Sexta-feira, 17 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

JORNAL DE DEBATES > OI NA TV: 11 DE SETEMBRO

Os dez anos do maior atentado terrorista da história

Por Lilia Diniz em 08/09/2011 na edição 658

A série de atentados de 11 de setembro de 2001 orquestrada pela organização terrorista al-Qaeda, que matou quase 3 mil pessoas nos Estados Unidos e desencadeou a invasão de dois países, foi planejada como um espetáculo midiático. Entre o impacto do primeiro avião e o choque da segunda aeronave contra as Torres Gêmeas, símbolo do poder e do capitalismo norte americano, passaram-se dezessete minutos. Tempo suficiente para as redes de TV iniciarem a transmissão ao vivo. O caos foi registrado em centenas de imagens. Cenas dos prédios em chamas, de uma grande nuvem de poeira sobre Manhattan e da população em pânico rapidamente tomaram conta do noticiário.

Imediatamente, telespectadores de todo o mundo postaram-se diante da TV e dos computadores para acompanhar os desdobramentos do ataque. A mensagem do terror espalhou-se por todos os países – a guerra estava declarada e o campo de batalha era a mídia. Dois outros aviões foram seqüestrados. Um deles atingiu o Pentágono e o outro, que segundo informações teria como destino o Capitólio, caiu na Pensilvânia. O Observatório da Imprensa exibido ao vivo pela TV Brasil na terça-feira (06/09) relembrou os dez anos do maior atentado terrorista da história através de depoimentos de jornalistas que participaram daquela cobertura nos Estados Unidos e no Brasil.

Alberto Dines recebeu no estúdio do Rio de Janeiro o jornalista e escritor Edney Silvestre. Repórter especial da TV Globo, Edney apresenta o programa Espaço Aberto Literatura, na Globonews, e foi o primeiro jornalista brasileiro de televisão a chegar ao local do atentado. Foi correspondente da Rede Globo e do jornal O Globo em Nova York por 12 anos. Em São Paulo, participou o jornalista Sérgio Dávila, editor-executivo da Folha de S.Paulo. Dávila foi correspondente nos Estados Unidos por dez anos, editor do caderno Ilustrada e repórter da Revista da Folha. Antes, trabalhou como editor daVeja São Paulo e repórter e editor da Playboy.

A guerra total

Em editorial, Dines sublinhou que os ataques de 11 de setembro de 2001 foram os mais sofisticados da escalada iniciada no auge da Guerra Fria. “Guerra total, absoluta, sem limites nem fronteiras, não entre estados, mas de uma facção contra uma sociedade desarmada e aberta, utilizando instrumentos civis contra alvos civis. O mundo mudou às oito horas e quarenta e seis minutos, hora de Nova York, de 11 de setembro de 2001: neste preciso momento inicia-se a era do terror, a era do medo, o tempo do vale tudo e da violência gratuita. Não há mais inocentes, todos são culpados e vulneráveis”. Para Dines, a intimidação terrorista não se completa sem uma ruidosa repercussão.

Jornalistas relembraram os detalhes daquela manhã de terça-feira. Muitos estavam em casa ou chegando ao trabalho quando o primeiro avião foi atirado contra o World Trade Center. O jornalista Carlos Nascimento, que na época apresentava o Jornal Hoje, na TV Globo, resumiu o começo daquele dia. “Veio uma imagem do primeiro plantão da CNN e era um buraco no meio de um prédio, mas a gente não sabia o tamanho do prédio, nem do buraco e nem do avião. Entramos em um primeiro plantão, depois demos um segundo e do terceiro em diante não saímos mais. Nós começamos a falar por volta das 10h da manhã e eu me levantei da cadeira eram 3h da tarde. Nem pra fazer xixi foi possível”.

Uma “confusão terrível” instalou-se na redação da TV Globo. Jornalistas jogavam papéis com informações na bancada do telejornal, outros gritavam. “E o mais interessante daquele dia é que nós não tínhamos a menor noção do que estava acontecendo. Somente aos poucos, com a evolução dos fatos, é que nós fomos nos inteirando de que estávamos diante de um fato que certamente transformaria a vida da humanidade”, disse Nascimento.

Uma manhã inesquecível

O jornalista Sérgio Malbergier, que era editor do caderno Mundo da Folha de S.Paulo, costumava despertar pela manhã assistindo ao noticiário da BBC. “Nesse dia, a televisão já estava mostrando a primeira torre do World Trade Centre pegando fogo. E eu falei: ‘vai ser um dia animado na redação um evento desse’, mas sem ainda ter a noção de que aquilo era um atentado terrorista daquelas proporções”, contou o editor. Malbergier relembrou que, quando surgiram as primeiras informações de que seria um ataque terrorista, o diretor de redação da Folha, Otavio Frias Filho, compreendeu a importância da notícia e determinou que a edição do dia 12 de setembro fosse inteiramente dedicada aos atentados. “Eu saí do jornal uma e quarenta da manhã naquele dia com a sensação de que a gente mal tinha arranhado a dimensão daquele fato, que foi um fato que alguns até tentaram minimizar na época, mas que a gente, olhando em retrospectiva, vê que foi de fato um marco na história contemporânea”.

Dez anos depois, Fernando Mitre, da TV Bandeirantes, ainda lembra da sensação de incredulidade diante das primeiras imagens. “Aquilo não estava acontecendo. Uma coisa de uma dramaticidade impressionante. E quando aquele segundo avião entrou na torre, se consolidou a situação absolutamente fantástica e real. Aquilo sendo transmitido ao vivo dava uma dramaticidade enorme”. Mitre destacou a agilidade e eficiência dos canais de televisão norte americanos e sublinhou que o terrorismo é uma ação de propaganda. “O terror precisa da mídia, o terror precisa da notícia, da intimidação. E a intimidação só se dá pela divulgação. O terror atacou os Estados Unidos e os Estados Unidos deram ao terror aquilo que eles precisavam naquele momento, que foi a divulgação e a propaganda do ato terrorista”, avaliou Mitre.

A cobertura dos atentados foi o grande desafio profissional nos 36 anos de carreira do jornalista Paulo Eduardo Nogueira, editor de Internacional do jornal O Estado de S.Paulo. A magnitude dos ataques e a complexidade da motivação dos terroristas tornaram a cobertura extremamente vibrante. “Nunca houve antes no território norte americano um ataque exterior como no caso do 11 de setembro. É um fato que não tinha precedentes e realmente não tinha explicação, era muito complicado”, disse. A perplexidade que tomou conta do mundo também abateu o jornalista, que precisou preparar uma edição que explicasse o que tinha ocorrido sem ter ainda a idéia exata do que estava por trás dos ataques. Nogueira contou que jornalistas de outras editorias se ofereceram para colaborar na cobertura. “A veia jornalística pulsou como nunca neste dia no mundo inteiro porque é um fato que inaugurou o século XXI”.

Notícias em alta velocidade

Para Renato Sardenberg, editor internacional da Record em 2001, foi umdia de “emoção pura” principalmente por conta da velocidade dos acontecimentos. “A partir do momento em que o primeiro avião bateu no World Trade Center, começaram os fatos e em uma velocidade incrível. E os jornalistas tentando acompanhar aquilo e ao mesmo tempo tentando saber o que havia ali por trás, o que estava acontecendo. Os aviões começaram a bater… bateu o segundo avião, teve o avião que caiu no Pentágono. E de repente todo mundo falou: ‘Quantos aviões têm?’Teve momento que falava-se em 30, 40 aviões desaparecidos. Então, era uma coisa espantosa. Foi uma cobertura simplesmente emocionante. E tinha o suspense e o mistério”.

Ricardo Gandour, então editor da revista Época, acabava de chegar à redação quando recebeu a notícia do primeiro ataque por um telefonema da sua mulher, que estava em casa amamentando. “Cheguei a ver o segundo avião bater ao vivo. Logo depois, nunca me esqueço disso, eu liguei pro Aluízio Maranhão, que era o diretor de redação naquela ocasião, naquele momento já se falava em atentado, e disse a ele: ‘Maranhão, vamos correr que o século XXI começou’”. Para o jornalista, aquela cobertura foi emocionante porque, mesmo sem ter a dimensão dos fatos, sabia-se que seria algo muito marcante. Uma edição extra da revista chegou às bancas na quarta-feira.

José Trajano, que era subeditor do caderno Internacional do jornal O Globo, recebeu um telefonema da então chefe da editoria, a jornalista Claudia Sarmento, contando que “algo muito estranho” estava acontecendo em Nova York e recomendando que ligasse imediatamente a televisão. “Eu fiquei perplexo olhando a CNN com aquelas imagens e fiquei sem saber o que fazer. Embora eu já soubesse que teria que vir para a redação mais cedo e que seria um dia diferente, eu não estava entendendo o que estava acontecendo”. Trajano contou que em apenas algumas horas o jornal rodou uma edição extra sobre os atentados que chegou às ruas ainda no fim daquele dia. Para isto, a editoria de Internacional, que conta normalmente com oito profissionais, foi reforçada com quinze jornalistas de outros cadernos.

O jornalismo dez anos depois

O correspondente Lucas Mendes contou que estava na cantina da agência de notícias Reuters no momento do atentado e que quando viu as primeiras imagens nas tevês do restaurante correu para emitir boletins para a TV Cultura. “Diante das assombrosas imagens dos desmoronamentos das torres, sabia que as conseqüências seriam brutais, mas não podia imaginar que gerariam duas guerras mal resolvidas, um conflito permanente com o terror e uma úlcera aberta nos americanos”, disse o jornalista. A década seguinte aos atentados, na avaliação de Mendes, foi a pior na historia da imprensa americana com quedas na circulação e no faturamento. “As tevês abertas também sofreram, mas a mídia eletrônica bombou. Em 2001, não havia banda larga, nem redes sociais, YouTube , televisão no computador. As pessoas não passavam 24 horas conectadas e os amadores ainda não tinham invadido a nossa profissão”, destacou.

Para Fernando Mitre, a cobertura brasileira poderia ter sido mais analítica. “O jornalismo está sempre em xeque, sempre se experimentando, se debruçando diante de si mesmo e tentando fazer a sua autocrítica. Em termos de análise, de dimensionamento, de aferição do verdadeiro sentido daquilo, nesses termos, o jornalismo brasileiro demorou. E isso, aliado a uma certa descontinuidade da cobertura, que é uma das falhas tradicionais do jornalismo, tornou a cobertura bastante criticável em muitos pontos”.

Na avaliação de Sardenberg, houve uma polarização ideológica no trabalho da imprensa nos Estados Unidos. “Eu acho que o fato jornalístico mais importante veio depois, quando a imprensa americana, grande parte da imprensa ocidental na verdade, aderiu ao governo americano, aderiu à campanha antiterrorista do ocidente. E isso deixou a imprensa um pouco cega para uma série de coisas que mais tarde ela ia rever. Ia rever essa adesão incondicional que permitiu uma série de fatos como, por exemplo, a invasão do Iraque”. Sardenberg destacou alguns jornais, como o New York Times, que admitiram que “tinham errado a mão na cobertura”.

Novos tempos para a imprensa

Sérgio Malbergier destacou o impacto das novas tecnologias da informação. “O relato da história hoje não é mais monopólio dos veículos de comunicação, dos jornais. Ele é completamente fragmentado e as pessoas, os atores da notícia, podem se comunicar diretamente com seu público. Ele pode se comunicar pelo Twitter, pelo seu site, blog, por milhares de formatos hoje que permitem a comunicação. Então a mudança é brutal e mal começou”.

No debate ao vivo, Dines pediu para Sérgio Dávila lembrar os primeiros momentos da cobertura. O jornalista contou que percorreu a pé os vinte quarteirões que separavam o escritório da Folha de S.Paulo das Torres Gêmeas, acompanhado de sua mulher, ainda acreditando que o choque do avião contra o prédio havia sido acidental. Já não havia transporte público e telefonia móvel. No caminho, tomou conhecimento de que o choque fora proposital e que um segundo avião tinha sido atirado contra a outra torre. “Ouvimos o barulho da primeira torre caindo e quando a segunda torre caiu a gente já estava bem próximo do World Trade Center”, contou Dávila.

Para Dávila, a imprensa nos Estados Unidos fez um bom trabalho nos primeiros dias após os ataques, com textos bem apurados e escritos, mas não foi profissional na cobertura da invasão do Iraque. “Ali, o jornalismo americano vestiu uma outra camisa que é deplorável e que volta e meia o jornalismo veste, que é a camisa do patriotismo exacerbado, do jornalismo acrítico, do ufanismo. Então, é engraçado ter vivido estes dois momentos do jornalismo americano. Um de glória e o outro de, talvez, desonra”.

Terrror em sons e imagens

Edney Silvestre relembrou que, quando chegou ao local dos ataques, as duas torres já haviam desabado. O jornalista contou que as primeiras notícias informavam que um cesna ou um avião de treino teria colidido com uma das torres. “Era impossível porque era proibido voar sobre Manhattan. Tinha que ser alguma coisa mais grave”, sublinhou. Como não era permitido chegar de carro ao local, a equipe da TV Globo que acompanhava o correspondente fez a ultima parte do percurso caminhando com os equipamentos. Para Edney, as lembranças mais marcantes daquele episódio são o cheiro de carne humana queimada, o “inferno de sons” das sirenes e dos alarmes de carros disparados e os papéis que voavam dos prédios.

“Eu só consegui ter alguma idéia da dimensão do que tinha acontecido quando eu voltei aquela noite, saí da estação de metrô e não vi ao fundo as torres. Havia só fumaça e havia as luzes. Nós, jornalistas, estamos sempre no contra-fluxo. Eu pensava também que eu sabia que por ali circulavam cerca de cinco mil pessoas por dia e que a tragédia, as mortes, deviam ser em um número muito grande. E seriam muito mais se fossem em outro horário, ainda era no começo do dia de trabalho”, disse o jornalista.

***

Um dia para entrar na história

Alberto Dines # editorial do Observatório da Imprensa na TV nº 609, exibido em 6/09/2011

Bem-vindos ao Observatório da Imprensa.

Um dia para entrar na história: o século 21 não começou em primeiro de janeiro de 2000 nem em janeiro de 2001. O novo século começou em 11 de setembro de 2001, há dez anos, quando quatro aviões sequestrados por terroristas islâmicos derrubaram as Torres Gêmeas em Nova York, destruíram parcialmente o Pentágono, em Washington, e o quarto que deveria atingir a Casa Branca ou o Congresso foi desviado e igualmente destruído.

Foi o maior ataque terrorista de todos os tempos – 2996 mortos – e também o mais diabólico, ou sofisticado, culminando uma escalada iniciada nos anos 60 no auge da Guerra Fria. Guerra total, absoluta, sem limites nem fronteiras, não entre estados, mas de uma facção contra uma sociedade desarmada e aberta, utilizando instrumentos civis contra alvos civis. O mundo mudou às oito horas e quarenta e seis minutos, hora de Nova York, de 11 de setembro de 2001: neste preciso momento inicia-se a era do terror, a era do medo, o tempo do vale tudo e da violência gratuita. Não há mais inocentes, todos são culpados e vulneráveis. O 11-S converteu o suicídio em arma de destruição em massa. Levou uma superpotência mundial a engajar-se em duas guerras regionais antecipadamente perdidas, degradou o sistema republicano da mais sólida democracia do mundo e nela instalou as sementes autoritárias.

O 11-S exibiu o quanto a mídia pode ser instrumentada pelo terror. Sem uma gigantesca repercussão, a intimidação terrorista não se completa. Como qualquer refém, sequestrada pelo terrorismo, a imprensa obedece. Mas não pode aderir, compactuar. O responsável pelo massacre do 11-S, Osama Bin Laden, foi punido e eliminado em primeiro de maio deste ano, porém o seu tenebroso projeto está mantido: nestes dez anos seus asseclas perpetraram cinco atentados contra instalações humanitárias das Nações Unidas, o mais recente há duas semanas na Nigéria. Pior: a Al-Qaeda converteu a religião em arma de guerra, intoxicando de forma irreversível aqueles que seriam os naturais agentes da paz.

Um dia para entrar na história. Na história de todos: história ao vivo, em cores, em tempo real. Uma mudança que até hoje não foi inteiramente assimilada. Esta edição do Observatório da Imprensa é o observatório do mundo.

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