Domingo, 19 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

ENTRE ASPAS > PROPAGANDA DE CERVEJA

Outra devassa, por favor!

Por Fernando de Barros e Silva em 04/03/2010 na edição 579

A decisão do Conar (Conselho de Autorregulamentação Publicitária) de proibir a propaganda da cerveja Devassa Bem Loura, com a socialite Paris Hilton, é algo que ‘não desce redondo’.


É difícil reagir sem ironia às alegações da Secretaria Especial de Políticas para as Mulheres, órgão ligado à Presidência que denunciou a peça publicitária por considerá-la ‘sexista’ e ‘desrespeitosa’. A responsável pela acusação diz que é preciso cuidar ‘para que a mulher não seja tratada como um produto’.


Estamos de acordo, mas de que ‘catacumba 68’ saíram essas senhoras? Não há como evitar a comparação: Paris Hilton, a ‘devassa’, é loira, americana e milionária. Os arautos da dignidade reclamariam providências se, no lugar dela, estivesse a nossa Juliana Paes, ‘a boa’?


As coisas se passam como se, com a censura, pudéssemos traçar uma linha imaginária entre a nossa sensualidade brejeira e a pornografia dos outros, entre o louvor à ‘preferência nacional’ e a mera apelação vulgar, entre a ‘virtude’ e o ‘vício’.


Roteiro pornô


Um site de publicidade americano debochou de nosso falso pudor, perguntando se ‘Paris Hilton seria sexy demais para o Brasil’. Só falta agora Marco Aurélio Garcia vir pregar contra o ‘esterco publicitário’ em defesa do adubo nacional.


Paris Hilton não é mesmo uma figura que inspire muita admiração. Mas que diferença existe entre ela, sempre tão hostilizada, e os socialites, descolados, artistas e que tais que desfilam com marcas de cerveja no peito em troca de privilégios e luzes nos espaços vips do Carnaval?


Ao identificar, sem mediações, mulher e cerveja como objetos de desejo, a peça da ‘devassa’ arromba a porta já aberta de um espetáculo que se fingia ver pela fechadura. A propaganda não é mais sexista nem mais agressiva com as mulheres do que a grande maioria das que vendem carro, por exemplo. Mas testa, no seu didatismo digno de um roteiro pornô, os limites da permissividade a serviço da mercadoria. A censura é sempre a pior maneira de proteger a sociedade de si mesma.

Todos os comentários

  1. Comentou em 06/03/2010 Felipe Borges

    Mais uma vez o argumento da censura é usado, e de maneira errada. Não é questão de censurar ou proibir, é questão de promover o respeito. Os comerciais de cerveja são de mau gosto, sim. São machistas e tratam as mulheres coo puro objeto, sim. E isso precisa ser coibido. Assim como um leitor aqui comentou, também não sou moralista, conservador, defensor dos ‘bons costumes’ ou o que diabos for. Isso não tem nada a ver. O que ocorre nesses comerciais é uma bobagem, e que ainda por cima tira espaço da publicidade criativa e inteligente, que é capaz de atrair tanto quanto essas apelativas. O caso é que é mais fácil botar gostosas de seios grandes do que pensar de verdade. Voltando ao caso da censura: se é assim, se alguém fizer, sei lá, um comercial racista ou fascista, não poderemos reclamar, pq se não vai ser censura, atentado contra a liberdade de expressão e qualquer outra coisa. Não se pode confundir livre expressão com isso. Bem feito que tenham proibido, ainda mais por ser com essa idiota da Paris Hilton.

  2. Comentou em 05/03/2010 Ney José Pereira

    Sendo a Devassa e a Corrupta filhas de dona Zelite o ministério das Mulheres pediu a cassação da propaganda da Devassa!. E se a marca da cerveja fosse Corrupta o ministério da Justiça pediria a cassação da sua propaganda?. Observação: E a própria Folha de Notícias Populares de S. Paulo (de S. Paulo, hein!) também tentou a cassação da propaganda da cerveja Devassa!. Vide matéria na coluna Mônica Bergamo (naquela edição todas as matérias foram assinadas pelos subcolunistas bergamáticos, mas, a ‘entrevista’ com a tal Paris Hilton não foi assinada). Mas, tentaram folhacticamente desqualificar a tal socialite (devassa confessa)!. Embora antes da tal ‘campanha publicitária’ a tal Paris Hilton era sempre ‘devassada’ (favoravelmente, né!) -tanto que conseguiu faturar uma graninha da Schincariol!. E a tal Folha de Notícias Populares de S. Paulo (de S. Paulo, hein!) está faturando (indiretamente) com a tal ‘campanha publicitária’. Até mesmo na própria Ilustrada vê-se a propaganda (disfarçada) da tal ‘socialite (americana) devassa’. Nos reclames ‘culturais’ patrocinados pela tal cervejaria!. Não dá pra não devassar!.

  3. Comentou em 05/03/2010 orlando nascimento

    A Folha é mesmo ridícula. Que bobagem é essa de meter o governo no meio? Se o Conar é um orgão de autoregulamentação, logo – a despeito da denúncia da Secretaria em tela – a decisão foi tomada pelos próprios publicitários. Ou será que o Conar foi também ‘aparelhado’? Faz-me rir.

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