Segunda-feira, 10 de Dezembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1016
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JORNAL DE DEBATES >

Órfãos de um jornalista inventado

Por Demétrio Magnoli em 09/11/2006 na edição 406

A polêmica instalada neste Observatório entre Alberto Dines e uma parte significativa dos leitores gira em falso, pois os polemistas não escrevem no mesmo idioma. Eles jamais se entenderão. Não é que continuarão divergindo: nunca saberão nem sequer se divergem porque habitam universos mentais distintos. A explicação para o mal-entendido está na história do OI e na história política recente do país.


O OI surgiu na moldura formada pela marcha, difícil mas constante, do PT rumo aos palácios. Abrigado na internet e oriundo de uma iniciativa universitária, atraiu um público de vanguarda que simpatizava majoritariamente com o PT e guardava na memória, como um talismã, as justificativas oferecidas por Lula para os reveses eleitorais do partido.


De 1982 em diante, eleição após eleição, Lula atribuiu suas derrotas ao ‘poder econômico’ – que abrange, é claro, as grandes empresas de mídia. A análise, de um simplismo peculiar, continha aqueles traços de verdade que sempre existem no senso comum. A Globo ocultou o início da Campanha das Diretas, um fato que se enraizou no imaginário político nacional. O Jornal Nacional, na mesa de edição, pintou com tintas ainda mais carregadas a derrota contundente de Lula no célebre de debate com Collor.


Esses eventos marcantes propagaram-se num caldo de cultura ideológico aquecido pelo fogo de um marxismo degenerado, que ouve ‘democracia’ e entende ‘burguesia’. Nas faculdades, professores ensinaram que a mídia é um instrumento de dominação de classe, enquanto assinavam manifestos em defesa de ditaduras de esquerda que só admitem jornais oficiais. ‘A liberdade de imprensa é a liberdade da empresa’, proclamavam sem perceber que sua bandeira podia funcionar como salvo-conduto dos generais-presidentes no registro histórico.


Jornalismo independente


O mal entendido não começou agora. O público do OI aplaudiu Dines, pelos motivos errados, quando ele evidenciou as manipulações de alguns órgãos de mídia contra a candidatura de Lula, em 1998. Dines praticava a crítica da imprensa; seus leitores imaginavam que ele condenava a mídia. Dines insurgia-se contra o partidarismo de um veículo ou um jornalista; seus leitores pensavam que ele abraçava uma candidatura.


No tribunal dos leitores, Dines é acusado de não ser mais Dines, o petista. O réu, que nunca foi petista, não entende os termos do requisitório e sua peça de defesa organiza-se em torno da análise do jornalismo. Mas os acusadores, que são também juízes, não estão interessados em jornalismo: seu tema é Lula e o PT.


‘Nós cuspimos na rotativa em que comemos’ – Paulo Delgado, deputado federal do PT de Minas Gerais, critica hoje seu partido pela ofensiva política e ideológica que a direção deflagra contra a imprensa. Cinco anos atrás, no outono do governo FHC, Marilena Chaui contestou seu colega José Arthur Giannoti, simpático ao presidente, nos seguintes termos: ‘Ao desqualificar os partidos políticos e a imprensa, Giannotti desqualifica politicamente algo mais profundo: a sociedade civil e o conjunto dos cidadãos’. A coerência exigiria que os leitores que condenam Dines também atirassem Delgado e Chaui na famosa ‘lata de lixo da história’.


Há, contudo, coerência, num nível mais profundo. Os leitores-acusadores acreditam que ‘a liberdade de imprensa é a liberdade da empresa’, um paradigma que Chaui só encampou depois da chegada de Lula ao poder e, com afinco especial, após o crime de Estado cometido pelo governo que se entregou à compra da consciência dos parlamentares. Esse paradigma é a fonte da doutrina do ‘controle social da mídia’ ou, em versão paralela, da ‘democratização da mídia’, que é como se apresentam as propostas de subordinação da imprensa à vontade do poder de turno e de financiamento estatal de veículos chapa-branca. O Dines petista que existe no imaginário dos leitores foi condenado porque não defende a abolição do jornalismo independente, mas a liberdade de imprensa e a crítica permanente dos veículos e dos jornalistas.


Miséria intelectual


Os leitores traídos pelo Dines que inventaram migram para outros observatórios, constituídos exclusivamente por seguidores do PT. Nesses lugares, a ‘crítica da mídia’ baseia-se na avaliação quantitativa de textos ‘favoráveis’ e ‘desfavoráveis’ ao presidente e seu partido. A metodologia, que se pretende científica e veste-se com os trajes do rigor estatístico, toma emprestados os conceitos do marketing político.


No jornalismo, textos não são ‘favoráveis’ nem ‘desfavoráveis’. Eles são avaliados por sua veracidade, que é um critério factual, e por sua relevância, que é um critério político, mas não partidário. A imprensa independente define a relevância em relação ao grau de poder dos agentes políticos e, por isso, expõe sempre com mais destaque os desvios de quem ocupa os maiores palácios. Isso, naturalmente, nunca agrada aos poderosos do turno e a seus seguidores.


Dines não mudou. Hoje, como ontem, ele observa os jornais e os jornalistas, e nem liga para os beneficiários políticos ocasionais de seu trabalho. Ontem e hoje, o foco principal da sua crítica é a imprensa que serve ao poder mais alto. A saraivada de ataques que recebe por sua independência atesta a miséria intelectual que se alastra no país desde que o ‘exército dos puros’ começou a experimentar as delícias dos palácios.

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Sociólogo e doutor em Geografia Humana pela USP, é colunista de O Estado de S.Paulo e O Globo

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