Sábado, 18 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

JORNAL DE DEBATES > OI NA TV=>OLIMPÍADAS NO RIO

Os obstáculos da corrida para 2016

Por Lilia Diniz em 24/08/2012 na edição 708

Em quatro anos o Rio de Janeiro estará preparado para sediar os Jogos Olímpicos? O Observatório da Imprensa exibido ao vivo na terça-feira (21/8) discutiu o que o Brasil pode aproveitar da experiência de Londres 2012 para a Rio 2016. Uma das maiores preocupações dos organizadores do evento no Brasil e de especialistas é a infraestrutura para delegações, turistas e imprensa. E a maior de todas elas é o transporte público.

Antes dos Jogos Olímpicos já havia mais de 250 estações de metrô em Londres e a malha ferroviária cobria toda a cidade. Enquanto o transporte público eficiente é uma tradição no Reino Unido, o Brasil ainda engatinha a expansão das linhas de metrô. Outra questão é a acomodação do contingente que chegará ao Brasil para os jogos. A rede hoteleira se prepara para receber os visitantes, mas o número de leitos disponíveis preocupa. A segurança durante o evento também desperta inquietação. Ao contrário de Londres, o Brasil não tem experiência no combate ao terrorismo.

Para discutir esses temas, Alberto Dines recebeu três convidados no estúdio do Rio de Janeiro: Carlos Villanova, Jorge Luiz Rodrigues e Maurício Torres. Villanova é diretor de Comunicação do Comitê Organizador dos Jogos Olímpicos e Paraolímpicos Rio 2016. Diplomata de carreira, foi diretor de imprensa internacional da secretaria de imprensa da Presidência da República. Jorge Luiz Rodrigues é editor-assistente de Esportes e colunista do “Panorama Esportivo”, do jornal O Globo. Foi correspondente olímpico entre abril e agosto deste ano, enviado a Londres, onde ficou por 124 dias. Cobriu as últimas seis edições da Copa do Mundo e seis de Jogos Olímpicos. Maurício Torres é narrador esportivo e apresentador de Rede Record. Tem vinte anos de carreira, trabalhou na Rádio Globo e na TV Globo por dez anos e foi um dos fundadores do Sportv. Já cobriu cinco Copas do Mundo, quatro Olimpíadas e três Jogos Pan-Americanos.

Torcer ou participar?

Em editorial, antes do debate no estúdio, Dines sublinhou que o Brasil em 2016 não será julgado apenas pelo desempenho dos atletas, mas também pela competência técnica e moral das autoridades. “O brasileiro é um torcedor nato, vibra com o que se passa no gramado, nas quadras, pistas e piscinas, mas não é um participante, cooperante ou militante. Não se sente responsável, prefere condenar a irresponsabilidade do outro”, avaliou Dines. Para ele, é preciso estimular a cooperação da população: “A experiência olímpica deve servir para melhorar a nossa autoestima mas principalmente refazer o nosso modelo de convivência e participação” [ver íntegra abaixo].

A reportagem exibida antes do debate no estúdio ouviu diversas opiniões sobre o tema. Marcus Vinicius Pinto, editor-executivo do Portal Terra, que transmitiu os jogos de 2012 ao vivo pela internet em 36 canais em HD, explicou que, em duas semanas de transmissão, a audiência mundial do portal dobrou. Por não estar preso a horários rígidos de exibição, de acordo com Marcus Vinicius, a cobertura do Terra pôde exibir entrevistas ao vivo com medalhistas logo depois das competições, o que não acontecia com canais de televisão: “O atleta chegava, nós abríamos o estúdio, abríamos o link, colocávamos ele ao vivo para uma audiência espetacular”. A cobertura do site contou ainda com um time de comentaristas e narradores.

Michel Castellar, repórter do diário esportivo Lance!, cutucou a imprensa brasileira sobre a cobertura da Rio 2016. “Ela tem que fazer seu dever de casa. Infelizmente, e falo isso com uma certa tristeza, existem poucos jornalistas hoje em condições de cobrir a organização de uma Copa do Mundo e de uma Olimpíada”, disse Castellar. O jornalista contou que, em Londres, a estrutura para receber a imprensa foi eficiente: “Em todas as instalações existiam salas de imprensa equipadas com uma internet veloz, muito veloz – algo que vai ser realmente para o Rio um grande desafio, essa questão de internet. Além da sala de imprensa, você tinha a tribuna onde os jornalistas ficavam, que eram servidas com tomadas com acesso à internet, com uma tela de televisão”. Castellar criticou a falta de um centro de treinamento olímpico no Brasil.

Copa do Mundo vs. Olimpíadas

Na opinião de José Henrique Mariante, editor de Esportes da Folha de S.Paulo, a preparação para a Rio 2016 é um grande desafio para o país e será bem diferente da Copa do Mundo que será realizada dois anos antes. “São mais de 40 esportes, um sem número de modalidades, 10 mil atletas, muita mídia, tudo concentrado no Rio de Janeiro, que é uma cidade com diversos problemas estruturais atuais. É claro que existe toda uma vontade do governo – e acho que isso já ajuda bastante – de fazer com que a coisa funcione, mas só vontade não adianta. Você tem que ser competente, muito competente para fazer dar certo”, alertou o jornalista. Mariante disse que o programa esportivo da Grã-Bretanha foi planejado com antecedência. O aumento do investimento em esportes começou a se consolidar em 1996. “A gente vai jogar em casa, mas isso não é futebol, é Olimpíada. É muito mais difícil aproveitar esse fator ‘casa’, ele pode se virar contra até”, afirmou.

O Observatório entrevistou a atleta Yane Marques, que conquistou uma medalha de bronze em Londres no pentatlo moderno. Apesar de já ter vencido outras competições internacionais, como os últimos Jogos Panamericanos, Yane é praticamente uma desconhecida fora da mídia especializada e do ambiente esportivo. Depois da medalha conseguida nos Jogos Panamericanos, Yane tem mantido uma certa regularidade de aparições na TV. A maior visibilidade, no entanto, não chegou a estimular novos patrocinadores. A atleta contou que luta para conseguir patrocínios e ressaltou que é preciso divulgar mais o pentatlo no Brasil.

Yane Marques destacou fatores essenciais para que daqui a quatro anos o desempenho do Brasil no quadro de medalhas melhore: “Projetos de iniciação, apoio financeiro para as federações desenvolverem esses projetos, alguma coisa que venha a incentivar os educadores físicos a ter interesse em trabalhar nessa área do desporto. A gente tem muito o que fazer. Material humano a gente tem, mas falta política pública nesse sentido”.

A imprensa por dentro dos bastidores

No debate ao vivo, Carlos Villanova destacou que há um bom número de jornalistas brasileiros acostumados a cobrir grandes eventos esportivos internacionais, mas que é a primeira vez que esses profissionais cobrirão sistematicamente a preparação para os jogos. Villanova chamou a atenção para o fato de o Comitê Organizador da Rio 2016 estar atento à necessidade de preparar os jornalistas para esta cobertura. De acordo com ele, periodicamente é promovida uma atividade denominada Café da Manhã com Repórteres Olímpicos. “Nós convidamos jornalistas dos vários veículos nacionais e diretores do Rio 2016 para que possam apresentar a esses jornalistas os temas que tratam no comitê”, explicou Villanova. Esse diálogo com os jornalistas irá ajudar os profissionais a entenderem melhor os detalhes do projeto.

“Nós precisamos demais da imprensa para que a gente possa fazer uma edição dos jogos absolutamente excepcional no Rio. Temos plena consciência da importância da imprensa para que a gente possa mostrar ao mundo o que a edição dos jogos Rio 2016 vai ter de excepcional”, afirmou Villanova. O diretor de Comunicação do Comitê Organizador da Rio 2016 contou que os profissionais enviados a Londres perceberam como os torcedores daquela cidade vibravam com modalidades esportivas que não têm muito destaque no Brasil, como o ciclismo. “Aqui no Brasil a gente ainda fica um pouco apegado aos nossos esportes coletivos e é preciso que nós desenvolvamos essa cultura de torcer, de vibrar, com esportes como o pentatlo e tantos outros”, disse Villanova.

O desafio de jogar em casa não é fácil, na avaliação de Jorge Luiz Rodrigues. Ao contrário, é um complicador. O jornalista destacou que esta é uma grande oportunidade para o Brasil, mas o país precisará se organizar. Londres tem 20 linhas de metrô (subterrâneo e de superfície), trens modernos e um trem de alta velocidade. “Esse sistema de transportes incrível é que proporcionou uma Olimpíada incrível”, destacou Rodrigues. Já o Rio de Janeiro conta com apenas duas linhas de metrô e um sistema de trens que sequer atende a contento a população local. “O que me chamou a atenção é que grande parte dos nossos enviados políticos a Londres só andou em carros oficiais”, lamentou o jornalista. Em Londres, um fator decisivo na esfera dos transportes foi levar o desenvolvimento para áreas que havia décadas estavam esquecidas pelo poder público.

O papel da audiência

Além de preparar os jornalistas para cobrir os Jogos Olímpicos, Maurício Torres ressaltou que é necessário qualificar a audiência brasileira. O jornalista citou uma frase que usa para ressaltar a pluralidade dos esportes: “Todo esporte tem gol”. Cabe ao locutor esportivo identificar para o telespectador os detalhes dos esportes menos conhecidos. Maurício Torres ressaltou que para quem acompanha o pentatlo moderno, por exemplo, não foi uma surpresa Yane Marques ter conquistado a medalha de bronze, mas muitos jornalistas não sabiam que a atleta estava entre as favoritas na modalidade. “Isso é um desafio que nós temos nos próximos quatro anos: preparar a audiência, como aconteceu nos Jogos Panamericanos de 2007”, disse o apresentador da Record.

No encerramento do programa, Dines pediu para os convidados comentarem o que será fundamental para os próximos quatro anos na organização dos jogos. Jorge Luiz Rodrigues ressaltou que a postura da imprensa não deve ser de oba-oba, é preciso manter o senso crítico diante dos fatos. Na opinião de Maurício Torres, o foco no esporte não deve se encerrar com a realização dos jogos, e sim perdurar para os próximos ciclos olímpicos. Carlos Villanova conclamou a imprensa a participar do projeto: “É fundamental que nós tomemos conta do desempenho dos atletas, isso é indispensável. Mas muito mais fundamental ainda é que a imprensa se assenhore do projeto dos Jogos Olímpicos. Eu gostaria de convidar a imprensa a tomar conta dos jogos. É importante que a imprensa cubra o que está sendo feito, como nós estamos preparando, e o andamento das obras”.

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A mídia e o desafio da Rio 2016

Alberto Dines # editorial do Observatório da Imprensa na TV nº 653, exibido em 21/8/2012

Bem-vindos ao Observatório da Imprensa.

A bandeira olímpica já está aqui. De agora até agosto de 2016, o problema é nosso. Exclusivamente nosso. Não fomos escolhidos à revelia, sonhávamos com a Olimpíada, lutamos arduamente por ela, deliramos quando o Comitê Olímpico preteriu Chicago, Tóquio, Madri e colocou o Rio de Janeiro neste pódio que tem algo de banco dos réus: não seremos julgados pelas façanhas de nossos atletas, mas pela competência de nossas autoridades. Competência técnica, competência moral.

Já se passaram três anos, ainda temos quatro pela frente – chegaremos lá? Esta não é uma questão existencial, é uma espécie de cobrança. O brasileiro é um torcedor nato, vibra com o que se passa no gramado, nas quadras, pistas e piscinas, mas não é um participante, cooperante ou militante. Não se sente responsável, prefere condenar a irresponsabilidade do outro.

O sucesso da Olimpíada londrina não se resume ao espetacular salto no número de medalhas. O que chamou a atenção dos jornalistas brasileiros foi a intensa participação cívica e comunitária dos londrinos em todas as fases da preparação. Torceram nas competições e vestiram a camisa da cidade, anos antes enquanto eram tomadas decisões importantes sempre respaldadas pela população.

Adoramos discutir a arbitragem, o trabalho dos preparadores e até o penteado dos atletas. Mas numa sociedade hierarquizada como a nossa, conviria estimular os torcedores a se converterem em cooperantes – agentes ativos, convictos e não apenas espectadores passivos, manipulados pelos resultados.

A experiência olímpica deve servir para melhorar a nossa autoestima, mas principalmente refazer o nosso modelo de convivência e participação.

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A mídia na semana

>> Julian Assange, o fundador do Wikileaks, ganhou novamente as primeiras páginas, não porque tenha vazado mais uma montanha de documentos diplomáticos confidenciais. Desta vez os holofotes da mídia o pegaram pela estúpida ameaça do governo inglês de violar o asilo político oferecido pela embaixada do Equador em Londres, onde se abrigou por receio de ser deportado para a Suécia onde é acusado de crimes sexuais. Tornou-se herói novamente, mas desta vez está sozinho: seus parceiros no Wikileaks o abandonaram, incomodados com o seu vedetismo e os cinco grandes veículos internacionais que publicaram seus vazamentos com enorme destaque perceberam que massas de informações confidenciais fora de qualquer contexto valem pouco. Tudo indica que o juiz espanhol Baltazar Garzon, que assessora Assange, consiga convencê-lo a enfrentar os tribunais da Suécia onde tem uma legião de defensores. e defensoras.

>> A grande imprensa brasileira quebrou o gelo e, enfim, resolveu discutir a imprensa. A autoanálise começou na segunda-feira [20/8] e acabou hoje [terça, 21], mas quem vai aproveitá-la serão os participantes do 9º Congresso Brasileiro de Jornais, organizado pela Associação Nacional de Jornais (ANJ). Os leitores estão recebendo pequenas amostras do que foi apresentado em plenário, mas o que chamou a atenção foi a ausência de uma pauta brasileira num congresso brasileiro. O país precisa de mais jornais, sobretudo pequenos e médios, é isto que cria uma democracia sustentável. A ANJ não gostaria de ter mais associados?

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[Lilia Diniz é jornalista]

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