Segunda-feira, 11 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº969

JORNAL DE DEBATES > O impacto da internet

Os desafios atuais nas pesquisas sobre comunicação

Por Ana Carolina Contato em 15/11/2016 na edição 926

A comunicação, concebida por Denys Cuche como troca simbólica, deve ser problematizada no âmbito da cultura, pois se trata de um conjunto de processos que significam a vida humana.

Assim, Clyford Geertz aponta que a cultura é construída na cotidianidade, por meio da ressimbolização. Os símbolos são para o autor elementos que unidos à tecnologia e às regras formam o tripé constituinte das sociedades. Nesta esteira, Edgar Morin concebe duas eras: a do homo sapiens, pertencente ao mundo natural e a do homo demens, que sonha, produz signos e reconfigura o mundo a partir de suas ressignificações.

Tomando tais perspectivas, ultrapassa-se o entendimento predominante até o século XIX de cultura como o aperfeiçoamento moral, em contraposição aos emergentes hábitos burgueses. Em consonância ao pensamento de Morin, Geertz e Cuche inaugura-se uma nova escola em 1964: os Cultural Studies.

Associado à Universidade de Birmingham, o Centre for Contemporary Cultural Studies (CCCS) foi fundado pelos pesquisadores Richard Hoggart, Edward Palmer Thompson e Raymond Williams e, posteriormente, dirigido por Stuart Hall, um dos responsáveis por difundir o pensamento do CCCS.

Originalmente, os pesquisadores dos Estudos Culturais ocuparam-se de estudar a constituição da classe trabalhadora inglesa. Com a consolidação dos meios de comunicação audiovisual – rádio, cinema e televisão – observou-se que estes exerciam forte influência sobre os hábitos culturais e a formação das identidades coletivas.

É a partir deste momento, como aponta Ana Carolina Escosteguy, que a mídia é estudada em sua relação com o corpo social. É plausível afirmar que até a inauguração dos Estudos Culturais, a pesquisa em comunicação era centrada nos veículos e sua possível capacidade homogeneizante.

A teoria da bala mágica

Regressando às clássicas teorias da comunicação, Antônio Hohlfeldt recorda que a Teoria Matemática, elaborada pela Escola Norte-americana, tratava a comunicação não como um processo, mas como um esquema hermético composto por emissor, meio e receptor, de maneira simplificada. Posteriormente, o Esquema Hipodérmico, também chamado de Teoria da Bala Mágica ou da Correia de Transmissão apregoava que as mensagens eram introjetadas nos indivíduos de maneira indiferenciada analogamente a uma injeção.

No intento de compreender em que medida os meios de comunicação de massa influenciavam os eleitores por meio da propaganda eleitoral, Paul Lazarsfeld conclui que líderes de opinião eram mais influentes na tomada de decisão que a mídia, dando origem ao two-step flow – ou fluxo em duas etapas.

Pela primeira vez os teóricos balizam suas pesquisas no sentido de compreender os usos sociais dos meios e não a influência dos meios nas sociedades. Entretanto, a pesquisa de Lazarsfeld estava integralmente comprometida com seus financiadores – daí a primaz relevância em associar as pesquisas comunicacionais à academia, conferindo-lhe caráter científico.

Venício Lima pontua que somos permeados pela cultura do audiovisual: somente no Brasil são produzidas 500 mil horas de programação televisiva anualmente, hábito reproduzido pelos demais países da América Latina.

Desde a inauguração nos Estados Unidos da KDKA, primeira emissora oficial de rádio do mundo e da BBC (emissora televisiva) em 1936 em Londres, as sociedades passaram a engendrar seu cotidiano pelos novos meios. No Brasil replicamos o comportamento do hemisfério norte ao sermos essencialmente integrados pela televisão, como enfatiza Eugênio Bucci: categórico, o autor afirma que a história do nosso país acontece ao vivo, pela TV.

Marialva Barbosa concorda ao classificar a televisão como o brinquedo mais fascinante do século XX. Para Néstor García Canclini, ao consumir conteúdos midiáticos, os indivíduos reconfiguram a noção de cidadania – de acordo com o autor, os aparelhos oficiais do Estado dão conta apenas de reproduzir a cultura elitista, ao passo que aos meios de comunicação de massa cabe conceder espaço à cultura popular. Mais uma vez, evidencia-se a relação da mídia com a cultura.

Entretanto, os meios tradicionais não exercem atualmente a influência hegemônica de outrora: hoje, a internet ganha cada vez mais usuários e reconfigura a seta comunicativa. Pierre Lévy aponta para a morte do receptor e a emergência do sujeito emissor-receptor. Analogamente, Manuel Castells é otimista em relação ao novo meio ao defender novas formas de exercício da cidadania pela rede.

Assim, conceber a pesquisa em comunicação hoje é por em relacionamento as práticas socioculturais com os meios de comunicação e seus produtos. As considerações até aqui apresentadas são ponto pacífico entre os pesquisadores. Fator inquietante, entretanto, é a suposta falta de teorias próprias à comunicação.

Em sua obra bibliográfica, Luis Martino defende que a comunicação é vista desde o princípio como um campo, e não como uma disciplina. Considerados seus pais fundadores, Lasswell e Lazarsfeld eram de áreas alheias à comunicação. Da mesma maneira, a agulha hipodérmica não foi proposta originalmente como uma teoria. Para o autor, o problema reside no fato de que, em suas palavras, a comunicação mais importa que exporta, isto é, para conceber suas pesquisas os comunicólogos se valem de outras áreas para compor seu arcabouço teórico, como a antropologia, a psicologia e as ciências sociais, para citar algumas.

Martino sustenta que somos demasiado preocupados com a acuidade metodológica, mas nos esquecemos de construir teorias próprias. Ainda, expõe o paradoxo de que ao tomarmos a comunicação como um campo multidisciplinar, não questionamos o fato de, aparentemente, não constituirmos uma área autônoma.

Trata-se, evidentemente, de um problema epistemológico, pois partimos das questões sociais para explicar os fenômenos comunicacionais. Um caminho para a resolução desta questão seria justamente a inversão deste processo: as pesquisas em comunicação deveriam partir dos fenômenos comunicacionais para abordar seus impactos nas sociedades.

Similarmente ao que ocorre com as teorias, nossas principais metodologias são adaptações das ciências exatas, com seus métodos quantitativos ou da antropologia, com sua etnografia e pesquisa participante, apenas a título ilustrativo.

Para que a pesquisa em comunicação avance é necessário problematizar os questionamentos expostos por Martino sem esquecer que a comunicação é parte constituinte da cultura humana e está imbricada em contextos mais amplos, dentro dos quais seus objetos são ressignificados de modo similar aos demais símbolos que compõem o imaginário e a identidade sociais.

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Ana Carolina Contato é professora universitária, especializada na área da comunicação

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