Sábado, 25 de Maio de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1038
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ENTRE ASPAS >

Para não cometer os mesmos erros do Pan

Por José Paulo Grasso em 17/05/2011 na edição 642

Se nós sabemos que um turista na Copa ou Olimpíada não gastará mais do que quatro horas dentro de um estádio é de primordial importância priorizar como ele poderá interagir com a cidade e, principalmente, qual será a imagem que ele irá levar dela e do país. Devemos pensar em como o Rio pode se preparar para isso.


No feriado de Páscoa, um conhecido recebeu uma amiga inglesa que estava, diga-se de passagem, bastante ansiosa para conhecer a cidade. Foram para o Corcovado às 8h30 da manhã, mas só conseguiram pegar o trenzinho às 15h30. A isso se juntou uma ida ao MAM e ao monumento aos pracinhas no Aterro do Flamengo. O museu estava fechado, assim como o Teatro Municipal, Biblioteca Nacional e o Museu de Belas Artes, todos na Cinelândia. Nem tentaram o Centro cultural do Banco do Brasil ou dos Correios. Foram então ao Jardim Botânico, que felizmente estava aberto. Ou seja, quinta, sexta e sábado toda a parte cultural da cidade estava fechada para uma ocupação hoteleira próxima da totalidade. Definitivamente, este não é o comportamento de uma cidade turística.


O Rio tem clima, belezas naturais, cultura que encantam qualquer um, mas existem alternativas explorando isso? Sabe-se que existem milhares de opções, contudo, estas inexplicavelmente não são oferecidas aos visitantes, mesmo sabendo-se que dessa forma se aumentará a permanência média e a qualidade do visitante. Como será que o negócio turismo da cidade está sendo pensado para atender ao interesse dos visitantes? Dar a ele o que alguém acha que ele precisa fazer ou oferecer opções para que ele possa escolher o que realmente quer fazer e curtir? Será que este fator não deveria ser determinante? Não se deve aproveitar para enriquecê-lo culturalmente e, principalmente, envolver a comunidade nesta faina, que em qualquer lugar do mundo, além de ser extremamente rendosa, se constitui em empregos eternos, além de promover qualidade de vida justamente porque originam uma infraestrutura envolvente que tem uma relação de mão dupla: a cidade só é boa para os visitantes quando também é para os seus moradores?


A cidade de maior potencial do mundo


Se o principal valor apontado em todas as pesquisas turísticas é o povo, qual será o papel destinado a ele nessas festas e por que não se promove o Rio durante o ano inteiro, através desse potencial que pode atrair um turista de qualidade com gasto médio de US$ 300,00 por dia? Se formos acompanhar os turistas que passeiam pelo calçadão da Av. Atlântica, vamos classificá-los de ‘duristas’ porque ninguém gasta nada. A quem interessa que isso aconteça e por que a permanência média em hotel (duas diárias) é tão baixa se temos tanto a oferecer?


Será que mais uma vez irão se confirmar denúncias como esta a seguir relativas ao Pan, em 2007? ‘Busca-se maquiar as cidades-sedes de jogos: homogeneizando-as, descaracterizando-as culturalmente, transformando-as em símbolos insípidos de ‘modernidade’ e ‘eficiência’. O Rio viveu as consequências nos Jogos Panamericanos de 2007. Áreas ‘nobres’ da cidade foram ‘embelezadas’ artificialmente. A população das favelas foi mantida distante do centro e da Zona Sul, numa operação que mobilizou o próprio exército.’


O Pan foi vendido para a sociedade como um marco para o turismo e que em dez anos estaríamos recebendo até 25 milhões de visitantes, o que não seria nada de mais para uma cidade que é apontada como tendo o maior potencial do mundo. Só que isso não aconteceu. Mas, imaginemos que tenhamos um mês com um milhão de pessoas na cidade para a atividade, 250 mil por semana. O que eles irão fazer? Quantas casas de show, danceterias, bares, restaurantes, quartos de hotel etc. existem? Será que conseguiríamos atender a 40 mil pessoas? E as outras 210 mil fariam o que?


Expansão planejada


Se existisse um planejamento integrado com a sociedade o quanto se faturaria, quantos empregos seriam gerados e quanto se aumentaria a arrecadação em impostos. A isso se somaria investimentos em indústrias periféricas absolutamente necessárias, obras planejadas de infraestrutura, hotéis, bed & breakfast, lojas de grife nacionais e internacionais, cinemas, teatros, casas de shows, boates, clubes, parques temáticos, parques de diversões, serviços, transporte etc. Para se ter uma ideia da importância da atividade, 40% da população de Barcelona trabalha na área de serviços e entretenimento turístico noturnos da cidade.


Quanto à indústria criativa, moda, decoração, móveis, produtos locais, cooperativas, TI, arranjos florais, figurinos, música de todas as formas e ritmos, arte em todas as suas manifestações (recuerdos, decoração…), espetáculos culturais, festas típicas, esportes radicais, produção de filmes, arrecadação (com a venda de música, cinema, teatro, shows), atividades náuticas, serviços para idosos, serviços médicos, pedagógicos, observação de pássaros, animais silvestre, flora, peixes, borboletas, guias especializados; e muito mais num universo que envolveria toda a sociedade, incluindo os despossuídos, e que em curto espaço de tempo transformaria a cidade na vanguarda mundial do setor, trazendo desenvolvimento socioeconômico, cultural e ambiental a todo o Rio e arredores, se espalhando por todo o estado e o Brasil.


Repare que o turismo pode sintetizar a modernidade, o passo a frente da condição de emergência, o desenvolvimento de um produto integrado a sociedade e genuinamente brasileiro.


Pode-se arrecadar, com o mix turismo/indústria criativa, tanto quanto o pré-sal, sendo que desde que bem administrada, um bem eterno.


Como se pode envolver o maior número possível de pessoas das mais diversas correntes, a participação da sociedade será enorme e isto possibilitará correções de rumo para que se aperfeiçoe cada vez mais a democracia turística e assim se eternize a atividade com qualidade de vida. O interesse do setor internacional de serviços aparecerá obrigatoriamente, junto com empresários internacionais e nacionais dos mais diversos ramos interessados no que mais possa ser explorado na cidade, contribuindo para uma expansão planejada em todos os sentidos.


Qualidade de vida


Para 2014 e 16 estamos aproveitando um investimento mínimo de 50 bilhões de reais para promover uma especulação imobiliária sem precedentes. A coisa está complicada e diversos organismos internacionais estão de olho, porque algumas ações estão sendo feitas na marra desrespeitando-se o direito do cidadão. Não se está pensando um futuro, com o detalhe que estamos vindo de um passado problemático, de mais de meio século de sérios problemas que afetaram profundamente não só a infraestrutura como todo o setor de serviços públicos e privados. Se não aproveitarmos o momento para revitalizar a economia, o pós-olímpico será trágico. O setor imobiliário fará 30 anos em cinco e está pressionando o mercado com o que será construído em cerca de 3 milhões de m². Uma referência do mercado, o especulador internacional Sam Zell desistiu de seus negócios no Rio porque acredita que os preços já chegaram ao pico e a partir de agora é ladeira abaixo. O mercado paulista já apresenta este movimento, sendo que São Paulo é a maior cidade da América do Sul, ‘aquela que não para de crescer’.


A realidade do Rio poderia ser outra se no lugar dessa especulação existisse um master plan que de forma clara induzisse em curto, médio e longo prazo o crescimento autossustentável da economia e, logicamente, da cidade, além do aumento da renda per capita e da qualidade de vida. Barcelona e Singapura, por exemplo, fizeram isso, e seus lançamentos são internacionais, com preços acompanhando esta tendência. Tony Blair, o criador do termo ‘indústria criativa’, em sua passagem pelo Rio, disse que Copa e Olimpíada devem ser usadas como plataforma econômica, para atrair investimentos em diferentes setores. Ele citou as Olimpíadas de Seul (1988), Barcelona (1992) e Sidney (2000) como exemplos bem-sucedidos de eventos que mudaram os patamares econômicos das cidades-sede. Elas tinham em comum um master plan, com planejamento em curto, médio e longo prazo aprovado pela sociedade, porque dessa forma todos ganhariam e isso foi claramente colocado para se obter uma aprovação geral. Os resultados estão aí e são indiscutíveis.


Hoje o Rio está no foco do governo federal, que está investindo bilhões de reais até 2016, e isto está sendo aproveitado para vender uma recuperação econômica que não condiz com a realidade. Após as Olimpíadas, quando esta fonte secar, de onde virão os recursos para continuar a revitalização, por exemplo, da infraestrutura, que está atrasada em mais de meio século? O que farão as centenas de milhares de trabalhadores da construção civil, quando as obras, tanto da construção civil quanto infraestruturais e do PAC minguarem no pós-olímpico? Não se fala em desenvolver a economia para que haja um aumento da arrecadação que propicie a autossustentabilidade econômica tanto do município quanto do estado. Por quê? Só se fala em atração de negócios via incentivos fiscais, o que significa admitir que não há perspectivas de melhora da qualidade de vida, fator este que influenciou decisivamente o êxodo dos negócios e que praticamente atirou a economia carioca no desastre e a cidade em uma velada guerra civil.


Vocação natural


O Brasil fará um esforço expresso em bilhões para sediar com propriedade os maiores eventos mundiais no intervalo de dois anos. Não dá para entender por que a previsão de gastos de R$ 5,1 bilhões de a infraestrutura aeroportuária ficar atrás das despesas previstas para os 12 estádios nas cidades sedes, que deverão consumir R$ 5,7 bilhões, já que o setor aéreo está crescendo muito depressa e deve se tornar obsoleto ao ser inaugurado. Além do que os aeroportos, juntos com a mobilidade urbana, com R$ 11,7 bilhões (TCU) são fatores que bem trabalhados pelo turismo podem produzir resultados fantásticos, enquanto os estádios em sua maioria irão se tornar elefantes brancos, a não ser que sejam pensados como complementares ao turismo de massa. O que também não está sendo feito. Por que não se planejar no longo prazo, se os exemplos de sucesso foram conseguidos desta forma?


Na ‘mobilidade urbana’, dos R$ 11,7 bilhões previstos para investimentos, R$ 6,8 bilhões serão financiamentos da Caixa Econômica e R$ 1,1 bilhão do BNDES. Governos estaduais e municipais entraram no rateio dessa conta, mas não há previsão de aplicações da iniciativa privada. Contudo, deveria partir dela auferir retorno claro a esses investimentos através do incremento geral da atividade turística voltada para um mercado que hoje é de cerca de um bilhão de pessoas que viajam para o exterior em todo o mundo, com previsão de 1,6 bilhões para 2016, sendo que hoje nós captamos apenas cerca de cinco milhões, mesmo ostentando um potencial atribuído por diversas fontes como sendo o maior do mundo em diversas áreas. Sem contar o turismo interno. Ou seja, isso tem que mudar. E o caminho é aproveitar a vocação natural da cidade, através de uma política pública que priorize este setor que é o único que pode sustentar a economia pós-investimentos do PAC e eventos mundiais.


Uma imensa diferença


Já há uma preocupação real, do próprio governo, para evitar que a nova classe média volte à pobreza. Como fazer isso, impedir a perda do poder aquisitivo e ao mesmo tempo criar uma base sólida para o crescimento sustentável? O maior potencial de crescimento se encontra no turismo (apenas 2,5% do PIB, quando deveria ser minimamente o dobro, para o Brasil, pode-se falar em algo acima de 10% pelo potencial) porque é a nossa vocação natural, expande a indústria criativa, além de movimentar todos os segmentos da sociedade simultaneamente, podendo unir a todos, ao apresentar resultados em curto prazo, que podem ser eternizados, além de modificarem a percepção do mundo quanto à capacidade empresarial, consolidando um crescimento socioeconômico e cultural sem precedentes, abrindo caminho para produtos nacionais, o que hoje ainda não está caracterizado, pois somos o país das commodities.


A cortina de fumaça que é usada para tentar enganar a população informa que após 2007 (Pan), quando foram criados 84.186 novos postos de trabalho, o ano de 2010 foi o melhor com a criação de 106.476, e que 2011 será muito melhor com as obras de infraestrutura planejadas e o setor de hotelaria prevê ainda mais 120 mil vagas até 2016. O IBGE informa que o desemprego está em 5,1%. Mas, se formos pegar os números da Cidade de Deus (RCV e Ietis), que são os mais recentes estudos depois de 2 anos de ocupação com a UPP, e que, teoricamente, melhoraram a situação, aplicá-los à cidade (42% não trabalha e mais de 29% trabalha, mas não tem carteira assinada) e fizermos uma comparação empírica com as comunidades, onde moram cerca de três milhões de pessoas (IBGE), obteríamos como resultado minimamente 1 milhão de desempregados, subempregados e outros produtos perversos de uma economia que vem sendo esfacelada há mais de cinquenta anos. Como se pode ver, há uma imensa diferença entre os mesmos números, dependendo apenas da visão do observador, e da sua dignidade ao lidar com os números.


Mudança orquestrada


Uma coisa muito interessante é que no Rio temos apenas três tipos de empregos estudados: construção civil, serviços e comércio. Analisando a frio, qual é a média salarial dessas categorias? Cerca de dois salários mínimos? Estamos condenando a população a baixos salários e os impedindo de consumir planos de saúde, escolas particulares, educação superior, ou seja, tudo que não pode ser pago em 10 vezes sem juros? O número de novos imóveis de 1 quarto cresceu 525% no Rio em 2010. Será que assim a roda da economia irá girar ou travar? Por que será que os salários do Rio são menores em 30% em relação a São Paulo? Por que não revitalizar verdadeiramente a economia? Não seria absolutamente necessário atrairmos todas as indústrias que partiram do Rio nas últimas décadas? Só no Complexo do Alemão existiam quase 1500 indústrias no passado. Elas deixaram a cidade e com elas se foram também seus fornecedores. A própria Associação Comercial do Rio já teve cerca três vezes o número atual. Por que não parte dela a exigência de uma política pública para o setor, via o turismo, que opera mudanças significativas em curto prazo, como aconteceu em todos os lugares aonde foi aplicada como instrumento de transformação, mesmo nos quais a vocação para o turismo era praticamente nula?


O setor de serviços reclama que não há público pagante no Rio, mas não se esforça para que a situação mude. Todos reclamam, mas não fazem pressão por mudanças reais, porque, com a atual taxa ínfima de formalidade dos negócios, todos têm receio de se expor. Porém, a hora é esta. Em vez de só especulação imobiliária, tem que vir uma clara mudança orquestrada pela sociedade. Acorda Rio, esse projeto existe.

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Engenheiro e coordenador do Acorda Rio

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