Sábado, 22 de Setembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1005
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JORNAL DE DEBATES > Analfabetismo, Bolsa Família e democracia

Os versos marotos do “Correio Braziliense”

Por Marcos Fabrício Lopes da Silva em 10/10/2015 na edição 871

Inicialmente, trago filósofos em meu socorro para discorrer sobre a solidariedade e a generosidade. Jean-Jacques Rousseau (1712-1778), para quem o homem é essencialmente bom, escreveu coisas como: “Nada é tão doce como [o homem] em seu estado primitivo.” Deve-se dizer que o ilustre pensador reconhecia a maldade, mas preferia considerá-la um efeito colateral da sociedade. Repugnava-o em especial a propriedade privada, verdadeira origem de todos os “crimes, guerras, assassinatos, misérias e horrores”. Em contrapartida, sem idealismo e observando de perto os fenômenos da competitividade e do individualismo, Thomas Hobbes (1588-1679) ressaltava que, no estado de natureza, a vida humana já se fazia “solitária, pobre, dura, brutal e curta”. É a célebre guerra de todos contra todos, cujo pressuposto abrange homens mesquinhos, violentos e sem freios morais. Postular a existência de uma natureza humana não muito bonita não implica necessariamente decretar a perdição moral da espécie. É até uma forma de valorizar gestos reais de generosidade e grandeza. Até o pior celerado é capaz de atos de nobreza e mesmo o mais santo dos homens já pecou. É essa incômoda ambivalência que relutamos em aceitar.

Na linguagem coloquial, solidariedade e generosidade significam, ambas, o ato de apoiar e ajudar o próximo. Porém vem da Filosofia a distinção que dá a cada expressão uma significação própria que, além de fazer sentido, é útil para a compreensão das ações humanas. De saída, vale enfatizar que tanto a solidariedade quanto a generosidade dizem respeito às atitudes que adotamos levando em conta os interesses dos outros. A diferença começa quando, no caso da generosidade, levamos em conta os interesses do próximo, mesmo que não concordemos com ele, nem compartilhemos dos seus interesses. Se faço uma doação a alguém, fico sem o dinheiro e nenhum proveito tiro dessa atitude. Ajuda desinteressada: generosidade. Por sua vez, a solidariedade significa levar em conta os interesses do outro porque compartilhamos deles (os interesses) e concordamos com ele (o outro). Fazemos um benefício ao próximo e isso nos traz, simultaneamente, um benefício.

Visando à promoção da igualdade social, como podemos trabalhar para os pobres? Com generosidade ou com solidariedade? Esta pergunta veio à tona no momento em que o Correio Braziliense, de 02/10/2015, promoveu como manchete de capa os seguintes dizeres: “Educação, a peleja perdida”.

A respeito, o formato de poesia, lembrando a literatura de cordel, dá o tom da matéria anunciada:

“Aconteceu 10 anos atrás/Meu amigo, eu vou contar/Lula viajava de helicóptero/Quando começou a trovoar/Foi um susto dos diabos/E o piloto, muito hábil, procurou onde pousar/Era lá pras bandas de Caruaru/E ele aterrissou numa fazenda/Escuta o que eu digo a tu/Foi uma coisa estupenda/Correram homem, mulher, menino/O caso virou lenda/Todos queriam ver o conterrâneo/Que se tornou presidente/O então senador Cristovam/Não mais do que de repente/Fez a Lula um desafio/Educar toda aquela gente/Passaram-se 10 anos/O senador voltou ao Nordeste/Mas pra sua tristeza/Aqueles meninos, cabras da peste/Seguem longe do saber/A educação não passou no teste/O Bolsa Família alivia a fome/Mas não liberta o cidadão/Um país só tem futuro/Quando investe em educação/Só escolas de boa qualidade/Vão salvar esta nação.”

Bolsa Família distribuiu R$ 24 bilhões a 50 milhões de pessoas

Reza a cartilha argumentativa que não misturemos alhos com bugalhos. Considerando como verdade a manchete do Correio Braziliense, apresentaremos razões históricas que atrapalham o progresso educacional brasileiro antes mesmo de haver o Programa Bolsa Família, que foi criado em 20 de outubro de 2003. Não se pode culpabilizar os menos assistidos pela realidade do “analfabetismo funcional” hoje vigente. A responsabilidade pela educação deficitária se encontra muito mais nas mãos dos concentradores autoritários de renda e de conhecimento que, ao longo da história, negaram o direito de educação para todos sem qualquer tipo de distinção. Conceição Evaristo, em Ponciá Vicêncio (2003), e Carlos Eduardo Novaes, em O país dos imexíveis (1990), sustentam muito bem nossa base de reflexões. Em seu formidável romance, Conceição Evaristo, pela voz narrativa, conta que:

“O pai de Ponciá sabia ler todas as letras do alfabeto. Sabia de cor e salteado. Em qualquer lugar que visse as letras, as reconhecia. Não conseguia, porém, formar as sílabas e muito menos as palavras. Aprendera a ler as letras numa brincadeira com o sinhô-moço. Filho de ex-escravos, crescera na fazenda levando a mesma vida dos pais. Era pajem do sinhô-moço. Tinha a obrigação de brincar com ele. Era o cavalo onde o mocinho galopava sonhando conhecer todas as terras do pai. Tinham a mesma idade. Um dia o coronelzinho exigiu que ele abrisse a boca, pois queria mijar dentro. O pajem abriu. A urina do outro caía escorrendo quente por sua goela e pelo canto de sua boca. Sinhô-moço ria, ria. Ele chorava e não sabia o que mais lhe salgava a boca, se o gosto da urina ou se o sabor de suas lágrimas […].

Pajem do sinhô-moço, escravo do sinhô-moço, tudo do sinhô-moço, nada do sinhô-moço. Um dia o coronelzinho, que já sabia ler, ficou curioso para ver se negro aprendia os sinais, as letras de branco, e começou a ensinar o pai de Ponciá. O menino respondeu logo ao ensinamento do distraído mestre. Em pouco tempo reconhecia todas as letras. Quando sinhô-moço se certificou de que o negro aprendia, parou a brincadeira. Negro aprendia, sim! Mas o que o negro ia fazer com o saber de branco? O pai de Ponciá Vicêncio, em matéria de livros e letras, nunca foi além daquele saber” (EVARISTO, 2003, 14-15).

Por sua vez, Novaes, observando criticamente os anos 90, certificou, em apimentada crônica, que:

“Posto que é preciso conter o consumo e para conter o consumo é preciso conter o salário, chegamos à estarrecedora conclusão de que uma das metas do governo é manter alta a taxa de pobreza nacional. Tal conclusão me permite afirmar que o Brasil é hoje um dos maiores produtores de pobres do mundo. Não são pobres espontâneos, como em outros países. É uma pobreza mantida e garantida pelo governo através da contenção do consumo.

Aqui o pobre tem estabilidade. Não há possibilidade de ficar rico: o pior que pode lhe acontecer é se tornar menos pobre. É por isso que sempre convido meus amigos latino-americanos (pobres) a virem morar no Brasil. Somos o paraíso dos pobres. Aqui ninguém esquenta a cabeça com voos de consumo. Sonhar com a compra de um videocassete ou um forno micro-ondas pode botar fogo na demanda e desestabilizar toda a economia. O pobre aqui vive em paz com sua pobreza. Digo a eles que o governo fez uma opção preferencial pelos pobres e estimula a pobreza melhor do que ninguém. Até porque a sociedade brasileira precisa ser mantida na pobreza para que o governo alcance a riqueza e a prosperidade” (NOVAES, 1990, 63).

Recordar é preciso, repetir não é preciso. Após dez anos de existência, o Bolsa Família foi uma das iniciativas sociais que mais colaboraram para corrigir as distorções apresentadas pelos escritores em questões. Pelo corte étnico-racial, houve redução da pobreza entre a população negra. Das 13,8 milhões de famílias atendidas pelo citado programa, 73% se autodeclararam pretas ou pardas. Implementado pelos governos Lula e Dilma, o Bolsa Família distribuiu mais de R$ 24 bilhões a um quarto da população brasileira, o que corresponde a 50 milhões de pessoas. As mulheres são mais de 90% das titulares do Bolsa Família: elas, mês a mês, sacam o dinheiro na boca do caixa, obtendo, assim, maior poder de escolha sobre o valor recebido. Uma revolução de gênero, portanto.

“O amor é uma exigência política”

Considerando as dimensões educacionais, profissionais e econômicas atingidas pelo citado programa, 75,4% dos beneficiários adultos são trabalhadores e os estudantes que participam do Bolsa Família têm média de aprovação quase 5% maior que a média nacional, que é de 75%, além de ter um índice menor de abandono dos estudos: 7,2% entre os alunos do Bolsa Família, contra 10,8% da média nacional. E há portas de saída: 1,7 milhão de famílias beneficiadas pelo Bolsa Família deixaram espontaneamente o programa. O orçamento do citado programa corresponde a apenas 0,5% do Produto Interno Bruto, e cada R$ 1 transferido para as famílias se transforma em R$ 1,78 destinado à economia do país. Estudo realizado pelo Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas (Ibase), em 2008, destacou que as famílias concentram mais a utilização do benefício mensal na compra de alimentação, material escolar e vestuário.

Tais informações desmentem os seguintes versos estampados pelo Correio Braziliense: “O Bolsa Família alivia a fome/Mas não liberta o cidadão”. Como assim? Livrar o indivíduo do fantasma da fome constitui o primeiro patamar emancipatório. Caso contrário, a política da imprevidência se instala por completo. É sinistro e cruel derrubar as árvores para comer-lhes os frutos. O maior programa de distribuição de renda do mundo precisa ser estimulado, ampliado e aperfeiçoado, pois, ao reunir generosidade e solidariedade contribui para a ultrapassagem da ordem como campo de força constituído de poder-privilégio-prestígio. Ao atacar o carrapato, o periódico distrital preferiu matar a vaca junto com o problema, reforçando, assim, a luta de ordens. Conforme ressalta o saudoso historiador Joel Rufino dos Santos (1941-2015), em Épuras do social: como podem os intelectuais trabalhar para os pobres (2004):

“Penso que, no caso brasileiro, ao ingressar na esfera pública, a luta de classes se transforma em luta de ordens. Os rumos e o teor dessa luta em torno da produção e distribuição da riqueza nacional são precisamente um dos fatores (ou indicações) de nossa estratificação preferencial por ordens. Ordens são classes de poder que se manifestam no controle do Estado e, por via dele, na disputa pela renda – ou, numa fórmula simplificada, são alocações de indivíduos por meio de instituições do Estado” (SANTOS, 2004, 243).

A reprodução capitalista já não assenta na mercadoria trabalho e sim, basicamente, nos fundos públicos. Eis a razão conjuntural que sustenta a rotulagem pejorativa do Bolsa Família como sendo assistencialista e populista, ignorando, por completo, as transformações geradas socialmente por intermédio do referido programa. Saciar a fome de muitos brasileiros e proporcionar acesso à educação formam as duas linhas de frente de uma política pública que pretende contemplar, conjuntamente, “a fome de pão” e “a fome de beleza”. Elogiado internacionalmente, o Bolsa Família ainda teve a façanha de colaborar decisivamente para a retirada do Brasil do vergonhoso Mapa da Fome. 98,3% da população brasileira têm acesso a alimentos e possui segurança alimentar. Urge acolher 13,6 milhões de famintos no Brasil. Caso contrário, a política deixa de cumprir o seu primoroso papel como “a forma mais perfeita de caridade”. Caridade, no sentido pleno proposto por Frei Betto, em artigo publicado no jornal Estado de Minas, de 21/11/2002:

“[…] não haverá completa justiça enquanto não se puder viver a liberdade como mística, ou seja, na dimensão de que uma pessoa é tanto mais livre quanto mais descentrada de si mesma e centrada no Outro e nos outros. Do mesmo modo, nesse mundo e nessa cultura de proporções globais, em que o pobre é uma inumerável coletividade, o amor não pode ser mais pensado e vivido somente em termos de relação interpessoal. Ele se torna também uma exigência política, de entrega da vida ao resgate da fraternidade entre os seres humanos” (BETTO, 2002, 10).

“Eu desorganizando/Posso me organizar”

Há tempos atrás, a escritora Carolina Maria de Jesus, em Quarto de despejo: diário de uma favelada (1960), relatou: “Hoje amanheceu chovendo. É um dia simpático para mim. É o dia da Abolição. Dia em que comemoramos a liberdade dos escravos” (2000, 27). As condições subalternas e miseráveis que afetam os brasileiros marginalizados obrigaram Carolina a fazer um paralelo entre a escravidão que vigorou no Brasil por quase 400 anos e uma nova forma de aprisionamento: “E assim, no dia 13 de maio de 1958 eu lutava contra a escravidão atual – a fome!” (2000, 27). Passada a abolição da escravidão, a elite brasileira não priorizou um Brasil no qual todos os brasileiros tivessem acesso ao que é essencial: alimentação, educação, saúde, transporte público e um lugar onde morar com água potável, coleta de lixo e esgoto. Falta compromisso radical com a abolição das necessidades básicas, o que representaria, de acordo com o senador Cristovam Buarque (PDT-DF), “uma segunda abolição no Brasil”.

É legítima a chateação do referido parlamentar com a persistência do analfabetismo funcional em contingentes populacionais do Bolsa Família, conforme expressa a notícia dada, em versos, pelo Correio Braziliense – “O então senador Cristovam/Não mais do que de repente/Fez a Lula um desafio/Educar toda aquela gente/Passaram-se 10 anos/O senador voltou ao Nordeste/Mas pra sua tristeza/Aqueles meninos, cabras da peste/Seguem longe do saber/A educação não passou no teste”. Cabe, porém, ressaltar que o próprio Cristovam Buarque, em seu livro A Segunda Abolição (1999), atesta que a não erradicação da fome mostra um erro crasso de prioridade nas políticas públicas. Quando o assunto é formular ações que fortaleçam o Estado de Bem-Estar Social, muito grave revela-se, ao considerar a saúde integral do organismo humano, separar a cabeça do estômago. Segundo alertou o médico Josué de Castro (1908-1973), em Geografia da fome (1946): “Enquanto metade da humanidade não come, a outra metade não dorme, com medo da que não come.” Os direitos se democratizam e os deveres se cumprem, sempre que a cidadania pluraliza sua extensão de alcance.

Contudo, o Brasil caiu em uma tremenda cilada greco-barroca. Sofremos do mal crônico de elevar o mundo das ideias e diminuir o mundo sensível, à maneira platônica. Ganhamos como fisionomia preponderante a dos anjos barrocos presentes nas igrejas de Minas: eles só têm forma do pescoço para cima; em baixo parecem uma bola disforme. Essa projeção cultural foi agravada pelo nosso histórico de 350 anos de regime escravocrata, o mais longo de todas as Américas. Pelo conjunto de fatores aqui apresentados, somos um país que educa a cabeça, mas não as mãos, os pés. Formamos, assim, uma comunidade educada sem corpo.

Conforme ressaltou o psicólogo Abraham Maslow (1908-1970), atendem-se primeiro as necessidades de caráter fisiológico (fome, sede, sexo), depois, respectivamente, as de segurança (ordem, habitação), de participação (afeição, amor, amizade), de autoestima (prestígio, status, êxito) e de autorrealização (desejo de autossatisfação). A pessoa que sente fome dirige e organiza todas as suas atividades em busca de alimento. Quando o indivíduo tem fome, ele dificilmente concentra sua atenção em outros objetivos, como o estudo ou o trabalho. O seu pensamento (cognição), os seus sentimentos (emoção) e as suas atitudes (comportamentos) são voltados exclusivamente para a busca do alimento. Não foi à toa que o saudoso Chico Science, ex-líder da Nação Zumbi, constatou, na canção Da lama ao caos (1994), como agiria alguém livre da fome: “Com a barriga vazia/ Não consigo dormir/ E com o bucho mais cheio/ Comecei a pensar/ Que eu me organizando/ Posso desorganizar/ Que eu desorganizando/Posso me organizar.”

Dragas e sanguessugas se tornaram moeda corrente

Indiferentes aos famintos, os donos da fartura universal preferem continuar sentados em gigantescos estoques subsidiados e encalhados. É a estupidez das decisões e não a escassez de recursos que provoca a insegurança alimentar de 842 milhões de pessoas pelo mundo. Segundo a Agência da Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO), o inventário global da fome devora um terráqueo em cada oito. Estamos a bordo da civilização do conhecimento, mas não ainda da sabedoria. A sabedoria é o conhecimento temperado pelo juízo. Cadê o juízo do bicho-homem? De conversa fiada, os famintos andam lotados pela altura da traqueia.

O dinheiro com gastos militares no mundo – 1,6 trilhão de dólares ao ano – seria suficiente não só para erradicar a fome como para reconstruir áreas cultiváveis degradadas. Dos 7 bilhões de habitantes do mundo, cerca de 3 bilhões se alimentam de maneira razoável, enquanto os outros 3 bilhões consomem alimentos acima do necessário. Uma triste tradição egoísta empata a erradicação da fome em escala mundial. Jesus disse aos fariseus: “Havia um homem rico, que se vestia com roupas finas e elegantes e fazia festas esplêndidas todos os dias. Um pobre, chamado Lázaro, cheio de feridas, estava no chão à porta do rico. Ele queria matar a fome com as sobras que caíam da mesa do rico. E, além disso, vinham os cachorros lamber suas feridas” (Lc 16, 19-21). Só depois de morto, Lázaro teve consolo, ao ser acolhido por Abraão, enquanto o rico passou uns maus bocados no inferno. Será que não temos condições de contribuir, neste plano terrestre, para a promoção da vida digna de nossos Lázaros? Ou, diante da pobreza, continuaremos a agir, com indiferença e individualismo, como fez o homem rico da mencionada passagem bíblica?

A riqueza é uma dádiva que deve ser administrada coletivamente pelos homens para que ninguém no mundo passe necessidade. Ou seja, para que “todos tenham vida e vida em plenitude” (Jo 10, 10). Neste sentido, a administração governada pelas noções de lucro e prejuízo não colabora para a erradicação da fome. Precisamos de uma administração regida pelo juízo altruísta. Trata-se da ética das virtudes, como a arte de viver bem, da capacitação do governo dos próprios instintos, chegando à necessidade de conjugar harmonicamente a busca de bens individuais com os deveres para com os outros. Paulo Sertek, em Responsabilidade social e competência interpessoal (2006), aponta um conjunto de diretrizes éticas a serem almejadas coletivamente, no sentido de minimizar os efeitos perversos dessa apatia moral que parece, salvo melhor juízo, se generalizar:

“[A ética das virtudes] reflete sobre a necessidade de fundar a sociedade nos princípios básicos do desenvolvimento social como são os da solidariedade, da participação e da subsidiariedade. Essas dimensões são requisitos para a compreensão das formas de se promover atitudes voltadas às urgências dos outros. Destaque especial se dá à necessidade da prática das virtudes, tais como a prudência, a justiça, a fortaleza e a temperança.

[…] A atividade política exige comportamentos voltados ao direcionamento da nação para um ideal melhor. A situação atual revela que interesses individuais e efêmeros, alguns ‘confessáveis’, outros ‘inconfessáveis’, tornam extremamente atuais aquelas afirmações contundentes de Jorge Lacerda: ‘Há dragas na fantasia das nossas autoridades, e mais dragas existem na intimidade inconfessável dos cálculos vorazes dos eternos intermediários dos negócios da República’. Dragas e sanguessugas que exaurem da nação forças do espírito que poderiam nutrir a construção da sociedade e que se tornaram moeda corrente nas práticas políticas, disseminando o cancro da corrupção aos quatro pontos cardeais.

A estruturação do ideal da nação requer a disseminação de uma cultura que aflore nas ações das pessoas, individual e coletivamente, os valores ético-sociais que estabelecem as bases do progresso e do desenvolvimento dos povos” (SERTEK, 2006, s.p.).

Uma pantomima que faz do eleitor um fantoche

O caminho que se visualiza para o desenvolvimento da cidadania plena é o de estimular a participação de todos na construção da vida social, a partir das instituições intermediárias entre o governo e as pessoas, educando-as para intervir nos âmbitos possíveis de atuação, com a finalidade de minimizar os problemas sociais e fazendo-as chegar a uma melhor visão crítica, com o objetivo de consolidar uma cultura voltada aos interesses totais da comunidade. Nesse sentido, tem certa razão, tirando o tom messiânico, o jornalismo “versiprosa” do Correio Braziliense, na formulação da seguinte linha de raciocínio: “Um país só tem futuro/Quando investe em educação/Só escolas de boa qualidade/Vão salvar esta nação.” Porém, o periódico distrital falha feio ao ignorar as mudanças de hábito e costume provocadas pelo programa Bolsa Família. Conforme apresentamos, em linhas gerais, houve uma transformação positiva tanto no processo de educação como no âmbito da escolaridade. Convém reconhecer que precisamos de mais avanços e aperfeiçoamentos. É imprudente, portanto, jogar a criança para fora da bacia junto com a água suja do banho, conforme firmou o Correio Braziliense, ao cometer a grave falácia da generalização apressada: “Passaram-se 10 anos/O senador voltou ao Nordeste/Mas pra sua tristeza/Aqueles meninos, cabras da peste/Seguem longe do saber/A educação não passou no teste/O Bolsa Família alivia a fome/Mas não liberta o cidadão.”

Convém separar o joio do trigo. Não há como comparar o que faz o Bolsa Família e o que fizeram outras “políticas sociais” que orientaram hegemonicamente a governança pelo planeta, ocidentalmente (acidentalmente?) falando. Quem não se lembra da frase atribuída à rainha francesa Maria Antonieta (1755-1793), símbolo da futilidade real enquanto o povo amargava a miséria: “Se não tem pão, comam brioches”? O que dizer do absurdo escravocrata que não foi colocado em questão em momento algum da obra Cultura e opulência do Brasil (1711), escrito pelo padre jesuíta André João Antonil? Disse, sem pesar, a citada autoridade eclesiástica: “Os escravos são as mãos e os pés do senhor de engenho porque sem eles no Brasil não é possível fazer, conservar e aumentar fazenda, nem ter engenho corrente” (ANTONIL, 1966, 89). Defendeu também os castigos para os escravizados, com a possibilidade do perdão, perdão que pudesse impedir a fuga inconveniente para o senhor: “No Brasil, costumam dizer que para os escravos são necessários três PPP, a saber, pau, pão e pano. E, posto que comecem mal, principiando pelo castigo, que é o pau, contudo prouvera a Deus que tão abundante fosse o comer e o vestir como muitas vezes é o castigo” (ANTONIL, 1966, 91).

Esta mentalidade autoritária também se manifestou durante o período da chamada República Velha (1889-1930), em frase atribuída ao presidente da República, Washington Luís, a saber: “A questão social é um caso de polícia.” Os governos oligárquicos não toleravam as reivindicações, protestos e greves dos trabalhadores, por isso usavam a violência militar do Estado para reprimi-los. Portanto, pode-se concluir que o Estado republicano, liberal e oligárquico, quando deixava no mais completo desamparo o operariado, assumia uma clara defesa dos interesses patronais.

É oportuno salientar que a educação – enquanto “peleja perdida”, segundo salienta a manchete do Correio Braziliense – não deve ser depositada na conta de políticas públicas, como o Bolsa Família, que amortecem a linguagem do capital, ainda presa ao fundamentalismo de mercado, e colaboram para a diminuição da injustiça social que ainda afeta o país. Ao contrário do que noticiou o periódico distrital, não é o Bolsa Família que deixa o cidadão submisso ou subserviente. Em seu voto contra a doação de empresas privadas a campanhas, a ministra do STF, Rosa Weber, foi categórica, ao sentenciar que “a influência do poder econômico culmina por transformar o processo eleitoral em jogo político de cartas marcadas, odiosa pantomima que faz do eleitor um fantoche, esboroando a um só tempo a cidadania, a democracia e a soberania popular” (apud AZEVEDO, 2015, A6).

Um sistema injusto de transmissão de heranças

Devemos ainda acrescentar que capitalizar os lucros e socializar os prejuízos vem se costurando como velha prática do “capitalismo parasitário”, como alerta Zygmunt Bauman (2010). A respeito, musicalmente Lenine e Lula Queiroga apresentam uma narrativa bastante contundente e engenhosa, por meio da canção Rosebud: o verbo e a verba (2001):

“O verbo saiu com os amigos/Pra bater um papo na esquina,/A verba pagava as despesas,/Porque ela era tudo o que ele tinha./O verbo não soube explicar depois,/Porque foi que a verba sumiu./Nos braços de outras palavras/O verbo afogou sua mágoa, e dormiu./O verbo gastou saliva,/De tanto falar para o nada./A verba era fria e calada,/Mas ele sabia, lhe dava valor./O verbo tentou se matar em silêncio,/E depois quando a verba chegou,/Era tarde demais/O cadáver jazia,/A verba caiu aos seus pés a chorar/Lágrimas de hipocrisia” (Rosebud/Dolores e dólares).

No afã de promover um “furo” de reportagem, advindo da cultura imediatista que rege o jornalismo novidadeiro, o senso de historicidade ficou mais uma vez comprometido no referido destaque noticioso dado pelo Correio Braziliense. Preferiu-se fazer “showrnalismo” ao invés de jornalismo. José Arbex Jr explica melhor o referido fenômeno editorial da notícia como espetáculo: “Em outros termos, a transformação de ‘fato’ em ‘notícia’ passa pela sanção do mercado. A notícia, como produto final, é o resultado de um pacto de cumplicidade: o mercado se vê refletido por uma mídia que, por sua vez, dá visibilidade aos eventos que reforçam a estrutura do mercado” (2001, 97). Uma melhor investigação dos acontecimentos impediria a gafe midiáitica de culpabilizar o maior programa de distribuição de renda do mundo pela crise educacional que perpassa o tecido social brasileiro desde tempos remotos. Conforme adverte Claudino Piletti, em Filosofia da educação: “É lugar-comum, hoje, afirmar que a educação está em crise. Isso, porém, não é novidade, pois ela sempre esteve em crise. Em todos os tempos e lugares a educação foi questionada. Só não o foi e não o é em sociedades muito fechadas. Se hoje, entre nós, se questiona a educação é porque existe abertura para tal questionamento” (1991, 5).

A “peleja perdida”, para usar o tom grave empregado pelo periódico distrital, se deve ao fracasso da sociedade inteira como comunidade educativa. A educação, que vem sendo utilizada pela classe dominante para transmitir sua hierarquia de valores, se torna um veículo de opressão dentro de estruturas sociais opressoras. Perdemos o bonde da história, quando se optou por um modelo educacional mais rente às vontades de concentração do capital por parte da elite minoritária. Não é o Bolsa Família e seu nobre valor distributivo que devem ser atacados. O inimigo é outro: não adianta buscar no monstro a solução para a monstruosidade. O mundo continuará em crise eterna enquanto a humanidade promover sistematicamente o terrorismo econômico. 84 pessoas físicas dispõem de renda equivalente à que possuem 3,5 bilhões de pessoas – metade da humanidade, segundo a Oxfam International. Salienta François Bourguignon, em The globalization of inequality (2015), que o voraz e piramidal capitalismo foi responsável direto pela constituição de 3 bilhões de pessoas, sobrevivendo com menos de R$ 8 por dia! Muito difícil esperar que a solução da crise venha por parte dos donos dos meios de produção. A respeito, Thomas Piketty, em O capital no século XXI (2014), demonstra que a concentração da riqueza mundial em mãos de poucas famílias se deve ao aumento da especulação financeira agravado por um injusto sistema de transmissão de heranças.

Uma transformação séria e profunda das estruturas sociais

Como funciona a mentalidade do financiador que exalta as desigualdades em nome do livre mercado? O escritor Fernando Pessoa (1888-1935), em O banqueiro anarquista (1922), já nos dava preciosas pistas para desvendar a questão. O protagonista do texto substitui a argumentação, o respeito e a busca de solidariedade pelo agir instrumental, ou seja, passa a mediar suas relações pelo dinheiro e pelo poder, objetivando exclusivamente a eficiência como valor soberano:

“Sou materialista, pensava eu; não tenho mais vida que esta; para que hei de ralar-me com propagandas e desigualdades sociais, e outras histórias, quando posso gozar e entreter-me muito mais se não me preocupar com isso? Quem tem só esta vida, quem não crê na vida eterna, quem não admite lei senão a Natureza, quem se opõe ao Estado porque ele não é natural, ao casamento porque ele não é natural, ao dinheiro porque ele não é natural, por que cargas-d’água é que defende o altruísmo e o sacrifício pelos outros, ou pela humanidade, se o altruísmo e o sacrifício também não são naturais? Sim, a mesma lógica que me mostra que um homem não nasce para ser casado, ou para ser português, ou para ser rico ou pobre, mostra-me também que ele não nasce para ser solidário, que ele não nasce senão para ser ele-próprio, e, portanto, o contrário de altruísta e solidário, e, portanto, exclusivamente egoísta” (PESSOA, 1999, 33).

Movido pelo cinismo e pela falência da crítica, o banqueiro defende a liberdade incondicional e, consequentemente, o citado agente financeiro se arvora em chamar a solidariedade de “tirania do auxílio”. Um dos mais tenazes preconceitos criados pelo utilitarismo vulgar é a ideia de “interesse como posse ou aquisição”. Nada escapa ao fôlego da intenção possessiva. Será? A ação, sem dúvida, obedece às “razões da razão”, mas também às “razões do coração”, como disse Blaise Pascal (1623-1662). Desconhecer isso é produzir tensões, conflitos e sofrimentos desnecessários. Acreditar que só agimos porque queremos reter ou acumular é dar provas da mais flagrante miopia em relação ao que somos ou fazemos. Segundo o renomado psicanalista Donald W. Winnicott (1896-1971), a dádiva, o dom, a doação não são ornamentos dispensáveis da vida subjetiva. Ao descrever os interesses do indivíduo, do self, em linguagem técnica, Winnicott dá ênfase especial a um deles: justamente a capacidade de se preocupar com o outro, expressa no “interesse de doação”. A doação é a contrapartida psíquica da aquisição. Não havendo solidariedade, o pífio e asfixiante universo do consumismo toma conta do pedaço, tornando o que possuímos sem valor, e o que doamos, irrelevante.

Sugere filosoficamente o professor Renato Noguera dos Santos Junior, no precioso artigo “Ubuntu como modo de existir: elementos gerais para uma ética afroperspectivista” (Revista da ABPN, nov. 2011/fev. 2012), a máxima zulu e xhosa, umuntu ngumuntu ngabantu (“uma pessoa é uma pessoa através de outras pessoas”) para o enfrentamento do modelo egoísta predominantemente no mundo: “um ser humano só se realiza quando humaniza outros seres humanos. A desumanização de outros seres humanos. A desumanização de outros seres humanos é um impedimento para o autoconhecimento e a capacidade de desfrutar de todas as nossas potencialidades humanas. O que significa que uma pessoa precisa estar inserida numa comunidade, trabalhando em prol de si e de outras pessoas” (2011-2012, 148). O filósofo dá prosseguimento à reflexão, referindo-se a um provérbio desenvolvido pelo grupo étnico Gikuyu, localizado no Quênia:

Kiunuhu gitruagwo (a avareza não alimenta) diz muito da perspectiva ubuntu e pode facilmente ser associada à ética ubuntu, porque se a realização de uma pessoa passa pelas outras, significa que a capacidade de partilhar com as outras é fator indispensável na construção individual. […] Em outros termos, num sentido afroperspectivista, não ser avarento é compreender que o resultado de um trabalho individual nunca é realmente obra de uma pessoa; mas, sempre contou com a participação direta e indireta de outras pessoas. Portanto, o valor das coisas precisa ser compartilhado para reconhecermos as diversas faces de nossa existência junto com os outros” (SANTOS JUNIOR, 2011-2012, 149).

Resolver a crise de verdade consiste, portanto, em combater os riscos que atravessam as sociedades atuais, seduzidas pelo idealismo do mercado. O mercado transformou pessoas em massas sem vontade e direção, tornando-as indivíduos totalmente privatizados. A democracia é fundada sobre a diversidade de opiniões. Ao mesmo tempo, esta depende da diversidade de valores. O mercado as destrói, reduzindo todos os valores à concepção de preço. Logo, é necessário incriminar a mentalidade que faz da economia o centro de tudo.

A sociedade que estrutura a educação em função dos interesses de quem detém o poder, encontra na educação um fator fundamental para a preservação desse poder. Salienta o saudoso educador Paulo Freire (1921-1997), em Pedagogia do oprimido (1970), que os donos do poder impõem seus modelos educativos como elementos de estabilidade do sistema social e que nunca irá modificá-los voluntariamente num sentido que contradiga os seus interesses. Ao mesmo tempo, o educador consciente sabe da importância que possui para a mudança social, contribuindo positivamente com o modo pelo qual as pessoas percebem a realidade e a si mesmas. As pessoas que, mediante uma educação libertadora, descobrem o mundo e sua posição nele com consciência crítica, são os melhores sujeitos ativos de uma transformação séria e profunda das estruturas sociais.

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Marcos Fabrício Lopes da Silva é é professor universitário, jornalista, poeta e doutor em Estudos Literários

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