Domingo, 17 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

JORNAL DE DEBATES > VIOLÊNCIA NO RIO

Os bandidos no poder. Sem ponto de exclamação

Por Nelson Hoineff em 03/01/2007 na edição 414

Entre os personagens recorrentes de Nelson Rodrigues, o ‘copidesque do Jornal do Brasil‘ (dos bons tempos, é claro) traz muitas lições atuais. Uma de suas características é que, se pudesse, reescreveria Marcel Proust para ficar mais palatável ao leitor. Outra: se uma bomba atômica caísse na redação do jornal, ele escreveria: ‘Caiu uma bomba atômica’. E não acrescentaria à frase ‘um mísero ponto de exclamação’.


Quando o presidente da República, no seu discurso de posse, afirma que o banditismo do Rio é terrorismo, está fazendo o que se espera de um presidente. Exceto pelo fato de que sua constatação vem com um atraso de alguns anos. Uma das razões desse atraso é que faltam pontos de exclamação na mídia.


Não pontos de exclamação literais, é claro. Muito menos manchetes apocalípticas em caixa alta. Mas exclamação de verdade: a capacidade de despertar a indignação do leitor. Despertar e manter.


Nos jornais, a chacina contundente da véspera é substituída pelo escândalo do dia seguinte. A reportagem do telejornal sobre a selvageria urbana é atenuada três minutos depois pela matéria de encerramento, sobre a chegada da primavera. Essa é uma norma, herdada da pior tradição da TV brasileira: a de perfumar a informação, escamotear o ruim – porque não é sua própria desgraça que o povo quer ver na hora do jantar.


Próximo passo


Não foi queimando famílias vivas no ônibus da Viação Itapemirim que a bandidagem tomou o Rio de Janeiro. O poder no Estado já foi de fato assumido pelo tráfico há bastante tempo. É a lei do bandido que vigora há anos em todas as favelas do Rio – e agora também no asfalto. A população resignou-se à idéia de ter se transformado em caça. Cada volta para casa é uma vitória improvável do cidadão. Trata-se de uma situação única fora de estados de guerra.


Isso não aconteceu da noite para o dia. É fruto de uma longa gestação. Nesse tempo todo, os jornais e revistas – e muito especialmente a televisão – não tiveram a capacidade de despertar a indignação da população para o que estava acontecendo no estado. Talvez tenham tido sucesso em revoltá-la contra o bandido do dia. Não contra os políticos que os produziram.


Tratar cada ação criminosa como um fato circunstancial faz da mídia uma cúmplice do que aconteceu. Só a mídia – e ninguém senão ela – teria a capacidade para criar um estado de indignação na sociedade ante a guerra civil da qual o tráfico saiu vitorioso. Não há muita coisa que uma população revoltada possa fazer com legitimidade. Votar a cada quatro anos é uma delas. Estatisticamente, 78% da sociedade brasileira são informados primariamente pela televisão. Pois o que fez a televisão brasileira nesse tempo todo para deixar o povo revoltado contra os fabricantes de bandidos?


Os dois últimos governos do Rio de Janeiro, por exemplo, aparentemente não foram informados sobre o que acontecia no estado. A outra hipótese é que tivessem sido coniventes, mas o povo não votaria em governantes coniventes com a tomada do Rio pelos grupos que são capazes de queimar vivas as suas famílias.


O presidente da República, depois de um primeiro mandato de quatro anos, foi informado da tomada do Rio de Janeiro pelos terroristas. Antes tarde do que nunca. O próximo passo é saber como se pode desalojá-los do poder que de fato eles mantêm. O novo governador de direito sinalizou sua disposição de participar dessa tarefa (até porque o poder que foi usurpado é seu). Mas nada poderá ser feito sem que a mídia tenha a capacidade de ajudar a sociedade a exercer a cidadania.


Sob a batuta do crime


O papel do telejornalismo nisso tudo é essencial. Informar o espectador sobre a ocorrência de um crime significa quase nada, se ele não é sacudido para entender as circunstâncias em que a lei está sendo quebrada, por quem, e o que ele pode fazer em defesa dos seus direitos. Uma população inteira subjugada pelo crime comum, patrocinado pela omissão do Estado, é um dos quadros mais tristes que se pode imaginar para qualquer país.


As novelas vistas toda noite por mais de 80 milhões de brasileiros manipulam as emoções e estabelecem relações tão estreitas quanto absurdas entre o cidadão e o personagem ficcional. Colocam todos os pontos de exclamação banais, estúpidos, que são legítimos na dramaturgia.


Pois informar convenientemente e despertar consciências não é apenas legítimo – é obrigatório no exercício do jornalismo. A televisão brasileira, no que ela chama de jornalismo, oscila entre os tablóides sensacionalistas que estimulam ainda mais a violência e a omissão travestida de grandes reportagens sobre bichinhos em extinção. Difícil saber o que é pior.


Um e outro ajudaram a que se instalasse no Rio de Janeiro uma das piores qualidades de vida do mundo e um estado regido pela criminalidade. Se a mídia estava esperando que caísse uma bomba atômica para colocar um ponto de exclamação virtual sobre esse estado de coisas, não há mais o que esperar.

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Jornalista

Todos os comentários

  1. Comentou em 04/01/2007 ivo lucchesi

    Caro Hoineff, como desejaria que você estivesse errado! Todavia, o distanciamento crítico aponta para o recorte preciso que você desnudou. Nunca sabemos, a rigor, qual é a situação-limite. Por outro lado, também a sabedoria indica ser o limite aquele que, na circunstância presente, se vive, razão pela qual sua frase terminal é definidora do quadro: ‘não há mais o que esperar’. Contudo, para a economia de gastos da União, há ainda o que protelar. Afinal de contas, para o governo federal o que importa é a segurança durante os jogos do Pan. Sem trocadilho, parece síndrome de Peter Pan…

  2. Comentou em 03/01/2007 Celso Alvares

    Nosso inestimável presidente, em seu discurso de posse, fez questão de mencionar que o acontecido no Rio de Janeiro extrapolou o ‘banditismo convencional’ e, por isso, não pode ser tolerado.
    Contudo, ele se esqueceu de explicar às milhares de vítimas do tal ‘banditismo convencional’ o porquê o
    denominado terrorismo do Rio é mais execrável. Parece que o autor desta matéria cometeu o mesmo engano.
    Será que morrer queimado dentro de um ônibus é pior do que torturado numa favela ou vitimado pelo vício do crack?
    Já que importamos tanto dos EUA, será que não poderíamos importar o conceito de Tolerância Zero aplicado na cidade de Nova Iorque, em vez de tentarmos qualificar qual é o nível de banditismo aceitável?
    Ou será que a frase ‘banditismo convencional’ inclui também as prevaricações, mensalões, acordões, os ‘não-sei’ e tantas outras coisas que não temos nem capacidade intelectual de conceber que ‘talvez’ sejam praticadas pelos nossos ilibados representantes, os senhores da lei e da ordem no Brasil, encarregados de avaliar até onde o crime é aceitável ou quando ele se torna hediondo (desculpe, terrorismo, esqueci-me da recente decisão do Supremo que, praticamente, acabou como o hediondismo dos crimes hediondos… )
    E foi apenas o discurso do primeiro dia de quatro longuíssimos anos…

  3. Comentou em 03/01/2007 Gilmar Santos

    Quem é capaz de queimar pessoas dentro de um veículo, não merecem ver o sol do dia seguinte, Não são animais, são monstros, Monstros financiados pelos consumidores de drogas, quantos fumantes de maconha declado no Brasil temos?, De Politicos renomados até médicos, passando pelo que chamamos de povão. Tudo isto que estamos vendo é reflexo do FINANCIAMENTO direto ao crime,uma maconha fumada é uma Bala de Metal que colocamos no mercado da Droga. Quantos politicos são mais BANDIDOS, que estes que saem dos morros?, A lei trata diferentemente esta casta podre da sociedade. Este ciclo vicioso de consumo de drogas, eleição de canalhas,ninguém conseguirá mudar isto.

  4. Comentou em 03/01/2007 Gilmar Santos

    Quem é capaz de queimar pessoas dentro de um veículo, não merecem ver o sol do dia seguinte, Não são animais, são monstros, Monstros financiados pelos consumidores de drogas, quantos fumantes de maconha declado no Brasil temos?, De Politicos renomados até médicos, passando pelo que chamamos de povão. Tudo isto que estamos vendo é reflexo do FINANCIAMENTO direto ao crime,uma maconha fumada é uma Bala de Metal que colocamos no mercado da Droga. Quantos politicos são mais BANDIDOS, que estes que saem dos morros?, A lei trata diferentemente esta casta podre da sociedade. Este ciclo vicioso de consumo de drogas, eleição de canalhas,ninguém conseguirá mudar isto.

  5. Comentou em 03/01/2007 Matheus Reino

    Agora sim, uma voz ecoa na multidão de desapercebidos! Uma grade de programação que tende a conformar a população que tudo o que acontece a sua volta é normal!?! Normal coisa nenhuma! Há tempos que a mídia televisiva contribui para a conivência com todo esse caos que vivemos! Usemos exclamações! Estamos idignados! Por um lado pela onda de violência e descaso político, e por outro, pela mídia tornar-se, muitas vezes, complacentes a esse tipo de coisa! Parabéns Nelson Hoineff, faltou você encerrar sua matéria com uma !

  6. Comentou em 03/01/2007 Lucas Fernando

    Simplesmente fantástico esse artigo. Ele esclarece expõe com clareza a inteligência o que grande parte da população não enxerga nas entrelinhas nos telejornais diários. Belo. Se artigo deveria fosse exposto em horário nobre na TV Globo, para o maior número de pessoas possíveis absorver, certamente iria desencadear um fluxo intenso de reflexões em todas as pessoas que nunca pararam para pensar isso. Não pode se deixar levar pela maré. É preciso ser esperto nesse mundo! Pena que somente um pequeno grupo (leitores do Observatório da Imprensa) tenha acesso a esse artigo. Em suma, foi bom lê-lo. Eu já sabia disso tudo. Mas foi bom relembrar. Abraços amigos leitores.

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