Quarta-feira, 22 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

JORNAL DE DEBATES > 11 DE SETEMBRO, 10 ANOS

Panorama visto das Torres

Por Sérgio Augusto em 12/09/2011 na edição 659
Reproduzido do Estado de S.Paulo, 10/9/2011

Vocês conhecem o final: morre todo mundo. Com esta observação tem início a imolação de Carthew Yorston no 107º andar do World Trade Center, na manhã de 11 de setembro de 2001. “A originalidade desta história é que todos vão morrer ao mesmo tempo e no mesmo lugar”, acrescenta Yorston, protagonista e também narrador de Windows On the World, romance de Frédéric Beigbeder que faz parte de um pacote de livros sobre ou inspirado no ataque às torres gêmeas lançado esta semana pela editora Record. Como o personagem consegue ser, ao mesmo tempo, narrador e vítima fatal do atentado? Para quem leu Memórias Póstumas de Brás Cubas e viu O Crepúsculo dos Deuses, a pergunta é irrelevante.

Dia mais aziago para um pai levar os filhos para um desjejum no restaurante mais alto de Manhattan, o “Windows On the World”. Com 346 páginas e 119 minutos de duração (de 8h30 às 10h29), é um misto de ficção (sobre o atentado) & ruminação (sobre o entorno sociocultural da época), sem teorias conspiratórias e cutucadas antiamericanas, embora o autor seja francês e soi-disant de esquerda. Tão presunçoso quanto Bernard-Henri Lévy, Beigbeder adora e conhece bem o melhor da cultura dos EUA. Seu maior atributo, porém, é ter um insopitável senso de humor.

Sim, é possível fazer graça com a desgraça; até com calamidades de proporções apocalípticas. Há muito humor na novela The Suffering, de David Foster Wallace, publicada em 2004, e no romance Terras Baixas, do irlandês Joseph O’Neill (Alfaguara), ambos ambientados naquele fatídico verão nova-iorquino, o primeiro um pouco antes, o segundo no calor da hora e um pouco depois.

Choque e hipocrisia

Uma maneira de escalonar a vasta ficção inspirada pelo 11 de Setembro, já um subgênero literário, é separar os livros não pelo ano em que foram escritos e publicados, mas pelo tempo em que suas tramas se desenrolam: muito antes, antes, durante e depois dos atentados. Chronic City, de Jonathan Lethem, por exemplo, foi editado em 2009, mas fala da América dos anos 1970 como se dela sentisse saudade no verão de 2001. Deixe o Mundo Girar (Record), de Colum McCann, faz outro balanço daquela década, a partir da performance do malabarista Philippe Petit entre as torres gêmeas, em 7 de agosto de 1974.

Na primeira extremidade, um parêntese para as premonições, como as de Don DeLillo (diretas: o terrorista de Mao II, lançado pela Rocco em 1997, e indiretas: a capa de Submundo, traduzido pela Companhia das Letras em 1999, com um pássaro aproximando-se do World Trade Center) e as dos contos de Chris Adrian (na coletânea A Better Angel há um personagem de outra era que tem visões com duas torres ardendo em chamas depois de atingidas por um anjo gigantesco). DeLillo tocaria diretamente no 11 de setembro em Homem em Queda (Companhia das Letras), sem o mesmo punch de suas narrativas anteriores.

Na extremidade oposta, os romances marcados por traumas e paranoias disseminados pelos atentados; mesmo a distância, como Sábado, do britânico Ian McEwan (Companhia das Letras). A essa categoria pertencem Extremamente Alto & Incrivelmente Perto, de Jonathan Safran Foer (Rocco), um dos destaques da leva; Terras Baixas (sobre um imigrante holandês desalojado das vizinhanças das torres gêmeas); Ao Pé da Escada, de Lorrie Moore (Record); The Zero, de Jess Walter (com um tira que passa a ter brancos na memória depois de ajudar a salvar vidas no World Trade Center); Open City, o romance-revelação de Teju Cole, com outro imigrante (da Nigéria) tentando superar sua sensação de deslocamento numa metrópole ansiosa e desorientada. O mais recente acréscimo a esse grupo é uma fantasia de Amy Waldman, The Submission.

Fato: dois anos depois do 11 de Setembro, abriu-se um concurso para a construção de um memorial no Marco Zero. Ficção: o autor do melhor projeto é um arquiteto nascido na Virgínia, filho de imigrantes, chamado Mohammad Khan. Como admitir que um “filho de Maomé” projete a maior das homenagens às vítimas de um morticínio doutrinado pelo fanatismo islâmico? E aquelas juras de união e convivência pacífica feitas após os atentados? The Submission também pode ser examinado à luz da hipocrisia e do choque entre culturas diferentes, assim como Open City e O Fundamentalista Relutante, do paquistanês Mohsin Hamid, outra tradução oportuna da Alfaguara.

Fogo nas torres

Agora imagine um casal em pé de guerra, com a mulher pensando que o ex-marido morreu no World Trade Center e regozijando-se com isso, e ele imaginando a ex a bordo de um dos aviões arremetidos contra as torres gêmeas e reagindo da mesma forma. E mais não conto da comédia de costumes de Ken Kalfus, A Disorder Peculiar to the Country, escrita em 2005, com todos os ingredientes para um filme que ainda deverá ser feito.

Outra comédia de costumes da mesma safra é The Emperor’s Children, de Claire Messud, que retrata, com justa ironia, a vida pródiga da alta burguesia de Manhattan na primavera e no verão de 2001, subitamente interrompida e transtornada pela tragédia de 11 de Setembro. Na mesma linha Helen Schulman montou a intriga de A Day at the Beach, com um casal grã-fino forçado a deixar seu elegante apartamento em Tribeca com o fogo ainda ardendo nas torres. E matando milhares de homens em queda. E incinerando a redação da revista sensacionalista de The Suffering (a novela de Wallace é puro Schadenfreude). E impedindo que Carthew Yorston e seus dois filhos saiam com vida das janelas sobre o mundo para um passeio na DisneyWorld.

***

[Sérgio Augusto é colunista do Estado de S.Paulo]

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