Quarta-feira, 18 de Julho de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº996
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JORNAL DE DEBATES > CASO ISABELLA

Para ouvir, ver e ler as notícias

Por Deonisio da Silva em 15/04/2008 na edição 481

‘Esta é a única dor que não passa’, dizem aqueles pais que enterram os filhos. O sofrimento é tamanho que chega a abreviar a existência dos pais, tão devastador é o ato que contraria a lei da vida: são os filhos que enterram os pais, não o contrário.

As literaturas de todo o mundo espelham, de diversos ângulos, a inversão, havendo personagens emblemáticos que sintetizam a dor de contornos tão complexos e de difícil entendimento. E temos o caso-síntese do Livro de Jó, na Bíblia. Ele não apenas perde tudo, perde também todos os filhos:

‘Os teus filhos e as tuas filhas estavam comendo e bebendo em casa de seu irmão mais velho, e eis que um vento forte se levantou do outro lado do deserto e abalou os quatro cantos da casa, que desabou sobre os jovens e eles morreram. Só eu consegui escapar para trazer-te a notícia’ (Livro de Jó 1, 18-19).

Ainda que raramente, às vezes é a verdadeira vida, sem metáfora alguma, que leva os filhos antes dos pais, de que é exemplo o que ocorreu ao poeta Carlos Drummond de Andrade. Ele tinha 85 anos quando enterrou sua única filha, a também escritora Maria Julieta Drummond de Andrade, que morrera de câncer no dia 5 de agosto de 1987. Doze dias depois, morria o pai também.

Lidando com o inexplicável

Mas, se quando é enfermidade – como foi o caso de Julieta, morta aos 59 anos, que traz a ‘indesejada das gentes’, como definiu a morte o poeta Manuel Bandeira – já é duro de suportar, os sentimentos se desarrumam ainda mais quando desaba a tragédia.

Que Dostoievski brasileiro vai narrar o sofrimento da gente querida daqueles mortos anônimos que aparecem assim na vala comum da página de obituários do jornal O Globo: ‘O Rio registra em média 17 assassinatos por dia. Informações sobre homicídios podem ser enviadas para o e-mail caradamorte@oglobo.com.br’?

Todavia, o tsunami que nos arrasta a todos dá-se quando são os próprios familiares que se matam uns aos outros. Foi assim quando Suzane Richthofen matou os pais. E quando são os pais que matam seus filhos indefesos, irrompe em cada um de nós um sentimento indefinível. Recorremos a interpretações de todos os ângulos e mirantes, especialistas esmeram-se em explicar-nos o que houve, mas sabemos que estamos lidando com o inexplicável.

Outras tragédias virão

A mídia agora bombardeia o Brasil e o mundo com essa tragédia, desta vez com um adicional de crueldade: a menina Isabella Oliveira Nardoni, de apenas cinco anos, gritou por socorro quando foi agredida e assassinada dentro do próprio quarto onde dormia. Suspeitos, os pais foram presos. E estão soltos, graças ao trabalho de seus advogados.

‘Segundo os advogados, o casal não tem antecedentes criminais, tem endereço fixo e não atrapalha as investigações’, resumiu a Folha de S.Paulo. Tiveram, pois, direito a habeas corpus.

Tenha as tintas que tiver o esclarecimento, ouvintes, telespectadores e leitores querem uma explicação. A mídia, como sempre, limita-se a pouco mais do que fazer ressoar as trombetas da polícia e dos acusadores.

O público e a mídia não podem julgar, condenar ou absolver. Não têm este direito. E aquele direito que ouvintes, telespectadores, internautas e leitores têm, este não está sendo atendido: o de ser informado e entender o que se passou. E sabemos por quê: estão faltando boas reportagens, aquelas que só podem ser feitas com muitas pesquisas e investigações. Isso só pode ser feito por verdadeiros jornalistas. E eles precisam de requisitos indispensáveis. E trabalham contra o tempo. Daqui a pouco, como sabemos, outras tragédias virão, dentro ou fora das famílias, e o distinto público saberá delas, por norma, aquilo que delegados e policiais informarem às redações, que as repassarão como coisas suas, às vezes ipsis verbis ou ipsis litteris.

O ‘problema’ e a ‘solução’

Cadê as reportagens sobre o caso? Os jornalistas não podem ser papagaios que repetem delegados e policiais, constituindo-se em megafones para os acusadores. A grande paixão do público deve ser a do conhecimento, a do entendimento, a de obter respostas para as perguntas clássicas de qualquer narrativa: quem fez o que, como, por que, para que etc.

É verdade que às vezes os jornalistas esbarram no lado escuro da natureza humana, terreno cujo entendimento não é inacessível apenas a eles, é inacessível a todos nós, como foi a Jó. Neste caso, só nos resta reler grandes obras (não os cachorros-quentes servidos na lista dos mais vendidos, especialistas em tudo banalizar) como Os Irmãos Karamazov, pois neste romance emblemático os três filhos que matam o pai explicam, cada um a seu modo, as ‘razões’ de seu ato.

Nenhum leitor fica indiferente em face das palavras de Ivan, o autor intelectual do crime que, depois de atirar uma xícara de chá no Diabo (Lutero atirou um tinteiro no Demônio, lembremos!), revela-nos a sua angústia, o seu desespero, as profundezas de onde partiu o esquema que convenceu os irmãos Smierdiakok e Dimitri a aceitar aquela ‘solução’ para o ‘problema’.

Qual terá sido o ‘problema’ para cuja ‘solução’ a menina Isabella Oliveira Nardoni foi assassinada de modo tão cruel?

******

Escritor, doutor em Letras pela USP e professor da Universidade Estácio de Sá, onde é vice-reitor de pesquisa e pós-graduação; seu livro mais recente é o romance Goethe e Barrabás (Editora Novo Século); www.deonisio.com.br

Todos os comentários

  1. Comentou em 22/04/2008 Ana Monteiro

    Quem somos para jugarmos?
    Jornalistas não são juízes!
    Não faço parte da defesa dos suspeitos. Nem permito-me acusa-los. Eu não estava lá.
    Os jornais apresentam o caso Isabella de forma espetacular. Maquiou o caso para não declarar o seu mercadológico sensacionalismo.
    Quanto a maior rede de comunicação do Brasil não ganhou na noite de domingo?
    Ninguém estava lá. Por mais que tudo indique que o pai e a madrasta são os assassinos. Há a possibilidade de terceiros ‘sim’.
    Não sejamos preciptados!!!

  2. Comentou em 21/04/2008 Patrícia Mendonça

    Foi o mordomo Smierdiakov, filho bastardo do velho Karamázov, quem o matou e não Dmitri (que foi injustamente acusado). Smierdiakov, antes de morrer, confessou tudo a Ivan, tentando justificar seu crime pela influência das idéias deste, que ele tinha como modelo de comportamento.

  3. Comentou em 21/04/2008 Levi Bronzeado dos Santos Bronzeado

    Ninguém sabe, mas nestas últimas três semanas, quantas Isabellas foram maltratadas, violentadas pelo país a afora? Estamos realmente vivendo numa sociedadade selvagem e hedonista, cuja instituição familia está numa falência, talvez irreversível.
    O individuo, dito moderno, não quer ser incomodado, não quer ser contestado, e para isso, não resiste ao desejo insano de eliminar o outro, que nada mais é, que o seu espelho. Para atingir os seus intentos satânicos, ele não respeita nem os laços familiares: pai elimina o filho e viceversa.
    O dragão da maldade que habita em cada ser, precisa ser vigiado constantemente. Se dermos lugar aos instintos animalescos, a que Freud denominou de ‘pulsão de morte’, fatalmente iremos eliminar o nosso semelhante por questões de ciúme, inveja, competições, etc.
    O que Deus disse para Caim, quando o mesmo tinha planejado o assassinato do seu irmão Abel?
    ‘ …. o pecado jaz à porta , e para ti será o teu desejo, e sobre ele dominarás’.(Gênesis 4 : 7)

  4. Comentou em 21/04/2008 Marco Antônio Leite

    O casal alega inocência, duvido? Perguntar não ofende, vamos supor que seja verdade que existiu uma terceira pessoa na cena do crime, então porque será que esse misterioso homem adentrou no apartamento e sem mais nem menos atacou a menina que dormia, sufocou-a e arremessou seu corpo sexto andar abaixo. Essa história foi muito mal montada, pois se essa terceira pessoa entrou no recinto e não roubou nada, trata-se de um inimigo mortal do pai da garota, do contrario subtrairia o que lhe interessava e fugiria sem molestar a criança, visto que esse pseudo elemento foi muito rápido no seu intento, não teria tempo suficiente para fazer o que foi realizado no apartamento. Numa entrevista nebulosa para uma rede de TV useira e vezeiro em criar inocentes em bandidos e bandidos em mocinhos, mostrou um casal muito mal articulado intelectualmente para dar explicações via TV, se bem que o jornalista fez apenas papel de bibelô do casal. A todo o instante o pai alegava inocência, chorava sem lagrimas e dizia ser família e gostar muito das crianças. No bojo da esteira do marido, a mãe postiça também chorava sem lágrimas, mais parecendo choro de crocodilo alegava inocência e que o povo não os conhece e que esta fazendo um julgamento errôneo dos dois, lamentável essa entrevista, um verdadeiro lixo mental dessa gente que não quer dizer que mataram a filha e a enteada.

  5. Comentou em 21/04/2008 Marco Antônio Leite

    O casal alega inocência, duvido? Perguntar não ofende, vamos supor que seja verdade que existiu uma terceira pessoa na cena do crime, então porque será que esse misterioso homem adentrou no apartamento e sem mais nem menos atacou a menina que dormia, sufocou-a e arremessou seu corpo sexto andar abaixo. Essa história foi muito mal montada, pois se essa terceira pessoa entrou no recinto e não roubou nada, trata-se de um inimigo mortal do pai da garota, do contrario subtrairia o que lhe interessava e fugiria sem molestar a criança, visto que esse pseudo elemento foi muito rápido no seu intento, não teria tempo suficiente para fazer o que foi realizado no apartamento. Numa entrevista nebulosa para uma rede de TV useira e vezeiro em criar inocentes em bandidos e bandidos em mocinhos, mostrou um casal muito mal articulado intelectualmente para dar explicações via TV, se bem que o jornalista fez apenas papel de bibelô do casal. A todo o instante o pai alegava inocência, chorava sem lagrimas e dizia ser família e gostar muito das crianças. No bojo da esteira do marido, a mãe postiça também chorava sem lágrimas, mais parecendo choro de crocodilo alegava inocência e que o povo não os conhece e que esta fazendo um julgamento errôneo dos dois, lamentável essa entrevista, um verdadeiro lixo mental dessa gente que não quer dizer que mataram a filha e a enteada.

  6. Comentou em 19/04/2008 RENÊ ROLDAN

    Desde o primeiro momento em que soube do triste caso uma pergunta insiste em não me deixar: o que eu faria se fosse um ente querido meu (filho ou filha) que estivesse envolvido numa barbárie como esta? Calaria ou denunciaria? Os advogados de defesa sob a égide do “foro intimo” montam a defesa e instruem seus clientes a mentir, contribuindo negativamente não só para a formação de uma consciência crítica reta, como principalmente, para a construção de uma sociedade mais justa e ética. Se os profissionais de direito amparam-se nessa tese que podemos fazer? Porem, triste é silenciar quando envolve “os meus”. Exemplo deram os pais do maníaco do parque. Uma coisa é o choque de saber que seu/sua filho/a fez tal coisa, outra coisa é silenciar e defendê-lo. Penso que num mundo onde as relações interpessoais são cada vez mais conflitivas, carente de exemplos construtivos, a denuncia passa ser o anúncio de novos tempos. Não se trata de “bancar herói”, mas de ser coerente. Quanto ao caso concordo com o texto. Não li nada a respeito das razões que fez, faz e infelizmente continuarão fazendo parte do comportamento humano.

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