Sexta-feira, 15 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

CADERNO DO LEITOR > CASO CÉSAR BENJAMIN

Os filhos da verdade

Por Washington Araujo em 02/12/2009 na edição 566

Causou-me estranheza a Folha de S.Paulo ter concedido uma página inteira para o artigo do cientista político Cesar Benjamin na última sexta-feira, 27/11/2009. O artigo, aparentemente sem sentido, relatava com minúcias de detalhes os dias em que o autor passara detido nas dependências do DOPS em São Paulo, em 1980 e que, à mesma ocasião estivera preso o atual presidente da República, Luiz Inácio. O título também queria transparecer que se tratava de um texto, digamos, ameno. A Folha titulou-o como ‘Os filhos do Brasil’. Em espaço de quatro colunas encimava um fotograma do filme Lula, o filho do Brasil, cena em que o ator Rui Fabiano fala a uma extensa platéia de sindicalistas, interpretando o personagem-título do filme.


A narrativa é fluida, vamos lendo, lendo e em alguns momentos parecemos estar rememorando os dias de prisioneiro de Graciliano Ramos em sua excelente obra Memórias do cárcere. No primeiro caso não há estilo literário, apenas exercício mental do autor que é loquaz em alguns pontos e completamente amnésico em outros.


Benjamin tenta uma moldura de veracidade para sua condição de ex-preso político, sabe de cor nomes de ex-detentos e chega a afirmar que acompanhou a trajetória de vários destes. Mas o que deseja Cesar Benjamin com esse texto? Simples. Benjamin quer atacar a honra de Lula tendo como gancho o filme de Fábio Barreto que, segundo a linha editorial da Folha, é um filme feito para gerar o mito, um filme que varre do roteiro qualquer coisa que empane o brilho do caráter personagem-título. E o articulista já depois de dois terços do caudaloso texto – afinal, leva página inteira da Folha – vai ao ponto: relata ter ouvido do próprio Lula que este em crise de abstinência sexual tentou subjugar um jovem preso, mas que foi repelido por ‘socos e cotoveladas’. Seria este jovem militante de organização de esquerda, o Movimento pela Emancipação do Proletariado.


‘Rancoroso e ressentido’


É óbvio que tal artigo se posicionava como contraponto ao filme dos Barretos, inspirado no livro da jornalista Denise Paraná. O lançamento, a estréia mundial em Brasília, na abertura do 42o. Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, do qual fui jurado, teve superlotação do Teatro Nacional, manifestação pró-libertação de Cesare Battisti, preocupações exageradas com a segurança do local que abrigava cerca de 1.800 espectadores, 400 a mais que o permitido e que, segundo Luiz Carlos Barreto não contava com brigadistas dos bombeiros.


A grande imprensa optou repercutir esses pontos e deixou de falar do filme e, quando queria falar do filme era pelo viés de se tratar de obra de propaganda fora de época. Como não surtiram efeito os queixumes da Folha e seus confrades midiáticos, o jeito mesmo era buscar um texto que atentasse contra a integridade moral do personagem central do filme e, que obra do destino, ocupa o cargo de Presidente da República desde janeiro de 2003


César Benjamin cita, em seu texto, uma testemunha, ‘um publicitário brasileiro que trabalhava conosco cujo nome também esqueci’. O ‘publicitário’ é o cineasta Silvio Tendler, que em 1994 trabalhou na campanha de Lula à presidência da República. Em entrevista ao jornalista Bob Fernandes, Tendler afirma: ‘Ele diz não se lembrar de quem era o `publicitário´, mas sabe muito bem que sou eu. Eu estava lá e vou contar essa história…’ E, então, Silvio Tendler conta o que viu e o que recorda daquele almoço em meio à campanha presidencial de 1994:


– Era óbvio para todos que ouvimos a história, às gargalhadas, que aquilo era uma das muitas brincadeiras do Lula, nada mais que isso, uma brincadeira. Todos os dias o Lula sacaneava alguém, contava piadas, inventava histórias. A vítima naquele dia era um marqueteiro americano. O Lula inventou aquela história, uma brincadeira, para chocar o cara… só um débil mental, um cara rancoroso e ressentido como o Benjamin, guardaria dessa forma dramática e embalada em rancor, durante 15 anos, uma piada, uma evidente brincadeira…


Para quem não sabe, Silvio Tendler já fez cerca de 40 filmes, entre curtas, médias e longas-metragens. Além de vários prêmios é detentor das três maiores bilheterias de documentários na história do cinema brasileiro: Anos JK (800 mil espectadores), Jango (1 milhão de espectadores) e O Mundo Mágico dos Trapalhões (1 milhão e 800 mil espectadores).


‘Uma piada’


E não ficamos por aqui. Vejamos as falas de outros participantes do almoço onde foi servido o cozido que abasteceu o longo artigo do Cesar Benjamin.


O publicitário Paulo de Tarso da Cunha Santos, citado por Benjamin, afirmou que ‘o almoço a que se refere o artigo de fato ocorreu’, que ‘o publicitário americano mencionado se chamava Erick Ekwall’, e que não houve ‘qualquer menção sobre os temas tratados no artigo’. Ex-companheiros de cela de Lula no Dops, José Maria de Almeida (PSTU), José Cicote (PT) e Rubens Teodoro negaram a tentativa de estupro, tendo Almeida acrescentado que não havia ninguém do Movimento pela Emancipação do Proletariado na cela e Cicote se lembrado vagamente de que um sindicalista de São José dos Campos seria apelidado de ‘MEP’. Já Armando Panichi Filho, um dos dois delegados do Dops escalados para vigiar Lula na prisão, disse nunca ter ouvido falar disso e não acreditar que tenha acontecido, mesmo porque, segundo ele, nem sequer havia ‘possibilidade de acontecer’. O então diretor do Dops Romeu Tuma (atual senador) também desmentiu ‘qualquer agressão entre os presos’.


O irmão de Lula, o conhecido como politizado da família Silva, o Frei Chico, lembrou que a cela do Dops era coletiva e que nunca Lula ficou sozinho, pois estava preso com os outros diretores do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo (Rubão, Zé Cicote, Manoel Anísio e Djalma Bom).


Como disse Tendler ao fim de sua entrevista ao Bob Fernandes, ‘…isso não tem, não deveria ter importância nenhuma. Só um débil mental, um cara rancoroso e ressentido como o Benjamin, guardaria dessa forma dramática e embalada em rancor, durante 15 anos, uma piada, uma evidente brincadeira…’


O presidente do PSTU José Maria de Almeida dividiu cela com Lula e declarou o seguinte: ‘O governo Lula é tragédia para a classe trabalhadora. Mas isso que está escrito não aconteceu. Benjamim viajou na maionese. Não lembro sequer de haver alguém do MEP conosco’.


Paixão ideológica


Lula, de acordo com o chefe de gabinete da Presidência, Gilberto de Carvalho, teria ficado triste e abatido, afirmando que isso era ‘uma loucura’ e o próprio Gilberto de Carvalho qualificou a acusação de ‘coisa de psicopata’ e recriminou a Folha por tê-la publicado; já o ministro da Comunicação Social, Franklin Martins, afirmou que o artigo é ‘um lixo, um nojo, de quem escreveu e de quem publicou’. Coube ao ministro Paulo Vannuchi, da Secretaria Especial dos Direitos Humanos, atribuir ‘essa coisa nojenta’ aos ressentimentos e mágoas de Benjamin, que algum tempo depois deixaria o PT, mas não por causa desse episódio.


Para seguirmos o Manual de Redação da Folha, agora seria o exato momento para uma ampla entrevista – de preferência ocupando página inteira – com o cineasta Sílvio Tendler. Seria uma forma de reafirmar seu decantado compromisso com a verdade, seu apreço pelo ‘outro lado da notícia’ e seu interesse de bem informar os leitores. Aliás, quem conhece Cesar Benjamin e quem conhece Sílvio Tendler sabe que a verdade é sempre modesta e que esta não requer amplos espaços para se tornar referência.


Poucas vezes encontramos na grande imprensa do país um ataque tão direto ao caráter de um presidente da República e o que mais impressiona que poucas vezes tivemos refutações tão veementes quanto à fidedignidade do ataque. Um pouco mais de apuração jornalística faria cair por terra o excesso de paixão ideológica que, como sarampo, vive contaminando amplos setores de imprensa. Afinal, a maior parte dos protagonistas do almoço citado por Benjamin está viva, e de facílima localização. Um celular e um pouco de vontade e mais umas pitadas de amor à verdade reduziriam aquela página A-8 inteira a rodapé de coluna social… ou policial.

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Mestre em Comunicação pela UnB e escritor; criou o blog Cidadão do Mundo; seu twitter

Todos os comentários

  1. Comentou em 10/12/2009 Marcelo Silvestre

    Eduardo: é simples vc verificar. Estude um pouco, vc também. Vá ao google e tente encontrar um governo neo-liberal que saiu bem da crise. Não vai encontrar, pq não tem nenhum. Se Lula tivesse mantido o modelo neo-liberal, a política econômica do FHC, o Brasil certamente teria quebrado. Pq com FHC quase quebrou três vezes, em crises muito menores que essa. O Brasil foi o primeiro a sair da crise. Sabe pq? Pq rompeu com o neo-liberalismo. Não baseia sua economia em crédito e especulação. Produz.

  2. Comentou em 07/12/2009 eduardo salina

    Marcelo: entre no Google,procure a Carta ao Povo Brasileiro e leia.E depois tente dizer que Lula se elegeu com o programa do PT.E pergunte ao Palocci o que ele fez que o Malan não fez ou faria.E pergunte ao Mantega se ele fez ou faria algo que o Palocci não fez.E pergunte aos dinossauros do PT o que eles acham do Henrique Meirelles.Enfim: estude um pouco e depois apareça gritando os seus gritos de guerra da arquibancada.

  3. Comentou em 05/12/2009 Max Suel

    Marcelos: o povo só votou no Lula quando ele renegou seu passado de oposição irresponsável. O pres Lula não adotou no governo o programa petista, pelo contrário, ele manteve as bases da economia tal qual ela vinha sendo tocada pelo governo anterior. Ele teve esta virtude: não seguir o programa petista, o que levaria o Brasil ao caos e à inflação desenfreada. Não defendo a oposição não, … acho que foram burros quando acharam que o pres Lula estava politicamente ‘morto’ em 2005, no auge do escândalo do Mensalão petista, e não entraram com o pedido de inpeachment do presidente Lula. Se a oposição deste governo tivesse 20% da irresponsabilidade e agressividade da oposição petista, o governo lulo-petista-base alugada já teria acabado. Max, um dos poucos Maxes deste espaço ideologicamente dominado pela AlQaeda petista. (PS: por que será que ninguem aqui contesta os fatos que eu aponto ? será porque não tem argumentos ?)

  4. Comentou em 03/12/2009 Max Suel

    Caro Marcelo Silvestre: sinto mas você está enganado. O sindicalista e político Lula não foi perseguido ou censurado anos a fio …. ele fundou o PT (com outros compenheiros inclusive o Cesar Benjamin) em 1980, e em 1982 foi candidato a governador de SP, tudo na maior normalidade, na maior tranquilidade, pois o AI-5 havia sido revogado em 1978, e vivíamos tempos de abertura, avalisada pelo general Figueiredo. Mesmo detido durante 31 dias, Lula nada sofreu em termos de violência física, e foi até bem tratado. Eu não questionei a legalidade da pensão, eu questiono sim a MORALIDADE da mesma. É IMORAL MESMO. E eu repito: eu passaria o dobro = 62 dias para ganhar metade = R$ 2.500,00. Só não enxerga isso quem tem os olhos vendados pela cegueira ideológica.

  5. Comentou em 03/12/2009 Lucas Nery

    Esse César Benjamin é um cara de caráter duvidoso, pra dizer o mínimo. Abrir a boca pra contar um monte de bobagem para FSP, em troca de quê? Ele conseguiu o que qiueria, os 15 minutos de fama. Grande revolucionário esse que desconhece os limites da ética e do respeito.

  6. Comentou em 03/12/2009 Ze Povinho

    Cesinha Benjamin deve ter ganho um tubo de k-y para fazer o que fez hehehehehe Mandou bem mestre.

  7. Comentou em 03/12/2009 Geraldo Mesquita

    Canalhice da Folha, agora só falta mudar seu nome para Falha de SP. Nunca fui com as caras que escrevem no jornal da barão de Limeira. São uns recalcados decadentes estupradores de consciências e vilões da liberdade de pensar. Quero mais é que se estrepem e junto com o verdadeiro menino do Mep, o tal Cesinha (que diminutivo) Benjamin. E viva Lula, o filho de Lindu do Brasil. Arranjem outra história porque essa é bem fraquinha pra abalar o prestígio do torneiro mecânico. Juntem Dora Kramer com Miriam Leitoa que talvez consigam um refresco mais apetitoso para fazer o velho jogo dos quinta-colunas da política brasileira: FHC/SERRA.

  8. Comentou em 02/12/2009 Gabriel Assunção

    BELO FECHO: Poucas vezes encontramos na grande imprensa do país um ataque tão direto ao caráter de um presidente da República e o que mais impressiona que poucas vezes tivemos refutações tão veementes quanto à fidedignidade do ataque. Um pouco mais de apuração jornalística faria cair por terra o excesso de paixão ideológica que, como sarampo, vive contaminando amplos setores de imprensa. Afinal, a maior parte dos protagonistas do almoço citado por Benjamin está viva, e de facílima localização. Um celular e um pouco de vontade e mais umas pitadas de amor à verdade reduziriam aquela página A-8 inteira a rodapé de coluna social… ou policial.

  9. Comentou em 02/12/2009 Gabriel Assunção

    BELO FECHO: Poucas vezes encontramos na grande imprensa do país um ataque tão direto ao caráter de um presidente da República e o que mais impressiona que poucas vezes tivemos refutações tão veementes quanto à fidedignidade do ataque. Um pouco mais de apuração jornalística faria cair por terra o excesso de paixão ideológica que, como sarampo, vive contaminando amplos setores de imprensa. Afinal, a maior parte dos protagonistas do almoço citado por Benjamin está viva, e de facílima localização. Um celular e um pouco de vontade e mais umas pitadas de amor à verdade reduziriam aquela página A-8 inteira a rodapé de coluna social… ou policial.

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