Domingo, 24 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº958

ENTRE ASPAS > CIDADE DE DEUS

Osmar Freitas Jr.

24/02/2004 na edição 265

Num universo de estrelas controvertidas, como é Hollywood, a presença do produtor Harvey Weinstein, 52 anos, é comparada ao surgimento de um novo e superbrilhante corpo celeste. O co-fundador dos estúdios Miramax cintila tão intensamente que muitas vezes ofusca pessoas a seu redor.

Há, é claro, quem o considere um buraco negro, sugador de energias e manipulador maléfico da produção de filmes independentes, alternativos e estrangeiros. A seu favor, Weinstein aponta para o fato de ter mantido o filme brasileiro Cidade de Deus, de Fernando Meirelles, em cartaz durante 64 semanas nos Estados Unidos. Temporada muito mais longa do que se poderia esperar, até mesmo para títulos locais.

Dono de personalidade forte, este nova-iorquino da cidade de Buffalo não refuta a fama de durão. É capaz de torcer braços para conseguir maiores mercados e bilheterias, além de prêmios para seus produtos. Ao fundar a Miramax – junção dos nomes de seus pais Miriam e Max – com o irmão Bob, em 1979, Weinstein optou por liberar os chamados filmes de arte da prisão das salas menores nos Estados Unidos. Grande reconhecimento deste esforço veio com o sucesso inesperado de Sexo, mentiras e videotape (1989), que faturou como grande produção e virou atração cult. Depois, seguiu-se uma fieira de bons produtos, como Pulp fiction (1994) e Chicago (2002), apenas para citar algumas fitas premiadas com o Oscar.

No domingo 29, quando acontecerá a 76ª edição do prêmio dado pela Academia de Ciências e Artes Cinematográficas, Harvey Weinstein estará na torcida por Cidade de Deus, que tem quatro indicações. O mais curioso é que, quando leu o roteiro, o produtor não sabia que o filme era falado em português. Ao ser confrontado com o detalhe que costuma espantar bilheterias nos Estados Unidos, ele disse à sua equipe: ‘Não quero saber em que língua é. Vamos promover este filme.’ Após distribuí-lo e encaminhá-lo ao Oscar com os cuidados de um pai, Weinstein afirma ter adotado o Brasil como segunda pátria. Tanto que promete continuar buscando novas safras cinematográficas brasileiras.

E, caso uma estatueta dourada for dada a Cidade de Deus, afirma que no dia seguinte estará no Rio de Janeiro. ‘A bebida é por minha conta’, disse ele, entre gargalhadas, na seguinte entrevista dada a ISTOÉ por telefone, de Londres.

ISTOÉ – Por que tanto empenho da Miramax em relação ao filme Cidade de Deus?

Harvey Weinstein – Eu amo este filme. Depois de Cidade de Deus eu vou mudar para o Brasil. Vou direto para lá. Eu amei o filme quando era apenas um roteiro e amei o filme quando ficou pronto. Eu acho que o filme foi trapaceado. Ele foi roubado porque deveria estar numa posição mais competitiva. Quando em 2003 não foi nem nomeado para a categoria de melhor filme em língua estrangeira, eu disse: ‘Isto é uma tremenda injustiça. Eu não me importo com o que tenha de fazer, vou apoiar este filme com todas as minhas forças. Tenho de fazer com que este filme seja recompensado com um prêmio.’ Para mim, Cidade de Deus virou uma paixão, uma cruzada.

ISTOÉ – Há uma história de que o sr. leu o roteiro e não sabia que o filme era falado em português. Mesmo assim, investiu na promoção de Cidade de Deus. Por quê?

Weinstein – Minha equipe estava me gozando. Eles me deram o roteiro, deixaram que eu lesse e eu disse: ‘Uau! Isto é ótimo.’ E todos começaram a rir, porque eles queriam ter certeza de que eu tinha gostado do filme. Aí eu não poderia dizer: ‘Ah! Eu não vou promover um filme em português.’ E aí a coisa virou piada no meu escritório. Depois de eu ter lido, fui logo dizendo que amava o roteiro. Eles falaram: ‘Nós temos uma boa e uma má notícia. A boa notícia é que você amou o texto. E a má notícia é que o filme é em português.’ Eu disse: ‘Não quero saber em que língua é. Vamos promover este filme.’

ISTOÉ – Quais são as chances reais de Cidade de Deus ganhar um Oscar?

Weinstein – Vamos todos rezar. Se sair um Oscar eu vou para o Brasil no dia seguinte. Aliás, depois de Cidade de Deus, o Brasil virou meu país de adoção.

ISTOÉ – Das quatro indicações recebidas por Cidade de Deus, duas delas são técnicas. O sr. acha que o cinema brasileiro melhorou tanto assim neste setor?

Weinstein – Sim, definitivamente. Acho que a influência de Walter Salles foi algo fantástico. Um incrível impulso nesta área da indústria de filmes no Brasil. Existem agora muitos brasileiros fazendo filmes incríveis. Acho que a indústria brasileira de cinema está crescendo e de forma globalizada. Espalha-se por todo o mundo com grande aceitação e respeito. Vocês já têm uma seleção de diretores de porte internacional. Fernando Meirelles, Walter Salles, Bruno Barreto e outros. E novos nomes vão se agregar a esta lista a cada ano. Trata-se de uma grande indústria e grandes filmes vão surgir dela.

ISTOÉ – O sr. acredita que Walter Salles e Fernando Meirelles têm chances de se firmar nos Estados Unidos? A carreira deles pode ter continuidade no meio rarefeito de Hollywood?

Weinstein – Mas isso já aconteceu. Salles teve filme indicado ao Oscar e é nome absolutamente reconhecido na indústria do cinema americano. Meirelles seguiu o mesmo caminho. Não há motivo para eles não continuarem na mesma trajetória.

ISTOÉ – Qual a intensidade da relação do sr. com o cinema brasileiro?

Weinstein – Se você vir nosso histórico, vai notar que a Miramax é o estúdio que mais investiu no cinema brasileiro nos últimos anos. Qual foi o outro estúdio que deu mais atenção ao cinema brasileiro? E agora, depois de Cidade de Deus, esta opção se torna ainda mais clara. Tem sido uma relação de paixão, e muito recompensadora.

ISTOÉ – A Miramax deu novo oxigênio a esta indústria americana?

Weinstein – Eu simplesmente amo filmes e acredito que os bons merecem o mesmo tipo de promoção e marketing que os maus recebem. Por que dar todo o apoio às grandes porcarias que são despejadas anualmente no mercado e não tratar bem as obras de fôlego como Cidade de Deus e Cold mountain? É burrice deixar o público em jejum de bons filmes, com roteiros inteligentes, assuntos polêmicos e pungentes. Chega uma hora em que as pessoas se cansam de bobagens e acabam não indo às salas de exibição. Há enormes fatias do mercado que sentem falta de filmes mais inteligentes. Por isso, eu me empenhei tanto com Cidade de Deus e Cold mountain quanto outros estúdios se empenham com outros tipos de filme. E deixe-me dizer uma coisa: você tem de lutar bastante. Quando se acredita num filme, é preciso batalhar ferozmente por ele.

ISTOÉ – O sr. tem algum projeto brasileiro novo para trabalhar no próximo ano ou num futuro breve?

Weinstein – Ainda não. Mas vou ler todos os roteiros possíveis. Tudo o que me apresentarem receberá atenção, pois sei que do Brasil podem sair produtos de grande qualidade. E eu quero trabalhar com os brasileiros. Não te disse que o Brasil é meu país adotivo?

ISTOÉ – Então, pode-se dizer que, independentemente dos resultados do Oscar, o sr. vai continuar investindo no cinema brasileiro?

Weinstein – Espero que sim. Vou sempre estar apoiando o Brasil. Enquanto me mandarem bons roteiros, vou continuar prestigiando e promovendo os filmes brasileiros.

ISTOÉ – Sabe-se que o público americano não gosta muito de ler legendas. O sr. acredita que os americanos estão mais receptivos a filmes em outros idiomas?

Weinstein – Acho que os americanos estão ficando cada vez mais receptivos por causa do trabalho que nós, da Miramax, fizemos e outras companhias também fizeram nos últimos anos. Isso ajudou muito. Eu acho que este trabalho é importante e todos deveriam fazer um esforço neste sentido. Isso abre o mundo para os americanos. Os filmes estrangeiros dão nova visão de mundo e mostram que este mundo não está contido apenas em filmes americanos. Veja o exemplo de Cold mountain. É um filme europeu. Acredito que os europeus fazem os melhores filmes sobre os Estados Unidos. É interessante ver a realidade através dos olhos deles. Você quer ver seu próprio mundo através dos olhos deles. Eu acho isso ótimo e estou muito satisfeito com a recepção de Cold mountain ao redor do planeta. Assim como Cidade de Deus me provocou paixão no ano passado, Cold mountain é minha paixão neste ano.

ISTOÉ – O filme foi uma grande aposta da Miramax para o Oscar e não deu muito certo. Na sua opinião, quais os motivos de não ter recebido tantas indicações?

Weinstein – Nós chegamos muito tarde e as votações aconteceram muito cedo. Perdemos o avião, por assim dizer. Do contrário, tenho certeza de que este seria um filme muito competitivo.

ISTOÉ – As indicações ao Oscar deste ano escaparam da fórmula tradicional das grandes produções. Como o sr. analisa esta aparente tendência?

Weinstein – Acho que não se pode analisar tendências, neste caso. Porque tendências sempre mudam. Hoje é uma coisa, amanhã é outra. Acho que tudo tem a ver com os filmes apresentados neste ano. Era o que existia, e a Academia pegou o que estava à sua frente.

ISTOÉ – A Miramax vai continuar investindo fortemente em projetos alternativos ou independentes?

Weinstein – Nós vamos continuar investindo em tudo o que for inteligente, que tiver valor artístico. Nem tudo o que é alternativo é inteligente ou tem valor artístico. Independentes também fazem filmes ruins. Vou procurar sempre os roteiros de qualidade para que se possam fazer filmes de qualidade. Às vezes, uma superprodução de um diretor consagrado e com grandes estrelas pode ser maravilhoso e merecer todo o apoio. A Miramax tem amplo histórico de trabalhos nesta categoria. Não somos e não podemos ser chamados de ‘estúdio alternativo’. Somos um estúdio que procura qualidade para transformá-la em sucesso.

ISTOÉ – O sr. não acha que Hollywood está precisando de novos talentos, de uma injeção de sangue novo?

Weinstein – Todas as indústrias precisam de novos talentos. Acho que existem muitos novos talentos em Hollywood e o cinema americano atrai sangue novo vindo de todas as partes do mundo. Fernando Meirelles é um exemplo, mas eu poderia dar uma lista enorme de talentos que se revelaram recentemente e outros que ainda estão para ser revelados. Cabe aos estúdios absorver estes talentos. A Miramax tem um projeto chamado Sinal Verde, que analisa roteiros e projetos de novos cineastas e escolhe trabalhos que recebem aprovação para ser produzidos. Este é um exemplo de abertura de mercado para novos talentos.

ISTOÉ – Para os brasileiros que estão tão distantes dos processos político e artístico do Oscar, o sr. poderia nos explicar os mecanismos desta premiação?

Weinstein – Não, ninguém pode. Certamente é um processo com muita política envolvida e as motivações que transformam o Oscar em realidade também o tornam muito confuso e difícil de explicar. Não dá para entender muito. A cabeça do enorme corpo de jurados é um enigma.

ISTOÉ – Num caso absolutamente hipotético, qual seria a reação do público americano na eventualidade de uma vitória de Fernando Meirelles sobre Peter Jackson, de O senhor dos anéis: o retorno do rei?

Weinstein – Eu não sei a reação dos americanos. Mas posso lhe dizer a minha. Vou para o Rio de Janeiro no dia seguinte. E prometo: a bebida é por minha conta.’



Folha de S. Paulo

‘‘Cidade de Deus’ é destaque em reportagens do ‘The New York Times’’, copyright Folha de S. Paulo, 20/02/04

‘O filme ‘Cidade de Deus’ foi tema de duas amplas reportagens ontem no ‘The New York Times’. O jornal publicou com destaque um perfil de Fernando Meirelles, reforçando a surpresa que foi sua indicação ao Oscar.

O diário sustenta que Harvey Weinstein, da Miramax, foi o responsável pelo sucesso do filme nos EUA e que, com a não decolagem de ‘Cold Mountain’, o estúdio ‘orientou boa parte de sua máquina de relações públicas’ para ‘Cidade de Deus’.

O texto recupera ainda a trajetória de Meirelles, de ‘proeminente diretor de comerciais’ a cineasta e fala de seus projetos atuais: a adaptação de ‘O Jardineiro Fiel’, de John Lee Carré, depois um trabalho sobre globalização (‘Intolerância’) e um filme épico sobre Pompéia.

Em entrevista, Meirelles diz que desmaiaria se ganhasse o Oscar, mas que aposta em Peter ‘Senhor dos Anéis’ Jackson.

Em outro texto, o ‘NYT’ recupera a polêmica com a co-diretora de ‘Cidade’, Katia Lund, que declarou ao diário inglês ‘Guardian’ ter sido menosprezada pelo Oscar.’



MIL E UMA UTILIDADES
Luciana Oncken

‘Jornalista ‘multiuso’, aproveite a liquidação’, copyright Comunique-se (www.comuniquese.com.br), 19/02/04

‘O mercado pede, muitos atendem ao chamado. O jornalista virou ‘mercadoria’ ainda mais barata, está em liquidação. O empregador adquire um ‘modelo completo’, multifunção, como aquelas impressoras que tem tudo acoplado: fax, copiadora, scanner. No caso, o jornalista multiuso também é aquele que faz de tudo, desde o básico clipping até traçar estratégias de comunicação para empresa, de pequenas notas a matérias complexas, faz revista, site, boletim interno, e novos veículos que surgem todos os dias. São fotógrafos (basta ter uma simples digital), redatores, repórteres e coordenadores de comunicação corporativa, atendem aos jornalistas, organizam eventos, coletivas de imprensa, às vezes dão até mesmo um jeitinho no marketing e na publicidade.

Nos deparamos todos os dias com esses ‘coleguinhas’. Uma hora sentados, escrevendo, prestando atenção, de bloquinho e caneta na mão. No instante seguinte, com a máquina (digital, é lógico!) em punho a disparar flashes. Correm para a empresa para entregar o plano de comunicação. Em tempos de clonagem, nos fazem pensar se são a mesma pessoa, ou clones. Estariam fazendo clones de jornalistas?

Dia desses, recebi um email de uma empresa de recolocação de mercado. A empresa queria adquirir um ‘modelo’ desses de jornalista pelo mesmo ‘preço’ de um equipamento como a impressora multiuso, aliás, ficaria ainda mais em conta do que a tal impressora, apenas R$ 600,00. A única diferença é que eles pediam um modelo com pelo menos três anos de uso, ou melhor, um profissional com mais de três anos de experiência em todas as áreas de abrangência do jornalismo e da comunicação empresarial. Ou seja, queriam um profissional rodadinho. Já a impressora, adquire-se por R$ 750,00 um modelo novinho em folha. Será que viramos mesmo mercadoria? Com tempo nosso preço vai desvalorizando? Ou como estamos sobrando ‘nas prateleiras’, tanto faz, novo ou velho, nosso é preço é baratinho, baratinho.’



O REPÓRTER
Boanerges Lopes

‘Ser repórter é…’, copyright Comunique-se (www.comuniqu-se.com.br), 16/02/04

‘Saber que a reportagem como atividade não existiu ou foi irrelevante em 200 dos 400 anos da história da Imprensa;

Entender que a reportagem é um gênero jornalístico privilegiado e se afirma na atualidade como o lugar por excelência da narração jornalística;

Como diz o Zuenir: ‘Que os outros não me queiram mal, ou não me atirem pedras, mas se todos desaparecessem e só ficasse o repórter, o jornalismo continuaria vivo’;

Se desculpar ao Vinícius, aos editores e redatores, junto com o Clóvis Rossi, mas não deixar de dizer que repórter é fundamental: Certamente a única função pela qual vale a pena ser jornalista;

Lembrar que antigamente o bom profissional era aquele que saía para a rua com a caneta e um pedaço de papel e voltava trazendo uma notícia, uma história alegre ou triste que estivesse acontecendo naquele momento;

Poder testemunhar a história de todos os tempos e de cada tempo em si;

Algo paradoxal, pois é ao mesmo tempo a mais fácil e a mais difícil maneira de viver a vida;

Muito mais transpiração do que inspiração;

Gastar a vista lendo, lendo, lendo, de bulas de remédios aos clássicos, no intuito de descobrir tantos quantos forem os fatos relevantes, necessários a gerar boas pautas, ou informações mínimas que sirvam como ponto de partida para se buscar boas reportagens, geralmente calcadas em longas jornadas;

Ter como referência na formação, os textos de bons repórteres: Capote, Talese, Mailer, Reed, Walsh, Defoe, Hemingway, Abramo, Biondi, Kotscho, Braga, Silveira, Euclides da Cunha, e não tantos outros;

Entender que suas funções variam diante das situações históricas, econômicas, sociais e políticas;

Segundo Nilson Laje: ‘Processar dados com autonomia, habilidade e reatividade, uma competência humana que pode ser aprimorada pela educação e pelo exercício’;

Compreender que a reportagem é sempre uma ação transitiva e que como sujeito é preciso ao profissional manter contato imediato com todos os sentidos: o olhar, paladar, olfato, tato e a audição de quem não pode ver, gostar, cheirar, tocar e ouvir o acontecimento;

Não ser ‘recórter’, que segundo Licínio Neto é aquele sujeito pouco criativo que imita estilos de outros;

Ter persistência, curiosidade, tenacidade e interesse pelo que faz – e uma baita aptidão para se envolver com pessoas de todos os níveis e fatos os mais diversos possíveis – de crimes hediondos aos buracos de ruas;

Segundo Acácio Ramos: ‘aquele que pergunta’;

Saber que perguntar não é uma tarefa fácil. E que se a pergunta não for bem formulada pode ofender;

Fugir de perguntas cretinas como lembra Nello Marques: ‘Você está otimista?’ (diante de qualquer disputa); ‘Qual a sua maior esperança?’ (para a mão que procura um filho desaparecido); ‘O que mudou na sua vida?’ (depois de ganhar algum prêmio ou de um grave acidente);

Lidar com os mais variados tipos de entrevistados como lista Marques: o esgrima, o quiabo, o dedo leve, o sabonete etc;

Perceber que existem alguns tipos que precisam ser evitados: o ‘crica’, o distraído, o empolado, o partidário, o sabe nada, o sabe tudo e por aí vai;

Ser capaz de organizar dados num tempo reduzido e apresentá-los para que o maior número de pessoas possa entendê-los;

Segundo Marcos Faerman: ‘Ter alma de repórter, alimentando-se do espírito de aventura, fascínio pela descoberta e pela história ainda não contada’;

Posicionar-se contrariamente aos macaquinhos chineses: ver, ouvir e contar – com enorme competência;

Segundo Audálio Dantas: ‘Ter uma certa dose de megalomania, na medida suficiente para acreditar na sua capacidade de mudar o mundo’;

Assumir-se como a figura humana mais característica do Jornalismo;

Segundo Clóvis Rossi: ‘Batalhar pela conquista das mentes e corações de seus alvos, leitores, telespectadores ou ouvintes para a causa da justiça social, ingrediente que jamais pode ser dissociado da democracia’;

Deslocar-se de um universo testemunhal – denotação contemplativa – para um universo instrumental – denotação operacional, com intensa desenvoltura;

Seguir os ensinamentos de Juarez Bahia: apurar e redigir com correção, veracidade, exatidão e credibilidade;

Entender que uma boa reportagem é fruto de uma observação cuidadosa, como orienta Cláudio Abramo;

Ter clareza de que o mais importante é a notícia, não o jornalista;

Assumir que o rigor na apuração dos fatos é determinante para a qualidade de qualquer trabalho jornalístico;

Trabalhar em equipe;

Observar o conselho de Heródoto Barbeiro: ‘Ser criterioso com as matérias técnicas, pois o excesso de dados pode confundir o ouvinte ou telespectador que não vai ter chance de ouvir a reportagem novamente’;

Não tratar com humor e humilhação o sofrimento das pessoas;

Não julgar os entrevistados nem querer mudar comportamentos;

Compreender que a fonte é imprescindível, mas a prática do ‘fontismo’ deve ser descartada;

Buscar a forma mais simples, mas não simplória, de levar a informação ao público;

Batalhar sempre pela verdade, embora muitas vezes não se saiba o que ela é nem onde está;

Balizar seus procedimentos diários pelo Código de Ética vigente;

Participar, se organizar, reivindicar. Bradar sempre: Repórteres, Uni-vos!;

Não deixar de ler as experiências contidas no livro ‘Repórteres’, organizado por Audálio Dantas e publicado pela editora Senac;

Não esquecer de comemorar o dia 16 de fevereiro, apesar de todos os pesares. De preferência, ‘tomando uns goles’ ou ‘entornando uns copos’ num pé-sujo mais próximo;

Concordar com o Rossi em gênero, número e grau diante da resposta para a seguinte indagação: Repórteres são ou não seres idiotas? São, mas às vezes conseguem até ser felizes na sua estranha maneira de viver a vida’.’



CRÍTICOS DESMASCARADOS
Amy Harmon

‘Quem critica os livros da Amazon.com?’, copyright Folha de S. Paulo, 21/02/04

‘DO ‘NEW YORK TIMES’- Os observadores mais atentos da Amazon.com perceberam algo de peculiar nos últimos dias. O site canadense da empresa revelou a identidade de milhares de pessoas que haviam postado resenhas de livros anonimamente nos Estados Unidos, sob assinaturas como ‘um leitor de Nova York’. O defeito durou uma semana e foi consertado depois que os resenhistas expostos se queixaram à Amazon.

Isso ofereceu um raro vislumbre da forma pela qual escritores e leitores vêm brandindo as resenhas online como ferramenta para promover ou detonar um livro quando acham que não há ninguém olhando.

John Rechy, laureado com um prêmio do Pen Club dos Estados Unidos por sua carreira e autor de ‘City of Night’ [‘Cidade da Noite’], um romance de sucesso publicado em 1963, foi um dos diversos escritores famosos que aparentemente se deram resenhas cinco estrelas, a maior nota na classificação da Amazon, escrevendo sob pseudônimo.

Rechy, que riu da questão quando procurado, encara a prática como uma forma de sobreviver em uma era na qual estrelas em um site de venda online de livros podem significar vendas.

‘Para mim é absurdo que qualquer pessoa possa entrar no site e detonar um livro anonimamente’, disse Rechy, que depois de apanhado em flagrante admitiu francamente ter elogiado ‘The Life and Adventures of Lyle Clemens’ (‘A Vida e as Aventuras de Lyle Clemens’), seu novo romance, no site da Amazon, assinando como ‘um leitor de Chicago’. ‘Como contra-atacar essas críticas? Entrando no site e rebatendo cada uma delas.’Rechy está em boa companhia. Walt Whitman e Anthony Burgess notoriamente resenharam seus livros sob nomes supostos. Mas diversos escritores atuais dizem que a internet, onde qualquer um, de sua mãe ao seu ex-agente, pode expressar opinião sobre o trabalho de um autor, criou uma necessidade mais urgente de autodefesa.

Sob o sistema da Amazon, qualquer usuário do site pode submeter uma resenha, sem oferecer publicamente qualquer informação pessoal (ou prova de ter lido o livro). A divulgação acidental do nome real dos resenhistas pelo site canadense serviu para muita gente como lembrete de que o anonimato está longe de garantido na internet.

‘Foi um erro lastimável’, disse Patricia Smith, porta-voz da Amazon.’Examinaremos o que aconteceu e garantiremos que isso não vai voltar a ocorrer.’

À medida que os sites da Amazon se expandem, os visitantes ganham mais e mais importância. Mark Moskowitz, um cineasta independente, enviou uma mensagem de e-mail a três mil pessoas na semana passada pedindo que resenhassem o DVD de seu filme ‘Stone Reader’ (‘Leitor de Pedras’), que entra no mercado na semana que vem.

‘Se vocês não o assistiram mas ouviram dizer que é bom, publiquem mensagens mesmo assim’, pediu Moskowitz. ‘Isso não os compromete em nada, e dizer a verdade é relativo.’

Essas recomendações de pessoa a pessoa são vistas em geral como positivas pelos consumidores, que não dependem mais de críticos privilegiados com acesso a câmeras de TV ou às páginas de jornais e revistas para divulgar suas opiniões.

No final do mês passado, em seu programa de entrevistas no rádio, a dra. Laura Schlessinger usou uma ligação sobre uma carta anônima para exprimir sua insatisfação com alguns dos resenhistas da Amazon, que ela classificou como ‘gente grotesca e esquisita’.

Para aumentar a credibilidade das resenhas de seus leitores, a Amazon lançou meios para que os usuários votem na qualidade das resenhas, e criou um ranking com os mil melhores resenhistas. Mas os resenhistas prolíficos especulam que Harriet Klausner, 55, há muito a líder do ranking, não poderia ter lido todos os livros que resenha. Em entrevista por telefone, Klausner, por sua vez, acusou o segundo colocado da lista de pedir votos a outras pessoas, ‘em uma tentativa desesperada de chegar ao topo’.

Tradução Paulo Migliacci’

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PRIMEIRAS EDIçõES > COBERTURA DE GUERRA

Osmar Freitas Jr.

Por lgarcia em 09/04/2003 na edição 219

COBERTURA DE GUERRA

“O indomável”, copyright IstoÉ, 7/04/03

“O jornal londrino Daily Mirror é do tipo chamado na praça de ?tablóide sensacionalista?. Até a semana passada, ninguém esperaria que as fileiras desse diário fossem amplas ou até limpas o suficiente para acomodar um respeitável veterano jornalista, ganhador do Prêmio Pulitzer, com um nome que já frequentou a lista de correspondentes em quase todos os conflitos mundiais desde a guerra do Vietnã. No entanto, desde o domingo 30, o Mirror conta com a grife Peter Arnett em suas páginas.

Arnett, 68 anos, é o neozelandês com o currículo exemplar, mencionado anteriormente. Consta de sua biografia o fato de ter sido o último homem a manter a reportagem da Rede CNN numa Bagdá sob intenso bombardeio, na guerra do Golfo em 1991. Agora, 12 anos depois, Arnett voltou à mesma cidade para repetir a façanha, dessa vez sob a bandeira de uma coligação de empresas envolvendo a National Geographic Explorer (emissora a cabo da publicação do mesmo nome) e a Rede NBC, com afiliadas a cabo. Seu trabalho, porém, foi interrompido com uma demissão sumária. A ?justa causa? explicada pelos patrões foi uma entrevista que Arnett concedeu à tevê oficial iraquiana, em que avaliava que o Pentágono subestimara o espírito de resistência naquele país e cometera outros erros de cálculo nas estratégias da guerra. Lamentou também que os americanos não estivessem contando o número de mortos civis no conflito.

Mas Arnett – que perde o emprego, mas não perde o vício – preferiu seguir rota própria. Não ficou no molhado por muito tempo. O Daily Mirror, que tem mantido oposição cerrada à guerra em suas páginas, o chamou a bordo. Na semana passada, Arnett deu o seguinte depoimento:

?Eu ainda estou sob o efeito de choque e pavor, depois da demissão. De todo modo, já pedi desculpas aos americanos por aquilo que considero ter sido um erro de julgamento. Acho que o grande (jornalista) Walter Conkrite (um dos maiores ícones do jornalismo americano) entendeu minhas razões para a entrevista que dei à tevê do Iraque. Ele escreveu um artigo na página de opiniões do jornal The New York Times falando que achava errado o que fiz. No entanto, explicou que nós, repórteres, temos fontes e precisamos alimentá-las para conseguir as informações.

O que eu tentava fazer era preservar essas fontes e também me manter no local. Está cada vez mais difícil o trabalho de jornalistas em Bagdá e as ameaças de expulsão são frequentes. Para continuar meu trabalho, eu tinha de dar aquela entrevista. Aliás, é uma discussão pública, agora, o fato de que o alto comando americano subestimou a tenacidade iraquiana e a capacidade de luta de alguns setores do regime. Também virou notícia recentemente o fato de que o Pentágono não informa sobre a estimativa do número de vítimas civis iraquianas. Acho que se eu tivesse falado ontem, dia 1? de abril, o dia da mentira, o que falei, não teria sido mandado embora, pois hoje todo mundo está falando sobre aqueles assuntos.?”

“Mídia árabe difunde ?guerra santa?”, copyright Folha de S. Paulo / Le Monde, 3/04/03

“Quando da Guerra do Golfo (1991), o líder laico do Iraque, Saddam Hussein, acrescentou o dístico ?Allahu Akbar? (Deus é o maior, em árabe) ao emblema nacional de seu país, no último minuto. Hoje, para sensibilizar os ?combatentes de Alá? em todo o mundo, os funcionários do governo iraquiano recorrem ao discurso da integração. Assim, além de ser um ?herói? da causa nacionalista, o kamikaze que causou a morte de quatro soldados norte-americanos em Najaf foi apresentado pela TV iraquiana como um ?mártir?, no sentido religioso do termo.

Anteontem, em programa da TV Abu Dhabi, o chanceler iraquiano, Naji Sabri, mencionou o número de 4.000 voluntários árabes presentes no Iraque para ?combater o inimigo?. Acrescentou que ?seu combate e seu sacrifício? são ?pela honra dos muçulmanos, dos árabes e da humanidade?. E, quando exortou os países árabes a se posicionarem ?de acordo com as verdadeiras aspirações de seus povos?, Sabri não fez mais que retomar um dos leitmotiv de Osama bin Laden.

Com grande repercussão nas redes de televisão árabes, as palavras de ordem usadas nas últimas manifestações nos países muçulmanos confirmam que o discurso da internacional islâmica está se aproximando da idéia de nacionalismo pan-árabe defendida pelo partido Baath.

No domingo, os extremistas do Paquistão organizaram, de acordo com o correspondente da TV Al Jazeera em Peshawar, ?a maior manifestação já vista no país?. Na tela da TV Abu Dhabi, Moulana Sami al Haq, presidente da associação dos cientistas muçulmanos paquistaneses, declarou que o boicote a produtos norte-americanos e britânicos é necessário, mas insuficiente: ?Não resta solução a não ser o jihad contra os EUA e o Reino Unido?, especificou. Em meio à gigantesca manifestação, podiam-se ouvir gritos em favor do Taleban e da rede terrorista Al Qaeda.

E, no resto do mundo muçulmano, as mesmas palavras de ?guerra santa? e de ?combate até a morte? ressurgiam. Ao reivindicar a responsabilidade pelo atentado suicida em Natanya, o porta-voz oficial do Jihad Islâmico palestino dedicou a operação ao ?povo muçulmano iraquiano? e declarou à rede de TV saudita Al Arabiya que sua organização enviara ao Iraque uma primeira unidade de soldados kamikazes para ?realizar o jihad? via martírio.

O autor do atentado suicida a uma base militar norte-americana no Kuait era egípcio, segundo a TV Abu Dhabi. Quanto à Al Jazeera, ela exibiu ?voluntários sírios? que cruzaram a fronteira ?sem passaportes e sem passar por controles da alfândega?, visivelmente felizes por chegarem a Mossul.

Outros jovens voluntários árabes chegaram a Bagdá, menos sorridentes, e foram entrevistados pela TV Abu Dhabi. Um tunisiano que portava uma bandeira dos combatentes islâmicos se declarou ?orgulhoso? por poder participar do jihad e reparar a ?vergonha? dos Estados árabes que ?se recusam a permitir que seus jovens combatam o inimigo?. ?Nem sequer nos permitem manifestações em nosso país. Mas, assim que libertarmos o Iraque, partiremos para a libertação de nossos irmãos no Egito e na Tunísia?, disse.”

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