Segunda-feira, 25 de Maio de 2015
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº851

JORNAL DE DEBATES > GOLPE DE 1964

Os jornais e a ‘opinião pública’

Por Venício A. de Lima em 06/04/2011 na edição 636

[In memoriam de João Baptista Franco Drummond (1942-1976)]


Apesar de quase cinco décadas já haverem se passado, ainda existem aspectos a ser esclarecidos sobre a participação da mídia no golpe de 1º de abril de 1964. Que os principais grupos empresariais do setor apoiaram e articularam a deposição do presidente João Goulart está suficientemente documentado. Que eles conclamaram os militares a intervir na ruptura do processo democrático, idem (ver ‘A grande mídia e o golpe de 64‘).


Uma questão intrigante, todavia, permanece: quais justificativas eram utilizadas pela própria mídia para contornar a evidente contradição existente entre o seu discurso em ‘defesa da democracia’ e, ao mesmo tempo, a articulação e a pregação abertas de um golpe de Estado contra o presidente da República democraticamente eleito?


Essa questão torna-se mais interessante quando, ao estudá-la, constatamos que o discurso justificador utilizado naquele período continua a ser utilizado ainda hoje e, em alguns casos, pelos mesmos grupos de mídia na defesa de seus velhos interesses.


‘A Rede da Democracia’


Várias dissertações e teses acadêmicas têm estudado os vínculos da mídia com o golpe de 1964. Boa parte delas, no entanto, se mantém anônimas nas prateleiras das bibliotecas universitárias. Um desses trabalhos, uma pesquisa de pós-doutorado, foi transformada em livro lançado há cerca de um ano. Trata-se de A Rede da Democracia – O Globo, O Jornal e Jornal do Brasil na queda do governo Goulart (1961-64), co-edição da NitPress e Editora da UFF, do historiador e cientista político Aluysio Castelo de Carvalho.


‘A Rede da Democracia’ foi uma cadeia de emissoras de rádio idealizada pelo então deputado federal (à época, do extinto Partido Social Democrático) e vice-presidente dos Diários Associados, João Calmon (1916-1999), criada em outubro de 1963, comandada pelas rádios Tupi, Globo e Jornal do Brasil e retransmitida por centenas de emissoras em todo o país. Diariamente políticos, empresários, militares, jornalistas, intelectuais, sindicalistas, estudantes – articulados com partidos e entidades de oposição (IPES e IBAD) – faziam oposição aberta ao governo e se constituíam em espaço de articulação discursiva na conspiração que se formava para derrubada de Goulart, até as vésperas do 1º de abril. Os pronunciamentos veiculados na ‘rede’ eram, em seguida, publicados nos respectivos jornais dos grupos empresariais de mídia.


A inspiração para a criação da ‘rede’, segundo Carvalho, parece ter vindo do livro de Suzanne Labin, Em Cima da Hora – A conquista sem guerra (original ‘II est moins cinq’), lançado no Brasil em 1963 (Distribuidora Record, Rio de Janeiro), com tradução, prefácio e notas do jornalista – então governador do estado da Guanabara – Carlos Lacerda (1914-1977).


A francesa Suzanne Labin (1913-2001), militante internacional do anticomunismo, escreveu dezenas de livros e folhetos, traduzidos em vários idiomas, que tiveram ampla distribuição como material da luta ideológica no tempo da Guerra Fria. No Brasil, além do Em cima da hora, foram também publicados títulos como A Rússia de Stalin, O Duelo Rússia x EUA, A Condição Humana na China e A Guerra Política.


No prefácio do livro, Lacerda afirma tratar-se de ‘um guia no meio da confusão, um antídoto para o veneno da inércia, um roteiro contra o sofisma. Possam lê-lo os que ensinam os outros a ler’ (pág. 15). No texto, Labin sugere a fundação de uma ‘Liga da Liberdade’ cuja primeira tarefa seria ‘recuperar a imprensa’. Para isso recomenda ‘a formação de uma rede de imprensa diária e periódica de tiragem suficientemente ampla, expressamente dedicada à desintoxicação dos espíritos’ (pág. 135). Além disso, diz ela, ‘a Liga não deve limitar-se à imprensa. Deve utilizar todos os outros meios de expressão, desde logo as revistas, panfletos e livros. (…) deverá também produzir filmes’ (pág. 136).


Na verdade, ‘A Rede da Democracia’ brasileira, coordenada pelos principais grupos de mídia do Rio de Janeiro, servia a propósitos políticos específicos que se concretizariam em abril de 1964.


Concepção ‘publicista’ da opinião pública


Carvalho parte de uma visão panorâmica do papel central atribuído à ‘opinião pública’ por alguns dos pensadores clássicos da democracia representativa liberal – Hobbes, Locke, Montesquieu, Constant – dentre outros. No Brasil, Rui Barbosa e Oliveira Vianna atribuíram ‘às elites dirigentes responsáveis o papel de intérprete dos interesses da nação’ e também colocaram ‘a imprensa em primeiro plano, enfatizando sua posição central como órgão da opinião pública’ (pág. 29).


A principal hipótese de Carvalho é a de que, para fugir da contradição acima apontada, os jornais cariocas estudados abandonaram a concepção institucional de representatividade da opinião pública – aquela que se materializa através dos partidos, de eleições regulares e de representantes políticos – e recorreram a outra concepção – a publicista – que ‘ressalta a existência da imprensa como condição para a publicização das diversas opiniões individuais que constituem o público’.


A adoção da concepção publicista faz com que não só a crítica aos partidos políticos e ao Congresso Nacional se justifique, como também sustenta a posição de que os jornais são os legítimos representantes da opinião publica.


A partir da análise de pronunciamentos feitos na Rede da Democracia e de editoriais dos jornais, Carvalho afirma:




‘Ocorreu por parte (de O Globo, O Jornal e Jornal do Brasil) uma exaltação da própria imprensa como modelo de instituição representativa da opinião pública, porque se viram mais comprometidos com a preservação da ordem social liberal. Os jornais cariocas construíram uma imagem positiva da imprensa, em detrimento da divulgada sobre o Congresso. (…) Os jornais se consideravam o espaço público ideal para a argumentação, em contraposição à retórica dita populista e comunista que teria se expandido no governo Goulart e estaria comprometida com a desestruturação das instituições, sobretudo do Congresso. Os jornais se colocaram na posição de porta-vozes autorizados e representativos de todos os setores sociais comprometidos com uma opinião que preservasse os tradicionais valores da sociedade brasileira ancorados na defesa da liberdade e da propriedade privada’ (pág. 156).


Entre os inúmeros pronunciamentos e editoriais analisados, merece destaque o publicado em O Jornal (2 de março de 1962) que toma como referência a relação entre sociedade e sistema político existente nos Estados Unidos e evoca dois clássicos liberais, Tocqueville e Lord Bryce. Diz o editorial:




‘Ninguém ignora quanto o governo americano é sensível à opinião pública e se deixa conduzir por suas reações. Congresso e Poder Executivo não ousam nunca contrariá-la, temendo republicanos e democratas os seus pronunciamentos nas urnas. Os grandes autores clássicos na apreciação do sistema político norte-americano – De Tocqueville e Lorde Bryce – mostraram como, apesar do regime presidencialista submeter-se à inflexibilidade dos mandatos e por isso parecer menos maleável aos efeitos das variações da opinião, como sucede nos parlamentarismos europeus, nos Estados Unidos os governos condicionam invariavelmente as suas decisões aos resultados da auscultação da vontade e do sentimento do povo, rigorosamente traduzidos pela imprensa’ (citado em Carvalho, pág. 159).


Mídia e a ‘opinião pública’ hoje


A ‘concepção publicista’, apresentada por Carvalho, foi um fenômeno reduzido à articulação do golpe de 1964 pelos principais jornais cariocas ou corresponde a uma postura permanente da grande mídia brasileira?


Tenho tratado do tema reiteradas vezes e mostrado como, para certos jornais e jornalistas, a opinião da mídia teria que ser uma instância levada em conta não mais apenas por ser a mediadora ou ‘refletora’ da opinião pública, mas por ser a própria opinião pública (ver, por exemplo, neste Observatório, ‘A opinião privada tornada pública‘ e ‘Opinião da imprensa não é a opinião pública‘).


Relembro, todavia, um episódio, no mínimo, curioso. No auge da crise que envolveu o Senado Federal em 2009 e em meio às pressões para sua renúncia, falando por ocasião do Dia Internacional da Democracia, o senador José Sarney (PMDB-AP) afirmou:




‘A tecnologia levou os instrumentos de comunicação a tal nível que, hoje, a grande discussão que se trava é justamente esta: quem representa o povo? Diz a mídia: somos nós; e dizemos nós, representantes do povo: somos nós. É por essa contradição que existe hoje, um contra o outro, que, de certo modo, a mídia passou a ser uma inimiga das instituições representativas. Isso não se discute aqui; estou repetindo aquilo que, no mundo inteiro, hoje, se discute’ (cf. ‘Sarney vs. Imprensa: Quem mudou: o senador ou a grande mídia?‘).


Quarenta e cinco anos depois do golpe de 1964, em 2009, um de seus principais apoiadores e, ele próprio, proprietário de jornal e concessionário do serviço público de radiodifusão, questiona a mesma ‘concepção publicista’ de que a mídia se valeu para justificar sua posição golpista.


Dois anos mais tarde, em 2011, é necessário que as devidas lições sejam aprendidas. Estudar e conhecer melhor os vínculos dos grupos de mídia com a articulação golpista do início da década de 1960, além de ser nosso dever para com aqueles que tombaram pelo caminho, pode nos ajudar – e muito – a compreender o que ainda ocorre na democracia brasileira de nossos dias.

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Professor titular de Ciência Política e Comunicação da UnB (aposentado) e autor, dentre outros, de Regulação das Comunicações – História, Poder e Direitos (Editora Paulus)

Todos os comentários

  1. Comentou em 09/04/2011 Ricardo Camargo

    (1) Quando a guerrilha do Araguaia ocorreu, já estava instalado o Governo Militar (isto é, o movimento não se deu por causa da Guerrilha, esta é que se deu por causa do movimento); (2) para efeitos de valoração, não é coerente entender digna de louvor a ação dos rebeldes contra Mubarak e Kadhafi e, ao mesmo tempo, censurar os que pegaram em armas contra o regime militar, que era um regime de força, também, ou vice-versa, isto é, elogiar os que pegaram em armas contra o regime militar e censurar os que se rebelam contra Mubarak e Kadhafi; (3) nem todos os que se opuseram ao regime militar o fizeram pegando em armas, e cito, de logo, dentre os que não pegaram em armas, Goffredo da Silva Telles Júnior (antigo integralista, diga-se de passagem), Dalmo de Abreu Dallari, Florestan Fernandes (que via na luta armada um erro estratégico, porque conferiria legitimidade ao regime a partir do medo gerado em quantos a temiam), Edgar de Godoi da Mata-Machado, Barbosa Lima Sobrinho, Ulysses Guimarães, Rubens Paiva, Heleno Cláudio Fragoso (que, no primeiro momento, apoiou o movimento).

  2. Comentou em 07/04/2009 João Mendonça

    Caro editor,

    Mandei um texto na última quinta feiraentitulado ‘Emprensa Livre’ e recebi um email de vocês assegurando sua publicação nesta terça feira. O fato é que não o encontrei. Gostaria de saber se vão publicá-lo mesmo.

    ateciosamente

    João Mendonça
    jornalista / drt.2424

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