Sábado, 17 de Novembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1013
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CADERNO DO LEITOR >

Os ‘éticos’ e a política

Por Aldo Fornazieri em 08/12/2009 na edição 567

O artigo de César Benjamin ‘Os Filhos do Brasil’ (Folha, 27/11/2009), no qual relata uma suposta conversa de Lula sobre a tentativa de subjugar o tal ‘menino do MEP’ na prisão, causou perplexidade em muitas pessoas. Nestes momentos sempre é conveniente buscar o suporte nos filósofos da política para tentar lançar luz sobre o entendimento da conjuntura. A perplexidade torna-se ainda maior quando determinados setores da intelectualidade e do jornalismo, principalmente aqueles que se autodenominam ‘éticos’, dão abrigo e respeitabilidade a tal artigo. O que talvez explique o engajamento dos ‘éticos’ é que eles alimentam a continuidade de uma tradição da elite intelectual moralista: a tentativa de destruir todos os exemplos positivos da política brasileira – de Getulio Vargas a Juscelino, de Fernando Henrique Cardoso a Lula.

Para o momento, talvez seja mais apropriado consultar Max Weber e a discussão sobre as duas éticas – a da convicção e a da responsabilidade. Com efeito, Weber mostra que, muitas vezes, a justificação moral produz um papel desagradável. Apresenta alguns exemplos, como o do homem que abandona a esposa por outra mulher porque não a amava mais e imputa à ex-esposa toda a responsabilidade pela sua própria atitude. O sociólogo mostra que se trata daquele tipo de homem que quer sempre ter razão em tudo e que quando os seus atos apresentam conseqüências desagradáveis lança a culpa sobre os ombros alheios. Culpar os outros ou o passado é uma questão insolúvel do ponto de vista político, ensina Weber, já que a política se ocupa do presente e do futuro. Ademais, não é possível distinguir quais os verdadeiros interesses que motivam os acusadores. ‘Se existem crimes políticos, um deles é esta maneira de proceder’, conclui o autor.

Razoabilidade, confiabilidade e integridade

Na primeira parte do artigo, César Benjamin se apresenta como vítima. Certamente, o foi, nas mãos dos torturadores. Mas se apresenta como vítima também para construir sua posição moral confortável como meio para realizar um fim no próprio artigo. Faz um auto-elogio de si, apresentando-se como portador de uma conduta exemplar e inimputável. Na segunda parte, Benjamin veste a toga de juiz para acusar e condenar Lula. A construção do artigo em duas partes não é um empreendimento qualquer. É uma apresentação dele – César Benjamin – como contraponto ao presidente da República, ao que significa o filme Lula, o Filho do Brasil, ao governo e a tudo o que está aí. É o homem que sempre tem razão em tudo, que ataca o principal magistrado do país sem o devido respeito e que se sente na condição de acusar e culpar os outros a partir de sua exclusiva convicção.

A parte acusatória do artigo se constitui do relato de um relato, ocorrido há 15 anos. O contexto do relato: uma conversa privada, na qual, segundo testemunhas, Lula falava em tom jocoso, brincalhão, ironizando sua própria condição de preso e a relação desta com a sexualidade. Eis como uma questão privada, uma brincadeira sem importância, foi transformada em questão de Estado por alguém que não deixa sequer vir à luz os seus reais interesses.

A ação política, tal como a amizade e as relações amorosas, pertence à esfera do interagir humano. Mediado por atos de fala, o interagir humano pressupõe a razoabilidade, a confiabilidade e a integridade dos agentes. Imagine agora o leitor se todas as ex-esposas, os ex-maridos, as ex-amantes, os amigos e ex-amigos viessem a público revelar os contextos, as falas, as fantasias, os jogos sexuais, a vida íntima e privada de parceiras e parceiros. Certamente, as relações humanas ficariam dilaceradas pela inconfiabilidade e a vida social e amorosa se tornaria insuportável.

Noção de limite é necessária

Por que é que as pessoas, de modo geral, mesmo em situações de rompimento de relações, não revelam publicamente os detalhes da vida privada, íntima e amorosa? A resposta é simples: na sua espontaneidade, as pessoas comuns e normais são providas de uma moralidade natural. É esta moral natural espontânea que torna a vida social possível, pois funda a confiabilidade e a razoabilidade das relações humanas. Esta moral está, ou ao menos deveria estar, também na base das relações políticas. César Benjamin, ao fazer o que fez, rompeu com este nível primário da moral humana e esta abjeção situa o seu artigo fora do debate propriamente político.

Todos sabemos que o presidente Lula e o governo têm muitos aspectos criticáveis. Mas se quisermos pautar a nossa conduta por um critério moral, por mínimo que seja, devemos fazer as críticas a partir da natureza própria dos erros e equívocos imanentes aos atos do governo. A intelectualidade ‘ética’ abrigou e justificou o artigo em nome dos fins – combater o governo Lula. Em Política como Vocação se aprende que não é possível conciliar a moral das convicções com a moral da responsabilidade se não se usar meios adequados para atingir fins correspondentes.

De Maquiavel a Kant se ensinou que é preciso ter limites até mesmo na guerra. Uma guerra sem limites é uma guerra de extermínio. Hoje há tribunais internacionais que julgam criminosos de guerra. Em política também é preciso ter limites. O agente deve saber até onde pode ir e quando deve parar. Por isto, a opinião pública e os meios de comunicação deveriam interditar certas postulações. Na medida em que o Brasil vai entrar numa disputa presidencial, a noção de limite é necessária e oportuna. Por fim, o PT deveria tirar uma dura lição do episódio de César Benjamin. Quantas reputações não foram atacadas injustificadamente por petistas? A própria idéia de que receberam de FHC apenas uma herança maldita não passa de um álibi para ter sempre razão.

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Diretor acadêmico da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP)

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