Sábado, 25 de Maio de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1038
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JORNAL DE DEBATES >

Onde e como ocorrem as manipulações

Por Francisco Fernandes Ladeira em 16/06/2015 na edição 855

Um indivíduo que porventura resolva fazer alguma pesquisa em um site de busca qualquer e digitar “mídia” e “manipulação”, possivelmente se surpreenderá pela grande quantidade de trabalhos acadêmicos que fazem com que as duas palavras sejam quase automaticamente associadas. Também se formos realizar uma pesquisa de opinião, provavelmente a maior parte dos entrevistados responderá que a mídia é manipuladora. Entretanto, se podemos afirmar categoricamente que a mídia manipula, por outro lado, é imprescindível apontar em que instância especificamente ocorre tal manipulação, se está relacionada à emissão ou à recepção de um determinado conteúdo, ou a ambas.

De acordo com a clássica Teoria Hipodérmica, primeiro modelo de estudo no campo da comunicação de massa, uma mensagem lançada pela mídia é imediatamente aceita e espalhada entre todos os receptores, em igual proporção. Seguindo essa linha de raciocínio, Adorno e Horkheimer, pertencentes à famosa Escola de Frankfurt, consideravam que a mídia seria capaz de manipular incondicionalmente uma audiência submissa, passiva e acrítica. No livro Televisão e Consciência de Classe, Sarah Chucid Da Viá assevera que o vídeo apresenta um conjunto de imagens trabalhadas cuja apreensão é momentânea, de forma a persuadir rápida e transitoriamente o grande público.

Todavia, é demasiadamente simplório pensar que de um lado há uma mídia manipuladora, com interesses claros em controlar corações e mentes, e, de outro, receptores automaticamente manipulados, desprovidos de qualquer tipo de criticidade: meras marionetes nas mãos dos meios de comunicação. A prática não funciona assim, é bem mais complexa. Da mesma forma que Walter Benjamim afirmava que uma obra de arte só pode ser mensurada ao ser apreciada pelo público, o discurso midiático também só ganha sentido real na instância receptiva. Para o linguista francês Patrick Charaudeau, existe uma espécie de “contrato de comunicação” que foge da alçada do controle midiático. Desse modo, não há posições estanques de emissor e receptor – o público também pode ser classificado como corresponsável na produção de sentido para o discurso midiático.

Manipulação ocorre na produção e construção da notícia

Em outros termos, na prática todos somos coenunciadores de sentido. Por mais “ignorante” e “alienado” que um sujeito possa ser considerado, ele tem certa liberdade interpretativa. Portanto, os efeitos da mídia são limitados por quadros de referência (família, escola, religião) e maneiras de recepção. Uma pessoa só vai aceitar e compactuar com o conteúdo midiático se este estiver de acordo com as suas convicções ideológicas. Caso contrário, a influência dos meios de comunicação será nula e inócua. Os discursos inflamados e moralistas de Rachel Sheherazade e José Luiz Datena são reverberados somente pelos setores conservadores. Por outro lado, o boicote da população evangélica à telenovela Babilônia comprova que em determinadas situações a religião ainda exerce maior poder de persuasão do que as poderosas emissoras de televisão. Não obstante, há mais de uma década que o PIG – Partido da Imprensa Golpista – não consegue eleger seus candidatos preferidos para a presidência da República. Sendo assim, o discurso midiático apenas é “legitimado” através da prática cotidiana. Portanto, é demasiadamente controverso analisar a influência da mídia sem levar em consideração o receptor, sem compreender o ciclo completo da comunicação.

Por outro lado, apesar de a mídia não afetar a audiência racionalmente e de maneira imediata, sua influência pode ser sentida a longo prazo, em aspectos emocionais, comportamentais e estéticas. Não é no contato imediato entre mensagem e receptor que devemos encontrar os prováveis efeitos sociais do discurso midiático, mas no acúmulo de informações que os principais veículos de comunicação transmitem ao longo do tempo. Nos dias hodiernos, não há como negar que a mídia é um poderoso e eficiente mecanismo de sociabilização e sociabilidade. Crianças que desde a mais tenra idade são expostas ao persuasivo conteúdo dos anúncios publicitários tendem a se tornar adultos consumistas e individualistas. Nas telenovelas da Rede Globo, os arquétipos do negro social e racialmente inferior encontraram um terreno fértil para a sua propagação. Evidentemente, a mídia não inventou a “Guerra ao Terror” ou a atual onda global de islamofobia, mas a incessante exibição de matérias sensacionalistas sobre atentados terroristas envolvendo seguidores da religião fundado por Maomé fez com que boa parte da população realmente passasse a acreditar que todo muçulmano é fundamentalista, compactua com práticas terroristas e tem inveja do Ocidente.

Já as composições popularescas que dominam as paradas de sucesso no atual mainstream radiofônico brasileiro não seriam tão bem aceitas se não atendessem a um público que desde a década de 1990 tem sido bombardeado com músicas de refrãos pegajosos, monossilábicos e anódinos. Audições “moldadas” no decorrer dos anos para apreciar apenas canções simples que requerem pouco esforço cognitivo para a compreensão. Em suma, ao contrário do que muitos possam pensar, podemos considerar que a manipulação midiática não ocorre na recepção, mas na produção e construção da notícia com a seleção dos acontecimentos considerados como interesse público, no tratamento dado a uma determinada informação, ao fazer juízo de valores, na escolha das fontes a serem ouvidas, na amplificação de um fato e ao privilegiar um enquadramento da realidade em detrimento de outros pontos de vista.

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Francisco Fernandes Ladeira é especialista em Ciências Humanas: Brasil, Estado e Sociedade pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) e professor de Geografia em Barbacena, MG

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