Segunda-feira, 10 de Dezembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1016
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JORNAL DE DEBATES >

Os prisioneiros do cinismo

Por Alfredo Vizeu em 29/04/2008 na edição 483

O jornalista que está reduzido à função que o sistema midiático lhe impõe é prisioneiro de um cinismo reificante de que seu próprio cinismo não é capaz de o libertar. A imagem que o jornalismo constrói da realidade é resultado de uma atividade profissional de mediação vinculada a uma organização que se dedica basicamente a interpretar a realidade social e mediar os que fazem parte do espetáculo mundano e o público. Os jornais preparam e apresentam um recorte da realidade dentro das normas e das regras do campo jornalístico.

O telejornalismo funciona como um ‘enunciador pedagógico’ que pré-ordena o universo do discurso visando o leitor, e que procura orientar, responder-lhe as questões – em suma, informar. Ou seja, o noticiário televisivo, ao buscar interpretar a realidade social, estabelece com a audiência uma relação didática em que tenta fazer uma mediação entre os diversos campos de conhecimento e o público.

Vejamos um exemplo prático para deixar mais clara essa preocupação ‘didática’. Quando os médicos se referem a um ‘exame que registra a atividade linfocitária de um paciente com Aids’ estão se referindo a um exame que é feito para medir a capacidade de defesa imunológica de uma pessoa. Se um telejornal não explicar, não procurar esclarecer o que significa o exame, provavelmente a maioria das pessoas que não está acostumada com as práticas da medicina não vai ficar sabendo do que se trata.

Esse ‘didatismo’ dos jornalistas com relação à audiência é trabalhado desde os tempos da universidade até o dia-a-dia da redação. No livro o O Texto na TV: Manual de Telejornalismo, adotado pela maioria dos cursos de jornalismo do Brasil, Vera Íris Paternostro enfatiza essa preocupação com o público.

Evitar a ambigüidade

No capítulo que trata do texto coloquial, a autora diz que a TV tem a obrigação de respeitar o telespectador e transmitir a informação em uma linguagem coloquial e correta. Quem assiste ao telejornal só ouve o texto uma vez, por isso deve ser capaz de captá-lo, processá-lo e retê-lo instantaneamente.

Não há uma segunda chance. Por isso, afirma Paternostro:

‘…se o telespectador se desligar, não há desculpas: o erro foi nosso. Quanto mais as palavras (ou o texto como um todo) forem `familiares´ ao telespectador, maior será o grau de comunicação. As palavras e as estruturas das frases devem estar o mais próximo possível de uma conversa’.

Para evitar mal-entendidos e confusões, ao dizer que o telejornalismo desempenha uma ‘função pedagógica’ não estamos em momento algum afirmando que se trata da mesma atividade pedagógica que desempenha a escola. Não é isso que está em discussão, nem é essa a a preocupação deste artigo. O que procuramos chamar a atenção é que os jornais televisivos podem contribuir de uma forma relevante para que os espectadores se orientem no seu cotidiano.

Mas para que isso ocorra precisamos de um telejornalismo de qualidade em que a preocupação ética seja central. Deve haver um rigor no método e nas práticas. As várias faces de um acontecimento devem ser apresentadas. A construção da notícia exige que aspectos da realidade não sejam ocultados nem silenciados. A edição tem que buscar uma objetividade possível, tomando-se cuidado em não alterar textos, planos e seqüências. Ao interpretar a realidade social o jornalista deve evitar a ambigüidade na informação.

Como bem observa o jornalista, professor e ex-ombudsman do jornal Tribune de Genève Daniel Cornu, o outro não deve ser tratado como meio, como objeto da informação. Homens e mulheres devem ser tratados como seres humanos e não como material do informativo destinado a alimentar o jornalismo e o sucesso de audiência.

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Jornalista, coordenador do Núcleo de Jornalismo e Contemporaneidade do Programa de Pós-Graduação em Comunicação da Universidade Federal de Pernambuco

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