos, sogras jogaram genros pela porta afora. Neutralidade estava fora de questão. Nessa França alucinada, ou se era ‘dreyfusard’ ou ‘antidreyfusard’. Esses 12 anos de delírio constituem um ponto de inflexão na história da França. Visto de 2006, esse país histérico parece distante, quase imaginário, e, ao mesmo tempo, muito próximo.

Um século depois, os dois detonadores da ‘festa sinistra’ (a Alemanha e os judeus) mudaram de posição aos olhos dos franceses. A Alemanha era o país odiado que havia roubado da França suas duas províncias do leste – Alsácia e Lorena . Os alemães eram tigres sedentos de sangue; quando viam um bebê francês, rapidamente o cortavam em pedaços; às vezes, o assavam. Ora, depois daquela época, a França e a Alemanha travaram duas novas guerras atrozes. Mas após 1945, os dois velhos inimigos se adoram. Segundo ator: os judeus. A violência do anti-semitismo em 1900 era aterradora. Nenhuma relação com o anti-semitismo estúpido, em 2006, dos partidos ‘populistas’. Em 1900, é a ‘boa sociedade’ (aristocratas, burgueses, oficiais militares e camponeses) que caça Dreyfus. Escritores e artistas dos mais refinados – Barrès, Daudet, Maurras, Valéry, Cézanne, Degas, Rodin – vociferam pela morte dos judeus.

O jornal anti-semita La Libre Parole escreve: ‘ O semita é mercantil, cobiçoso, intrigante, esquivo, astuto’. Racismo primário, portanto, visceral. Mas esse racismo proliferou numa situação política e histórica tensa: o caso Dreyfus estourou um século depois da Revolução Francesa. Ora, uma vasta parte da burguesia detestava essa revolução que destruiu seus privilégios, suas igrejas, e que, de passagem, concedeu direitos iguais aos judeus em 1792.

O que se diz sob as divagações antijudaicas do caso Dreyfus é uma nostalgia histórica. Sente-se saudade dos ‘bons velhos tempos’, da França monárquica; sente-se saudade, sobretudo, da França católica. Contra Dreyfus, a caça foi conduzida pelos possuidores, a burguesia, o Exército, isto é, pelos grandes batalhões do catolicismo. Os padres, os monges (salvo exceções) estavam na linha de frente. O fundo da questão era basicamente o seguinte: a história tomou um mau caminho em 1789; vamos refazer esse caminho, restaurar a bela França.

Mas essa tentativa de ‘restauração’ da França monárquica, católica e anti-semita fracassou e Dreyfus acabou sendo reabilitado em 1906. E assistiu-se, então, no mesmo período, entre 1902 e 1908, a proclamação da ‘laicidade’ do Estado francês. Assistiu-se aí também um combate mortal entre as duas Franças – a França do Ancien Régime contra a França republicana, a França católica contra a França laica.

O que restou, em 2006, desses enfrentamentos? Pouca coisa, na aparência. Em 2006, a burguesia francesa está bastante contente por a França ter se tornado um Estado laico. Hoje, na direita moderada francesa, o judeu e o Estado de Israel se tornaram, inclusive, o ‘escudo’ da civilização ocidental e cristã contra a barbárie da Al-Qaeda e das forças tenebrosas do islamismo. Portanto, todos os atores do ‘teatro Dreyfus’ mudaram de lugar: a Alemanha é a melhor amiga da França; a Igreja Católica ama a ‘laicidade’; e os judeus são reconhecidos. Seria o caso então de pensar que o caso Dreyfus foi um surto de loucura, superficial, fútil, estranho ao ‘gênio’ francês? À primeira vista, sim. Mas tudo faz crer que, sob a calma aparente, continuam a arder as brasas que incendiaram a sociedade francesa. Bastaria um grande trauma e o fogo se reacenderia.

Em 1940, quando o Exército francês foi esmagado pelas Panzerdivisionnen alemãs, e a França aboliu a república e colocou à sua frente o marechal Pétain, colaborador dos alemães, foi todo o campo ‘antidreyfusard’, com Charles Maurras à frente, que saboreou sua revanche tardia. E hoje, apesar de o horror do Holocausto e do nazismo conter certos discursos, certos ódios, ninguém duvida que as idéias que o caso Dreyfus levou ao paroxismo continuam fermentando sob a superfície da sociedade francesa. Um nada poderia reabrir as cavernas fétidas em cujo fundo grunhe sempre ‘a besta imunda’ do racismo.

Uma outra herança do caso Dreyfus tem a ver com a literatura. Se numerosos escritores se uniram ao clamor anti-Dreyfus, outros salvaram a honra. Foi um desses que acendeu o contrafogo que viria a salvar Dreyfus: Émile Zola. Em janeiro de 1898, ele escreve no jornal L’Aurore, seu soberbo artigo Eu Acuso…!. Com esse artigo nasce a figura do intelectual engajado que vai se perpetuar na França, de Malraux a Jean-Paul Sartre, Albert Camus, Michel Foucault, e hoje, Régis Debray ou mesmo Bernard-Henri Lévy. Isso é um bem? Um mal? Seja o que for, esse é um outro efeito, colateral, do caso Dreyfus. Tradução de Celso M. Paciornik’



TELECOMUNICAÇÕES
Ethevaldo Siqueira

O estrago causado pelo ministro Hélio Costa

‘Circula em Brasília uma piada que tem fundo de verdade: se a oposição brasileira quisesse causar os piores danos à imagem do governo Lula, bastaria convencer o presidente reeleito a manter o ministro Hélio Costa nas Comunicações, em seu segundo mandato.

Depois de ter dispensado os amigos-auxiliares mais próximos no Palácio do Planalto, Lula tem que ficar de olho no senador mineiro, que, como ministro, não tem grandes freios em seu estilo de conduzir os projetos em curso nas Comunicações. Língua solta, o senador-radialista de Barbacena dá palpite sobre tudo, emite opiniões puramente emocionais sobre a legislação, interfere na Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) e abre fogo contra empresas do setor, simplesmente por terem capital estrangeiro.

Hélio Costa não tem o hábito salutar de ouvir as partes envolvidas, nem sequer os especialistas, nem que seja para informar-se do real significado das mudanças que, açodadamente, tem proposto.

PROPOSTA

A última trapalhada do ministro foi pedir à Anatel que não conceda novas licenças de TV por assinatura até que o governo defina uma política geral para o segmento. Para tanto, será constituído um grupo interministerial com prazo de 90 dias para apresentar suas conclusões. É como sugerir a juízes e tribunais que não apliquem nem considerem determinada lei em vigor, até que uma comissão estude um novo projeto.

Os pretextos para essa suspensão das novas licenças talvez sejam: a) estudar novas regras para o conteúdo nacional da programação, b) mudar as exigências de percentuais mínimos de capital nacional para as operadoras.

É muita responsabilidade para um grupo interministerial. Comparemos, apenas como exemplo, três segmentos da área de TV paga. Enquanto a legislação de radiodifusão só permite licenças a empresas com o mínimo de 70% de capital nacional, a TV a cabo reduz esse mínimo a 51% e a televisão por assinatura via satélite (DTH, de direct-to-home) nada exige.

O entulho legal do que restou do velho Código Brasileiro de Telecomunicações (Lei 4.117, de 1962) mistura-se hoje às leis mais recentes, como a Lei Geral de Telecomunicações e as leis conflitantes de TV por assinatura. Não dá para pensar em coser mais remendos na imensa colcha de retalhos em que se transformou a legislação brasileira de Comunicações, como a de telefonia, de radiodifusão (rádio e TV abertos), TV paga, incluídas aí todas as formas de TV por assinatura e TV por recepção direta de satélite.

A incongruência entre as regras de cada segmento é óbvia. O diagnóstico e as possíveis soluções, no entanto, estão muito além das possibilidades de qualquer grupo interministerial. A verdadeira revisão institucional do modelo brasileiro exige longo debate nacional, com a participação do Congresso, dos meios de comunicação e de especialistas, para que dele surja o melhor projeto de lei geral de Comunicações.

O MUNDO QUE MUDA

O maior desafio às agências reguladoras e aos ministérios em todo o mundo é, sem dúvida, a evolução tecnológica acelerada. As coisas mudam de forma tão rápida que governos e agências reguladoras precisam estar muito mais atentos e preparados para não bloquear o futuro nem destruir o presente.

As redes do passado foram substituídas por infra-estruturas digitais convergentes, a cabo ou wireless. Imagine, agora, leitor, a complexidade de se elaborar uma lei geral das Comunicações moderna, flexível, democrática, equilibrada, evolutiva, proativa, capaz de atender às exigências de um mundo marcado pela convergência digital e pela tecnologia IP, na telefonia fixa, no celular, nas comunicações em fio em banda larga, nas novas formas de multimídia, como IPTV, vídeo sob demanda e na própria TV digital, que começa a ser implantada sem qualquer legislação pertinente.

PAPEL DO MINICOM

Que papel cabe ao Ministério das Comunicações nesse cenário? Em primeiro lugar, formular políticas públicas para o setor, visando ao seu desenvolvimento harmônico, à universalização, à elevação permanente da qualidade dos serviços e à redução de preços. É claro que esse papel só poderá ser cumprido em sua plenitude, quando o País substituir o emaranhado atual de regras conflitantes e obsoletas pelo melhor reordenamento da legislação e das regras básicas.

Logo, a grande prioridade das Comunicações brasileiras é eminentemente institucional. Realizá-la, entretanto, está muito acima dos propósitos de Hélio Costa e, desconfio, do próprio presidente da República.

Por isso, dizem os especialistas de bom senso, talvez seja melhor mesmo que este governo não pense numa legislação mais ampla, nem no reordenamento geral do setor, para não causar um desastre maior e mais duradouro ao País.

Enquanto isso, o que o País espera do presidente Lula é a escolha de um ministro, sem grandes vôos, que alie competência e ética, não seja lobista, nem populista, nem queira fazer do Ministério plataforma para disputas eleitorais. Alguém que, acima de tudo, não atrapalhe o desenvolvimento das comunicações.’



TELEVISÃO
Leila Reis

Favela bem tratada

‘Até bem pouco tempo atrás, a ficção da Globo feita fora do terreno das telenovelas se dedicava a retratos de época – A Invenção do Brasil, Os Maias, O Quinto dos Infernos, Aquarela do Brasil, JK, entre outros, respondem por este quesito – ou a experiências no campo do humor: Os Normais, Sexo Frágil, Os Aspones.

Essa opção temática de especiais, séries e minisséries parecia ser o contraponto ao ‘classemedismo’ zona sul das novelas até que, há quatro anos, a emissora abriu espaço para, diríamos, o outro lado da sociedade urbana carioca. Cidade dos Homens, de Fernando Meirelles, escrita por um bando de profissionais talentosos, entre eles, Regina Casé, Cao Hamburger, Paulo Morelli, teve as portas da TV empurradas por Cidade de Deus, filme de Fernando Meirelles.

O sucesso do filme (com indicação para o Oscar) credenciou o diretor a reivindicar uma fresta na TV e os executivos da Globo viram na Cidade dos Homens possibilidades comerciais. Coisa que os diretores da Record não enxergaram muito bem quando, no mesmo ano de 2002, o cantor Netinho levou ao vídeo A Turma do Gueto. A série que dava voz à periferia negra teve relativo sucesso, mas nenhuma estrutura de produção.

Na Cidade dos Homens, o cotidiano dos adolescentes Laranjinha e Acerola em um morro carioca voltou em temporadas sucessivas porque é bem-feita, mas o seu mérito maior é ter cavado na grade da Globo um lugar para uma ficção menos viciada (em classe média). Carandiru, Outras Histórias, de Hector Babenco, não teria tido lugar na TV se não houvesse Cidade dos Homens. Da mesma forma que talvez não tivesse Antônia, série em cinco capítulos, que estreou faz duas sextas-feiras, produzida pela O2, produtora de Fernando Meirelles. Portanto, as semelhanças não são coincidências.

Como Cidade dos Homens, Antônia também nasceu no cinema. Antônia, o filme de Tata Amaral, estréia em fevereiro, e tem, como Cidade de Deus, um elenco formado por não-atores, escolhidos por meio de teste em São Paulo, onde a diretora queria explorar o universo do hip-hop.

Assim como no filme, na série, as quatro protagonistas, Preta (Negra Li), Barbarah (Leilah Moreno), Lena (Cindy Mendes) e Mayah (Quellynah), vivem no bairro da Brasilândia e lutam para ascender no showbiz com a banda de rap Antônia.

Cada uma das garotas luta com dificuldades muito parecidas das jovens que vivem na periferia paulistana: falta de dinheiro, machismo, maternidade precoce, decisões erradas na vida etc. A via escolhida para sair da pobreza é a música. É a batalha pela carreira artística a espinha dorsal da série.

A se medir pela receptividade na estréia, Antônia pode vir a freqüentar o vídeo da Globo como a mesma periodicidade de Cidade dos Homens. A série registrou 32 pontos de média (Grande São Paulo) – 10 a mais para o horário – mesmo entrando no ar tarde da noite, depois do Globo Repórter.

O bom desempenho deve ser justificado pela competência. Os roteiristas são do primeiro time – Jorge Furtado, Tata Amaral (que também dirige um dos episódios), Luciano Moura, Fernando Meirelles entre outros – e as histórias bem filmadas. Nota-se aqui e ali certa inconsistência em alguns momentos da interpretação das protagonistas, mas nada que atrapalhe a fluência da narrativa. Aliás, a edição tem o ritmo do rap: é enxuta, ágil, sincopada. Sandra de Sá (no papel da mãe evangélica de uma das garotas) e o rapper Thaíde (como o malandro Diamante) estão bem convincentes em seus personagens.

Com Antônia, a Globo (e Fernando Meirelles) traz para a sua grade o universo da periferia de uma maneira diferente da usual, em que a pobreza é pano de fundo e não sujeito. E o que move a roda da história é o sonho de jovens em busca de uma identidade melhor do que a realidade lhes apresenta.’

Keila Jimenez

Bonzinhos de dar raiva

‘Eles são confiáveis, sinceros e generosos. Mas quase sempre acabam humilhados, traídos e espezinhados na história. No incontestável maniqueísmo que alimenta boa parte das novelas, o bem nem sempre vence o mal no gosto na audiência, principalmente se o bom for bom demais para ser verdade. É a famosa síndrome dos ‘bonzinhos que irritam’.

Passividade, fraqueza, morosidade diante das ações maquiavélicas dos ardilosos vilões que dão tempero à trama. Ou uma total inversão de valores no mundo regido pelos que querem se dar bem a todo custo. Não faltam motivos para o público se incomodar com os bons-moços a toda prova, ou torcer para que um dia eles virem a mesa. Figuras como o casadouro Cemil (Leopoldo Pacheco) de Belíssima e a infindável galeria de bonzinhos de Tony Ramos passaram por isso. Agora a é vez do pobre Alex, de Marcos Caruso, em Páginas da Vida.

‘O público se identifica com os bonzinhos, é claro, mas só quando eles não são bons-moços demais, quando não são muito certinhos. A perfeição dos personagens da ficção, impossível de ser alcançada na vida real, incomoda. O telespectador prefere o bonzinho que se aproxime mais dele, e isso só é possível se sua bondade ‘ratear’ algumas vezes. Que fique claro que ele é bom, mas não é otário’, explica o autor Aguinaldo Silva. ‘Em geral, o público odeia os vilões, mas também se sente fascinado pela coragem deles. O vilão é capaz de tudo, mesmo correndo altos riscos. O público adora vê-los em ação.’

Carlos Lombardi concorda. O autor diz que costuma ser acusado de fazer bonzinhos não tão bonzinhos. ‘Gosto que os personagens tenham manias, defeitos e pecados venais. Eu, como consumidor, não gosto de mocinhos burros, daqueles que os vilões enganam o tempo todo. Já fui até xingado por fazer mocinhos machistas, mas o machismo dos meus personagens não é meu, reflete boa parte da sociedade’, fala o autor. ‘Mas não acredito que haja uma rejeição por personagens simplesmente bons, acho que há rejeição pelos passivos demais. O público se identifica com personagens ativos, que provocam reações, que mandam no próprio destino.’

Para casar

Autor e ator sentiram na pele que a passividade de Cemil, em Belíssima, irritou a audiência. Titular na categoria ‘moço pra casar’, o personagem vivido por Leopoldo Pacheco tinha tudo para ser o príncipe encantado. Tinha. Bom filho, cheio de princípios, trabalhador, Cemil foi largado no altar pelo seu grande amor após cair numa cilada armada pelo adversário, o picareta Alberto (Alexandre Borges). De coitadinho ele passou a ‘chatinho’ num piscar de olhos.

‘O público sempre quer que o mocinho reaja, a diferença é que hoje em dia, mais do que a reação, eles esperam também uma vingança. Vencer não é suficiente, sobrepujar o inimigo é quase uma exigência’, fala o autor de Belíssima, Silvio de Abreu. ‘O público não se via no Cemil, não se conformava que ele fosse passado para trás e não fizesse nada’, conta Leopoldo Pacheco. ‘Ele irritava o público, pois levava porrada de tudo quanto é lado. De tão bonzinho ele começou a ter o efeito contrário, no lugar da torcida, o público queria que ele reagisse ou sumisse de uma vez’, brinca o ator.

E olha que Leopoldo já sentiu a rejeição de um personagem completamente antagônico a Cemil. Dimensões de audiência e repercussão à parte, antes de viver o bonzinho de Belíssima, o ator encarou o terrível Leôncio na versão da Record de A Escrava Isaura.

‘Esse até chicote usava’, brinca Leopoldo. ‘O Leôncio era odiado, mas era diferente. O público gosta do vilão, pois tudo o que ele faz se justifica. Ele é mau porque é mau é pronto. Por isso que os atores preferem personagens assim’, continua. ‘Fazer um mocinho é bem mais difícil, a delicadeza e a ética limitam as ações do personagem. É fácil ficar chato assim.’

Marcos Caruso também acredita na dificuldade de interpretar os de alma pura. Na pele do pai zeloso e marido submisso em Páginas da Vida, o ator sente na reação que seu personagem causa no público um problema de inversão de valores da sociedade (leia ao lado). Rejeição esta negada pelo autor do folhetim, Manoel Carlos, que gosta de ter sempre os bons-moços a serviço de suas histórias. O ético Miguel, livreiro em Mulheres Apaixonadas vivido por Tony Ramos era assim. Até quando foi traído ele teve reação branda, com choro envergonhado e bem interpretado no colo da filha – tudo bem que a causa era justa: a Helena de Vera Fischer passava uma noite com Pedro (José Mayer) só para engravidar e extrair do cordão umbelical a salvação para a leucemia da filha.

Tony não consegue se livrar dos bons. Apesar de Silvio de Abreu negar, uma das poucas tentativas de fazer dele um homem mau, muito mau, sofreu rejeição do público. Em Torre de Babel, ninguém estava gostando de ver o Tony enfurecido distribuindo pazadas, destilando o veneno da vingança. Resultado: ele acabou na trama bonzinho de dar dó.

Justiça seja feita. Tony não foi tão bonzinho assim com a nossa reportagem: não respondeu a nenhum dos cinco pedidos de entrevista para essa matéria.

Vale tudo

Para Gilberto Braga, grande parte do público que se irrita com os bons demais vem das classes A e B.

‘Foi o que aconteceu conosco em Vale Tudo, com a Raquel vivida por Regina Duarte’, conta o autor, que sentiu no público das classes sociais mais privilegiadas um certo incômodo pelo fato de a personagem ser tão massacrada pela filha, Fátima Acioly (Glória Pires), sem tomar nenhuma atitude drástica. ‘Acho que o público torce pelos bons, mas tem fascínio pelos vilões, porque a maldade – em fantasia – é muito mais atraente.’

Para Silvio de Abreu, o problema não é dos personagens, e sim da sociedade.

‘Os valores éticos mudaram, e bondade, solidariedade, retidão de caráter e outros valores que eram muito apreciados, infelizmente saíram de moda’, explica Silvio. ‘Mudando esses valores, muda-se a torcida do público. Hoje, torcem para que o mais esperto se dê bem, seja por que meio for’, continua. ‘Em Guerra dos Sexos todos torciam para que Carolina, a obstinada vilã de Lucélia Santos, se desse mal. Hoje acho que a torcida seria para que ela atingisse seus objetivos. Em Belíssima, Bia Falcão não era odiada, era admirada, tanto que seu final feliz teve defensores e detratores mas, sem dúvida, refletiu a sociedade em que vivemos atualmente.’

Segundo Silvio de Abreu, essa rejeição ao bons demais não é problema só da linguagem da teledramaturgia, se estende ao cinema e à literatura atual.

‘Nos filmes é bom observar que os mocinhos matam mais do que os bandidos. Para defender a raça humana, elimina-se uma grande parte dela e a platéia torce por isso. É uma tendência mundial.’

Já Aguinaldo Silva acredita que bons-moços podem sim conquistar o público no cinema. ‘Todos os personagens do James Stewart era íntegros, bons-moços e o transformaram em um ídolo. Da safra mais recente eu citaria alguns vividos por Harrison Ford, um mocinho à prova de balas ou Tom Hanks. Esse último nunca fez um vilão.’

Para Gilberto Braga, os bonzinhos são bem mais rejeitados na teledramaturgia, até por conta da extensão da obra. ‘No cinema queremos heróis’, diz o autor , endossando que a bondade em demasia basta por duas horas – tamanho de um filme – e cansa a beleza de qualquer um em mais de 200 capítulos.’



***

‘Há mais Martas que Alex’

‘Você acha o Alex bonzinho demais?

Ele é um homem bom, de caráter, como não se encontra por aí. Se preocupa com o ‘ser’, enquanto o resto do mundo vive o ‘ter’. Ter alguma coisa, sempre. É assim que a Marta (Lília Cabral) pensa e age. As pessoas querem ser como o Alex, mas são mais como a Marta.

Mas de tão bonzinho ele chega a irritar o público, não é?

Apesar de ter um caráter íntegro, o personagem tem uma fragilidade que incomoda, é visto como acomodado, sustentado pela mulher. Ele parece fraco. O bonzinho sempre fica sujeito a ser o coitadinho. Em um mundo absolutamente consumista, descartável, os valores do Alex não são compreendidos, ele anda na contramão. Enquanto a Marta vai contra o inevitável brigando, como o fato da filha voltar grávida do exterior, o Alex aceita o inevitável e tenta viver bem com isso, confortar o ser humano.

Como é a reação do público nas ruas com o Alex?

Tem de tudo. Tem gente irritada com a passividade dele, e tem quem me fala: ‘Estão faltando mais pessoas assim no mundo!’

Mas torcem para que ele dê uma virada de mesa na novela?

Ah, claro. O próprio autor trabalha bem com essa situação de catarse. O público se sente vingado quando um personagem desses reage, isso é um trunfo da novela. Lembro que quando fiz o pai da Dóris (Regiane Alves) em Mulheres Apaixonadas – que maltratava os avós- , o público torcia pela chegada do dia em que eu daria um corretivo nela. Agora torcem para que o Alex vire a mesa.

É exaustivo ser tão bonzinho na pele do Alex?

As situações vividas pelo personagem são. Envolvem pai, mãe, avô, filhos, neto e são absolutamente passionais. Os personagens entram cegos nesses embates, como se estivesses vendados. Envolve muito sofrimento e sentimentos diversos. Eu e a Lília (Cabral) saímos esgotados de algumas cenas. É desgastante, mas como eu disse, gratificante demais.

Você defende mesmo o Alex, hein?

Claro, eu amo o Alex. É um personagem e tanto. Torço para que ele tenha um final feliz. O lema dele é investir no humano que existe em cada um de nós. É usar a fraternidade e a generosidade, palavras que muita gente esqueceu o que significam. Como não vou gostar de um cara assim?’



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