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Quarta-feira, 15 de Agosto de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1000
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JORNAL DE DEBATES > CULTURA SUBSIDIADA

Os mecenas não estão na festa

Por Aluízio de Araújo Couto Júnior em 17/08/2010 na edição 603

No Brasil, todo teórico da comunicação quer melhorar a qualidade da informação; todo militante político quer que a população seja mais politizada e todo educador quer que a população leia mais. Só que quase todo mundo se esquece de perguntar a essa massa abstrata chamada população se ela realmente quer essas coisas. O Brasil é um país em que vigora certo paternalismo do bem, onde grupos de acadêmicos e outras sumidades sempre sabem o que é bom para o povo, cabendo ao povo o rótulo de ‘‘alienado’’ caso continue, mesmo assim, preferindo assistir novelas a ler Machado de Assis. Quando as pessoas não se encaixam naquilo que nossas teorias mais caras dizem que elas deveriam se encaixar, as chamamos com nomes feios.

Como o povo não sabe de nada, os acadêmicos e, claro, os políticos, acabam decidindo pelo púbico o que é, afinal, de interesse público. Em alguns casos, isso custa dinheiro. Tomemos o exemplo do financiamento da cultura com recursos de governos. A pergunta é: por que um padeiro que jamais se interessou por literatura tem de ajudar a financiar a vinda de escritores estrangeiros ao Brasil? Mais: por que um administrador de empresas que jamais se interessou por cinema tem de bancar a realização de um filme que ele jamais vai ver? A maioria dos artistas, escritores e cineastas produzem coisas que o grosso da população não se interessa e que provavelmente jamais vai se interessar. Infelizmente, temos de encarar a realidade. Quase todo mundo vai continuar escutando Ivete Sangalo e não notará a menor diferença no universo caso todos os escritores importantes desapareçam das livrarias.

Tivemos recentemente, no Rio de Janeiro, a Festa Literária Internacional de Paraty, conhecida como Flip. Muita badalação e escritores consagrados, como o britânico Salman Rushdie, mundialmente conhecido após o líder islâmico aiatolá Khomeini ter colocado sua cabeça a prêmio por causa de passagens do livro Versos Satânicos. Como toda festa, a Flip custou bastante dinheiro. E parte do dinheiro veio do bolso do contribuinte, uma vez que o Estado não produz riqueza. A Folha de S.Paulo informou que o governo do estado do Rio de Janeiro ficou com a responsabilidade de arcar com cifras milionárias relacionadas à realização do evento; isso sem falar nos recursos captados por meio da Lei Rouanet, que permite que empresas amaciem impostos com investimentos em cultura. Fez-se o evento e os convidados vieram de longe. O problema é que boa parte dos mecenas ficaram em casa assistindo televisão.

Interesse privado

Existe uma obsessão de que a cultura – ou parte dela – deve ser financiada pelo governo. De uma hora para a outra, qualquer percursionista pode se sentir no direito de arrancar do bolso do contribuinte as divisas necessárias para gravar um disco que ninguém vai ouvir; da mesma forma, um cineasta pode agora pleitear recursos para fazer um filme que ninguém vai ver. Ingenuamente, eu achava que cultura era uma manifestação espontânea e que assim formaria sua própria demanda por um determinado produto ou estilo. Estava errado. Chegamos à divertida situação em que o erário precisa bancar manifestações culturais para forçar uma demanda que deveria ter surgido naturalmente.

Se a maioria das pessoas não liga para literatura, para cinema e para artes em geral, não há sentido forçá-las a pagar por isso. Tornar compulsório o financiamento de manifestações artísticas é desrespeitar o gosto pessoal do contribuinte; faz com que lhe seja retirado o direito de pagar somente pela arte que lhe aprouver. É infantilizá-lo. Se ninguém, por exemplo, quiser saber de teatro de rua, a única solução minimamente sensata é deixá-lo definhar. Não há motivos para forçar o consumo. Quem se interessar, que vá atrás. Muitas vezes, obscurecido por um discurso de interesse público, o que se vê é o puro interesse privado – seja do artista, da gravadora ou da editora. Na antiguidade, e em períodos mais modernos, os grandes mecenas costumavam financiar os artistas por verdadeiro interesse na arte produzida. No Brasil, o mecenato é compulsório e a maioria dos ilustres mecenas não faz a menor ideia de quem financia.

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Estudante de Filosofia na Universidade Federal de Ouro Preto e atualmente residindo em Dublin, Irlanda

Todos os comentários

  1. Comentou em 22/08/2010 Waldir Bizzo

    Concordo plenamente Sr. Couto Júnior!!!
    Cultura deve ser um produto de ‘mercado’!!!
    Se o povão prefere pagar para consumir ótimos produtos como Sangalo, Faustão e similares, ‘pobrema’ do povão não é mesmo, Sr. Couto!!!

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