Quarta-feira, 18 de Outubro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº962

JORNAL DE DEBATES > MÍDIA & VIOLÊNCIA

O Rolex do Huck

Por Fabiana Machado Monteiro em 16/10/2007 na edição 455

A celeuma em torno do artigo do Luciano Huck já beira o ridículo e mostra o quão mesquinhas as pessoas podem se tornar diante de um fato tão banalizado nos dias de hoje.

O apresentador, pelo pouco que conheço de sua vida particular, trabalha desde cedo, conquistou sua fortuna com competência e talento, nunca o vimos envolvido em escândalos ou em jornais de fofocas quentíssimas e infames, sabemos ter ele um certo ‘toque de Midas’ (e o que os críticos com sua revolta têm a ver com isso?) e parece-me, certamente, que ele tem todo o direito de ter um Rolex ou um carro de três dígitos ou o que quer que seja que desperte atenção de pessoas.

Ora bolas, o dinheiro é dele, e não de empreiteiras, falcatruas ou mensalões… É usado para o bem estar seu e de sua jovem família e, quem sabe, para qualquer tipo de caridade que ele, com certeza, deve fazer. Lembrando também que sua mulher rende bons lucros, não com pensões de filhos bastardos ou capas de Playboy oportunas, mas com trabalho, carisma e talento.

Não consigo entender o tom jocoso de algumas críticas em torno do episódio envolvendo o roubo de seu relógio. Qualquer pessoa fica revoltada, se sentindo traída pelas autoridades e desnuda diante da violência que lhe é acometida e tem, sim, sentimentos diversos em relação às emoções confusas que lhe tomam o peito.

Se isso se manifesta com raiva, pena, revolta ou descaso, é um problema de foro particular. Algumas vítimas se escondem, outras escrevem cartas revoltadas para os jornais, outras chamam o BOPE e outras, ainda, que têm a mídia ao seu lado, escrevem artigos. É a forma de desabafo, é a maneira encontrada para extravasar o que todo cidadão brasileiro tem vontade de gritar: não agüentamos mais! Lemos diariamente artigos assim.

Vítimas famosas

Não vejo fascismo algum em querer um pouco de segurança. Não vejo onde se encaixa defesa ao vagabundo, ladrão, desgraçado que aponta uma arma à cabeça de um jovem pai de família para roubar um relógio, seja ele de 10 reais ou de 100 mil reais. Não importa o valor do que é roubado, o que importa é que aquele objeto não pertence ao ladrão.

Luciano Huck não é culpado de nada. Ele é vítima. Quem de nós pode tirar dele o direito de andar de Rolex? Quem de nós pode criticar uma pessoa que ganha dinheiro (honestamente, diga-se) com trabalho? A não ser os invejosos do talento e das oportunidades alheias. Esses deviam se envergonhar. Deveriam mirar sua língua enorme, feia e invejosa para cima daqueles que envergonham o país lá em Brasília. Deveriam saber que, um dia, o coitado do ‘sujeito que nunca teve oportunidade, então teve que roubar’ poderá apontar uma pistola bem no meio de suas caras. Será que nesse momento eles vão se lembrar do capitão Nascimento?

Em tempo, eu gostaria muito de saber a opinião de vítimas, também famosas, da violência e que são tão igualmente veementes naquilo que dizem ou escrevem. Artistas como Lulu Santos, Marcos Palmeira, Charles Gavin, Flora Gil. Ou mesmo autoridades como a ministra Ellen Gracie. Pergunto se o apresentador deveria ter um destino como o do Rodrigo Neto, dos Detonautas, para que entendam que precisamos ter nosso patrimônio respeitado por qualquer pessoa, seja ele de um ou um milhão de reais.

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Diretora Social do Viva Polícia

Todos os comentários

  1. Comentou em 16/10/2007 Luiz Geremias

    Sobre o trecho: ‘Não vejo fascismo algum em querer um pouco de segurança. Não vejo onde se encaixa defesa ao vagabundo, ladrão, desgraçado que aponta uma arma à cabeça de um jovem pai de família para roubar um relógio, seja ele de 10 reais ou de 100 mil reais. Não importa o valor do que é roubado, o que importa é que aquele objeto não pertence ao ladrão’. Ok, Fabiana, essa é uma forma de pensar. Respeito-a, mas discordo em um item. Posso te lembrar de duas referências que fazem pensar sobre isso. Wright Mills, sociólogo estadunidense, refere, ao meu ver com propriedade, que a diferença entre o ladrão rico e o pobre é que o primeiro geralmente não usa de violência física e ‘afana’ muito, mas em pequenas doses; já o pobre usa de violência física e rouba pouco, de uma vez. O que ele e eu queremos dizer é que há diferenças e o mais nefasto é o ladrão endinheirado – e esse não está em Brasília. Lá estão os corrompidos, não os corruptores. Já o Bakunin tem uma tirada espirituosa: pior que roubar um banco é abrir um banco. O que é preciso pensar, é urgente pensar, é que a nossa sociedade se funda no roubo. Isso não significa, é claro, que tenhamos que ser ladrões. Mas, que o icentivo vai nesse sentido, ah isso vai. Me solidarizo com tua revolta, mas o problema é muito mais complexo e tem que ser visto por outros vértices. Abraço.

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