Domingo, 09 de Dezembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1016
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JORNAL DE DEBATES >

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Por Deonisio da Silva em 15/04/2008 na edição 481

‘Esta é a única dor que não passa’, dizem aqueles pais que enterram os filhos. O sofrimento é tamanho que chega a abreviar a existência dos pais, tão devastador é o ato que contraria a lei da vida: são os filhos que enterram os pais, não o contrário.

As literaturas de todo o mundo espelham, de diversos ângulos, a inversão, havendo personagens emblemáticos que sintetizam a dor de contornos tão complexos e de difícil entendimento. E temos o caso-síntese do Livro de Jó, na Bíblia. Ele não apenas perde tudo, perde também todos os filhos:

‘Os teus filhos e as tuas filhas estavam comendo e bebendo em casa de seu irmão mais velho, e eis que um vento forte se levantou do outro lado do deserto e abalou os quatro cantos da casa, que desabou sobre os jovens e eles morreram. Só eu consegui escapar para trazer-te a notícia’ (Livro de Jó 1, 18-19).

Ainda que raramente, às vezes é a verdadeira vida, sem metáfora alguma, que leva os filhos antes dos pais, de que é exemplo o que ocorreu ao poeta Carlos Drummond de Andrade. Ele tinha 85 anos quando enterrou sua única filha, a também escritora Maria Julieta Drummond de Andrade, que morrera de câncer no dia 5 de agosto de 1987. Doze dias depois, morria o pai também.

Lidando com o inexplicável

Mas, se quando é enfermidade – como foi o caso de Julieta, morta aos 59 anos, que traz a ‘indesejada das gentes’, como definiu a morte o poeta Manuel Bandeira – já é duro de suportar, os sentimentos se desarrumam ainda mais quando desaba a tragédia.

Que Dostoievski brasileiro vai narrar o sofrimento da gente querida daqueles mortos anônimos que aparecem assim na vala comum da página de obituários do jornal O Globo: ‘O Rio registra em média 17 assassinatos por dia. Informações sobre homicídios podem ser enviadas para o e-mail caradamorte@oglobo.com.br’?

Todavia, o tsunami que nos arrasta a todos dá-se quando são os próprios familiares que se matam uns aos outros. Foi assim quando Suzane Richthofen matou os pais. E quando são os pais que matam seus filhos indefesos, irrompe em cada um de nós um sentimento indefinível. Recorremos a interpretações de todos os ângulos e mirantes, especialistas esmeram-se em explicar-nos o que houve, mas sabemos que estamos lidando com o inexplicável.

Outras tragédias virão

A mídia agora bombardeia o Brasil e o mundo com essa tragédia, desta vez com um adicional de crueldade: a menina Isabella Oliveira Nardoni, de apenas cinco anos, gritou por socorro quando foi agredida e assassinada dentro do próprio quarto onde dormia. Suspeitos, os pais foram presos. E estão soltos, graças ao trabalho de seus advogados.

‘Segundo os advogados, o casal não tem antecedentes criminais, tem endereço fixo e não atrapalha as investigações’, resumiu a Folha de S.Paulo. Tiveram, pois, direito a habeas corpus.

Tenha as tintas que tiver o esclarecimento, ouvintes, telespectadores e leitores querem uma explicação. A mídia, como sempre, limita-se a pouco mais do que fazer ressoar as trombetas da polícia e dos acusadores.

O público e a mídia não podem julgar, condenar ou absolver. Não têm este direito. E aquele direito que ouvintes, telespectadores, internautas e leitores têm, este não está sendo atendido: o de ser informado e entender o que se passou. E sabemos por quê: estão faltando boas reportagens, aquelas que só podem ser feitas com muitas pesquisas e investigações. Isso só pode ser feito por verdadeiros jornalistas. E eles precisam de requisitos indispensáveis. E trabalham contra o tempo. Daqui a pouco, como sabemos, outras tragédias virão, dentro ou fora das famílias, e o distinto público saberá delas, por norma, aquilo que delegados e policiais informarem às redações, que as repassarão como coisas suas, às vezes ipsis verbis ou ipsis litteris.

O ‘problema’ e a ‘solução’

Cadê as reportagens sobre o caso? Os jornalistas não podem ser papagaios que repetem delegados e policiais, constituindo-se em megafones para os acusadores. A grande paixão do público deve ser a do conhecimento, a do entendimento, a de obter respostas para as perguntas clássicas de qualquer narrativa: quem fez o que, como, por que, para que etc.

É verdade que às vezes os jornalistas esbarram no lado escuro da natureza humana, terreno cujo entendimento não é inacessível apenas a eles, é inacessível a todos nós, como foi a Jó. Neste caso, só nos resta reler grandes obras (não os cachorros-quentes servidos na lista dos mais vendidos, especialistas em tudo banalizar) como Os Irmãos Karamazov, pois neste romance emblemático os três filhos que matam o pai explicam, cada um a seu modo, as ‘razões’ de seu ato.

Nenhum leitor fica indiferente em face das palavras de Ivan, o autor intelectual do crime que, depois de atirar uma xícara de chá no Diabo (Lutero atirou um tinteiro no Demônio, lembremos!), revela-nos a sua angústia, o seu desespero, as profundezas de onde partiu o esquema que convenceu os irmãos Smierdiakok e Dimitri a aceitar aquela ‘solução’ para o ‘problema’.

Qual terá sido o ‘problema’ para cuja ‘solução’ a menina Isabella Oliveira Nardoni foi assassinada de modo tão cruel?

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Escritor, doutor em Letras pela USP e professor da Universidade Estácio de Sá, onde é vice-reitor de pesquisa e pós-graduação; seu livro mais recente é o romance Goethe e Barrabás (Editora Novo Século); www.deonisio.com.br

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