Quinta-feira, 18 de Outubro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1009
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JORNAL DE DEBATES >

O grande circo da violência

Por Alberto Dines em 16/10/2007 na edição 455

‘Cuidado! Mantenha o frasco vedado, substância altamente tóxica’. Mesmo in vitro, a violência é perigosa. Manuseada por robôs, à distância, com luvas de borracha e conservada na geladeira, a violência pega. O contágio não se dá pelo contato direto, aspiração ou pela visão.


A violência se propaga pelas palavras. Se não forem descontaminadas, as palavras potencializam os seus efeitos. A violência verbal pode vir antes ou depois da violência física, não importa, são contíguas, causais, inextricavelmente associadas.


O triângulo das Bermudas onde desaparece nossa lendária cordialidade reaparece agora composto por três nomes – marcas, melhor dizer – transformadas em poucas semanas em matéria altamente explosiva: Huck, Rolex, Ferréz.


Mencionar uma delas – em qualquer circunstância – e não incluir as demais – em qualquer circunstância – equivale a acionar um detonador. Ou a fogueira das vaidades. Como descontinuar este circuito de irracionalidades movimentado justamente sob o pretexto de buscar a razão? Como reverter a exaltação, o canibalismo e a compulsão antropofágica?


Única saída: evitar a criminalização e a culpabilização, fechar este farsesco tribunal montado apenas para fazer barulho. Ninguém tem culpa, nenhuma das partes – ou marcas – é responsável pela selvageria. Alguém precisava desabafar.


O relógio, como um dos termos do trinômio de ódios, não tem culpa de ter sido convertido em totem. A celebridade roubada, assim como a celebridade que justificou o roubo, são igualmente inocentes, ambas possuídas pela mesma sede de justiça. São partes da escaramuça, incapazes de pedir silêncio e oferecer juízos.


Examinar os processos


Mas o processo, o acelerador desta alucinação, este deve ser examinado com atenção, caso contrário estaremos permitindo a multiplicação do rancor e perenização das suas conseqüências.


Para evitar palavras deflagradoras de novas animosidades e bordões capazes de despertar facções ainda não mobilizadas, os fatores do sistema serão nomeados apenas em notas de rodapé. Como os editores treinaram os leitores a detestar os rodapés, estes ganharam imunidades. Mas a tônica deste sistema1 tem nome, endereço, RG e CPF: simplificação.


E a simplificação ideológica não pode ser omitida como responsável pela letalidade do atual surto de ressentimentos. De tanto adjetivar o adversário como ‘fascista’ estamos facilitando a assimilação do fascismo em nosso cotidiano. Ninguém percebeu o perigo: quando for necessário enfrentar efetivamente o fascismo ele parecerá inofensivo. O país da piada pronta cansou de fazer piada, agora burila frases de efeito.


Não adianta culpar os avanços tecnológicos e a despolarização do processo informativo2. Se o conflito tivesse ocorrido há 10 ou 12 anos, a violência se manifestaria pelos condutos tradicionais. A tal da ‘modernidade’ culpada de tantos malefícios nada tem a ver com brutalidade exibida pelos espancadores. A luta vale-tudo da Era Digital não difere da luta vale-tudo da Era do Rádio.


O ringue onde se exibem os enfezados3 é de papel impresso, foi na primeira página de um dos maiores jornalões brasileiros4 que apareceu o desabafo da celebridade agredida5, foi na sua seção de cartas que começou o confronto equalizador entre linchadores e anti-linchadores. Neste mesmo fórum6 monetizou-se o crime através da marca do relógio7, lá também desembarcou a celebridade justiceira8.


O desfile prosseguiu nas páginas de abertura do maior semanário brasileiro9 e, na semana seguinte, obedecendo à lógica progressiva da Lei de Linch (‘mata! esfola!’), outro semanário de grande circulação10 resolveu explorar novo veio de emoções através de um chamariz diferente: na boca da celebridade vitimada, a mais patética11 pergunta jamais aparecida numa capa de revista: ‘Ele merecia ser roubado?’


Ninguém merece ser roubado, nem mesmo o ladrão.


A única pergunta pertinente e que a esta altura nenhum dos três protagonistas teria coragem de fazer (exceto o relógio) é a seguinte: como posso contribuir para o desarmamento dos espíritos? Ou esta: meu nível de onipotência não está levemente exagerado?


Depois do lânguido feriadão, o jornalão, a serviço do seu narcisismo12, foi à praia vizinha pedir reforços13, seus mosqueteiros estão esgotados. Novo ingrediente na salada: a culpa agora não é do Rolex, é da Marilena Chauí.


Esta galeria de indignações impressas14 não é debate, não é democracia, não é pluralismo, não é exercício de tolerância iluminista15. É a simplificação a serviço da exacerbação coletiva, o indivíduo empenhado em virar malta. Perdigotos a serviço da violência. Ilusão de participação. Culto ao escândalo. Civismo anti-cívico. Banalização do mal. Delírio – em vez do Bope, Ibope.


1. Mídia, do latim media


2. Internet, banda larga, etc.


3. Atenção para a etimologia: enfezado vem de fezes, quem é dominado por raivas precisa purgar-se no sanitário.


4. Folha de S.Paulo, um jornal a serviço do Brasil.


5. Luciano Huck, apresentador de TV.


6. Jornal citado, idem.


7. Rolex, marca de relógio kitsch, detestada na Suíça.


8. Reginaldo Ferreira da Silva, o Ferréz, autor.


9. Veja, páginas designadas injustamente como ‘amarelas’ (cor clássica do sensacionalismo) que, no Brasil, virou marrom.


10. Época


11. Patética ou pateta, o leitor escolhe.


12. Folha de S.Paulo, 15/10/07, página A-3


13. Reinaldo Azevedo, blogueiro e articulista de Veja


14. Convém ler, de Isabel Lustosa, Insultos Impressos, a guerra dos jornalistas na Independência, 1821-1823 (Cia. das Letras, 2000)


15. Aufklärung, do alemão, Esclarecimento, a principal função da imprensa.


Em Tempo, por Deonísio da Silva:


Dines, você escreveu no OI desta semana, em seu belo artigo O grande circo da violência: ‘Atenção para a etimologia: enfezado vem de fezes, quem é dominado por raivas precisa purgar-se no sanitário’. É uma licença e tanto, mas fezes veio de faex, cis, lama, excremento, merda e mais alguns sinônimos. Enfezado, embora se pareça com isso, tem outro étimo, bem diferente: o latim infensatum, cheio de defesas exageradas, hostil, particípio de infensare, ligado a defendere (a raiz de estas e de outras palavras assemelhadas  o étimo -fend-). O que pode ter te levado a esse engano é um erro de grafia: enfezado deveria ser escrito ‘enfesado’, como fizeram com ‘defesa’. Não sei o que este ‘z’ está fazendo aí, mas que é esquisito, é. O José Pedro Machado tem o verbete ‘fez’ e não registra ‘enfezado’. Abona ‘fezes’ com Santo Agostinho: ‘me tire dos afundamentos das águas e do lago da mizquindade e do lodo das fezes’. É barro mesmo, e não merda.


Refiticado está.


 

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