Sexta-feira, 15 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

CADERNO DO LEITOR > CASO CÉSAR BENJAMIN

Os ‘éticos’ e a política

Por Aldo Fornazieri em 08/12/2009 na edição 567

O artigo de César Benjamin ‘Os Filhos do Brasil’ (Folha, 27/11/2009), no qual relata uma suposta conversa de Lula sobre a tentativa de subjugar o tal ‘menino do MEP’ na prisão, causou perplexidade em muitas pessoas. Nestes momentos sempre é conveniente buscar o suporte nos filósofos da política para tentar lançar luz sobre o entendimento da conjuntura. A perplexidade torna-se ainda maior quando determinados setores da intelectualidade e do jornalismo, principalmente aqueles que se autodenominam ‘éticos’, dão abrigo e respeitabilidade a tal artigo. O que talvez explique o engajamento dos ‘éticos’ é que eles alimentam a continuidade de uma tradição da elite intelectual moralista: a tentativa de destruir todos os exemplos positivos da política brasileira – de Getulio Vargas a Juscelino, de Fernando Henrique Cardoso a Lula.

Para o momento, talvez seja mais apropriado consultar Max Weber e a discussão sobre as duas éticas – a da convicção e a da responsabilidade. Com efeito, Weber mostra que, muitas vezes, a justificação moral produz um papel desagradável. Apresenta alguns exemplos, como o do homem que abandona a esposa por outra mulher porque não a amava mais e imputa à ex-esposa toda a responsabilidade pela sua própria atitude. O sociólogo mostra que se trata daquele tipo de homem que quer sempre ter razão em tudo e que quando os seus atos apresentam conseqüências desagradáveis lança a culpa sobre os ombros alheios. Culpar os outros ou o passado é uma questão insolúvel do ponto de vista político, ensina Weber, já que a política se ocupa do presente e do futuro. Ademais, não é possível distinguir quais os verdadeiros interesses que motivam os acusadores. ‘Se existem crimes políticos, um deles é esta maneira de proceder’, conclui o autor.

Razoabilidade, confiabilidade e integridade

Na primeira parte do artigo, César Benjamin se apresenta como vítima. Certamente, o foi, nas mãos dos torturadores. Mas se apresenta como vítima também para construir sua posição moral confortável como meio para realizar um fim no próprio artigo. Faz um auto-elogio de si, apresentando-se como portador de uma conduta exemplar e inimputável. Na segunda parte, Benjamin veste a toga de juiz para acusar e condenar Lula. A construção do artigo em duas partes não é um empreendimento qualquer. É uma apresentação dele – César Benjamin – como contraponto ao presidente da República, ao que significa o filme Lula, o Filho do Brasil, ao governo e a tudo o que está aí. É o homem que sempre tem razão em tudo, que ataca o principal magistrado do país sem o devido respeito e que se sente na condição de acusar e culpar os outros a partir de sua exclusiva convicção.

A parte acusatória do artigo se constitui do relato de um relato, ocorrido há 15 anos. O contexto do relato: uma conversa privada, na qual, segundo testemunhas, Lula falava em tom jocoso, brincalhão, ironizando sua própria condição de preso e a relação desta com a sexualidade. Eis como uma questão privada, uma brincadeira sem importância, foi transformada em questão de Estado por alguém que não deixa sequer vir à luz os seus reais interesses.

A ação política, tal como a amizade e as relações amorosas, pertence à esfera do interagir humano. Mediado por atos de fala, o interagir humano pressupõe a razoabilidade, a confiabilidade e a integridade dos agentes. Imagine agora o leitor se todas as ex-esposas, os ex-maridos, as ex-amantes, os amigos e ex-amigos viessem a público revelar os contextos, as falas, as fantasias, os jogos sexuais, a vida íntima e privada de parceiras e parceiros. Certamente, as relações humanas ficariam dilaceradas pela inconfiabilidade e a vida social e amorosa se tornaria insuportável.

Noção de limite é necessária

Por que é que as pessoas, de modo geral, mesmo em situações de rompimento de relações, não revelam publicamente os detalhes da vida privada, íntima e amorosa? A resposta é simples: na sua espontaneidade, as pessoas comuns e normais são providas de uma moralidade natural. É esta moral natural espontânea que torna a vida social possível, pois funda a confiabilidade e a razoabilidade das relações humanas. Esta moral está, ou ao menos deveria estar, também na base das relações políticas. César Benjamin, ao fazer o que fez, rompeu com este nível primário da moral humana e esta abjeção situa o seu artigo fora do debate propriamente político.

Todos sabemos que o presidente Lula e o governo têm muitos aspectos criticáveis. Mas se quisermos pautar a nossa conduta por um critério moral, por mínimo que seja, devemos fazer as críticas a partir da natureza própria dos erros e equívocos imanentes aos atos do governo. A intelectualidade ‘ética’ abrigou e justificou o artigo em nome dos fins – combater o governo Lula. Em Política como Vocação se aprende que não é possível conciliar a moral das convicções com a moral da responsabilidade se não se usar meios adequados para atingir fins correspondentes.

De Maquiavel a Kant se ensinou que é preciso ter limites até mesmo na guerra. Uma guerra sem limites é uma guerra de extermínio. Hoje há tribunais internacionais que julgam criminosos de guerra. Em política também é preciso ter limites. O agente deve saber até onde pode ir e quando deve parar. Por isto, a opinião pública e os meios de comunicação deveriam interditar certas postulações. Na medida em que o Brasil vai entrar numa disputa presidencial, a noção de limite é necessária e oportuna. Por fim, o PT deveria tirar uma dura lição do episódio de César Benjamin. Quantas reputações não foram atacadas injustificadamente por petistas? A própria idéia de que receberam de FHC apenas uma herança maldita não passa de um álibi para ter sempre razão.

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Diretor acadêmico da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP)

Todos os comentários

  1. Comentou em 15/12/2009 Ibsen Marques

    Respondendo ao Azevedo, acho que o Lula não processa o Benjamin porque em primeiro lugar o artigo surtiu o efeito contrário do que pretendia, quer dizer, não acarretou nenhuma grande perda a ele e, em segundo lugar, porque deve se lembrar da péssima repercussão de sua tentativa de expulsar aquele jornalista americano que o chamou de alcoólatra. Com relação ao público/ privado, seguindo sua argumentação, poderia dizer que se líderes políticos se reúnem em local privado estão isentos de julgamento público por localização, independente do tema discutido. Mas eu fiquei pensando no artigo, já que se baseou em noções filosóficas, sobre a ‘moralidade natural’. Será que ela existe mesmo? Duvido muito, Não acho que é por essa conta que casais em litígio não escancaram seus podres, até porque isso é mais comum do que se pensa quando o casal se separa em real litígio. Esse tipo de postura também é muito corriqueiro na política, principalmente às véspera das eleições e, como podemos ver fartamente nos noticiários também o é na imprensa (vou prescindir das citações porque o espaço é curto, mas creio que todos tem lá seus exemplos). Na minha opinião, essa moralidade é muito mais uma questão de berço e caráter (que também depende de ações externas)do que outra coisa. Acreditar em moralidade natural é corroborar a teoria de uma natureza humana e eu não compartilho dessa premissa

  2. Comentou em 11/12/2009 Sidnei Brito

    Seria interessante que o professor Aldo, meu mestre na FESP, dissese quais foram os casos em que petistas atacaram a honra de adversarios (nem vou dizer injustificadamente , afinal, talvez inexista o justificadamente nesses casos).

  3. Comentou em 11/12/2009 Sidnei Brito

    Seria interessante que o professor Aldo, meu mestre na FESP, dissese quais foram os casos em que petistas atacaram a honra de adversarios (nem vou dizer injustificadamente , afinal, talvez inexista o justificadamente nesses casos).

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