Segunda-feira, 11 de Novembro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1062
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JORNAL DE DEBATES >

Opinião da imprensa não é a opinião pública

Por Venício A. de Lima em 20/03/2006 na edição 373

Independente dos motivos que levaram à não-cassação do deputado Roberto Brant (PFL-MG) por seus pares da Câmara dos Deputados, o discurso que ele fez em plenário no dia 8 de março e a entrevista que concedeu à CartaCapital (edição nº 385) trazem argumentos que não podem ser ignorados.

O pefelista questiona o conceito de opinião pública que é comumente aceito pela grande mídia brasileira; afirma que os acusados são tratados com o pressuposto de culpa e são vítimas de condenação sem julgamento; constata a existência de uma ‘cultura do espetáculo’ dentro da qual a cobertura da crise política tem sido feita; e condena a onda moralista de partidos e da grande mídia que, na verdade, camufla os interesses dos grupos dominantes que não desejam alterações no status quo.

Desde o início da crise política, muitas dessas denúncias têm sido feitas por políticos da base governista e, por isso mesmo, sempre foram desqualificadas pela mídia hegemônica. A novidade é que agora quem as faz é um qualificado deputado do PFL, um dos principais partidos de oposição ao governo, responsável pelo funcionamento das próprias CPIs no Congresso Nacional.

Fosso social

Interessa-nos, em particular, o argumento do deputado Roberto Brant sobre a opinião pública. Em seu discurso ele afirma:

‘Sempre achei que devemos satisfação ao povo brasileiro, não à opinião pública. E essas duas entidades não se confundem. (…) Opinião pública, esse monstro que tantas vezes nos amedronta. (…) Temos de aprender a encarar a opinião pública. A opinião pública não é o povo, é muito menor do que ele, a opinião pública não acerta sempre. Várias vezes na história a opinião pública estava equivocada. E se nunca, nenhuma vez, políticos e estadistas a tivessem desafiado o mundo hoje estaria pior e não melhor do que está.

‘Como se forma a opinião pública? Forma-se de maneira quase leviana. (…) As pessoas vão aos jornais, às revistas e à televisão não para ler, pensar, refletir e decidir. Não. Vão para se distrair e se divertir, não se aprofundam, têm horror à diversificação e às dificuldades. A opinião pública é formada de maneira quase instantânea e perigosa.

‘Meus senhores, dentro de cinco meses algo muito maior do que a opinião pública, que é o povo brasileiro, inscrito no colégio eleitoral brasileiro, vai cassar ou confirmar esses mandatos por si mesmo, por sua própria mão e não pelos seus intérpretes de ocasião, não submetido aos interesses da circunstância.’

Na entrevista à CartaCapital, Brant complementa o argumento afirmando:

‘A opinião pública é muito menor do que o povo, porque na verdade existe um fosso entre a sociedade brasileira como um todo e a opinião pública. A opinião pública são aquelas pessoas que lêem jornais, revistas. São quantos? Um milhão, dois, três. Quem lê o Estadão, a Folha, o Globo, a CartaCapital?’

Responsabilidade profissional

Em diferentes ocasiões temos discutido em artigos publicados neste Observatório questões muito semelhantes a essas agora colocadas pelo deputado do PFL [ver ‘A opinião privada tornada pública‘; ‘Revisitando o poder da grande mídia‘; ‘O silêncio suspeito da mídia‘].

A opinião pública não pode ser confundida com o que dizem os seus ‘intérpretes de ocasião’ e, menos ainda, com o que pensam os eleitores. Ademais, nunca se pode ignorar o limitado alcance da mídia impressa no Brasil. Bernardo Kucinski, em ensaio clássico, já nos advertia que ‘a elite dominante é ao mesmo tempo a fonte, a protagonista e a leitora das notícias; uma circularidade que exclui a massa da população da dimensão escrita do espaço público definido pelos meios de comunicação de massa’.

A recente recuperação da imagem do governo e das intenções de voto no presidente Lula mostraram claramente o quão equivocados estão alguns dos principais colunistas/analistas da grande mídia – sobretudo impressa – que insistem em se considerar, eles próprios, a expressão da opinião pública brasileira.

Não estaria acontecendo processo semelhante em relação à demanda indiscriminada que a mídia faz pela cassação de deputados cujos nomes, de maneiras distintas, apareceram vinculados ao chamado ‘valerioduto’?

Em sua entrevista o deputado do PFL, referindo-se aos jornalistas (à imprensa), também afirma que ‘há falta de apreço pela exatidão e pela verdade. (…) Enquanto se descrevem fatos, tudo bem. Mas alguns se recusam a descrever fatos’.

A conclusão da Polícia Civil de São Paulo, agora divulgada, confirmando o suicídio do legista Carlos Delmonte Printes, é um exemplo eloqüente do descompromisso de parte significativa da grande mídia com os princípios básicos do jornalismo e da ética. Durante mais de cinco meses, a cobertura sobre sua morte insinuou insistentemente que ele havia sido mais uma vítima – a sétima –, morto por suas conclusões de que o então prefeito Celso Daniel, de Santo André, teria sido torturado antes de ser assassinado.

As ponderações do deputado pefelista nos remetem novamente às questões sobre o papel central da grande mídia como ator político e à imensa responsabilidade dos(as) jornalistas profissionais na dinâmica desses processos. Não são mais somente os ‘governistas’ a identificar problemas importantes na cobertura que a grande mídia fez – e ainda faz – da crise política. E nunca é tarde para que uma séria reflexão crítica seja feita.

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Pesquisador sênior do Núcleo de Estudos sobre Mídia e Política (NEMP) da Universidade de Brasília e autor, entre outros, de Mídia: Teoria e Política (Editora Fundação Perseu Abramo, 2ª ed., 2004)

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