Terça-feira, 21 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

ENTRE ASPAS > JORNALISMO SEM MÁSCARA

Observatório, pluralismo, macartismo

Por Ricardo Antônio Lucas Camargo em 18/09/2007 na edição 451

Volta e meia, lê-se nas colunas de jornalistas formadores de opinião uma proposição no sentido de desqualificar o Observatório da Imprensa como veículo do PT ou ponta-de-lança das ditaduras populistas instauradas na América Latina. Falo em desqualificação porque, como se sabe, insinuar que um órgão da mídia seja vinculado a tal ou qual agremiação partidária implica marcar o que quer que nele esteja posto como marcado pelos compromissos com tal agremiação. Nos tempos que ora correm, em que os ecos da Guerra Fria, não obstante tenha esta acabado, parecem aflorar aqui e ali, tal proposição precisa ser confrontada com os fatos, para se verificar se ela se sustenta.

A bem da verdade, este texto deveria ser enviado para a Veja ou para o Mídia sem Máscara. Contudo, como ambos atacam de dentro de seus redutos, provavelmente, torna-se legítima a resposta de dentro do Observatório.

Sou um dos articulistas bissextos do Observatório. Muitas vezes, simplesmente comento os artigos dos demais. Tenho assinatura da Veja. Não sou petista. Não sou simpatizante do PT. Não sou simpatizante do socialismo, do comunismo ou cousa que o valha. Remeto, com relação ao tema, para quem desejar discutir com seriedade o meu pensamento, aos meus livros Direito Econômico, direitos humanos e segurança coletiva, Porto Alegre, ed. Núria Fabris, 2007, p. 189 e 337-339; Liberdade de informação, direito à informação verdadeira e poder econômico, São Paulo, ed. Memória Jurídica, 2007, p. 70-76; Interpretação jurídica e estereótipos, Porto Alegre, ed. Sérgio Antônio Fabris, 2003, p. 47-49; Direito Econômico e reforma do Estado – 1 – a experiência européia de Constituição Econômica socialista: bases para a crítica, Porto Alegre, ed. Sérgio Antônio Fabris, 1994, p.55-56.

Críticos do governo

Mas isto não quer dizer, necessariamente, que deva assumir um compromisso com a interdição de espaços a que se manifestem os que sejam simpatizantes de tal partido ou de tal posição ideológica, sob pena de tratar como se não existisse o inciso VIII do artigo 5º da Constituição da República Federativa do Brasil, cuja inspiração está no caso Shelley v. Carr, julgado pela Suprema Corte norte-americana, no qual, embora se tenha tratado de discriminação por motivos de raça, apontou para outros fatores não-razoáveis de discriminação, dentre os quais as crenças e convicções políticas e filosóficas. Aliás, até me surpreende quando vejo que quem não tem o seu espaço sonegado, nem corre o risco de o ter, já sai dizendo que não se pode discriminar quem tem o espaço garantido, quando, na realidade, o seu temor é que seja garantido espaço também a pessoas das quais não gosta ou que esposem posturas diversas, deixando de tratar a manifestação de pensamento como um espaço comum para convertê-la em espaço exclusivo.

Mas o exemplo próprio é sempre frágil, porque se poderia dizer que se trata de uma espécie de mascaramento ou, então, que eu estaria a bancar o ‘inocente útil’, expressão muito usual até há bem pouco tempo. Alberto Dines [ver aqui e aqui, por exemplo], Luiz Weis e Rolf Kuntz [ver aqui, por exemplo], só para ficar com os articulistas permanentes, têm sido extremamente críticos para com o atual governo federal. Entre os articulistas bissextos do Observatório, há, inclusive, um antipetista e anticomunista figadal, Paulo Bento Bandarra [ver aqui, por exemplo], que elegeu como principais focos para combater o sistema de saúde cubano o PT e a homeopatia.

Vozes não uníssonas

O problema do sectarismo enquanto vício de raciocínio foi colocado em termos bem elevados num texto muito atacado do professor Ivo Lucchesi [ver aqui] –, do qual, por sinal, gostei muito, principalmente porque para os colocadores de rótulos, criou algumas situações muito difíceis e, com isto, somente lhes restou atacar por ‘mal escrito’ ou ‘confuso’ (em verdade, nem uma coisa nem outra, mas apenas um texto que não se dirigia ao caminho fácil do emocional, mas ao caminho sereno, embora árduo, da razão) – e, apesar dos ataques sofridos, ele fez a opção certa, no que se refere a evitar que um tema que mereceria maiores reflexões desapaixonadas ficasse marcado pelos debates sectários, em que fossem discutidas aplicações da doutrina, sem saber que, com isto, a doutrina, em si mesma, continua intacta (do contrário, o cristianismo teria sido maculado pelos massacres verificados na América, e mesmo a atuação da Ku-Klux-Klan não fica muito atrás de ataques de homens-bomba no Oriente Médio ou das Brigadas Vermelhas, na Itália): Luciano Martins Costa [ver aqui] apresentou um texto no qual havia um exemplo concreto de como a ausência de uma crítica ao capitalismo, ainda que interna, poderia comprometer-lhe a sustentabilidade, e provocou a ira de muitos que confundem crítica ao capitalismo com subserviência a Cuba, Chávez e quejandos, ou apologia de atrocidades por estes últimos cometidas.

O procurador da República Ângelo Costa [ver aqui], também articulista bissexto, reclamou da reação de leitores a artigo que publicara sobre o acidente da TAM, no qual elogiara a mídia e fustigara o governo federal. Noenio Spindola [ver aqui], articulista bissexto, publicou neste espaço artigo contrário a ‘marxistas e fabianos’. Mas o que é tudo isto, senão o próprio desmentido dos fatos à proposição genérica de que se trataria de um veículo petista? A menos que, como tal, se queira caracterizar o veículo que não interdita mensagens que não sejam anti-PT. Mas aí estamos em outro campo: não é o de permitir a veiculação de mensagens anti-PT, mas sim, o de procurar interditar a manifestação de pensamento a quem não pense como o responsável pelo órgão de imprensa. A doutrina da Suprema Corte norte-americana, neste caso, não valeria: os que se alinham automaticamente com os EUA não aceitam uma orientação que provém de lá e é, sim, um dos elementos caracterizadores da democracia.

Aí, dir-se-ia: mas a imprensa abre espaço para o pronunciamento de figuras ilustres do PT, ou simpatizantes, ou comunistas etc. Com toda a certeza: mas é exatamente com a identificação prévia que o contra-veneno já está dado. Nada do que a pessoa diga, tendo em vista a filtragem do rótulo, será tomado em consideração, justamente porque ou será, por presunção absoluta, ou mentira, ou tolice ou apologia de fato criminoso.

Neste espaço, pelo menos, é possível ouvirem-se vozes que não cantam em uníssono, nem se coloca a filtragem do rótulo a que se referiu o professor Lucchesi em seu artigo para o efeito de imunizar o leitor contra o texto escrito. As reações do leitor são determinadas – corretamente ou não – pelo texto em si, e não pelo fato de um rótulo lhe haver sido aposto.

******

Advogado, Porto Alegre, RS

Todos os comentários

  1. Comentou em 24/09/2007 Thiago Conceição

    Felipe Faria, foi justamente por isso que me manifestei contra a idéia de relativismo.

  2. Comentou em 24/09/2007 Felipe Faria

    Thiago, acreditar que a verdade não exista, ou em última análise, que é impossível de ser conhecida, ou ainda, que ela depende da opinião de um grupo, ou da sociedade, é um sintoma de subjetivismo epistemológico. Além de afetar a integridade intelectual, nos leva diretamente ao totalitarismo.

  3. Comentou em 22/09/2007 Paulo Bandarra

    Caro Ricardo Camargo, não me havia passado desapercebido a sua colocação eqüidistante das duas mídias antípodas! Quanto a Renan, não se trata em nenhum momento a questão sobre o seu adultério! No Brasil isto não move moinhos, enquanto nos EUA derruba políticos apenas por isto! Teve algum impacto na derrota de Lula? Duvido, pois o mesmo se elegeu e reelegeu mesmo todos sabendo da sua vida pessoal! As questões foram outras. Foi quando ele largou o radicalismo! Tanto que expulsaram os quatro autênticos!

  4. Comentou em 21/09/2007 Ricardo Camargo

    Retornando do trabalho, neste dia chuvoso – por isto a referência do Dr. Bandarra ao florescimento dos ipês -, li a evolução das discussões. Dr. Bandarra, assim como em outra ocasião eu referi, ao lado de Hitler, Lenin como exemplo de quem condenava pela condição ontológica e não pela conduta, desta vez, referi, como exemplos de militância jornalística, lado a lado, a Veja e a Carta Capital (o seu comentário dá a entender que eu teria omitido esta última e teria tomado partido dela contra a Veja). O que eu trouxe ao debate em meu comentário foi o dado de que o fato pode passar bradando e, no entanto, a militância jornalística se ensurdece a ele, no afã de forcejar um resultado. Não foi casual a minha citação da frase do saudoso Ulysses Guimarães – o último autêntico representante do PSD -. Por exemplo: quando se deu a complicação da Petrobrás na Bolívia, uns se puseram a favor do Morales, outros chegavam mesmo a insinuar que era o momento de declarar guerra (só para citar duas posições extremadas), mas ninguém se lembrou de fato semelhante ocorrido em 1982, quando Saddam confiscou os poços da Petrobrás no Iraque (informação colhida em conferência de Geraldo Vidigal, ex-pracinha e advogado da FEBRABAN). Tanto o Governo de então como a respectiva oposição ficaram silentes, talvez pelo fato de que, à época, ele comprava nossos armamentos e era aliado dos EUA contra o Irã.

  5. Comentou em 21/09/2007 ivo lucchesi

    Como prova (mais uma) de que não me interessa a discussão ‘partidarizada’, acrescento aos comentários anteriores esta observação. Reparem, leitores-comentaristas,: houve o fato do filho extra-casamento de FHC, publicado, na época pela revista ‘Caros Amigos’. O filho era fruto de uma relação com uma jornalista. A filha extra-casamento de Renan Calheiros é com uma jornalista. O trâmite ilegal de verbas públicas, cujo início remete à campanha eleitoral de Eduardo Azeredo (PSDB),para o governo de Minas e, adiante, a campanha de 2002 (PT), remete à figura de Valério (publicitário). Igualmente é outro publicitário, Duda Mendonça, quem confessou recebimento por meios ilegais. Qual é a questão? A relação promíscua entre esfera do poder político e o campo da comunicação (Jornalismo e Publicidade). Nesse caso, o Dines tem absoluta razão ao afirmar que a mídia não discute a própria mídia. Há, pois, algo nas entranhas da realidade brasileira, à espera de profunda desmontagem. Quais são os reais tentáculos que permitem a relação promíscua entre os campos mencionados?

  6. Comentou em 21/09/2007 ivo lucchesi

    Como prova (mais uma) de que não me interessa a discussão ‘partidarizada’, acrescento aos comentários anteriores esta observação. Reparem, leitores-comentaristas,: houve o fato do filho extra-casamento de FHC, publicado, na época pela revista ‘Caros Amigos’. O filho era fruto de uma relação com uma jornalista. A filha extra-casamento de Renan Calheiros é com uma jornalista. O trâmite ilegal de verbas públicas, cujo início remete à campanha eleitoral de Eduardo Azeredo (PSDB),para o governo de Minas e, adiante, a campanha de 2002 (PT), remete à figura de Valério (publicitário). Igualmente é outro publicitário, Duda Mendonça, quem confessou recebimento por meios ilegais. Qual é a questão? A relação promíscua entre esfera do poder político e o campo da comunicação (Jornalismo e Publicidade). Nesse caso, o Dines tem absoluta razão ao afirmar que a mídia não discute a própria mídia. Há, pois, algo nas entranhas da realidade brasileira, à espera de profunda desmontagem. Quais são os reais tentáculos que permitem a relação promíscua entre os campos mencionados?

  7. Comentou em 19/09/2007 Fernando Pinto

    Parabéns pelo artigo, Ricardo. Sério, inteligente e ponderado. O Observatório está precisando de algo assim. O nível caiu muito nos últimos meses. Alguns comentaristas, que eram confusos em seus comentários, se aventuraram em escrever artigos e o Observatório publicou. Não sou a favor de censurar nenhuma corrente política de pensamento, mas acho que o critério de publicação deve ser o bom texto, a boa redação. Chamo a atenção dos editores: os neo-articulistas afastarão os bons, pois estes têm um status acadêmico-político a zelar. Ricardo, na medida do possível, continue colaborando, pois prevejo um período de entressafra de talentos.

  8. Comentou em 19/09/2007 Fernando Pinto

    Parabéns pelo artigo, Ricardo. Sério, inteligente e ponderado. O Observatório está precisando de algo assim. O nível caiu muito nos últimos meses. Alguns comentaristas, que eram confusos em seus comentários, se aventuraram em escrever artigos e o Observatório publicou. Não sou a favor de censurar nenhuma corrente política de pensamento, mas acho que o critério de publicação deve ser o bom texto, a boa redação. Chamo a atenção dos editores: os neo-articulistas afastarão os bons, pois estes têm um status acadêmico-político a zelar. Ricardo, na medida do possível, continue colaborando, pois prevejo um período de entressafra de talentos.

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